Objeto Perdido
6 Capítulo cinco
Notas iniciais
Abro os olhos e estou em meu quarto, deitada em meio a bagunça da mudança que minha mãe havia mandado eu arrumar mais cedo. O suor frio escorre por todo meu ser, meu coração pulsa loucamente no peito, a dor é algo completamente sem controle. Meus olhos estão lacrimejando, uma parte de mim é pura escuridão, um vazio infinito.
Levanto-me muito devagar, pois qualquer movimento faz meu corpo protestar com dores insuportáveis. Não compreendo muito bem o que acaba de acontecer, por um instante não consigo acreditar que estou realmente em meu quarto. O sonho, ou seja qual nome tiver aquilo que acabo de ter, foi tão real, posso sentir a dor insuportável em minha barriga e em meu peito ainda, ainda consigo ver Jessie...
Sou um misto de confusão e medo, nada e nem ninguém poderá compreender isso no momento. Tudo está estranho, afinal, que história é essa de anjos e demônios? Quem era aquele homem que havia entrado em meu quarto daquele jeito? Porque ele chama o Jessie de anjo?
São tantas perguntas, e tão poucas respostas, minha cabeça não agüenta mais tanta coisa bizarra e amedrontadora de uma única vez. Imediatamente me lembro do anel em meu bolso e o pego; o objeto parece pesar toneladas agora, olhar para ele me dá calafrios e faz querer gritar. O jogo dentro de uma caixa de mudança idiota que está em meu quarto e com muito esforço tento me colocar de pé. Minha barriga, juntamente com meu peito, dói de modo desumano e sobrenatural, como se Jessie realmente houvesse me esfaqueado.
Aquela lembrança me invade de arrepios e o medo aumenta, começo a sentir medo até mesmo de Jessie, nada anda fazendo muito sentido, nunca havia tido esse tipo de visão, sonho, sei lá. Eu preciso sair daqui antes que acabe enlouquecendo, mas meu peito e minha barriga doem demais para que eu consiga proferir algum movimento. Sento-me na beirada da cama, respirando com dificuldade, o relógio ao lado da cama marca exatamente 15h, e pelo que posso perceber, ainda não há ninguém em casa.
Resolvo ir checar, mesmo sabendo que a este horário é comum não tê-los em casa. Levanto cautelosamente, sentindo dores insuportáveis na região do abdômen, como se o estivessem rasgando bruscamente ao meio. Chegar à escada me causa vertigem, não consigo segurar meu corpo, é como se algo muito mais forte que eu exercesse alguma força sobrenatural e não me permitisse agir humanamente, como se algo automaticamente ligasse o meu modo zumbi. Tento descer o primeiro degrau, mas é como se estivesse pisando em pisos falsos e tudo corresse o risco de desabar a qualquer momento... Mas no momento a única que está desabando sou eu, desabando escada abaixo, como se a mesma força maior me empurrasse e me causasse mais uma perda de consciência imediata.
Pela segunda vez no dia, abro meus olhos após perder completamente minha consciência. Estou no meu quarto, tudo está escuro lá fora, provavelmente é noite. Olho para o relógio ao lado da cama, os ponteiros marcam 21h43, o que só comprova minha suspeita. Meu quarto está aparentemente arrumado e isso me deixa assustada. O que havia acontecido ali?
– Filha! – exclama minha mãe entrando como sempre sem bater em meu quarto. – Está se sentindo bem? – ela passa a mão por minha testa, como se quisesse medir minha temperatura ao modo tradicional. – Estou tão preocupada, meu amor.
– Está tudo bem, mãe. – minto e tento sorrir, minha barriga e meu peito ainda doem incansavelmente. – Foi apenas uma tontura que me fez pisar em falso no degrau e cair, nada mais.
– Você quebrou alguma coisa, filha? – ela apoia sua mão em minha barriga, e esse mínimo movimento é suficiente para me arrancar um gemido de dor.
