Oasis
30 Marcelo igual a Ciúmes?
Notas iniciais
Olhei para o rosto de todas aquelas pessoas na sala e suspirei. Droga.
Me joguei no tapete da sala mesmo, já que não havia espaço vago nos sofás. Fechei os olhos e coloquei o braço em cima deles, subitamente me sentindo extremamente cansado. Obviamente, mais cansado mentalmente do que fisicamente.
— Então... O que foi que aconteceu dessa vez? – Perguntei para ninguém em especial.
— Você quer saber o que aconteceu? – Mamãe disse bem alterada e engoli em seco – Você, seu inconsequente, quis dar uma de açougueiro e quase cortou a barriga da Alice com um bisturi. Agora... Se isso não for motivo o suficiente pra te mandar de volta pra terapia, eu não sei o que é! – Gritou.
— Mãe... – Tentei, mesmo estando chocado com o que eu tinha feito.
Não conseguia nem ao menos acreditar nisso.
Merda.
— E o pior é que seus amigos estão sem saber como reagir. Eles também são sua família! – Acusou – Não estava na hora de contar pra eles?
— Não!
— Você não confia na gente? – Eric perguntou baixo.
Encarei-o meio surpreso e meio sem saber o que dizer. Não é que eu não confiasse, mas eu não sabia como contar. Não queria trazer tudo a tona de novo. Talvez eu só queria ignorar o assunto.
Com uma esperança de que fosse sumir, eventualmente.
Parecia que esse não seria o caso.
— Não é isso. Não é – Gesticulei como que para tentar dar ênfase.
— Caralho, Logan – Escutei a voz de Art resmungar – E você sabia! – Apontou para Iris – E nem se quer contou pra gente.
— Não era direito dela. Eu só não queria que me olhassem do jeito que estão me olhando agora, ‘tá legal?! – Me exaltei.
— ‘Tamo te olhando com preocupação. Ou também não temos esse direito? – Disse Caio meio revoltado. Seu rosto até se encontrava um pouco vermelho.
Suspirei.
— ‘Tá legal. Olha, uns anos pra trás aconteceu umas coisas. Umas coisas bem ruins, sabe? Então minha mente meio que criou essa personalidade. E eu já fui no psiqui alguma coisa. Dizem que é transtorno de personalidade. Mas eu ‘tô bem do jeito que eu estou! Então nada de terapia ‘pro Logan e vamos dar um fim nesse assunto – Enterrei meu rosto em uma almofada próxima.
— ‘Que’s coisa... – Começou Art, mas interrompi.
— Fim do assunto!
— Não começa tudo de novo – Iris levantou a voz e fiquei com medo do que ela poderia dizer – A gente já passou por isso antes! Você sabe que faz bem pra você. Então você vai.
— Disse tudo, meu bem – Concordou minha mãe.
— Vamos parar com esse assunto? Eu sei que fui errado, mas nem consigo me arrepender tanto. Ainda não acredito que ela mentiu pra mim – Resmunguei.
— Eu espero não ter ouvido que você não se arrepende – Meu pai falou alguma coisa pela primeira vez – A gente não paga o mal com o mal.
E lá vinha aquele papo de pai.
— Tá! Entendi!
— Que bom que entendeu – Carolina falou, levantando-se – Amanhã a gente resolve os horários com a sua doutora. Hoje vamos no Marcus.
— Até que enfim algo de bom! – Levantei meus braços para o alto dramaticamente, como se agradecesse alguma força superior.
Marcus era meu primo mais velho e, raramente, um rolo da Iris. Se bem que eu acho que não aconteceria nada dessa vez. Isso por causa do envolvimento dela com o Art, ou seja o que for que eles estão tendo.
— Não fique tão animado! – Alertou minha mãe – Estou de olho em você, mocinho. De olho.
Dei de ombros e subi as escadas. Tomei um banho super rápido e vesti algo que não fosse tão preto. Pensando melhor, todos eles já estavam arrumados.
Filhos da puta. E se eu não tivesse um timing tão bom? Iam pra festa sem mim?!
Antes de descer para o segundo andar, me olhei no espelho e vi um roxo no meu queixo. Reclamei mentalmente, já que aquilo estragava minha aparência. E eu nem fazia ideia de como tinha ganhado aquele hematoma.
Quando estava na porta de casa, estressei completamente.
