Oblivion

1 You're no good, and you mean no good.


Notas iniciais
Bem vindos ao primeiro capítulo. Espero que gostem! Dúvidas, críticas (e elogios, também, com os dedos cruzados haha) são muito bem vindos!!

A manhã surgiu escura. O céu, repleto de nuvens negras, cantarolava as canções ameaçadoras dos trovões, com seus poderosos graves, os quais ecoavam por toda Soul Society. Mesmo as imponentes árvores se estremeciam com os ventos frios das profundas florestas.

Em uma casa de arquitetura tradicional japonesa, afastada de todas as habitações das almas da Soul Society, Kikuchi Haiako acordava. A habitação era localizada em uma clareira meio às árvores, ao lado de um rio fino e cristalino, cujas pedras e peixes eram nítidos como se através de uma límpida película de vidro. Na lateral oposta à do rio, bem como em parte da entrada, um campo de crisântemos vermelhos. Cada pétala parecia ser individualmente bem cuidada, e a intensa cor rubra refletia aos olhos.

Dentro daquele lugar, Haiako ainda aproveitava seus últimos segundos de solitude, deitada em sua extensa cama, pois sabia que o dia seria longo. Os longos cabelos ondulados castanho-dourados da mulher repousavam meio aos travesseiros, enquanto seu olhar observava parte do negro céu através da janela, bem como algumas poucas flores de crisântemo que ousavam espiar o interior do quarto. Nesses dias, ela se sentia calma.

— O que ele está fazendo agora? — Pensou, melancolicamente.

Após sua costumeira rotina – levantar-se, banhar-se, vestir-se e alimentar-se –, Haiako se colocou a postos para o início de uma nova manhã. Tudo feito da mesma forma, como todos os dias, independente do clima, que certamente convidava qualquer um a passar horas e horas embaixo dos cobertores. Esse dia, contudo, não era como os outros. A morena, que até então ostentava o 3º Posto do 1º Esquadrão, havia sido repentinamente remanejada para o 5º Esquadrão, na mesma posição.

“Aizen Sousuke, capitão do 5º Esquadrão, solicitou-a pessoalmente ao Comandante!”, eram as palavras mais ouvidas por Haiako em seus últimos dias nos assentos dos oficiais pessoais do Comandante Geral da Seireitei, Genryūsai Shigekuni Yamamoto. Os motivos de Aizen ter solicitado a transição eram desconhecidos pela mulher, mas as ordens foram diretas. O treinamento a nível militar recebido não deixava espaço para questionamentos. Ao menos, não em voz alta.

— Mais uma vez, você arrumou uma forma de me controlar. — Rangeu os dentes, antes de sair por sua porta.

...

Os portões do 5º Esquadrão não eram convidativos. A divisão dos especialistas em Kidō, a qual era alvo do interesse de Haiako durante seus anos na Academia Shinigami, foi apenas uma das que a convidaram. Aizen Sousuke, ainda Tenente, foi o único contra sua admissão. “Penso que não há muito o que ela poderia nos acrescentar, neste momento. Agora, mais que nunca, devemos focar em amadurecer os oficiais que já conhecemos e confiamos”. A frase certamente retificou o interesse do Esquadrão em admiti-la.

Apesar disso, devido às suas variadas habilidades, chamou a atenção do velho Genryūsai, que ouvira histórias dos seus excepcionais feitos, ao adquirir uma formatura em três anos em vez de seis, como era comum a quase todos que passavam por essa graduação. Quem diria que o mesmo que a rejeitara agora solicitava incessantemente sua transferência? Talvez, por esses motivos, a situação lhe parecia tão suspeita. A dúvida era o porquê de ninguém mais estar fazendo as mesmas perguntas.

Mas era claro: apesar de por muitos admirado, ninguém conhecia Aizen tão intimamente como Haiako. O passado lhe perseguia.

Respirou fundo e, ao soltar o ar, a chuva que anteriormente ameaçava cair, despencou sobre seus ombros, gota a gota molhando suas vestes negras. Prendeu rapidamente o cabelo, deixando escapar apenas uma mecha no contorno de sua bochecha.

Abriram-se os portões, e dois Shinigamis novos, provavelmente recém-formados que deviam mostrar serviço aos superiores, a acompanharam alegremente até o escritório do Capitão. No caminho, explicavam-na a estrutura organizacional, bem como as localidades mais importantes e, claro, o extenso pelotão que estaria sobre os comandos da, agora atual, 3º Posto.