– Não, estou bem, juro mãe. – minto mais uma vez, tentando não respirar muito fundo para não me causar mais dor abdominal. – Só me responde uma coisa, por favor... Onde estão todas as coisas que estão encaixotadas, mãe?
– Eu e Dan arrumamos enquanto estava desmaiada. – ela acaricia levemente meu cabelo. – Encontramos seu anel em uma das caixas, e eu guardei aqui na gaveta de sua mesinha ao lado da cama, filha.
– Obrigada. – eu sussurro tentando fingir que não havia me atingido ao ouvir a palavra “anel”.
– Bom, então descanse agora, mocinha. – ela se levanta me cobre com uma colcha que estava aos pés da cama. – Qualquer coisa, me chame, por favor, filha.
– Obrigada, mãe. – beijo seu rosto e me deito melhor na cama, tentando não me movimentar muito. – Pode ficar tranqüila, de verdade. – ela nada diz, apenas sorri e se retira do cômodo. Mais uma vez me encontro sozinha naquele local um tanto assustador para mim.
Sinto que estou sendo observada e essa sensação me sufoca, mas tento não surtar, até porque meu corpo não tem condições para isso. Fecho meus olhos e suspiro, tentando ignorar a dor em meu abdômen; um cheiro doce e suave invade todo o ambiente, mas me recuso a abrir os olhos, por mais tentador que seja.
– Acho que devemos conversar... – escuto uma voz masculina e automaticamente sinto cada parte do meu corpo se eriçar em um arrepio. É a voz de Jessie.
– Fica bem longe de mim, por favor. – aperto meus olhos, não posso abri-lo e ver seu rosto novamente, vê-lo me faria viver todo aquele sonho maluco novamente. Sua voz já faz efeito suficiente sobre mim. – Apenas vá embora.
– Eu não posso Melanie. – escuto sua voz um pouco mais próxima de mim. – Sinto muito.
– O que você quer, afinal? – eu finalmente abro os olhos e olho diretamente dentro de seus olhos; tento me sentar na cama, mas a dor em meu corpo é muito forte, então logo sou levada para baixo novamente.
– Melanie! – exclama Jessie, correndo em minha direção, lentamente ajudando a sentar-me na cama. – O que você está sentindo? – seus olhos azuis exalam preocupação, seu cheiro invade o ar.
– Na verdade, eu não sei o que estou sentindo... – sussurro sentindo um peso gigantesco em meu coração. – Acho que medo.
– Medo de que? – seus olhos me fitam profundamente, não há o que faça aquele efeito sobre mim cessar.
– Acho que ... – engasgo em meio às palavras, um choro se preparando para explodir. – De você.
– Melanie... – ele sussurra meu nome, se sentando ao meu lado na cama.
– Eu não estou mais entendendo absolutamente nada. – resolvo começar meu desabafo. – Primeiro você vem com esse papo de guardar aquela porcaria de anel, depois, assim que chego em casa, um maluco invade meu quarto e vasculha tudo em busca da mesma porcaria de anel, me agride, fala coisas sem nexo sobre você ser um anjo. – lágrimas já escorrem por todo meu rosto. – Depois, assim que ele vai embora, eu sinto uma coisa esquisita, desmaio no meio do meu quarto, vejo você me matando com uma faca, em uma espécie de sonho, dizendo coisas sobre anjos e demônios, acordo morrendo de dor onde justamente você me apunhala com a faca no sonho, resolvo sair, mas uma coisa ruim me acompanha, me invade, e não consigo prosseguir, logo, rodo escada abaixo até acordar aqui. – me sinto leve ao desabafar tudo. – Então, eu acho melhor você começar a me explicar agora o que está acontecendo, antes que eu enlouqueça de vez e vá parar em algum tipo de hospício. – ele apenas me olha, com um olhar indecifrável e respira fundo. – Anda, Jessie, eu estou esperando.
– Melanie... – ele suspira. – Eu não sei por onde começar a falar que esse homem está certo, eu realmente sou um anjo. – meu coração para e a dor em meu peito se torna mais insuportável nesse momento.
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