— Dá pra todo mundo tirar essa cara de bosta?
— É a única que eu tenho. Se te incomoda, eu fico satisfeito – Grey deu o ar da graça.
— Voc...
— Ah! – Fui interrompido pela minha melhor amiga que gritou nos nossos ouvidos – Sem isso por hoje.
E pegou em cada um dos nossos braços e saiu nos arrastando para a porta do carro.
E foi assim que passei os próximos minutos suspirando dentro de um carro lotado enquanto aguardava ansiosamente a nossa chegada a casa do meu primo.
E juro que não devia ter ficado ansioso. Não devia, pois o que aconteceu foi praticamente um desastre.
Assim que chegamos, abracei o Marquinhos e fui tomar alguma coisa pra relaxar. Porém, assim que tirei meus olhos de cima de certo russo, vi um cara de cabelos castanhos chegar no mesmo. Grey parecia que tinha travado totalmente com a aparição daquela peste.
Enquanto observava aquilo e sentia muita raiva, fui descendo alguns copos de bebida. Não demorou muito pra eu estar meio alegrinho e com uma coragem que ninguém devia ter, sinceramente.
E eu dizia isso porque eu realmente não deveria estar encarando os dois enquanto ia em direção aos mesmos. Isso não era bom. E não, não era ciúmes.
Cheguei por trás do russo e passei meus braços ao redor do seu pescoço, assustando-o. Encaixei meu rosto no espaço que havia entre seu pescoço e seu ombro e senti seu corpo ficar um pouco tenso.
— Mas você não me apresentou teu amigo – Sussurrei na sua orelha e vi o cara moreno a nossa frente ficar irritado.
Sorri.
— Eu não devo te apresentar ninguém. E ele não é meu amigo, só pra constar – Tentou se livrar do meu toque.
— Será que dá pra tu soltar ele? – Ouvi a voz enjoativa daquele idiota.
— Não?
— Você não ‘tá vendo que ele não quer? – Tentou me puxar de lá.
— Não encosta – Rosnei.
— Ai, cala a boca vocês dois – Grey resmungou e saiu de perto de mim – Não sou doce, muito menos uma menina pra vocês ficarem aí fazendo cena.
— Espera... – O acastanhado tentou impedir quando o moreno tentou sair daquela espécie de parede que tínhamos formado ao redor dele.
— Marcelo, não enche, ‘tá?
E, simplesmente, foi embora. Ainda fiquei encarando emburrado aquele tal de Marcelo por um tempo até que ele abriu a boca. E foi aí que eu tive certeza que ia odiá-lo com todas as forças.
— Olha, não sei quem você é, mas não chega perto do Grey. Ele era meu amigo antigamente e não quero ninguém atrapalhando que a gente volte a ter uma amizade. Quem sabe algo mais – E deu um sorrisinho malicioso antes de fugir dali.
Sentia meu rosto queimando de raiva, mas nem pude ir atrás daquele descarado porque logo ouvi uma voz muito conhecida gritando. Não pude fazer outra coisa a não ser ir até onde a barraqueira da minha melhor amiga estava.
E achei a morena no meio da pista improvisada de dança, gritando e gesticulando com um Art igualmente alterado. Suspirei.
Não tinha uma ocasião que essa família estranha que tínhamos nos tornado não fizesse um espetáculo para quem quisesse ver.
Fui até ela e a segurei pelos ombros.
— Me solta! – Gritou – Eu vou dar um soco nesse idiota.
— Quem te deixou beber? – Gritei de volta.
— Cala a boca. Você não ‘tava toda estressadinha comigo? Vai dar a bunda e me deixa.
Nem falei nada. Só a agarrei pelo braço e saí puxando seu corpo meio mole para o banheiro mais próximo. Joguei Iris lá dentro, entrei e tranquei a porta. Acabei me escorando na parede e cruzando os braços.
— Que que foi isso?
— Você devia ter me deixado dar na cara dele! – Fez bico e veio se agarrar em mim.
E era por isso e outras coisas que ela não podia beber muito.
— Que aconteceu?
— O Art, idiota, filho da puta. Só porque eu sou eu não quer dizer que eu vou dar pra outro cara enquanto a gente ‘tá junto.
— Tá...
Não tinha entendido nada.
