Oblivion

10 Início do Fim. - Final


Notas iniciais
Olá, pessoal! Esse capítulo conclui nossa jornada pelas memórias de Haiako. Sei que está longo, mas espero que vocês gostem! Foi minha primeira vez escrevendo cenas de luta, e espero melhorar :) Os links ao longo do capítulo são algumas músicas pra vocês entrarem no clima haha

Did you

Take

My love

Away

From me?

CHIHIRO — Billie Eilish

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Memória de Haiako

No Mundo dos Vivos, a chuva caía violentamente, e o céu negro era imponente, com os fracos raios de sol lutando para atravessar as nuvens carregadas. Relâmpagos e trovoadas ambientavam um Japão no final do século XIX, na Era Meiji, há pouco mais de 100* anos. Neste período, o Japão havia passado por uma série de mudanças sociais e econômicas que modernizaram e industrializaram todo o país.

Quando nós quatro atravessamos o Senkaimon, estávamos repletos de expectativas e medos, ainda que otimistas e corajosos.

A coragem, afinal, não é a ausência do medo.

Estávamos sobre a cidade de Kyoto, utilizando nossas energias espirituais para confeccionar o chão sob nossos pés, em meio ao céu, e esperávamos as ordens de Izaya, que segurava um dispositivo rastreador de reiatsu.

Este dispositivo havia nos informado que, há poucas horas, um grande fluxo de energia surgira aos arredores de Kyoto e, poucos momentos após sairmos do Senkaimon, havia desaparecido.

—Ele provavelmente está escondendo sua presença de nós, pessoal. Fiquem atentas, pois o nosso alvo, Matsui Ōkubo, está autorizado a resistir à sua prisão. — Izaya era completamente diferente quando estava centrado em uma missão. Sério e hiper focado, com suas sobrancelhas franzidas ao traçar as estratégias conosco.

Enquanto Izaya falava sobre as coordenadas e riscos, Tsuki o ouvia atentamente. Saito, por sua vez, prendia seus volumosos cabelos vermelhos em um coque alto, para evitar interferências em sua visão, e olhava fixamente para a cidade abaixo de nós com os olhos apertados, como se, de alguma forma, tentasse enxergar Ōkubo.

—Saito-san. Sabe o porquê de você ter falhado nos exames de rastreamento? — Ela arregalou os olhos, surpresa com minha franqueza, mas acenou negativamente. Então, eu continuei. — Uma batalha entre Shinigamis é, antes de tudo, uma batalha de energias espirituais. Nós enxergamos nosso inimigo, claro. Mas só o venceremos se pudermos senti-lo com clareza, prever seus ataques, e identificar as cintilações de sua reiatsu para encontrar o melhor momento de atacar. — Eu coloquei minha mão em seu ombro, e pedi para que ela fechasse os olhos. Quando ela o fez, deixei minha energia espiritual em forma de poder fluir pelos meus dedos, em direção ao corpo dela, e visualizei nossas almas como uma só. Esse rápido exercício me permitia transmitir meus sentimentos para outras pessoas. — O que você está sentindo?

—Haiako-san… eu sinto… insegurança.

—Viu? Eu também estou nervosa. É natural, Saito-san. Mas, juntos, nós iremos conseguir. Certo, Izaya, Tsuki?

—Certo! — Eles responderam em uníssono, deixando Saito mais calma. Com uma reverência, ela me agradeceu.

Estávamos todos com as vestes negras da Onmitsukidō e, antes de realizarmos a descida para localizar Ōkubo, terminamos de cobrir nossos rostos, deixando apenas os olhos à mostra. Para Tsuki, aquela missão significava garantir uma posição de alto escalão na Divisão 2. Para Izaya, ele retornaria ainda mais forte e experiente para o 11º Esquadrão. Para Saito, ela provaria a si mesma, e a Capitã Soi Fong que era capaz de muito mais do que pensava.

Para mim… eu estava dividida entre me tornar a próxima tenente da Divisão 2, comandante da equipe de Keiratai da Onmitsukidō, cuja força de segurança era responsável por reunir informações sobre desertores e traidores, e rastreá-los, quando necessário; ou voltar para o 1º Esquadrão para servir ao Capitão Geral de forma honrosa, pronta para mostrar meus verdadeiros poderes. De qualquer forma, eu estava decidida a deixar Yamamoto Genryūsai Shigekuni orgulhoso.

E ele… Eu também queria que ele soubesse… que eu era digna de muito mais do aquilo que ele um dia me ofereceu.

Já a nível do solo, estávamos cobrindo uma área circular dividida em quadrantes, cada um de nós em um, nos comunicando remotamente, entre o Monte Hiei e o Lago Biwa, área esta onde havíamos identificado o último registro de uma poderosa reiatsu. Caminhando cuidadosamente pela floresta de árvores semelhantes ao pinheiro, eu pisava sobre as folhas secas como se meu corpo possuísse o peso de uma pena.

Minha Zanpakutō estava embainhada, mas minha mão direita segurava seu cabo com detalhes azuis, pronta para empunhá-la, se necessário fosse. Minha mão esquerda, por sua vez, estava posicionada à frente de meu corpo, com apenas os dedos indicador, médio e polegar levantados, de forma a acelerar o encantamento de quaisquer Kidōs que eu precisasse utilizar.

No pequeno rádio-comunicador posicionado em meu ouvido, pude ouvir a voz abafada de Izaya.

Haiako, estou passando para checar. Encontrou algo?

—Não. — Eu respondi, com a voz baixa. — Mas consigo sentir traços de reiatsu que não posso identificar. Acho que estou ficando mais perto, Izaya.

Tsuki e Saito acabaram de se encontrar próximo ao Santuário Hiyoshi Taisha, ao norte do rio. Vou mobilizá-las até você.

—Não é necessário, até que eu tenha certeza, Izaya. Deixe-as por conta própria, elas precisam disso.

Eu irei te encontrar, então.

Após alguns minutos, Izaya surgiu atrás de mim, utilizando Shunpō. Nós dois abaixamos o tecido que cobria nossos narizes e boca, e respiramos desimpedidos o ar puro da mata, enquanto a chuva ainda caía impiedosamente sobre nossos rostos.

