Oasis
24 Eric
Notas iniciais
“Passava. Passava. Passava. Era assim o tempo. Mas nada importava. Nada era demais. Era eu um jovem. Não tinha medo do futuro. Não tinha medo da morte. Não tinha medo de nada. Brilhante era tudo. Todas as possibilidades abertas. E eu ali. Passava. Passava. Passava. Não dava desconto o tempo. Passava de novo. E onde eu estava mesmo? Acabei me perdendo. Onde me acho? Em qual parte do caminho? Passava. Passava. Passava. Suspirava e respirava e retardava tudo. Onde foi que ficou o brilho?”
No meio do caminho até a minha casa, Eric se levantou do meu colo com o rosto inchado e pediu baixinho para que parássemos um pouco antes da minha rua. Não entendi, mas fiz o que ele queria.
Não seria ruim fazer as suas vontades pelo menos um pouquinho nesse tipo de situação. Qual é, não sou tão insensível.
Descemos e o moreno começou a ir a minha frente enquanto eu pagava o motorista. Caminhava baixo e não falava nada, nem ousava levantar a cabeça que estava abaixada todo o tempo.
De repente, parou de andar reto e se agachou no chão. Achei que estava passando mal e fiquei ali do seu lado, mas percebi que o maluco só estava chorando mesmo.
— Vem cá – Estendi a mão pra ele e sorri. Fui correspondido com um coçar de olhos e uma negação com a cabeça.
Quando paramos na frente do meu portão, abri a porta e constatei que estavam todos dormindo. Fiz barulho com as chaves para trancar a casa e logo ouvi um miado.
Olhei para o Grelindo e lembrei o porquê tinha colocado esse nome. Caralho, eu só podia ser um idiota mesmo.
Eri fungou e catou o pequeno no colo, cheirando seu pescoço magrelo e fazendo cafuné no pelo macio. Coloquei meu dedo no focinho meio molhado pela madrugada fria e o bichinho reclamou.
— Pode ir lá pra cima – Avisei.
Fui pra cozinha enquanto meu amigo subia as escadas. Guardei a chave no chaveiro que havia ali e cacei algo para comer. Nada. Nada que meu estomago não reclamasse.
Saber beber não era uma qualidade minha. Fazer o que.
Dirigi-me ao meu quarto e vi a porta do banheiro acesa. Parecia que o cara estava colocando as tripas pra fora. Devia ter enchido a cara também. Foi o que eu fiz, pelo menos.
Joguei-me na minha cama. Tinha que arrumar um lugar pra ele dormir, já que o quarto vago da casa estava sendo usado como “espaço do entulho” no momento, mas estava cansado pra porra.
Vi quando o moreno entrou no quarto e sentou-se ao meu lado, escorando-se na cabeceira. Suspirou e voltou a coçar os olhos e o nariz. Parecia ser uma mania naquele tipo situação.
— Quer bater um papinho? – Bocejei. Tinha batido um sono desgraçado.
— Melhor não? – Parecia em som de dúvida e a voz era falha.
— Ah qual é, vai resistir ao gostoso aqui? – Sorri com preguiça.
— Tu não existe, cara – Deu uma risadinha sem graça.
— Fala aí – Deitei-me de bruços e fiquei encarando-o.
— Sei lá – Suspirou – Isso é muito fodido – Riu da própria situação.
— ‘Tá falando da tua bundinha? Acho que tu já passou da fase de virgem.
Ele me olhou meio estranho e sorriu, balançando a cabeça como se eu fosse mesmo um idiota provocador. Não que eu o tirasse a razão.
— Cala a boca.
— Continua aí, maluco.
— Foi mal.
— Ahn? – Perdi alguma parte dessa conversa?
— Ah, caralho. Por ter te beijado aquela hora – Coçou a parte de trás da cabeça envergonhado.
— Vai se foder – Ri – E eu achando que era algo sério.
— Te meti nessa merda, então tenho que pedir desculpas.
— Já ‘tô nessa merda. Mais alguma coisa?
— Não tô te atrapalhando?
— Ai vei, cala a boca. Tira a roupa e se aconchega no meu canto aqui – Me irritei.
— Oi? – Ficou com uma cara confusa.
— Pedi pra tu falar sobre tuas ‘parada com o loiro viado, não pra se sentir culpado ou sei lá. ‘Tá me broxando – Sorri – Tô com preguiça pra te arrumar um canto. Dorme aqui na minha cama mesmo.
— ‘Tá né.
Tirou a camisa. Parecia um pouco mais aliviado. Desfez-se das calças e deitou do meu lado, pegando um cobertor. Eu estava morto pra fazer qualquer coisa, inclusive trocar de roupa.
— Boa noite aí – Falei e fechei os olhos.
Não consegui dormir.
Vinha na minha mente o russo arisco e o Dani. Aquilo não tinha dado muito certo. Não foi como se eu tivesse odiado, mas não tinha sido a mesma coisa. O que era isso?
