Objeto Perdido
30 Capítulo vinte e nove
Notas iniciais
Não há sonho para ser lembrado, não lembro de mais nada, apenas de adormecer nos braços de Jessie, o que para mim já não é novidade. Minha cabeça dói ao despertar, olho ao redor e a princípio não consigo compreender onde estou, está tudo muito estranho, silencioso, a luz do Sol entra pela janela e eu lentamente consigo me encontrar. Sento-me no sofá da sala, fazendo minha cabeça protestar com tal ato. Fecho os olhos e respiro fundo, procurando encontrar o equilíbrio necessário em meu interior para conseguir me colocar de pé. Ainda sinto o leve frescor do perfume de Jessie pelo ar, sei que não fora um sonho, nada nunca é apenas um sonho tratando-se dele.
Lentamente, coloco-me de pé, uma tontura muito forte invade meu ser, mas sei que são apenas vestígios do álcool ingerido na noite passada. Consigo dar um passo à frente, e uma cena completamente inesperada, horrenda e devastadora invade meu campo de visão. O corpo de Dan está jogado ao chão no pé da escada, sangue escorre por sua cabeça, seus olhos encontram-se fechados, meu coração dói, não pode ser que isso esteja acontecendo. Rapidamente, cambaleando sobre as coisas, tropeçando, chego até seu corpo e me ajoelho ao seu lado. Procuro algum sinal de vida em seu pulso, mas é completamente em vão. Não quero acreditar nisso, por favor, não posso perder o melhor padrasto de todos, meu pai... Por favor, não!
Lágrimas escorrem sem parar por meu rosto, um grito de socorro prende-se em meu peito, mas eu preciso entender o que aconteceu, preciso saber se tudo isso é real. Onde está Jessie? Eu preciso dele nesse exato momento. Sim, sempre fui completamente contra o uso de seus poderes, mas se com eles eu conseguirei salvar a vida de Dan, então eu os quero, quero Jessie ao meu lado, eu preciso, não conseguirei suportar sozinha. Noto um machucado profundo bem ao meio da cabeça de Dan, provavelmente o causador da hemorragia que o matara. Olho para cima, diretamente para o primeiro degrau da escada, uma mancha vermelha tinge uma boa parte do corrimão, um vermelho sangue, o sangue de meu pai. Respiro fundo inúmeras vezes, preciso ter um tempo para pensar, não consigo acreditar no que está em minha frente, se é algum tipo de tortura de Alan, imploro para que pare, por favor. Abraço seu corpo já sem vida, e vejo-me novamente na mesma situação de que estive dias antes, com Cora. Vendo uma das pessoas que mais amo morrer em meus braços, sem poder fazer nada para mudar tal realidade.
Noto um pequeno pedaço de papel saindo pelo bolso de Dan, tal coisa me chama a atenção. O pego e desdobro, curiosa. “Não diga que dessa vez eu não consegui. Com amor, Alan.”
Sinto uma espécie de raiva se apoderar de todo meu ser, ódio misturando-se a uma intensa tristeza. Meu corpo dói, tudo gira ao meu redor. Como isso aconteceu? Onde está Jessie? Como explicarei isso para minha mãe? Não aguento mais, não dá, é muito para mim, não consigo compreender o porquê de tudo acontecer ao mesmo tempo. É tudo culpa desse anel idiota, esse insignificante objeto destruiu tudo em minha vida. Levanto-me e subo lentamente cada degrau da escada, pensando em algo plausível para contar à minha mãe, mas nada parece explicar uma coisa tão inesperada, nada parece diminuir a dor que sinto. Não, não conseguirei suportar tudo isso. Por favor, que seja apenas mais um pesadelo, por favor...
Ao chegar no corredor, ouço uma porta se abrir, mas não me importo, não me recomponho, deixo-me ser levada pelas lágrimas e soluços, não há como fugir de tal realidade.
– Mel, está tudo bem?! – Erick perguntar, um tom preocupado em sua voz, caminhando diretamente em minha direção. Eu não consigo proferir nem ao menos uma palavra, apenas o abraço o mais forte que consigo e deixo-me guiar pelas lágrimas, os gritos sufocados se desprendem de minha garganta, procuro fazer com que a dor saia, mesmo sabendo que tudo é completamente em vão. – Você está me deixando muito preocupado, Melanie. – Erick solta-se do meu abraço e segura fortemente minhas mãos. – Isso na sua mão é sangue?
– O Dan, Erick... – é só o que consigo dizer antes de voltar a desabar em lágrimas. Não suporto mais tal realidade. Quando isso vai acabar?