— Ele surtou quando viu que o Marcus era um rolo meu. E a gente tava conversando na boa, mas ele ficou com ciúmes. Aí a gente brigou, sabe? Mas eu devia ter enchido ele de porrada pra ele deixar de ser um cuzão. Em mim pode confiar, né? – E sorriu meio grogue.
— Caralho, a gente precisa ir embora – E ri.
Ela ‘tava chapada demais.
— Não quero – E começou a chorar.
É, a gente precisava mesmo ir embora.
Olhei no relógio do celular que eu tinha tirado do bolso e vi que já estava meio tarde. Saí puxando Iris pelo pulso e a empurrei para Eric e Caio quando achei os dois em um canto afastado, quase se comendo. Pra variar.
— Dá uma olhada nela que vou achar o Grey e meus pais.
E eu preferia não ter achado o russo. Sinceramente.
Quando achei o prego, ele estava claramente bêbado enquanto dançava com o idiota do tal do Marcelo. Só senti minhas bochechas queimando de novo e apressei os passos até eles. Peguei o acastanhado pelo colarinho da blusa chique que ele usava e o tirei de perto do Ivanovich.
Não entendia minhas reações inusitadas.
— A gente vai embora! – Gritei.
— Você nem manda em mim! – Esbravejou de volta.
— Vamos AGORA! – E peguei seu pulso, tentando arrastá-lo dali, mas o pervertido, vulgo Marcelo, impediu meus planos.
— Você é um idiota. Ele sabe o que está fazendo. Então para de atrapalhar – Disse.
E o que eu fiz?
Soquei a cara dele e saí correndo enquanto puxava um russo meio desnorteado por causa da bebida. Merda. Se tivesse uma dica que eu daria pra todo mundo, seria: Não beba se você não aguenta.
Quer dizer, um Grey bêbado só era interessante se ele estivesse chapado comigo por perto!
Me irritei com meus pensamentos enquanto chamava meus pais para ir embora. Saímos todos da casa do Marquinhos depois de despedir dele e fomos até os carros. Joguei Grey lá dentro e Eric colocou a Iris em um outro banco.
Acabei ficando no meio dos dois, de alguma forma.
Iris babava no meu colo e Grey estava com a testa encostada no vidro do carro enquanto o veículo se movimentava em direção a minha casa. Em determinado momento, quase tive um ataque cardíaco quando o moreno, de repente, deu um grito.
— Para o carro!
— O que?!!! – Gritei.
— Para agora! Agora!
— Mas é melhor tu dormir lá em casa...
E era. Ficava muito perigoso leva-lo em casa em uma hora dessas. Mas ele me olhou meio desesperado e eu nunca tinha visto o cara daquele jeito.
— Para!
E meu pai, que dirigia, fez o que o russo pediu.
Logo Grey abria a porta e saía correndo noite a fora. Fiquei meio assustado com a atitude, então saí correndo atrás do idiota. Estava meio escuro por causa de alguns postes com a lâmpada queimada, mas não era novidade ver isso no meu país.
Saí correndo até onde ele estava abaixado e até acho que fiquei um pouco preocupado. Eu não sabia o que estava acontecendo. Quando estava bem perto, vi uma criancinha pequena em pé na frente do prego.
Estranhei.
Vi o moreno abrir os braços e a garotinha sair correndo para se enterrar no peito do mais velho. Aí sim eu fiquei sem entender merda nenhuma. Que porra era essa?
Grey se levantou com ela no colo e pude ver, mesmo com a luz horrível, os olhos marejados da menininha. Eram coloridos assim como os do Ivanovich. Franzi a sobrancelha sem entender nada.
O outro nem dava atenção para minha presença, olhava para a garotinha enquanto parecia tentar pensar no que falar para ela. E eu só ficava mais confuso. E, quando achava que não podia ficar mais em confusão do que já estava, lá me vem a bomba.
— Papai! Papai! Você apareceu, papai! – Ela gritou com aquela voz fofa de crianças.
Grey tinha um olhar irritado, mas não recusou o abraço apertado que veio da menina logo depois que ela havia terminado de falar. E, mais do que inesperadamente, pude ver a mão longa e pálida do russo se estender e ser repousada nos cabelinhos negros da menor.
E eu? Arregalei os olhos e quase soltei um “que porra é essa?”.
PAPAI?
O que está acontecendo, universo?
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