Obrigado
1 Agradeça.
Notas iniciais
“EU NÃO QUERO PORRA DE OMELETE! EU NÃO AGUENTO MAIS COMER ISSO TODOS OS DIAS! EU NÃO AGUENTO MAIS VOCÊS! SUMAM DA MINHA VIDA!”
Aquelas palavras soariam para sempre na cabeça dos pais de Leslie, que se perguntavam oque fizeram de errado para o filho ser tão ranzinza e reclamar de tudo. Leslie tinha suas razões, apesar de não ser motivo de tal maltrato constante com as pessoas. Ele sempre foi humilhado por sua origem humilde e pelo fracasso dos pais. Depois de tantas dificuldades em sua vida, Leslie apenas via o mundo como um parque de horrores que nunca teria fim.
Depois de maldosas palavras com os pais, o garoto sai de casa as pressas para chegar a tempo na escola. No caminho ele é surpreendido por Arlin, um garotinho menor que ele e seu único amigo. Leslie via Arlin como uma pessoa burra, que todos usavam e usavam porque o mesmo era muito inocente pra ver maldade nelas. Apesar de Leslie achar que não precisa de amigos, nunca disse oque pensava de Arlin para não perde-lo. Os dois apenas se cumprimentam e continuam o caminho para escola juntos.
Dessa vez, perto da entrada da escola encontram um gato sentado perto de uma das plantas. Arlin retira de sua bolsa uns pesticos ,que sempre guardava no caso de encontrar algum animal esfomeado. Estende a mão para o gatinho fazendo o mesmo se aproximar. Leslie não compreendia o porque seu amigo fazia isso, achava apenas que era perda de tempo e dinheiro.
Leslie pega uma pedra do chão e ataca no gato. A pedra apenas atinge o rabo do mesmo, fazendo-o correr para outro lugar. O garoto vendo o miado do gato após ser atingido, começa a rir da situação.
_Por que fez isso? Você poderia ter machuca-lo.
_Porque um desses ai já me arranhou. E o rabo levantado foi engraçado HAHAHA. – Leslie se contorcia de rir, fazendo o amigo se decepcionar ainda mais com ele.
Os dois entram na sala e o professor anuncia um trabalho em trio. Os garotos começam a discutir a quem chamariam para o grupo deles dos quais ainda não estavam em um.
_É que tal o Steve? Ele é bem legal. – Perguntava Arlin.
_Aquele cara é ateu. Não ando com gente que vai pro inferno.
_E a Helena? Já que ela faltou hoje podemos avisa-la e perguntar se ela quer fazer com nós.
_Porra aquela ali é mal puta. E ainda parece um dragão.
_E o William? –Arlin se zangava com oque o amigo dizia. Mas sempre que reclamava levava uma bronca, então dessa vez decidiu aguentar
_O William? Você já se esqueceu? O cara te humilhou, te maltratou, e você quer fazer o trabalho com ele? – Leslie se enfurecia em ver como o amigo não sentia raiva das pessoas em que já o maltrataram.
_Ele se desculpou a algum tempo...
_Não importa. O cara é mal fdp e tu ainda perdoa. Você me decepciona cara, não seja besta. –Leslie magoava o amigo com as palavras, que permaneceu em silencio-Além disso ele parece um drogado escutando aqueles raps.
_Você devia aceitar as pessoas, dependente se elas não acreditam e nem gostam das mesmas coisas que você. –Foram as ultimas palavras de Arlin antes de sair dali e ir se sentar ao lado de William e conversar com ele, provavelmente ir formar um grupo com o mesmo.
Leslie repetiu em sua cabeça inúmeros palavrões direcionados a Arlin, permaneceu calado e sozinho até o fim da aula.
Leslie voltou a sua casa, trancou seu quarto e ficou lá jogando seu Mega drive, até ser interrompido por seu irmão menor, que batia na porta e perguntava se podia brincar com ele. Leslie ficou em silencio até se enfurecer em como o irmão insistia, resultando nele abrindo a porta e gritando para o irmão sair dali e parar de incomoda-lo. Assustada, a criança começa a chorar e sai dali murmurando “descupa”.
Leslie apenas se sentia insatisfeito, foi jantar e tomar banho calado. Passou pelo resto do dia sem trocar uma palavra com a família, e não passou pela sua cabeça em nenhum momento pedir desculpas para os mesmos. Apenas foi dormir se perguntando o porque ele era tão pobre. O porque a vida dele era uma merda, e o porque ele merecia coisas tão ruins e insignificantes em sua vida.
Leslie amanhecia com desgosto. Esperava que hoje seu amigo viesse se desculpar com ele, mesmo que o menor não fosse o culpado. Ficou zangado por sua mãe não vir acorda-lo hoje, pois acabou se atrasando alguns minutos. Ele abre a janela e percebe que o dia está nublado e cinzento, com nuvens no céu carregadas de chuva.
Desce para a cozinha e observa que não tem ninguém lá, grita pelos pais e não recebe resposta. Enfurecido, vai no quarto dos mesmos e se surpreende em encontra-lo vazio. Corre para o quarto do irmão e novamente encontra-o vazio.
Leslie se desespera e passa pela sua cabeça que os mesmos foram embora sem ele. O garoto vai pra fora de casa e bate na porta do vizinho. Tudo permanece em silencio, até que impaciente, Leslie começa a bater com força na porta até conseguir abri-la. O garoto se assusta ao perceber que não tem ninguém na casa, apenas o nevoeiro que agora encobria o piso.
Leslie corre dali imaginando estar em um pesadelo, começa a gritar por ajuda e socorro. Sua voz ecoa e depois tudo volta como antes, ao silencio. O garoto assustado arromba diversas portas e não encontra ninguém. Desesperado ele fecha os olhos e lágrimas começam a descer de seu rosto, ele reza mentalmente pra que tudo aquilo seja um sonho.