– O que aconteceu, Mel?!? – Erick se mostra cada vez mais preocupado e aflito. Eu apenas o seguro pela mão e o puxo até a escada, a imagem falando por mim. Parada ao seu lado, não preciso olhá-lo no rosto para saber que as lágrimas começam a rolar por sua face. – Como...?
– Eu não sei, Erick. – digo, entre um soluço e outro. – Mas as marcas no corrimão e na escada mostram que foi uma queda na escada, hemorragia, não sei... – termino de dizer, abraçando-o com toda minha força. Um abraço retribuído. Em minha mente, em meio a um turbilhão de pensamentos, não consigo entender o porquê de Jessie não estar aqui.
– Melanie? – ouço alguém chamando-me no corredor. Minha mãe. – Ouvi você chorar, está tudo bem filh... – ela não termina de falar. Não há palavras para descrever o sofrimento contido em seus olhos, em suas lágrimas, no seu ato de sair correndo em direção ao corpo e jogar-se sobre ele, completamente em prantos. Seus gritos de dor invadem meus ouvidos e causa-me mais dor, me faz querer morrer no exato momento, morrer no lugar de Dan, levar aquela facada no lugar de Cora. Afinal, Alan nunca esteve errado, é tudo culpa minha, eles estão sofrendo por minha culpa. Não demora muito para Julie e Elena se juntarem na cena mais triste de toda minha história. Sinto-me sufocar, preciso ficar sozinha, eu não suporto essa realidade.
– Onde você vai, Melanie? – pergunta Erick, ao me desprender de seu abraço.
– Por favor, deixe-me ficar um pouco sozinha, eu imploro. – respondo completamente em prantos. – Desculpa, eu não consigo suportar isso. – dizendo essas palavras, corro em direção ao meu quarto, deixando todos para trás, para a segurança deles.
Tranco a porta e jogo-me na cama, colocando o travesseiro em meu rosto e gritando o mais alto que posso, na tentativa frustrada de fazer tudo ir embora. Um filme de cada momento que passei com Dan começa a passar em minha mente, dos momentos em que eu não gostava dele, até o modo como ele me conquistou completamente com seu jeito menino de ser, sempre tão sorridente, fazendo as piadas mais bobas apenas para me fazer sorrir. Porque Dan? Porque??? Eu simplesmente não consigo achar um motivo para isso. Quer dizer, agora faz completamente sentido a razão pela qual Alan veio nos visitar na noite anterior. Porém, Cora e Dan não tiveram nada, absolutamente nada a ver com toda essa história de anel, se alguém tinha que morrer, ou ser esfaqueada, esse alguém seria eu, mais ninguém.
O modo inconstante da vida é algo muito curioso, pois em um dia temos tudo, no outro, há apenas lembranças e tudo está completamente virado de cabeça para baixo. Sento-me na cama, ainda sem conseguir cessar minhas lágrimas, pego o anel em uma das minhas gavetas e olho diretamente para aquela imensa pedra azul, a memória dos olhos de Jessie me invadem. Sinto-me tão completamente sozinha, como se tudo dentro de mim acabasse de ser tirado. Sim, amo Jessie, o amo de verdade, não é apenas uma ilusão de minha mente, ou o poder desse objeto idiota, mas amo ainda mais minha família, meus amigos, e não posso deixar que isso aconteça, eu preciso fazer alguma coisa.
Completamente decidida de desistir dessa missão, jogo o objeto ao longe e volto a gritar com o travesseiro abafando meu rosto. Como tudo será agora? Como viver em um mundo em que não existe Dan? O que será de minha mãe?
– Melanie... – ouço um leve sussurro e um toque em minha perna. Não é necessário olhar para reconhecer o dono de tal voz, de tal toque.
– Tarde demais para aparecer, não acha? – digo de modo egoísta, porém, completamente tomada pela raiva e tristeza.
– Eu sei que é tarde demais... – Jessie sussurra mais uma vez, retirando o travesseiro do meu rosto. – Mas dessa vez eu não pude fazer nada, por favor, me perdoa. – olho diretamente para seu rosto e vejo um grande machucado em sua testa, assim como em suas mãos, seus lábios.
– O que houve? – lentamente, toda a irritabilidade dá lugar a uma preocupação sem tamanho. Como você é egoísta, Melanie, nem para pensar que algo poderia ter acontecido com ele.
– Eu fiquei um tempo desacordado, aconteceram algumas coisas que me levaram a isso. – ele aponta para o machucado em sua testa. – O autor disso me contou o que aconteceu com Dan. Eu sinto muitíssimo, de todo meu coração. – ele diz, segurando forte em minha mão. Eu nada consigo falar, apenas o abraço com todas as forças que há em meu ser, logo, estou aos prantos novamente, lágrimas que jamais cessaram, uma dor intensa que parece nunca terminar.