Os cabelos loiros dele estavam encharcados, e seus olhos vibravam um verde quase incandescente, refletindo as árvores ao nosso redor. Todo o seu corpo, por sua vez, estava coberto, e era possível ver apenas as tatuagens de suas mãos e dedos. Já sua corrente de prata, estava para fora de suas vestes, brilhando com os raros reflexos do sol.

—Haiako... — Enquanto fazíamos a ronda, concentrados em qualquer mínima alteração nas frequências ao nosso redor, Izaya chamou pelo meu nome com a voz quase sussurrada. — Quando terminarmos nossa missão, quero que você conheça minha mãe.

Mas eu já estava pensando naquela possibilidade desde que entramos no Dangai e chegamos ao Mundo Físico. Eu estava decidida: quando retornássemos ao Mundo dos Vivos, contaria a Izaya todos os aspectos do meu passado. Sobre quem eu era, sobre meus poderes… sobre tudo aquilo que eu havia perdido… Sim, eu havia tomado a decisão de amar quem me amava.

Foi por isso, que eu respondi:

—Izaya. Quando voltarmos… eu serei completamente sua.

Eu queria muito amá-lo.

Ao ouvir minha resposta, ele sorriu para mim, e se aproximou, retirando com os dedos a mecha de cabelo molhada que havia grudado em minha bochecha. Olhando fixamente para mim, ele disse:

—Tão linda… — E, ao dizê-lo, se aproximou para um beijo.

No entanto, antes que pudesse fazê-lo, um som alto irrompeu pela floresta, acabando com a paz daquele momento. O som era característico de um tronco de uma árvore se partindo ao meio lentamente, mas com força absurda, explodindo lascas em todas as direções e, finalmente, atingindo o chão.

Surpreendidos, olhamos um ao outro com seriedade, e acenamos. Sabíamos que aquele som, quem quer que o houvesse causado, não havia vindo de Ōkubo.

Extremamente atentos, corremos ao local, e eu retomei a mesma posição de anteriormente, com uma mão em minha Zanpakutō, e a outra, preparada para encantar um Kidō defensivo. Izaya, por sua vez, cujo ponto forte era o combate Zanjutsu, segurava sua longa Zanpakutō com ambas as mãos. Ela possuía um cabo vermelho sangue, e as mãos tatuadas a envolviam em uma cena feita perfeitamente para ele.

Quando chegamos à origem daquele barulho, não estávamos preparados para a cena que encontraríamos.

Sangue.

Litros de sangue.

Pingando pelas folhas.

Escorrendo pelos veios das cascas dos troncos das árvores.

Izaya se voltou para mim, e colocou o indicador sobre seus lábios, sinalizando para que eu fizesse silêncio. Circulando a área com olhos atentos, encontramos o dono do sangue derramado, desmembrado no chão, envolto por folhas e com os braços e pernas espalhados, Matsui Ōkubo.

Sua boca estava aberta a ponto de conseguirmos ver seu maxilar deslocado, e os olhos estavam completamente brancos e revirados. O pouco que sobrara de suas vestes de Shinigami estava encharcado pelo sangue, que pouco a pouco era lavado pela chuva.

—Precisamos cobrí-lo, e tirá-lo daqui.

—Porra… o que foi isso?!

Retirei a parte superior de minha roupa, e cobri o rosto daquele homem, por respeito, tendo meu corpo coberto apenas por uma roupa íntima que se assemelhava a uma fina regata branca, deixando meu braços e costas descobertos.

Antes que eu pudesse responder a Izaya, um grito ensurdecedor fez com que fechássemos os olhos e cobríssemos nossos ouvidos com ambas as mãos. Aquele grito agudo e arrepiante soava como se milhares de almas esmagadas em um único ser gritassem descontroladamente por piedade.

De repente, um raio de energia atravessou as árvores, partindo ao meio tudo aquilo que encontrava, e vindo em minha direção. Izaya, pensando rapidamente, gritou, antes de me puxar para si:

—Haiako, cuidado!

—Estamos lidando com um Hollow poderoso. Avise as meninas. — Eu ordenei, passando por cima da liderança de Izaya. Ele compreendia que, na missão original, havia sido nomeado líder mas, em um combate real, eu estava em posição de maior hierarquia.

Agora, não éramos mais alunos em uma prova.

Éramos guerreiros, e eu deveria guiá-los.

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https://www.youtube.com/watch?v=Ru004sZMqjc

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—Tsuki, Saito: essas são as nossas coordenadas. O alvo Matsui Ōkubo foi assassinado. Estamos lidando com um Hollow de magnitude e poderes desconhecidos. Venham rapidamente, mas se aproximem com cuidado.

Vocês estão bem? — Tsuki respondeu, pelo rádio.

—Até o momento, sim. Venham com cautela. — Eu respondi.

E então, aquele monstro surgiu por entre os altos pinheiros.

Um Hollow milenar, com a altura de um prédio, precisava derrubar tronco após tronco, com as mãos em formato de garras afiadas, para conseguir abrir espaço para seu corpo. A cor do couro que o envolvia era de um preto tão profundo que parecia sugar a luz ao seu redor, e sua máscara horripilante assumia o formato de um touro branco, com grossos chifres que possuíam quase metade de seu comprimento.

O corpo, no entanto, se assemelhava a algo humano, com músculos e membros humanoides. Ainda assim, constatei que se tratava de um forte Hollow na escala dos Menos: um Adjucha. Sua energia espiritual era forte, arrepiando os pelos de minha nuca ao entrar em contato com minha alma. Ao olhar para o lado, pude ver que Izaya estava sentindo os efeitos daquela reiatsu, apesar de estar segurando bem sua posição.

—Não é possível que esse monstro seja um Adjucha.

—A pergunta é: como ele conseguiu esconder sua reiatsu de nós? — Devido ao tamanho e força daquele ser, pude assumir que ele era um Hollow extremamente antigo, e havia se alimentado de almas poderosas durante o curso de sua pós-vida. Apenas almas humanas não produziriam seu poder. Como um monstro daquele havia passado despercebido pela Soul Society?

Descontrolado, o Hollow emitiu mais um grito ensurdecedor, enquanto seus chifres acumulavam mais um ataque de energia vermelho-sangue.