— Dói, sabe? – Ouvi a voz baixa do Eri depois de um tempo. Sorri.
— Até que enfim resolveu abrir a boca pra alguma coisa além de... – Fui falar algo safado, mas o outro tampou minha boca antes. Apenas ri.
— Já ‘tava ligado que uma coisa dessas ia acontecer, saca?
— E deixou as coisas rolarem mesmo assim?
— Era conveniente. Eu ficava do lado dele e ele ‘tava explorando seu lado homo.
— Conveniente...
— Ah, qual é. Eu sempre fui gay, caralho. Era minha única chance.
— Espera – Virei-me pra ele, me apoiando em um braço para encará-lo – Não era tu que dizia não ser gay, Erizinho? – Sorri provocador.
— Contando que o Caio achasse que a gente ‘tava só na curiosidade... ‘Tava tudo tranquilo falar isso.
— Tu é muito burro.
— O que?!
— Acha que o maluco não percebeu nada?
— Sim?
— Não.
Ele suspirou.
— Foda-se. Nossa amizade, nosso... Ah, tudo! Acabou.
Virou-se para o outro lado.
— Vai ter que falar com ele alguma hora.
— Essa que não vai ser tão cedo.
— Se tu diz, cara.
— Valeu.
— Te estupro se vier com sentimentalismo.
Eric riu.
— Tá, tá.
Seria bom se esses dois não se vissem por um tempo. O Caio que aguarde a fúria da Iris quando ficar sabendo. Quem mandou ser um idiota.
Nem vi quando peguei no sono, mas me lembro ter sonhado algo estranho com um russo idiota e intransigente. Acordei meio assustado de manhã, com o sol rachando entrando pela janela.
— Porra, perdi a aula – Resmunguei só pra depois recordar que eu estava tecnicamente expulso. Suspirei.
Senti algo pesado nas minhas pernas. Era aquele folgado com elas em cima de mim. Pelo visto éramos nós dois sem ter ido a aula e com uma ressaca fodida.
Olhei no relógio. Droga. Já era quase onze da manhã. E, merda, o telefone que peguei era justo o do Eric e lá tinha nada mais nada menos que cento e onze ligações e mensagens.
Que desespero! Se forem do loiro viado, acho é bom ter sido ignorado, mas pelo menos ele se preocupou em ir procurar pelo melhor amigo.
No meu celular também tinha mais ou menos isso e tudo era do idiota.
“Porra Logan, me responde. Cadê o Eri, seu desgraçado filho de um puta?”
E essa era a última que me tinha sido enviada ás 7:33 da manhã. E todas eram consecutivas. Aquele ridículo tinha passado a noite em claro. Mais uma vez, não tenho pena, mesmo sendo meu parceiro.
Antes do Eri ser enxotado da cama por mim, meu celular vibrou. Era Iris mandando alguma coisa.
“O Grey mandou um beijOOOO”
“Foi mal, a gnt teve um fight por causa do cel”
“Aposto q ele tá com sdds”
Sorri. Essa minha amiga era uma piada mesmo. Imaginei a cena, me lembrando de como era irritá-lo. E de como me trazia satisfação fazer isso.
“Ei, tá sabendo do Eri?”
Essa eu tive que responder.
“Apagado por aq”
“Aq?”
“Na minha cama”
“WHAT”
“Dps te conto”
“T
U
D
O
!”
Ri novamente. Ter amigos normais não era pra mim.
— Acorda, maluco – Empurrei-o da cama.
— Ai, que gentileza – Reclamou.
— São onze horas. Quer o quê?
— Fodeu.
Ri da sua cara de pânico.
— A mãezinha vai te matar? – Ironizei.
— Ai porra – Fez uma expressão desgostosa.
— A chave ‘tá na cozinha.
— Valeu, cara.
— Não esquece de falar com o Cai – Isso teria que acontecer uma hora ou outra – Ele mandou mais de cem coisas aí e aqui no meu telefone.
Eric fez uma cara ruim e balançou a cabeça enquanto vestia a blusa e saía do quarto correndo. E era cada coisa que esses meus amigos me arranjavam.
Levantei-me, tomei um banho, comi alguma coisa, brinquei com o Grelindo e deitei no sofá pra jogar. Quando foi lá para uma hora da tarde, a campainha tocou.
Abri a porta e forcei uma cara que não demonstrasse meu desgosto. Era tanta coisa que, sinceramente, havia me esquecido do problema Alice e gravidez.
— Oi amor – Disse ela com aquela voz estridente.
— Aconteceu alguma coisa? – Tinha que ter acontecido pra ela vir aqui. Ficaria puto se fosse por nada.
— Tenho um jeito pra arrumar seu problema com a escola – Sorriu e eu fiquei sério – ‘Tá bom assim pra tu?
E aí? O que será que ela vai me mandar dessa vez?
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