Obscuramente
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Abri mais uma vez o livro de Camões, era estranho ver aqueles poemas e não se identificar mais com eles. Era fim de tarde, quase noite e a maré já estava cheia cobrindo toda a areia da praia. Eu observava aquela imensidão de água agitada, parecia que o mar tinha vida própria e estava irritado naquele momento, pois lançava as ondas contra o enorme paredão de pedra com uma certa fúria. Válter também admirava a água fumando o seu cigarro.
— Esse livro está cercado de mentira. O amor não existe. – Reclamei enquanto analisava as páginas como se as palavras fossem se modificar e eu leria algo que me agradasse.
— Brigou com o garoto? – A pergunta de Válter me pegou de surpresa. Eu nem sabia que ele estava prestando atenção em mim.
— Ele não se agradou da nossa atitude lá no restaurante e me tratou de uma forma rude.
— Não é por causa de um desentendimento que você vai mudar todos os seus princípios. – Ele tragou o que restava do cigarro e o jogou a bituca no chão.
— Não é só isso Válter. Eu não acredito que pessoas tão egoístas e mesquinhas como o ser humano posso possuir tal sentimento – Expliquei meus pensamentos – Logo Camões está errado.
Após concluir meu discurso atirei o livro o mais longe possível fiquei observando uma pequena camada nas águas escuras e sem demora ela emergiu, como se o próprio oceano tivesse o devorado.
— Ainda existe pessoas boas, menina. Pode parecer que não. Mas ainda existe pessoas boas. – Ele sussurrou com os olhos perdidos. Me perguntei se estava falando comigo ou consigo mesmo.
Para quem perdeu alguns neurônios por conta da maconha. Até que ele era uma pessoa sábia.
Eu estava encolhida na área coberta do parque enquanto observava as pessoas no gramado, grupos de amigos e até casais. O parque era habitado por um público jovem. Válter havia me chamado para roubar a loja de conveniência, mas eu não quis e mesmo assim ele havia trazido uma pequena barra de chocolate para mim. O que comprovou sua própria teoria sobre a existência de boas pessoas no mundo.
Olhei para minha lista, ainda faltando alguns itens a serem marcados com um ✔️, mas estava perto de termina-la. Eu não via Álvaro desde aquela última conversa e isso me fazia mal. Até eu ver o que mais parecia uma visão.
Ele caminhando pelo gramado vindo em minha direção, era fim de tarde e aquele por do sol deixava tudo amarelado dando um efeito cinematográfico para aquela cena.
Ele usava uma camisa branca com calça jeans e nas mãos carregava uma jaqueta de couro preta.
— Oi – Ele disse timidamente quando levantei. Aquilo não era uma visão. Era real.
Sorri, mas logo meu sorriso desapareceu quando pensei que ele só me procurava quando tinha algum interesse.
— Está com fome? Eu posso comprar algo para você. – Logo mudei de ideia e comecei a achar que ele se preocupava comigo. Acenei afirmativamente com a cabeça.
Ele me levou até as barracas que haviam por trás do teatro e mandou que eu escolhesse qualquer coisa. Comi desesperadamente. Faziam quase três dias que eu não comia nada.
— Eu sinto muito por ter falado aquilo tudo com você – Ele se desculpou quando fomos para a parte da frente do parque. O vento que vinha da praia bagunçava meu cabelo.
— Está tudo bem agora – Respondi querendo esquecer aquela ocasião.
— Eu só quero que você fique bem, Émile. – Ele encarava o chão e sua testa estava franzida.
— Eu estou – Meu tom de voz era tão leve que poderia ser levado junto com aquela ventania.
— Que ótimo. – Ele sorri – Luana me falou que sua mãe está esperando você voltar, ela está preocupada e pensa até que você não possa estar viva. – Fechei a cara.
— Desde quando você vem conversando com aquela garota? – Meu tom de voz era agressivo.
— Nós estudamos na mesma escola. Esqueceu? – Ele falou como se eu fosse uma retardada. – Inclusive, você deveria voltar pra lá.
— De novo você insistindo nessa história? Minha mãe só vivia me humilhando. Eu não vou voltar para aquela vida miserável que eu tinha. – Falei firmemente pondo fim na conversa.
— A vida é sua né? – Ele deu de ombros e ficamos observando a maré que já estava quase cheia. As luzes do parque estavam sendo acessas e a noite caindo.
— Acho melhor eu ir. Amanhã venho vê-la novamente. – Ele beijou minha testa e se foi. Me senti sozinha mais uma vez.
Por que é tão difícil encontrar alguém que nos entenda? Parece que o mundo está contra nós e que nada na nossa vida vai da certo, não importa quantas vezes tentamos, parece que a vida nunca dará uma chance de acertamos as coisas. E tudo aquilo me deixava triste. Porque sempre vai ser mais fácil julgar os outros do que entender o que está acontecendo com eles? São perguntas com respostas difíceis.
Tive uma longa noite para pensar na minha relação com Álvaro. Me perguntei se aquilo tudo era saudável. Eu sabia que o amava tanto que chegava a doer só de imaginar ficar sem ele. Mas algo me dizia que isso estava próximo e que ele iria se afastar de mim cada vez mais, pois eu não era perfeita e ele já havia começado a descobrir isso.
Quando ele se aproximou de mim no dia seguinte não consegui me conter, corri em sua direção e o beijei. Se aquilo fosse acabar um dia, não queria me arrepender por não ter aproveitado o máximo. O sol estava brilhando no céu límpido. Algumas pessoas se bronzeavam na areia. E alguns eram corajosos o suficiente para entrar na água, mesmo com avisos espalhados por toda praia alertando sobre os possíveis ataques de tubarão.
— O que quer fazer? – Ele perguntou olhando ao redor. Um vendedor de picolé passou anunciando o seu produto.
— Não quero ficar aqui. Quero ir para um lugar mais reservado. – Expliquei.
— Como quiser. – Concordo ele.
Andamos por um tempo. Eu não me preocuparia em andar por ali. O vento que batia no meu rosto era agradável e o barulho do mar prazeroso. Eu sentir sorte por morar ali. De frente para o mar. Álvaro também não parecia com pressa. Caminhamos lentamente até achar uma parte vazia. Encostei no paredão de pedra e comecei a beija-lo. Os carros passavam rapidamente por cima de nós eu conseguia ouvi-los deslizando pelo asfalto.
Comecei a colocar a mão por debaixo da sua camisa com a intensão de tira-la. Ele fazia o mesmo. Tirou o meu casaco e logo em seguida minha camisa branca que estava um pouco encardida, já que eu há tempos não lavava. Eu bagunçava os seus cabelos enquanto o beijava. Meu corpo estava tão quente que tinha a sensação de que ia explodir. E talvez eu fosse. Fizemos sexo ali mesmo na praia. Era tão boa a sensação de que em qualquer momento alguém poderia nos ver o que para nossa sorte não aconteceu.
Olhei o mar e todo a sua imensidão e pensei. É uma boa vida, enquanto Álvaro estivesse aqui, eu estaria feliz. Ele era a única pessoa que eu tinha.
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