—Cero!? — Eu gritei, ao passo que Izaya e eu desviávamos do incrivelmente destrutivo ataque, que carbonizou tudo ao seu alcance. — O quão poderoso ele é?

—Não sei, mas nunca encontrei algo assim antes. Vamos precisar de reforço.

O Hollow de tamanho massivo não conseguia se movimentar sem destruir a paisagem ao nosso redor a cada passo e, ao ver que éramos mais rápidos que seu Cero, o ser proferiu as seguintes palavras:

Fiquem parados, Shinigamis. Vocês serão os próximos a serem consumidos.

Izaya, ao ouvir a voz assustadora do Hollow, se pôs à frente dele, segurando sua espada com ambas as mãos.

—Entendo. Então você irá nos consumir? Não me faça rir, verme. — Ao respondê-lo, Izaya liberou uma forte e quente onda de sua energia espiritual, que imediatamente fez evaporar a água de seu corpo e secar seus cabelos, que se movimentavam como se ventasse. — Beba o sangue, Kami no Ono! *Chi o nomi, Kamino Ono.

A Zanpakutō de Izaya era, conforme costumeiro em seu Esquadrão, baseada em combate físico. Sua espada se transformou em um enorme e pesado machado negro de corte duplo, com inscrições prateadas no metal, e um longo cabo de couro vermelho, que se amarrava às suas mãos.

Utilizando Shunpō, ele se colocou atrás do Hollow, e levantou os braços, se preparando para um golpe brutal direcionado à máscara branca. O monstro, no entanto, mais forte do que havíamos calculado, na impossibilidade de atingi-lo com o Cero, girou seu grande corpo, e o golpeou com um de seus braços pesados. Se não fosse novamente utilização do Shunpō, o Hollow teria feito um estrago muito maior do que apenas atingir a perna esquerda de Izaya.

—Izaya! — Eu gritei, correndo até ele. — Não seja imprudente! Você está bem?

—Ai… — Ele segurou sua perna, com um corte profundo na coxa, causado pela garra afiada do Hollow, que substituía sua mão. — Estou bem, não se preocupe.

—Mais um pouco e ele atingiria sua artéria. Agora não é a hora de atacar impensadamente! Vamos pensar em uma estratégia juntos, Izaya.

—Sim, senhora. — Ele riu, tentando disfarçar a dor do corte.

—Irei enfraquecê-lo e prendê-lo. Fique atento, esconda-se e o golpeie ao meu sinal. — Ele acenou positivamente.

Decidi me aproveitar da lentidão causada pelo tamanho massivo do Hollow, e corri ao seu redor, fazendo uso do Shunpō para confundir seus sentidos, enquanto sussurrava encantamentos para mim mesma. Velocidade nunca havia sido meu forte, e eu contava com Kidō, Zanjutsu e a boa e velha força bruta, na maioria das vezes. Mas, contra esse ser, limitado pela natureza em nossa volta, eu poderia ser considerada uma mestre do Shunpō.

Shinigami desgraçada, pare de uma vez!

Então, eu o fiz. Parei repentinamente, no ponto cego do monstro logo atrás de um de seus chifres.

—Bakudō nº 12: Fushibi!

Ha, patético. Outros Shinigamis tentaram esses truques inúteis contra mim, e foram rapidamente eliminados.

Eu sorri. Quando o Hollow se movimentou em minha direção, uma extensa rede emaranhada de energia espiritual se revelou ao redor dele, prendendo-o. Então, em um segundo movimento, eu desembainhei minha Zanpakutō, colocando-a horizontalmente ao ar. Com minha mão esquerda, fiz um movimento da empunhadura até a ponta da Zanpakutō, e proferi:

—Hadō nº 32: Ōkasen! — Uma orbe de energia amarela, com o diâmetro igual ao comprimento de minha espada, se formou em frente a ela, e se estendeu rápida e violentamente até meu alvo. Este, no entanto, não era o Hollow, mas, sim, a fina rede formada em torno dele.

Cada fio da rede se tornaria um condutor de energia, levando meu ataque em todos os pontos do Adjucha que estavam em contato com eles, da cabeça aos pés. Como um relâmpago, toda a rede de reiatsu se acendeu com o ataque, formando uma prisão eletrizante que deveria causar grande dano a ele.

Deveria.

O ataque apenas o atordoou tempo o suficiente para Izaya tentar mais um ataque a curta distância, sem que ele o percebesse. No entanto, enquanto ele o fazia, o Adjucha direcionou a mim um Cero que se formava lentamente, e ficava maior a cada segundo que se passava. Para desviar, utilizei o Shunpō, mas me surpreendi com a velocidade do ataque, uma vez liberado.

Apesar da lentidão para formar o Cero, ele foi atirado a mim dividido em inúmeras pequenas orbes de energia de alta rapidez e, conforme eu fugia, ele as direcionava com destreza em minha direção.

—Haiako! — Izaya gritou.

Mais uma vez, ao notar a presença de Izaya, o Hollow levantou seu braço, e eu, por impulso, me lancei a Izaya para retirá-lo do caminho do ataque, com tamanha força, que o solo sob meus pés se partiu.

Morram!

Enquanto estávamos acima dele, o monstro levantou sua cabeça, quase nos atingindo com seus chifres, e lançou mais um poderoso Cero. Este, no entanto, se formava mais rapidamente, e era maior e contínuo.

Pude jogar Izaya para longe com meu impulso, mas não consegui desviar. Quando o Cero atingiu meu braço esquerdo, previamente descoberto, o queimou superficialmente e, caso eu não tivesse sido rápida o suficiente, ele teria sido queimado por completo, inutilizando-o.

—Droga. Ele está sendo mais rápido do que eu consigo atacar.

—Está tudo bem. Eu não achei que ele fosse se desvencilhar tão rápido do meu Kidō. — Olhei para meu braço, que estava febril e avermelhado.

—Me perdoe… foi minha culpa. Não sei o que está acontecendo comigo. Eu fico pensando nele te machucando, e fico louco, perco totalmente o foco.

Mas eu sabia o que estava acontecendo. Aquele era um sério e perigoso efeito colateral de se estar apaixonado: imprudência e falta de clareza nos pensamentos. Se Izaya não se concentrasse, iria matar a nós dois. Não somente: eu também conseguia me sentir fora de foco lutando ao lado dele.

