Obra de Arte.
1 Capítulo único.
– Você queria falar comigo?
Sal terminou de abrir a porta deixando Larry entrar e fechar a mesma. Suspirou pesado e escondeu as mãos dentro do moletom, a fim de secar um pouco do suor que se formava nelas pelo nervosismo. Se sentou na outra extremidade da cama, bem distante de Larry, que se sentiu bastante incomodado com aquela atitude. Mesmo assim, o garoto de olhos castanhos respirou fundo e tentou sorrir.
— Sim, eu queria saber se você vai se reunir com a turma hoje a noite, lá na casa da árvore. O pessoal tá sentindo a sua falta, faz um tempo já que você não aparece, carinha.
— Isso não é verdade, eu terminei meu projeto de física anteontem com a ajuda do Tood, e estive no lago com a Asheley hoje pela manhã.
— Eu não sei se você ainda se lembra Sal, mas eu também faço parte da turma; ou fazia, sei lá – Larry pareceu bastante chateado, o que deixou Sal um pouco preocupado. – Eu notei que você tem me evitado já faz um tempo. A gente costumava ser tão próximos.
— Não sei do quê está reclamando, agora estamos mais próximos do que nunca, vamos até compartilhar os pais e, quem sabe, o mesmo sobrenome – Sal não pareceu muito feliz com aquilo.
— Prefere ficar com o Fisher ou vai aderir ao Jonshon? – Sal ficou ainda mais apático. – Ok, certo, já entendi.
Larry pegou uma grande mochila e sua guitarra, que haviam sido trazidas para o quarto de Sal alguns dias antes.
Sal entendeu o recado.
— Espera, eu não estou te expulsando do meu quarto.
— E nem precisa se dar ao trabalho.
— Se sente tanto a minha falta, por quê não fala logo de uma vez? Por que fica ai dizendo que é a Ashley ou o Tood que querem me ver; qual é o problema em assumir isso, Larry?
— E eu preciso? Você mais do que ninguém sabe o quanto eu gosto de você, você é único, eu nunca tive um amigo como você, Sal.
— Isso é mentira, você tem o Toddy e a Ashely.
— Não é a mesma coisa. Olha, eu não consigo entender, Sal. Você vivia me chamando pra dormir aqui antes, e agora, que resolvi me mudar em definitivo, você fica fingindo que eu sou um fantasma. Me fala Sal, o que foi que mudou tanto entre a gente?
— O casamento dos nossos pais.
— Mas você adora a minha mãe, ou isso também é mentira?
— Ei, cuidado com as palavras. A Liza é a melhor pessoas do mundo e eu quero que ela seja muito feliz.
— Então, se o problema não é a minha mãe, qual é?
— Você – Sal viu Larry deixar a guitarra escorregar um pouco pelos ombros, quase atingindo o chão. – Eu não quero que seja meu irmão.
— Poxa, e desde o primeiro dia eu te chamei de bro – Larry arremessou o cartão magnético, que dava acesso ao porão, em Sal – Se precisar de mim estarei no 1B.
Larry saiu batendo a porta com força. Sal não se moveu. Esperou um tempo até ter certeza de que Larry já havia descido. Pegou o cartão do chão o guardando no bolso do moletom.
***
Larry pulou da cama, assustado, ao ouvir as insistentes batidas na porta. Saiu na velocidade da luz em direção a entrada, dispensando o olho mágico; já esperava pela visita.
— Tão cedo? Achei que esperaria pelo menos anoitecer.
— Sabe que fiquei com medo de andar por esse prédio à noite, inclusive, parece que nem pensou nisso, antes de me deixar sozinho naquele apartamento vazio.
— Não precisava disso tudo. – Sal não sabia se Larry se referia ao seu drama e medo do escuro, ou, das enormes malas que pôs para dentro assim que Larry lhe deu passagem – O seu pai e a minha mãe logo logo estarão de volta, da lua de mel.
— Eu sei, por isso vim aproveitar nossa última noite sozinhos, como nos velhos tempos. Não se preocupe, são cobertas, meu travesseiro e salgadinhos, não trouxe o guarda-roupa todo.
— Achei que não quisesse mais ser meu irmão.
— Não somos e nunca fomos irmãos, Larry; e nunca seremos de verdade. Mas isso não significa que eu não te ame. – Larry franziu as sobrancelhas confuso. – Acredite, você não entenderia.
Sal ignorou a expressão curiosa de Larry e saiu arrastando as enormes malas até o quarto do rapaz.
— Por que não tem nenhuma música alta tocando aqui?
— Não queria fazer barulho. Tive medo de você bater uma vez e ir embora.