Apesar da forte chuva, grande parte do caminho percorrido possuía cobertura, passando por poucos pontos a céu aberto, onde molhar-se era inevitável. Haiako pensou rapidamente sobre como ela nunca permitiria um oficial superior se molhar na chuva durante uma apresentação, especialmente em seu primeiro dia de investidura.

Ao chegar nas instalações dos oficiais-comandantes da divisão (Capitão, Tenente, 3º Posto e demais assentos), Haiako sentiu um leve arrepio, quase como um sussurro, subir-lhe a espinha e os braços. A tensão que acumulava a cada passo fazia com que seus ouvidos se fechassem mais e mais para as incessantes vozes dos garotos que a acompanhavam.

Os três pararam às portas da sala que lhes era objetivada. Apenas Haiako a adentrou, não se importando com as gotas que espalhava. O chão era revestido por uma madeira de cor clara, lindamente polida, e as paredes eram altas – até mais altas que a maioria das outras instalações – de cor branca, quase impossível de identificar, atrás de tantos livros que abarrotavam as muitas estantes. Ao fundo, em frente a uma janela que permitia a visão de quase todo o Esquadrão, uma mesa extremamente organizada, com papéis separados por diversas categorias e mais alguns livros que, pelo que a morena observava, estavam sendo lidos antes de sua entrada. Para a surpresa de Haiako e dos novos Shinigamis, Aizen não se encontrava em sua sala.

— Tinha certeza de que ele estaria aqui! – Um deles exclamou, surpreso. O outro, tenso por estar ali sem a permissão de seu superior, apenas preocupava-se com o chão da sala, marcado pelos passos molhados da mulher. Certamente, ele teria de secá-lo quando ela saísse.

Haiako, então, aproveitou para observar mais o local, e algo lhe chamara a atenção: no centro da mesa, um pequeno jarro branco com ilustrações tradicionais em vermelho. Dentro deste, um pouco d’água e uma única flor de crisântemo vermelho, delicadamente colocada. Tocou levemente as pétalas, e um sentimento nostálgico adentrou seu peito.

— Tudo bem. Os senhores estão dispensados. – A mulher ordenou, calmamente, sem retirar os olhos da flor. Sua voz, revelada apenas por poucas e curtas palavras durante a apresentação das localidades, era alta, mas bela. Possuía ritmo e delicadeza, apesar de inconfundivelmente assertiva. Não surpreendeu a nenhum dos garotos que aquela era uma combatente em posição de comando.

— Sim, comandante! – Eles bradaram, em uníssono. Todavia, antes de sua saída, uma presença preencheu a sala.

— Posso ajudá-los? – A voz grave e leve ecoou pelo lugar e, de repente, o forte som da chuva que caía do lado de fora não parecia tão alto. Os dois garotos estremeceram e, rapidamente, colocaram-se em posição de sentido.

Em um delicado sinal com a mão direita, e um olhar reconfortante, Aizen os ordenou que acalmassem os ânimos. Eles, então, acenaram e saíram do escritório de seu capitão. Haiako, entretanto, não se moveu. Suas atenções continuavam na singela flor, cujo rubro destacava-se nas cores pálidas do local, e ameaçava romper até mesmo o cinza do céu. O homem a observou, com um sorriso no rosto, mas não antes de fechar as grandes portas atrás de si. Quase que como um comando enviado por sua chegada, a chuva cessou, e o céu se abriu.

— Quanto tempo, não? – Aizen declarou, com um sorriso singelo no canto de seus lábios.

Agora sim, o olhar de Haiako se levantou. A ação, entretanto, fora levemente assustada, como se retirada de um transe. Olhou para cima, e encontrou o homem de alta estatura em sua frente, e notou seus cabelos e suas vestes molhadas. Definitivamente, onde quer que ele estivesse, não havia utilizado os caminhos cobertos do batalhão. Os fios caíam junto aos óculos, e as gotas d’água escorriam vagarosamente por seu rosto. O sentimento de olhar para ele era confuso. Em sua mente, a raiva, a curiosidade, o medo e – mesmo que não quisesse admitir – uma certa alegria em vê-lo, bailavam lado a lado.

— Sim. Mas não tanto quanto eu gostaria.