Mais uma vez, o Hollow liberou sua energia espiritual com uma violência que deixava claro sua intenção de nos matar, gritando como se as almas que havia consumido ao longo do milênio sofressem. Ao mesmo tempo, Tsuki e Saito surgiram atrás de nós, oferecendo apoio.

Venham, pequenos Shinigamis! Quanto mais, melhor. Vocês terão a honra de se tornar parte do Grand Executer.

—Executor? Agora tá explicado. — Izaya rosnou.

—Izaya-kun, Haiako-chan, vocês estão bem? — Tsuki nos perguntou, sem tirar os olhos do Hollow. — O que é esse ser inacreditável? Nunca senti uma reiatsu desse nível em um Hollow.

Izaya a respondeu, decepcionado consigo mesmo, ignorando o próprio ferimento e evitando me olhar nos olhos.

—A Haiako se machucou.

—Izaya-kun. — Saito o chamou, preocupada. — Precisamos cuidar de você. Venha, vamos curá-lo.

—Eu estou bem, droga. — Ele se levantou com pressa. — Vamos. Esse filho da puta não pode ganhar de todos nós.

Sérios e focados, nós quatro nos posicionamos, cada um em uma extremidade diferente da clareira que o Adjucha havia formado na mata com seus movimentos bruscos. Agora, havia espaço o suficiente para que o Hollow se movimentasse com liberdade, e nós percebemos: ele não era nem um pouco lento. E estava furioso.

Com uma série de ataques coordenados, e sendo atingidos pela força bruta daquele ser, golpe após golpe, Tsuki e Saito estavam perdendo rapidamente a energia, sem que o Hollow sofresse um corte sequer de suas espadas.

Izaya, por sua vez, havia mudado completamente a forma de lutar, e evitava a todo custo olhar para mim. Ele sabia que, caso se preocupasse comigo, iria falhar. Percebi que o Hollow não era apenas forte mas, também, altamente inteligente. Cada um de seus ataques era pensado para atingir nossas principais fraquezas em batalha.

A situação estava ficando cada vez mais séria e exaustiva.

Então, Tsuki disse:

—Haiako, me cubra! Tá na hora.

Me posicionando à frente dela, tomei uma posição de defesa, segurando minha Zanpakutō direcionada ao nosso inimigo com ambas as mãos.

—Escureça os céus, Shingetsu. *Sora o Kuraku Suru, Shingetsu!

Conforme Tsuki liberava sua Zanpakutō e chamava a atenção do Grand Executer para si, Saito, que ainda não possuía uma Zanpakutō, apenas sua Asauchi, utilizava seus conhecimentos em Kaidō para fechar os ferimentos na coxa de Izaya.

—Agora sim, eu vou acabar com esse merda. — Ele disse, enquanto esticava sua perna e pisava no chão com força para testar seus movimentos.

A Zanpakutō de Tsuki em seu formato Shikai era traiçoeira. A lâmina de sua espada desapareceu no ar como uma névoa negra e, então, Tsuki passou a controlar aquela névoa volátil e escura com as próprias mãos, direcionando-a ao monstro.

Quando o Hollow foi atingido por seu poder, sua visão foi roubada de si. Essa habilidade da Shingetsu: roubar, temporariamente, a visão de seus oponentes, tornando-os vulneráveis a ataques físicos. Era a chance de Soichiro e eu o atingirmos.

Furioso, Izaya finalmente encontrou sua oportunidade de ataque. Girando seu machado em ambas as mãos, ele caminhou até o inimigo, e desferiu, com toda a força de seus braços, um poderoso golpe contra o Grand Executer, que foi capaz de penetrar o braço do monstro até a metade, e tremer o chão sob nós. Então, utilizando seus pés, empurrou o braço golpeado para que conseguisse desprender sua Zanpakutō da profunda ferida.

Aquele foi o primeiro golpe bem sucedido e, como esperado, o Grand Executer enlouqueceu de ódio. No momento em que ele se afastou, foi a minha chance. Pelo chão, e segurando minha espada com ambas as mãos, pude desferir um profundo corte em sua perna, forçando-a a se ajoelhar.

Nossa comemoração, no entanto, não durou um segundo sequer. Esticando seu braço atingido, ao liberar sua reiatsu, seu ferimento se curou com velocidade impressionante. Então, ele se levantou, e foi a vez de sua perna se recuperar. Aos gritos, ele disse:

Devolva a minha visão, sua vagabunda!

—Não é possível, ele tem cura acelerada?! — Tsuki gritou.

—Caralho… está ficando cada vez mais difícil. — Izaya rebateu, e tomou a decisão de realizar uma série de ataques, confiando em sua velocidade e força. Como se sua garra fosse uma espada, o Grand Executer bloqueava os ataques do machado de Izaya, que se movimentava em direções aleatórias, tentando acertá-lo e driblar sua ausência de visão.

Alguns golpes o atingiram de forma certeira, gerando diversos cortes em seu braço e garras, mas Izaya não conseguia sequer chegar perto da máscara da criatura. Então, impaciente, em um movimento rápido de força bruta, o Hollow o golpeou ainda no ar com o braço oposto, atingindo sua costela e abdômen com força inimaginável, lançando-o à distância e arrancando sangue e bile de sua boca. — Argh!

Tsuki, por sua vez, era a mais rápida de nós e, após atacar Izaya, o Adjucha utilizou de seu Cero subdivido em tiros menores e mais rápidos para persegui-la, guiando-se apenas pela reiatsu da mulher. Era incrível a inteligência e experiência daquele ser. Por mais que ela tentasse fugir pelo ar, alguns dos tiros atingiram suas costas e ombros, derrubando-a ao chão sem que ela pudesse controlar a queda.

Para que Saito não se machucasse tentando curá-los, uma vez que era ela a mais vulnerável do grupo, eu foquei em tirá-la dali, antes que fosse golpeada e, possivelmente, morta. Então, a levei para o local onde Izaya havia sido lançado, enquanto Tsuki nos seguia, cobrindo a retaguarda.

—Saito, reporte à Soul Society e volte com Izaya e Tsuki.