— Larry, eu nunca vou embora, prometo – Sal abraçou a cintura de Larry, que era consideravelmente mais alto que ele – Ia pintar algo novo? – Sal viu um quadro em branco e tintas recém-distribuídas na paleta.
— Sim eu ia, só estava esperando a inspiração bater.
— E aí? – Sal se sentou na cama e começou a fingir tocar a guitarra de Larry – Bateu?
— Sim… – Larry esticou o indicador, medindo o rosto de Sal – Bem na minha porta.
— Idiota – Sal riu baixinho. Por um momento, apenas encarou o rapaz alto e magro a sua frente. Larry era muito bonito, parecia até ter saído de um filme. – Me pinta?
Larry ficou estático por um tempo. Parecia não poder acreditar no que Sal pedia. Até pouco tempo atrás, Sal surtava quando Larry pedia para pintá-lo. Nem mesmo um único esboço seu era permitido.
— Odeio quando você faz isso, sabia? – Larry pareceu bastante chateado – Eu sempre quis te pintar, você sabe disso. Mas sempre que eu pedia você ficava bravo e acabava surtando. Lembra quando eu fiz um desenho da gente junto com os nossos pais?
— Larry, para com isso.
— Você ficou fora de si naquele dia. Arrancou o desenho das minhas mãos e fez picadinho dele – Larry riu desgostoso – Acho que foi ali que você começou e me odiar, né. E eu que pensava que você era o maior fã da minha arte.
— Eu sou. Adoro tudo o que você faz. Acho que eu só tive medo sabe, de você me pintar e depois se arrepender, porque eu seria a sua obra mais feia. Você tem uns desenhos tão bonitos da Ash.
— Carinha, você tem que parar com isso. Já percebeu o quanto você tem se comparado a Ash? Você não é a Ash, nem por isso é melhor ou pior que ela. Antes eu achava que você era gamadão nela, mas de uns tampos pra cá, isso vêm ficando um pouco estranho. Afinal, você gosta ou não da Ash?
— Eu gosto. E você?
— Cara, para. Eu já te disse um milhão de vezes que eu e a Ash somos amigos desde criança. Não precisa ficar ai se corroendo com esse ciúme bobo. – o coração de Sal falhou uma batida. – O caminho tá livre; vai na fé.
— Acha que tenho chance, mesmo eu sendo… assim?
— De novo isso Sal, quantas vezes eu vou ter que falar que você não é nenhum monstro? Carinha você é a pessoa mais incrível que eu já conheci, e é bonito pra caralho.
— Não acho que caralho seja um padrão de beleza mas, valeu o elogio.
— Deixa de ser idiota, Sal.
Ambos caíram na gargalhada. Quando a graça acabou, ainda ficaram se olhando. Não havia mágoa ou constrangimento, apenas um sentimento puro de felicidade.
— Te amo… – Sal teve a impressão de que Larry ficou esperando ele completar a frase com o bom e velho ‘bro’ de sempre.
— Também te amo… carinha.
Larry se ajeitou no banquinho em frente a tela e mirou Sal.
— Bom, imagino que você não vai tirar a máscara, certo?
— Óbvio que não – Larry rolou os olhos e riu; já esperava por isso. – Você vai me pintar usando a máscara – a voz de Sal quase morreu – Somente a máscara.
Larry continuou a olhar sério para Sal, esperando pelas risadas e por um belo “até parece”, seguido de uma gargalhada. Mas nada. Sal continuava sério, como se estivesse aguardando algum sinal de Larry para continuar.
— Quantas vezes você assistiu Titanic esse ano? – Sal jogou um travesseiro, fazendo Larry ter que puxar um pouco a tela para desviar.
— Cala a boca, Larry! – ambos riram – Eu… eu sei que parece estranho mas, eu queria algo diferente. Tipo, algo mais adulto e ousado. A gente não é mais criança, sabe. Então, acho que podemos ousar um pouco mais; não podemos?
— Podemos – Larry desviou o olhar e sorriu um pouco – Eu sempre quis pintar a ‘Rose’ mesmo, era um dos meus sonhos secretos de adolescente.
— Palhaço – Sal riu. Segurou a barra do moletom, mas parou – Olha, eu não sei se você sabe, senhor ‘Jack’, mas eu também tenho algumas cicatrizes bem feias pelo corpo – Sal se remexeu nervoso por ter dado aquela informação extra.
— É claro que eu não sei, nunca te vi sem roupa antes. Hoje será a primeira vez.
Aquilo fez Sal travar. Era verdade, se aquilo fosse até o fim, aquela seria a sua primeira vez também.
— Quando quiser – Larry pegou o pincel.