...

Memória de Haiako

Vermelho. Quando acordei, tudo ao meu redor era vermelho. O céu, um azul vibrante que contrastava com aquele campo cor-de-sangue. Eu não era extremamente jovem quando isso ocorreu: em meu corpo já havia sinais da adolescência.

“Crisântemos”. A palavra veio automaticamente em meus pensamentos. Parecia-me um sentimento familiar, como se estivesse em casa. Foi então, naquele momento, que uma questão me atingiu: “Onde é minha casa?”. Senti-me como se despertando de um sonho muito longo e intenso, do qual eu não lembrava um detalhe sequer. A diferença é que o mundo no qual eu acabara de acordar também não me trazia lembrança alguma.

Sem nome, sem memórias, e sem ao menos um resquício de passado que me desse um norte, o desespero me atingiu. Senti uma energia densa, escura e assustadora escapar de cada milímetro de meu corpo, movimentando inquietamente todas as flores do campo ao meu redor. Senti, também, toda a luz do mundo se esvaindo apenas com o singelo toque de minha aura.

Achei que tudo estava perdido. Conheci somente o medo e o ódio. Aqueles foram meus primeiros sentimentos e, infelizmente, os mais recorrentes no restante da minha vida. Para minha surpresa, eu não estava sozinha.

— Você está bem? – Uma voz calma, que soou como carinho em meus ouvidos, irrompeu meus medos e silenciou meu choro. Olhei para cima, ainda com lágrimas escorrendo, e notei um rapaz alto, de cabelos e olhos castanhos. Usava um yukata simples, de cor azul-naval, e carregava consigo um bloco de notas debaixo do braço direito. Em seu rosto, óculos de armação preta, e um sorriso leve. – Nunca senti esse tipo de energia antes. Você precisa de ajuda?

Entre gaguejos e soluços, respondi. Quando minha mente volta àquele momento, não possuo outra reação que não seja rir. Poderia ter respondido à pergunta, ou até mesmo pedido ajuda. Em vez disso, fiquei tão fascinada com aquela presença e beleza, que apenas uma questão me veio à mente.

— Quem é você? – Ele se sentou em minha frente, talvez em uma tentativa inútil de diminuir a diferença de altura, na pequena clareira dentre o extenso campo de crisântemos, e colocou seu caderno de anotações em cima de suas pernas, agora cruzadas.

— Meu nome é Ai... – interrompeu-se. – Sousuke. Meu nome é Sousuke. E o seu?

Mais uma vez, fiquei assustada. Verdade... qual era meu nome? Fiquei tão presa à imagem do jovem Sousuke que até mesmo esqueci de minha aflição. Ele, desde sempre observador, notou a confusão em meus olhos. Ao menos, é o que ele diz que viu em mim naquele dia.

— Tudo bem, não precisa responder. Você pelo menos sabe onde está? De onde veio? Se tem família? – Apenas balancei a cabeça, sinalizando que não para todas e quaisquer perguntas que ele havia feito sobre quem eu era. – Entendo. Bom, acho que posso lhe ajudar. Primeiro de tudo, precisamos te levar a um lugar mais seguro, tudo bem? Logo escurecerá, e não queremos você ao relento, sem ter para onde ir. Felizmente, minha casa não é longe daqui. Você deu sorte que te encontrei durante minha caminhada, qualquer Shinigami que sentisse sua energia espiritual trataria automaticamente como uma ameaça.

Sem dúvidas, ele possuía uma personalidade bem falante, enquanto eu sempre fui de poucas palavras. Acenei que sim e o segui. A caminhada não foi tão longa, mas foi suficiente para que aquele amplo campo de crisântemos aparentasse ser uma mancha vermelha nas proximidades do horizonte. Chegamos silenciosamente a uma casa muito antiga e tradicional, porém bem conservada e de beleza ímpar. O gramado era de um verde vibrante, com flores coloridas ao redor da habitação, e o interior era espaçoso e iluminado, com um chão de madeira escura e brilhante.

Qualquer um que olhasse aquele lugar tão cuidadosamente preservado imaginaria uma linda família que a habitasse, mas a casa estava vazia. Apenas Sousuke morava lá, mesmo em uma idade tão jovem. Certamente ele era mais velho que eu, apesar de não saber quantos anos eu tinha. Naquele momento, pelas características físicas, colocamos cerca de 80 anos de diferença entre nós.