—Sim, agora! — Saito utilizou o telefone-celular em seu bolso, o qual possuía a insígnia do 2º Esquadrão, para reportar o incidente ao Departamento de Pesquisa 12ª Divisão. Ao solicitar a abertura do Senkaimon, recebeu uma resposta negativa.

—Kiyomi Saito… repita… inconsistência… qual… localização…

—Não consigo ouvi-los!

Com Izaya e Tsuki feridos, eu precisava agir rapidamente, e ganhar tempo para Saito.

—Fique aqui com eles, cure seus ferimentos, e eu irei cuidar disso.

—Não! Haiako… você não vai enfrentar aquele monstro… sozinha… — Se esforçando para falar, Izaya cuspia seu próprio sangue no chão.

—Ele está sangrando internamente. A pancada foi forte demais. Tsuki, aguente um pouco mais, preciso cuidar do Izaya.

—Eu estou bem… ai… mas acho que quebrei o ombro. Não consigo levantar o braço, Haiako-chan. — Ela respondeu.

Olhando para aquele homem que, mesmo gravemente ferido, se preocupava tanto comigo, eu dei sorriso de canto de boca, com os lábios fechados e apertados. Então, me aproximei e me ajoelhei para falar diretamente com ele. Seus lábios escorriam sangue.

—Não se preocupe comigo. Eu preciso que vocês estejam distantes para lutar com seriedade.

Ele segurou minhas bochechas com uma das mãos, e as apertou.

—Sempre tão convencida. — Eu ri de seu comentário sarcástico.

—Vamos fazer assim: depois que eu matar esse monstro… você pode me mostrar o que está escondido no seu bolso.

—Haha. Combinado! Mas ainda não quero que você vá sozinha, Haiako. Você também está sendo imprudente.

—Eu preciso fazer isso. Tsuki, devolva a visão do Hollow. Preciso que ele foque em me ver para que eu possa atacá-lo espiritualmente. Esse é um Hollow altamente inteligente e habituado a lutar contra Shinigamis. — Com um aceno afirmativo de Tsuki, eu beijei rapidamente a testa de Izaya, antes de usar Shunpō para me afastar de meus parceiros.

—Haiako, espere! — Antes que pudesse protestar mais, Izaya colocou a mão sobre seu abdômen, sentindo os efeitos do golpe que havia levado.

Com o Shunpō, eu voltei sozinha para o local onde o Grand Executer estava nos procurando, enfurecido, com sua visão voltando aos poucos.

No fundo, meu sentimento de insegurança aumentava. Meus Kidōs estavam sendo, em termos de danos, pouco eficazes, e os que eu utilizava para prendê-lo nos ganhavam apenas poucos segundos.

E então, eu ouvi aquela voz. A voz daquela serpente.

Você sabe… está chegando a hora.

Sim… eu sei”, pensei comigo mesma.

Eu sabia que a luta deveria ser reduzida entre o Grand Executer e eu. Eu sabia que seu corpo já estava habituado aos Kidōs comuns, mas eu não poderia utilizar as habilidades que eu queria com os três por perto. Sim, eu sabia que deveria usar… ela. Mas não queria aceitar. O risco era grande demais.

Então, tracei a melhor estratégia que pude no momento, com as mãos trêmulas, imaginando meus colegas feridos.

Segurando minha Zanpakutō com a mão direita, me coloquei em posição de combate, e permaneci fria. Finalmente, como se minha própria reiatsu estivesse engasgada, eu me concentrei nos próximos ataques.

Agora, era a minha vez.

A chuva ao meu redor evaporava ao entrar em contato com minha pele. Minha reiatsu era densa, azul e quente, e as folhas secas sob meus pés levitavam com a frequência que a energia espiritual emitia.

Hahaha! Você acha que é capaz de me enfrentar sozinha?

Ignorando suas provocações, utilizei Shunpō para me distribuir repetidamente em diversos pontos ao redor da cabeça do monstro. Aquele movimento era arriscado, por estar tão próximo de seus chifres, origem de seus poderosos Ceros, mas o risco era uma via de mão dupla. Se ele tentasse me atacar com eles, teria de parar de se mover.

Enquanto aparecia em diversos pontos, me colocando no limite de minha própria velocidade, eu realizei diversos encantos de Hadō, disparando-os um em seguida do outro.

O Grand Executer, atingido por uma combinação de kidōs, não teve escolha a não ser recuar alguns passos para trás. O primeiro, Raitō, foi uma lâmina formada por um relâmpago de energia que surgiu quando bati minhas mãos no ar em minha frente. O efeito garantiu um corte profundo em sua máscara, mas não o suficiente para partí-la.

Em seguida, Haien. Esse hadō foi lançado a partir do movimento de cortar o ar com minha Zanpakutō, o qual gerou um ataque de energia roxa vibrante que, ao entrar em contato com um dos chifres do Adjucha, o dilacerou por completo. Agora, sim, a gente estava conversando.

Com a distância de meus três amigos, eu conseguia me concentrar melhor em atingi-lo com poderes verdadeiramente destrutivos.

Coloquei minha Zanpakutō em minhas duas mãos esticadas e abertas, segurando-a pelos polegares, e deixei minha reiatsu fluir livremente. Aquela desconhecida e incontrolável energia espiritual, de cor escura e aspecto denso que há tanto tempo escondi, saía de meus pulsos e fluía em direção ao chão.

O que… é isso?

—Hadō nº 73… Sōren Sōkatsui. — Os kidōs de nível maior eram poderosos por si só mas, com um conjurador experiente e mais forte, se tornavam ainda mais mortais. Uma esfera azul-clara e vibrante de energia espiritual se formou, irrompendo o ar como uma chama azul devastadora. Ao atingir a criatura, todo o seu corpo incendiou com aquele ataque, e mais uma vez seu grito de ódio pode ser ouvido a quilômetros de distância, assim como os trovões no céu.

Por fim, antes que ele pudesse reagir, utilizei minha carta na manga. O ataque que ninguém poderia presenciar. Um Kidō poderoso e destrutivo que eu havia aprendido… há muitos anos. Sabia que o tempo me permitiria utilizar apenas sua versão sem encantamento, e não sabia se conseguiria alcançar o dano que pretendia, por nunca tê-lo usado antes… Mas o que é da teoria se não a testarmos na prática, não é mesmo?