Sua barriga começa a roncar e a fome apertar. De todas as casas e mercados que Leslie ia, não havia nada além de prateleiras vazias e o gosto da decepção. Leslie rezava pra encontrar alguma coisa viva, nem que fosse algum animal, nem que fosse uma formiguinha.
Horas se passaram e o nevoeiro continuou presente, iguais as nuvens que não resultaram em nenhuma chuva. A noite não parecia chegar e o garoto ainda estava caminhando sozinho em direção em sua casa, sem agua ou comida. Apesar de Leslie ter corrido por muito tempo a caminho do campo, no qual seus tios tinham um sitio lá, ainda continuou na cidade. Aquele parecia ser o único cenário que existia ali, uma cidade nublada e solitária.
Leslie entra novamente em sua casa e, antes de se deitar em sua cama, tentou ligar o chuveiro assim como tentou em todas as outras casas, mas ainda continuava sem energia.
O garoto começa a se lembrar de como seu pai o acalmava quando estava com medo, abraçando-o e dizendo que tudo ficaria bem. E lembrou que nunca tinha feito aquilo com seu irmão. Seu irmão menor, como sentirá saudades dele. Lembrou do omelete repetitivo da sua mão, aquele gosto maravilhoso e enjoado, agora ele sentia saudades dele. Lembrou de seu amigo e como o mesmo defendia tudo e a todos, e pensou como era capaz de alguém sempre ver algo positivo em algo que não tem. Como era tolo, mas como era bom.
Leslie se lembrava de coisas insignificantes para ele, mas como ele gostaria delas agora. Nas lembranças, acabou adormecendo.
Aproximadamente quatro horas se passam, Leslie se lembra dos últimos acontecimentos. Ele percebe que nada mudou e que aquilo não era um sonho. Ele tinha noção do tempo e sabia que o céu já devia estar escuro, mas ainda se encontrava do mesmo jeito. Sua barriga roncava ainda mais. Na fome, ele se lembrou do gato que o seu amigo alimentava, e se sentiu como ele. Com fome e sozinho. Leslie se lembrou de como jogou a pedra no gatinho, e se sentiu mal, pela primeira vez, por algo que ele fez. O gato é uma criatura viva, assim como todos os outros animais, eles sentem, então porque ele o machucou? Leslie o machucou porque já foi machucado por outro gato a muito tempo. Bigodinho era o nome do mesmo, ele adorava seu gatinho, mas um dia foi arranhado pelo gato. Leslie com raiva abandonou seu gatinho na rua e nunca mais o viu depois disso. Ele se lembra de que em uma de suas aulas, seu professor disse que animais não são racionais, eles agem assim por instinto, mas mesmo assim, mesmo não sendo racionais, eles conseguem te fazer feliz e protegido, mesmo sem dizer nada. Leslie sentiu saudades de Bigodinho, sentiu saudades de como o mesmo ia dormir em cima dele nas noites frias, e de como se sentia bem.
Esfomeado, o garoto sai de sua casa e começa a perambular pelas ruas, tudo estava em completo silencio. Ele sentiu medo do silencio, sentiu medo de estar sozinho. Se lembrou de como toda manhã os passarinhos cantavam e o mesmo se irritava com aquilo. Se perguntou o porque se irritava, se os assobios eram tão lindos e tão bons. Leslie então se recorda de uma música de rap que seu colega de classe, William, sempre cantava. Começou então a cantar em voz alta, independente de que aquele ritmo não o agradasse. Nunca se sentiu tão bem cantando algo.
Leslie sentiu saudade da sua escola e de seus colegas, mesmo que ele reclamasse sobre eles o tempo todo. Leslie agora se lembrou de coisas boas sobre eles, e queria dizer bom dia para eles mais uma vez, como nunca mais fizera.
Passando por uma mercadinho que sua mãe sempre ia com ele na infância, Leslie se lembrou da cara de decepção de sua mãe ao ver os preços das coisas.
O pai de Leslie tinha um emprego simples, mal dava pra comprar alimentos, mesmo assim, seus pais nunca o deixaram passar fome. Mesmo ele reclamando tanto sobre aquela omelete, seus pais deviam se esforçar muito para todos os dias ele e seu irmão a comerem.
O garoto se sentiu fraco, deitou ali mesmo na rua e se desabou nas lágrimas, tudo oque queria era poder abraçar sua família, e dizer pra eles o quanto os amava, a agradecer por tudo o que fizeram por ele e pedir desculpas por tudo oque disse e o que fez. Queria dizer mais uma vez bom dia pra seus amigos e rir com todos eles, ele não se importaria mais se Steve era ateu, se Willian gostava de rap e se Helena fosse feia, ele apenas riria com eles porque eles eram boas pessoas. Ele desejava fazer todas as coisas boas do mundo, só pra ver o sorriso em alguém, desejava poder alimentar todos os gatinhos do mundo e os demais animais. Dizer a todas as crianças que elas ficariam bem quando nada estivesse. Antes aquelas coisas eram simplesmente insignificantes para ele, mas depois de perde-las, Leslie viu que deveria agradecer todos os dias por tê-las. Ele era a pessoa mais feliz do mundo, mas percebeu isso muito tarde. Leslie adormeceu chorando e se recordando das coisas e pessoas que tinha em sua vida, e como as queria de volta.
Leslie acordou, dessa vez em sua cama. Os passarinhos cantavam e o sol brilhava. Não sabia se estava sonhando ou se tinha sonhado, apenas sorriu, e soube que seria um longo dia, cheio de abraços e de desculpas, mas principalmente de sorrisos. Leslie apenas agradeceu por tudo oque ele tinha.
_Obrigado.
Fale com o autor