Com muita atenção e delicadeza, ele me aprontou com roupas novas. Um yukata vermelho-bordô substituiu minhas vestes negras de antes e, após estar confortável e vestida, ele me serviu chá. O gosto explodiu em minha boca. Também não me recordava de sabor algum.

— Muito obrigada por cuidar de mim. – Proclamei, com uma voz sussurrada. Os olhos do gentil rapaz se abriram ao máximo, demonstrando grande felicidade em finalmente me ouvir. Por influência daquele olhar bondoso, também sorri.

...

Após algum tempo vivendo com ele, aprendi sobre diversas coisas desse novo mundo. Sobre as almas, os Shinigamis, as diversas lendas existentes, os deuses e os muitos planos. Pude controlar minha energia espiritual, e fui convencida de que, quando estivesse pronta, meu poder seria muito útil nos 13 Esquadrões de Guardas da Corte. Aprendi que aquele rapaz, apesar de meigo, tinha grande mistério por detrás de suas palavras. Dia após dia, me apeguei àquela personalidade. Não demorou até que uma paixão juvenil surgisse por aquele que me acolheu.

— Algo me incomoda profundamente, flor. – Ele disse, me chamando pelo apelido que me dera desde nosso primeiro encontro. Era apropriado, devido à localização na qual me encontrou.

— Diga.

— Ainda não demos um nome a você. Portanto, gostaria de lhe conferir essa atividade! Pense em um nome, algo que a toque, que lhe dê significado.

Então, o fiz. Pensei profundamente por muito tempo, e somente um som verdadeiramente me tocou, ainda que eu não saiba o motivo, até mesmo hoje. Quando a noite chegou e, com ela, Sousuke, corri para contar o novo nome daquela que ele havia salvado dias antes. Assim que ele entrou pela porta, bradei:

— Haiako! – Notei sua sobrancelha esquerda se levantando. Haiako não possui significado no japonês, mas sempre me soou de forma bonita. A reação confusa era de se esperar de alguém tão íntimo e carinhoso com suas palavras. – Você não gostou, não é mesmo? Eu sei que não há significado algum, mas esse nome foi o único que realmente me conquistou. Ele não existe, assim como eu não existia.

Rapidamente, ele se aproximou, me dando um forte abraço.

— Eu adorei. – Ao se afastar, continuou. – Tomei, também, a liberdade de pensar em um sobrenome: Kikuchi*. Nosso sobrenome vem de nossa família. Por isso, acho um lindo pensamento imaginar que aquele campo de crisântemos foi quem te concebeu. O meu é Aizen.

Aquela declaração trouxe em mim mais um sentimento do qual eu não me recordava, mas tinha certeza que era a primeira vez que o sentia. Sem avisos, cerimônias e hesitação, eu o beijei. No começo, ele se surpreendeu. Entretanto, isso não o impediu de retornar o carinho. Aquele, sim, foi o começo de nós. De mim.

Vivemos juntos por muitos anos, e devo admitir que quem eu sou foi moldada por ele. Aizen me ensinou lutas e técnicas avançadas de batalha e, para a nossa surpresa, eu sempre superei todas as expectativas. Aquilo já estava em meu sangue.

As origens de meu poder, devo dizer, nunca foram descobertas. E eu sempre notei o quanto isso o intrigava. Para Sousuke, ter algo tão desconhecido como eu ao lado dele era essencial.

Eu sempre soube que havia algo a mais nas costumeiras saídas durante o dia, e os retornos durante a noite, no mistério em suas palavras e ações. A paixão e o amor possuem essa assustadora habilidade de aceitar até mesmo o inaceitável. Fui criada por ele, de diversas maneiras, mas tudo mudou quando Aizen se ingressou na Academia Shinigami. Para os horrores que eu descobriria, todavia, devo dizer que meu coração nunca havia se preparado.

Nossos caminhos, então, raramente se encontravam. Até agora.

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Notas finais
*Kikuchi: Campo de Crisântemos. Gente, que aventura! Obrigada por acompanhar esse capítulo! Não esqueça de deixar seu comentário, isso pode salvar uma fic! Até as próximas, onde veremos a interação entre Haiako e nosso dissimulado Aizen após muitos anos de separação, entre muitas outras reviravoltas! O que ela verdadeiramente sabe?