Levantando meus dedos indicador e médio, coloquei meus pés ao chão, e olhei nos olhos do monstro, que tentava se recuperar de meus ataques em sequência.

—Hadō nº 90… — Direcionei toda a minha energia espiritual àquele próximo ataque, o qual eu sabia que sugaria muito de mim. Nunca poderia utilizá-lo perto de meus parceiros, então essa era minha única chance de enfraquecer de vez aquela criatura e, finalmente, matá-la. — Kurohitsu…

No segundo em que comecei a dizer as palavras, o rosto daquele homem veio em minha mente, me desorientando momentaneamente.

Então…

Sem conseguir proferir o kidō, tudo escureceu.

Senti a garra afiada daquele ser penetrando pelo meu esterno, quebrando meus ossos e me empalando em um único movimento. Um segundo de distração havia sido mais que suficiente.

O gosto de sangue preencheu minha boca e, ainda empalada, sentindo uma dor aguda e venenosa, ele me jogou. Sem conseguir me reerguer, tamanha a força com a qual fui lançada, atravessei árvore após árvore, incontáveis vezes, partindo-as ao meio e quebrando meu ossos dos braços e costelas no caminho, batendo a cabeça diversas vezes.

Qualquer outro Shinigami teria morrido.

Caída ao chão, coloquei a mão sobre minha costela, e senti meus ossos partidos em incontáveis fragmentos. O sangue escorria pela minha boca e pela minha testa, mas a dor já não mais me incomodava. Eu estava anestesiada.

Com minha visão turva, vi o rosto sorridente de Soichiro Izaya em minha frente. Como seria uma vida ao lado de um homem que me amava tanto? Eu precisava… viver essa vida.

Foi quando, novamente, ouvi aquela voz.

Você irá perdê-los, se continuar me ignorando. Vamos, minha amada. Deixe-me me divertir.

Antes que eu pudesse pensar em uma resposta, o Grand Executer chegou até mim, com seus passos imponentes.

Entendo. Você realmente é diferente dos outros insetos que já enfrentei. Achou que pudesse afastar seus amigos de mim e me enfrentar sozinha? Ha… ha… ha… vou tirá-los de você. Um. Por. Um.

Quase imponente, observei a enorme criatura ir em direção aos três, que já não estavam mais longe de nós, uma vez que eu havia sido lançada próximo a eles. E assim, ele o fez, os golpeou um a um, enquanto ainda se recuperavam.

Olhando para o rastro de destruição em minha frente, eu sentia a textura das folhas mortas e do chão encharcado abaixo de minhas mãos. As gotas da água pareciam se mover em câmera lenta, e caíam em frente aos meus olhos vagarosamente.

Então, uma pequena borboleta negra entrou no meu campo de visão. Suas asas pretas possuíam alguns pequenos detalhes fúcsia, e eu imediatamente a reconheci por ser uma borboleta infernal. Um detalhe também chamou minha atenção de forma inesquecível: uma de suas asas estava partida, como se estivesse rasgada. O que ela estava fazendo ali, batendo suas imperfeitas asas tão lentamente?

Ela pousou em minha mão, que estava próxima ao meu rosto no chão, e ali ficou imóvel, como se olhasse para mim. A pequena borboleta parou suas asas, e eu senti como se o tempo também houvesse parado.

Uma voz masculina grave e quente chegou em meus ouvidos. Uma voz a qual eu reconheceria mesmo que uma eternidade se passasse. Talvez eu estivesse alucinando pela perda de sangue e energia espiritual, mas eu o ouvi. Aizen Sōsuke e sua voz inconfundível.

Eu te ensinei melhor que isso, Flor.

Seguida daquela voz, um grito agudo me tirou de meu transe.

Era Tsuki.

Como se aquela voz tivesse me dado o impulso que eu precisava, eu reuni minhas forças restantes, lutando contra a necessidade do meu corpo de se deitar e desligar por completo, e me levantei, utilizando minha espada de apoio. Meus braços e pernas estavam trêmulos e, ainda assim, eu corri, deixando um rastro de sangue pelo meu caminho.

Ao chegar próximo a Tsuki, Izaya e Saito, o monstro os surpreendeu. Tsuki permanecia encostada no tronco de uma árvore, enquanto Saito fazia o seu melhor para curar os sérios ferimentos de Soichiro, esforçando-se ao seu limite.

Os próximos detalhes… são dolorosos demais.

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The devil whispers in my ears: it's time for your curtain call.

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Apenas sei que, quando o Grand Executer os alcançou, Tsuki foi a primeira a reagir. Mas seu estado era enfraquecido e, antes que pudesse defender seus companheiros, a fera desferiu um ataque com sua afiada garra. Ao tentar bloquear aquele golpe, a espada de Tsuki se partiu ao meio, permitindo que ela fosse acertada em seu estômago, tendo seu abdômen perfurado pela garra do Hollow. A força e natureza do ataque a deixou desacordada.

—Tsuki! — Saito gritou em desespero.

Em seguida, ele se virou satisfeito para Saito e Izaya. Este, mesmo ferido, segurou a mais jovem com toda a sua força em seus braços para protegê-la, colocando seu corpo de lado, à frente dela.

—Soichiro-kun…

—Cala a boca, Saito. Não tem a menor possibilidade de eu deixar esse cara te acertar. — Então, com Saito em um braço, e sua Zanpakutō na outra mão, Izaya liberou uma última vez sua reiatsu para o ataque final. Seu machado se separou de seu cabo, caindo ao chão, sendo unido a ele por uma grande corrente.

Girando aquela corrente em uma velocidade tão grande que ela desaparecia dos olhos, ele lançou seu machado ao monstro, que preparava seu Cero. Enrolando-se ao pescoço do Hollow, a corrente acendia com a energia espiritual vermelha de Soichiro, prendendo e enforcando com violência a criatura. Assim, a ponta de seu machado, por meio do impulso da rotação da corrente, cravou a máscara do Grand Executer.

Mas ele não se abalou, e retirou o machado cravado em sua máscara, liberando uma enorme quantidade de energia espiritual que obrigou Soichiro a se ajoelhar. Era como se nossos ataques fossem absorvidos por ele.

Isso… me entretenha. Quanto mais você tenta, mais forte eu fico. Isso!