– Jessie... – digo, soltando-me de seu abraço, depois de um longo tempo chorando em seu ombro. – Eu não vou mais fazer isso, me perdoa, mas estou desistindo.
– Mas Melanie, você sabe que... – ele começa a dizer.
– Sim, — o interrompo. – Eu sei que não posso desistir, mas eu simplesmente não quero mais fazer isso, não consigo. Pode até me chamar de egoísta, o que quer que seja, mas essa é a verdade, eu não quero mais. Me perdoa.
– Ei, está tudo bem, mera mortal. – ele tenta sorrir, mas vejo algumas lágrimas brotarem de seus olhos.
– Você sabe que amo você, mas eu não posso mais deixar que isso aconteça por minha causa... – as lágrimas e soluços apenas aumentam. – Por favor, me perdoa.
– Quebraremos o anel o quanto antes. – ele diz, apertando mais minhas mãos. – Que tal ainda hoje? Você se esquecerá de tudo, eu lhe prometo. Infelizmente, não poderei trazê-lo de volta, mas a dor diminuirá, eu estou te prometendo.
– Tudo bem... – suspiro em resposta. Eu não quero perde-lo. Pelo amor de Deus, Melanie, o que você está fazendo? – Mais uma coisa, acho melhor não nos vermos até hoje a noite, para que eu não mude de ideia... – dizer isso faz meu coração doer, ver a tristeza em seus olhos faz com que eu me sinta pior, mas eu sei que isso é o certo a se fazer no momento.
– Como quiser... – é apenas o que ele diz, beijando minhas mãos e as soltando. – Apenas lembre-se que estarei com você, para o que precisar. – ele diz, levantando-se e pegando o anel jogado ao chão.
– Jessie, apenas mais uma coisa. – levanto-me apressadamente e em um movimento mais rápido ainda, o beijo, um beijo nunca sentido antes, um beijo repleto de perdões, agradecimentos e despedidas. Ele retribui tal ato, e sinto suas mãos segurando-me pela cintura, passeando por minhas costas. Tomo a liberdade de passear com meus dedos por seu cabelo macio, por sua face machucada, por seus braços e costas. Um beijo repleto de ternura e cautela, onde mais uma vez tenho a mais absoluta certeza de que mesmo que ele apague minha memória, sempre me lembrarei do toque de seus lábios sob os meus. Odeio a ideia de perde-lo, me odeio por estar fazendo isso, mas é algo necessário para proteger todos ao meu redor, e sei que Jessie entende, sei que uma hora ou outra isso iria acontecer, apenas não imaginei que seria tão cedo, e em uma situação como essa.
Uma de suas mãos passeiam suavemente por meus cabelos, enquanto a outra ainda encontra-se perdida em minhas costas. O beijo toma uma velocidade jamais chegada por nós, uma espécie terna de ferocidade, uma mistura de calmaria e agitação.
– Até mais tarde, mortal. – ele diz, cessando nosso beijo, encostando sua testa sob a minha, nossos lábios completamente próximos ainda se tocam com o pronunciar de palavras. Meus lábios formigam, procuram seus lábios, seu beijo. Por favor, não vá, fique comigo é o que penso em dizer, suplicar, mas tenho que ser forte, minha decisão já está tomada. Por Dan, pela minha mãe, por Cora, por todos que estão em perigo.
– Por favor, me perdoa... – é o que consigo dizer, soltando-me de seus braços e deixando novamente me levar pelas infinitas lágrimas.
– Você não fez nada. – Jessie beija minha testa e acaricia meu rosto. Antes de ir em direção a minha janela, e desaparecer com o anel em suas mãos, como de costume.
O que eu estou fazendo? Como cuidarei de Cora, minha mãe, Caio e todos a minha volta sem a ajuda de Jessie? Sinto-me tão completamente perdida, o vazio aumentando em meu peito, o vazio de não ter mais Dan, futuramente não ter mais Jessie... O que será de mim? Sento-me em minha cama e choro sobre minhas mãos, sem cessar, uma raiva infinita crescendo em meu ser. Sem pensar duas vez, arremesso em direção a porta, perfume que se encontrava em cima de meu criado mudo. Jogando-me novamente sobre minha cama, choro sobre meu travesseiro, ainda sentindo meus lábios formigarem, procurando por Jessie, tendo a maior certeza de que se trata de uma das últimas vezes que sentirei isso.
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