Provido da mesma coragem que usava para se aventurar em suas caçadas noturnas, pelo edifício mal assombrado, Sal levou as mãos à barra do moletom, o retirando junto a camiseta de sua banda favorita. Tentou ignorar ao máximo os olhares de Larry em direção ao seu abdômen, onde havia uma grande cicatriz, além de uma um pequeno enxerto bem próximo às costelas, indo em direção ao tórax. Terminou de se livrar do resto das roupas, ainda em dúvida se Larry analisava suas feridas, ou, o restante de seu corpo.
— Já estão todos bem cicatrizados, não tem nada infeccionado ou podre.
Larry ignorou qualquer comentário depreciativo de Sal sobre si mesmo e começou a rabiscar o quadro assim que Sal se deitou na cama.
Agora somente a máscara o cobria. A pele extremamente pálida contrastava muito com as cicatrizes escuras e o vermelho coral da pele morta. Larry achava engraçado que, a cada vez que desviava os olhos para Sal, ele parecia um tom mais vermelho que antes.
— Sal, por favor, relaxe, ok. Não precisa ficar com tanta vergonha. Minha tinta vermelha já está quase no fim.
— Cala a boca, Larry – mesmo com a máscara tapando seu rosto, Sal enfiou a cara no travesseiro.
— Aí, segura essa – Sal travou, completamente envergonhado. Estava deitado de bruços, ainda segurando o travesseiro – Tira o travesseiro e deixa o seu cabelo se espalhar pela cama – Larry ficou com vontade de rir, imaginando a cara que Sal deve ter feito por debaixo da máscara – Não confia em mim?
Claro que confiava, e muito. O suficiente para estar agora, do jeito que veio ao mundo, bem na frente do rapaz, posando para um de seus quadros.
Larry continuou a pintar. Seu semblante permanecia sério e focado.
Era estranho para Sal, Larry olhá-lo daquela forma e parecer não vê-lo além da arte. Será que Larry era extremamente profissional, ou, ele que era desinteressante?
— Você já pintou alguém assim alguma vez?
— Não.
— Por?
— Porque eu não quis.
— Isso significa, que já se ofereceram pra você?
— Sim.
— E ela não era bonita?
— Sim, era sim.
— Então porque não pintou ela?
— Porque eu não sentia nada por ela. E você sabe como esse tipo de coisa termina, não sabe?
O tom de voz de Larry deixou Sal com arrepios.
— Como? – a voz de Sal falhou um pouco.
— Em sexo. Não que tenha que ser assim exatamente, mas, geralmente, uma das partes sempre quer.
Sal voltou a ficar em silêncio. Será que Larry tinha razão? Queria que ele tivesse razão? Amava Larry, óbvio, mas, será que queria mesmo transar com o cara que dividiria a família dali pra frente? O cara que foi seu primeiro melhor amigo? Será que Larry queria?
Sal não tinha bem certeza de nada ainda.
— Terminei.
Aquelas palavras deixaram Sal aliviado e nervoso ao mesmo tempo. Seu corpo começava a acompanhar seus pensamentos, que não eram nada puros no momento. Queria poder correr se vestir e não passar pela humilhação de ter que cobrir nada sobressalente. Sal também estava nervoso com o que poderia acontecer agora, depois daquela conversa sobre como esse tipo de coisa terminava.
Sal se aproximou para olhar o quadro. Ficou com um pouco de vergonha, óbvio, mas havia ficado tão lindo, que a nudez nem o afetou tanto quanto esperava.
— E então, gostou?
— Sim, ficou perfeito.
— Que bom, vou levá-lo lá pra cima, para o 502, até ele secar. Imagina só se a minha mãe ou o seu pai vê esse quadro.
— Eles deserdam a gente – Sal riu.
— Ah então tá tudo bem, não temos nada mesmo – Larry fez menção de voltar com o quadro para o quarto.
— Não, idiota – Sal riu – Eles vão fazer bem mais que apenas nos deserdar – Vão matar a gente.
— Bom, nesse caso, vou subir.
Sal seguiu o rapaz até o corredor, segurando a camisa da banda favorita na frente do corpo ainda nu.
— Larry… – Sal chamou pelo rapaz, antes dele entrar no elevador – Sobre aquilo, de como essas coisas terminam… a gente já terminou? – o coração de Sal parecia querer saltar pela garganta, quando Larry o olhou com certa intensidade – Quero dizer, só pra saber se já devo me vestir.
— Ainda não, Sal – Larry sorriu e apertou o botão do elevador – Ainda não.
Sal voltou ao quarto e soltou as roupas no chão. Se sentou novamente na cama e abraçou os joelhos, ansioso. Esperaria por Larry, afinal, tanto ele quanto Larry, pareciam querer terminar aquilo.
Fale com o autor