Conectados pela corrente da Zanpakutō liberada de Soichiro, o Hollow a puxou para cima, fazendo com que Izaya tivesse seu corpo suspenso, e congelado pela energia espiritual esmagadora. Mas ele não o atacou.

Em vez disso, se virou para Saito, que segurava sua Asauchi, e proferia um encantamento para atingi-lo.

—Ó, Lorde, Máscara de carne e sangue, toda criação, agitação das asas, tu que usas o nome de Homem! Chama ardente e guerra turbulenta, separa os oceanos, se eleva e cai, caminha em frente em direção ao sul! Hadō nº 31, Shakka —

—Idiota! Só isso não vai…

Um golpe. Foi tudo o que precisou.

O Hollow, enquanto suspendia Izaya no ar, utilizou seu pé para chutá-la com a mesma força que havia me atacado anteriormente. Mas Saito não era como eu. Ela era mais frágil e, ainda que excelente em encantamentos de cura, precisava melhorar suas habilidades de ataque e defesa. Contra um inimigo comum, ela certamente sairia bem.

Mas aquele golpe…

Apenas tive tempo de sentir sua energia espiritual desaparecer no ar.

Kiyomi Saito… eu sinto tanto… não consegui chegar a tempo, minha amiga…

Soichiro gritou em protesto, mas seu grito foi rapidamente interrompido pelo grande Cero do Grand Executer, que o atingiu por completo, formando queimaduras por seu corpo.

—Izaya! — Eu gritei, ao chegar tarde demais. — Grand Executer, não é mesmo? — Eu chamei sua atenção, por trás.

—Haiako… idiota! — Izaya disse, fraco e com a voz rouca, arrastando-se pelo chão, surpreso em me ver de pé com o buraco em meu peito. — Vá embora!

—Não se mova! — Eu respondi. Se você se mexer, não poderei salvá-lo disso.

Huh? Como você ainda consegue ficar de pé? Hi… hi… hi… Divertido, Shinigami. Você vai ser a mais saborosa. Me permita lhe dar a honra de uma luta séria. Você terá uma morte digna.

—Isso não será uma luta justa. — Observando o corpo morto de Saito, Tsuki desacordada e com ferimentos sérios e… a forma que Izaya estava lutando por sua vida… me senti como se estivesse tendo uma experiência fora do corpo, e quase consegui ver minha própria expressão. O ódio tomou conta dos meus sentidos e, mais que isso: um estranho sentimento se apossou de mim. A euforia de um inimigo digno.

Finalmente! - A serpente se alegrou.

—Basseyo…. ■. *Puna-os, ■. — Eu sussurrei, como se estivesse dizendo algo secreto. Mesmo em minha memória, ainda não consigo dizer o nome dela. É como se eu o conhecesse, mas ele se sufoca ao chegar em meus lábios e mente.

Minha reiatsu se tornou esmagadora. Mesmo estando desacordada, eu conseguia sentir que o corpo de Tsuki estava lutando contra o peso do meu poder. Izaya olhava para mim com uma expressão assustada, enquanto seu corpo se prendia ao chão, impossibilitado de se mover.

Huh?! O que é isso?

—Observe, Grand Executer… Isso é a diferença entre nós.

Minha lâmina foi tomada por uma cor negra, como fuligem. Toda a Zanpakutō emanava uma energia escura e macabra que envolvia minhas mãos.

Em minha frente, aquela borboleta infernal com suas asas partidas voava lentamente, fazendo com que o tempo em si também passasse vagarosamente. Eu podia saborear cada segundo, e sabia, também, que todos ali sentiam o mesmo. Segundos virariam uma eternidade para Izaya, mas eu estava em transe e perdida demais para perceber seu sofrimento.

Minha velocidade aumentou. Pude me movimentar de forma que me tornava quase invisível aos olhos do grande monstro, e desferi múltiplos ataques por todo o seu corpo com minha lâmina negra. Cada corte, mais profundo e poderoso que o anterior. Eu não estava focando em acertar sua máscara. Apenas queria machucá-lo.

Eu já disse! Seus ataques não surtem efei—...

—Calado.

O Hollow, que antes utilizava de cura acelerada, percebeu que, agora, seus cortes sangravam ininterruptamente. Ao liberar sua reiatsu para tentar fechá-los, esta saía de seus ferimentos, como se estivesse sendo roubada. Não… ela estava sendo roubada. Quanto mais ele tentava se curar, mais energia espiritual saía de seus cortes em formato de sangue.

O que significa isso, sua maldita?

—Esse… é o meu veneno.

O monstro desferia ataques subsequentes em minha direção, mas nem suas mãos, garras, e Ceros, conseguiam me atingir. Pouco a pouco, eles foram enfraquecendo e, mesmo seu Cero, agora era menos potente e brilhante. Então, o Hollow se ajoelhou, com seu corpo trêmulo, envolto pela poça de seu próprio sangue, que jorrava e espirrava em minha pele. Ao mesmo tempo, meus próprios ferimentos se curavam.

Não. Não! Devolva o meu poder! Eu não irei perder para você!

—Não, huh? — Minha risada ecoou por toda a floresta escura. — Achei que você seria mais divertido. Mas já me cansei.

Acabe com ele. Esse inseto não durou nada. — A voz masculina e sarcástica de minha Zanpakutō demonstrou seu súbito desinteresse em continuar a luta.

Utilizei minha reiatsu como degraus de uma escada negra para elevar meu corpo até a altura do Hollow e, segurando minha lâmina com uma única mão, levantei-a aos céus.

—É sua vez… de ser executado.

Não! Eu não quero morrer aqui! Por favor, me deixe-

Interrompendo sua súplica, desferi meu último golpe, que cortou sua máscara ao meio. Ele havia sido derrotado, finalmente. Mas o custo havia sido alto demais.

Conforme seu corpo desaparecia, eu recuperava meus sentidos. Enfim, pude enxergar Soichiro Izaya, lutando para respirar. Meu poder não havia roubado o sangue e reiatsu apenas do Hollow.

Os ferimentos de meu querido parceiro, mesmo aqueles que já estavam sendo curados por Saito, estavam abertos e sangrando, e eu sentia sua energia espiritual escapar sem controle. Me desesperei, e corri para alcançá-lo. Mas, novamente… era tarde demais.

