Objeto Perdido
2 Capítulo um
Notas iniciais
Nunca entendi porque as coisas precisavam sempre ser tão erradas na minha vida, sempre houve um ciclo, no qual eu sempre saio extremamente machucada e confusa. Confesso que na maioria das vezes, uma das grandes responsáveis é minha mãe. Sei que ela vive tentando, mas a cada atitude ou decisão dela, eu me firo mais e mais. Isso parece clichê demais, eu sei; então te pouparei da história da pobre adolescente incompreendida pela mãe e pelo padrasto, é deprimente demais até para mim.
O único fato realmente importante sobre mim é o de meus pais terem se divorciado a pouco tempo. Para ser sincera, eu nunca fui contra o divórcio dos dois, considerando o fato de que viviam sempre brigando, a única coisa em que fui contra foi que, com a separação, minha mãe, após conhecer o Dan, resolveu se mudar para o interior. Logo, podemos chegar à conclusão inicial de que a maioria das minhas decepções sempre vem da minha própria mãe. Fico me perguntando mentalmente se há a possibilidade de alguma coisa piorar... Quanta ingenuidade a minha, sempre tem como piorar, afinal, sempre piora, parece até mesmo uma lei criada contra mim. Este é meu último ano na escola, ano de formatura, de conclusão com os amigos... Para as pessoas normais, é óbvio, pois no meu caso, será um ano em meio a estranhos que nem ao menos tenho vontade de conhecer. Elena e Julie, as únicas verdadeiras amigas que tenho, ficaram em minha antiga cidade. Erick, meu melhor amigo desde a infância, se mudou para alguma cidade igualmente no interior, e desde então perdemos um pouco nosso contato, as conversas e encontros se limitaram a linhas telefônicas, o que às vezes me deixa profundamente triste e perdida, por se tratar de uma amizade tão essencial para mim.
Não há absolutamente nada que eu possa fazer para mudar essa realidade, meu quarto está completamente bagunçado, coisas encaixotadas, poeira para todos os lados, e a mínima vontade de fazer alguma coisa para mudar o ambiente. Encontro-me completamente largada em minha atual cama, fito o teto e desejo poder fugir de lá, voltar para minha antiga vida, qualquer coisa que não fosse naquele fim de mundo.
Ouço passos na escada, mas não me mexo, não há ânimo para esse ato, apenas viro o rosto e fito a porta esperando o dono dos passos por lá.
– Filha, — diz minha mãe entrando sem nem pedir alguma autorização. – Por favor, arrume suas coisas, pare de preguiça.
– Eu não quero, já disse! – exclamo, colocando o travesseiro empoeirando em meu rosto. – Quero é ir embora daqui, só isso.
– Melanie, nós já conversamos. – ela se sentou ao meu lado na cama.
– Mãe, pelo amor... – me preparo para gritar, mas sou interrompida ao ver o que está em sua mão. Um anel encantador, enorme, com uma pedra azul maior ainda acima. – O que é isso?
– Sua avó encontrou em nosso quintal após um dia chuvoso. – seus olhos brilham ao contar a história. – Então, ela me deu como presente, e jurei a ela que iria dar a minha filha. Porém, nunca achei espaço para lhe entregar, e sinto que este é o momento certo para fazer isso. – dizendo isso, ela colocou o objeto em minha mão, o que me causou certo calafrio, como se algo estivesse presente naquele mero anel.
– Obrigada, eu acho... – não há palavras no momento, apenas consigo olhar aquela enorme pedra azul que brilha a casa minuto mais.
– Vai se atrasar para o primeiro dia de aula, mocinha. – ela muda de assunto. – O Dan vai levá-la, e assim que chegar faz favor de nos ajudar a arrumar o seu quarto, hein.
Eu apenas sorrio, beijo sua bochecha, guardo o anel em minha bolsa e desço correndo para ir à aula, que sinceramente, havia esquecido. Pelo caminho, não consigo pensar em outra coisa, a não ser no anel. Não há explicação, ele apenas não sai da minha mente, como se algo estivesse presente nele. Dan fala comigo, inúmeras vezes, mas não sou capaz de compreender palavra alguma, estou em uma espécie de frenesi maluco, meu estômago dói, revira, tenho vontade de colocar até o que não comi para fora, meu coração pulsa como se a qualquer momento fosse parar ao virarmos a esquina e eu me deparar com a escola e com todos aqueles alunos.
– Boa sorte, parceira. – Dan diz antes de parar o carro. Eu sempre tive um companheirismo inacreditável com ele, apesar dos pesares. Nada consigo responder, estou nervosa demais para isso, então simplesmente o beijo na bochecha, tento sorrir e desço do carro.
Tudo parece tão imenso e assustador. Pessoas se reencontram, soltam gargalhadas e se abraçam em todos os lugares, e nesse momento meu maior desejo era ter Erick, Elena e Julie por aqui, me sentir pelo menos um pouco mais a vontade e menos abandonada em meio a essa multidão.
Vou até o lugar onde há milhares de outros adolescentes com os hormônios a flor da pele ver em qual turma tiveram a felicidade de estar. Me espremo e esbarro em vários corpos, alguns pedem desculpa, outros nem ao menos se incomodam com o que me fizeram. Não pode ser considerada uma atitude humana toda essa euforia sem nexo.
Um milagre faz com que eu consiga chegar perto da lista, mas não torna mais fácil o acesso ao meu nome, há milhares de outros nomes, todos perdidos e sem rumo algum. Sinceramente, me sinto profundamente incomodada, como se todos me olhassem ao mesmo tempo e quisesse me devorar viva, nem mesmo respirar fundo resolve. Então, olho ao redor por uma última vez a procura de algum olhar conhecido, e ai me deparo com uma coisa que faz minha espinha se arrepiar e meu coração parar de bater por bons minutos. Há um garoto parado próximo ao mural de turmas, ele está apoiado com as costas na parede e não para de me olhar, nem ao menos com o meu olhar se encontrando ao seu, e um último detalhe faz meu ar acabar de uma vez... Ele tem os olhos exatamente iguais as das cores daquela pedra do anel que havia ganhado de minha mãe mais cedo, completamente idênticos, tanto em sua cor, como em sua intensidade.
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