—H-Haiako…

—Não! Izaya… me perdoe!

Ele tentou sorrir para mim.

—Acho que… — Mais sangue saiu de seus lábios. — finalmente descobrimos… quem de nós venceria…

—Pare! Não fale! Eu vou te levar para a Capitã Unohana. — Segurei minha Zanpakutō e perfurei o ar. — Destrancar! — Os portões para a Soul Society se abriram em minha frente mas, antes que eu pudesse carregar o corpo de Izaya, ele segurou minha mão com a única força restante em seu corpo.

—Haiako… acabou pra mim. — Ele alcançou seu bolso, e retirou um fino e brilhante colar de prata com um pequeno medalhão. — Eu queria… te dar isso… e pedir que você se casasse comigo.

—Izaya! Por favor! — As lágrimas rolavam pelo meu rosto. — Não faça isso comigo!

—Pega… — Eu segurei sua mão e o colar junto ao meu peito. — Você ainda pode salvar a Tsuki… — Entre as palavras, ele tossia e cuspia sangue, esforçando-se ao máximo para conseguir dizer pouco. — Por favor… avise a minha mãe… que eu não poderei voltar para casa.

Eu sabia que ele estava certo. Izaya não chegaria vivo à Soul Society passando pelo Dangai. Tsuki, por sua vez, estava fraca, mas já mostrava sinais de melhora, acordando aos poucos.

—Eu amo você… e deveria ter… dito antes.

Eu suspirei. Não tive mais tempo para me desesperar. Izaya morreria. Agora era hora de me despedir. Por isso, só por isso… eu o respondi, enquanto minhas lágrimas se secavam.

—Eu te amo... — E segurei seu rosto, beijando sua testa.

Izaya morreu em meu colo, com seu rosto deitado em minhas pernas, e sorrindo para mim. Aquele sorriso, eternamente congelado pela morte, nunca mais saiu da minha mente.+

Quando retornamos à Soul Society, a equipe de resgate da 2ª Divisão estava pronta para nos encontrar. Foi quando Tsuki e eu percebemos que, por mais que aquela luta parecesse ter durado uma eternidade, tudo ocorreu em menos de uma hora. Uma hora foi o suficiente para mudar nossas vidas por completo.

Todos se surpreenderam ao nos ver, cobertas de sangue e com as roupas rasgadas. Tsuki foi urgentemente levada ao 4º Esquadrão mas, ao me examinarem, viram que meu corpo estava sem quaisquer ferimentos.

Nós fomos recebidas com honra por termos derrotado um inimigo tão poderoso, e as mortes de Izaya e Saito nunca foram questionadas. Um milênio de desaparecimento de Shinigamis e humanos havia sido explicado pela aparição daquele Hollow que havia criado a habilidade de esconder sua energia espiritual e absorver os poderes de seus inimigos, se tornando mais forte a cada ser que ele consumia.

Dias depois, ao me apresentar aos capitães para relatar o ocorrido, e responder quaisquer perguntas que eles tivessem, senti o olhar curioso do novo Capitão do 5º Esquadrão Aizen Sōsuke pairar sobre mim. Desnecessário dizer que evitei a todo custo sequer olhar em sua direção.

Quanto a minha posição de Tenente na Divisão 2… ela estava garantida. Mas eu neguei. Retornei ao 1º Esquadrão e revelei a verdade à única pessoa que eu sabia poder confiar.

—Entendo… então esse é o poder de sua Zanpakutō. — O Velho Yamamoto encarava o pôr do sol da Seireitei ao meu lado, com uma expressão distante e pensativa, segurando seu cajado com ambas as mãos. Suas sobrancelhas franzidas evidenciaram as cicatrizes em formato de cruz em sua testa.

—Sim… minha Zanpakutō garantiu que eu vencesse a batalha… Mas o custo foi alto demais.

—Eu posso lhe ajudar a controlar suas habilidades. Um dia, você será uma grande Capitã, se souber o caminho correto. Você alcançou a Bankai?

—Ainda não, senhor. — Aquela pequena mentira era necessária para me manter segura em meu posto. Eu tomei a decisão de nunca sequer almejar o cargo de Capitão. Ainda assim, conquistei a confiança e respeito do Capitão Geral, que me ajudou a manter minhas verdadeiras habilidades em segredo.

As mortes de Izaya e Saito haviam sido dolorosas demais para mim, e eu nunca consegui revelar todos os detalhes a Tsuki. Eu sei que ela sempre me ressentiu por isso, mas teve medo de me perguntar a verdade.

Por isso… eu me afastei. Ignorei seu luto, pois sabia que, se não rompesse nossos laços, ela poderia ser a próxima.

E, com o tempo, apaguei os resquícios da existência daqueles dois de minha vida. Nunca sequer dizia seus nomes e, mais que isso: nunca mais me abri a possibilidade de amar outra pessoa.

Eu me odiava pelo que havia feito. Me perdi na batalha, e não pude salvá-los. Se dependesse de mim… seus nomes morreriam comigo. Mas eu os via constantemente. No meu reflexo no espelho, conseguia ver seus olhares melancólicos, decepcionados. E o sorriso de Izaya… mantinha minha ferida eternamente aberta.

Tsuki estava certa, afinal. Era realmente o início do fim.

O buraco em meu peito, assim como todos os outros ferimentos que sofri, não havia deixado cicatrizes, mas eu precisava me lembrar. Lembrar do que eu havia feito.

Então, eu gravei permanentemente aquela serpente em minha pele.

Um pequeno lembrete de quem eu era de verdade.

+

*Nota: a história oficial do mangá de Bleach se inicia em 2001. 101 anos antes, no incidente Hollow de Hirako Shinji e seus companheiros, o Japão se encontrava no final do século XIX, na Era Meiji. Essa história do passado de Haiako se passa poucos anos após Hirako e os demais se esconderem no Mundo dos Vivos, junto a Shihōin Yoruichi e Urahara Kisuke; e Aizen se tornar capitão (o que, nessa Fanfiction, ocorreu logo em seguida a este evento). Por isso, ainda estamos ambientados naquele período.


Notas finais
Obrigada pela leitura! Agora sim, continuaremos nossa história. Até a próxima!