Oasis
22 Cinco Minutos de Fama
Notas iniciais
A única coisa que conseguia pensar enquanto praticamente marchava pra casa era: Eu vou matar aquele merda.
Não bastava cair na porrada com ele e ficar todo dolorido no dia seguinte, o idiota ainda tinha que arrumar um jeito de me expulsar da escola! Onde estávamos?
Em um filmezinho de romance adolescente? Americano?
Suspirei e coloquei as mãos dentro do bolso da calça da escola. Estava indignado. Como ele tinha poder para fazer uma coisa dessas? E ainda alegaram que meu comportamento não era adequado.
Que porra!
Eu podia ser muitas coisas, mas sabia muito bem como me comportar nesse tipo de ambiente. Eu nunca tinha feito algo que poderia me prejudicar na escola dessa forma.
Mas o que mais apertava meu peito era ter que dar a notícia aos meus pais. O que eu faria? O que eu faria?
Mais uma vez nesse ano me via pensando em como iria decepcioná-los. Acho que já tinha esgotado a minha cota de burrices por 365 dias.
Apressei meu passo. Quanto mais cedo eu contasse, melhor seria. Mais cedo eu poderia me livrar dessa agonia ruim que me apertava o peito.
Quando cheguei ao portão de casa, fiquei alguns segundos decidindo se entrava ou não. Respirei fundo e tomei coragem. Meus pais eram uma das únicas coisas que me faziam temer alguma coisa.
Entrei e fiquei procurando por eles por algum tempo, mas nada. Suspirei. Foi tanto nervosismo que havia me esquecido que eles não estariam ali a essa hora, mas sim trabalhando.
Merda. Como eu queria resolver esse assunto logo!
Fui fazer o que me parecia o mais fácil nesse momento. Não estava com sono, então subi pro meu quarto e abri minha gaveta do criado mudo que ficava ao lado da minha cama.
Ali tinha muitas coisas, de camisinhas a remédios e era isso que eu procurava. Peguei um comprimido, engoli sem ajuda de água e me joguei de qualquer jeito na cama.
Como eu contaria uma coisa dessas?
Logo o sono veio e eu me senti meio dopado e feliz por conseguir dormir. Assim dava pra esquecer um pouco o assunto e relaxar. Não queria surtar agora.
Se surtasse, nada acabaria bom pra ninguém.
oOo
Acordei com gritos. Cocei meus olhos e não pude deixar de pensar uma frase que era quase um bordão da minha existência nesse mundo.
Que porra era essa?
Levantei-me meio resignado. Que merda. Porque eu sempre (sempre) tinha que ser acordado dessa maneira? Fui andando até o andar debaixo com a maior preguiça do mundo. O remédio ainda fazia efeito.
– O que ELE está fazendo aqui? – Ouvi aquela voz fina e esganiçada gritar.
Alice.
Droga. Não vou me livrar daquela ali tão cedo. E sei que pode parecer meio (muito) cafajeste da minha parte tratá-la assim, mas eu não era obrigado a gostar da menina.
– Não sei se percebeu que tu não ‘tá na sua casa pra ficar gritando assim – Resmungou minha amiga. Ela estava com a voz meio abafada, então deveria estar jogada no sofá, entre as almofadas, como de costume.
– Não quero saber. Quem trouxe essa coisa pra cá? – Parecia que ia entrar em colapso nervoso.
O que é que estava acontecendo?
Apressei meu passo e quase tropecei no final da escada, provocando um barulho que chamou a atenção de todos. Havia batido o dedinho na porra da parede e não contive um esganiçado de dor.
Assim que me recompus, os olhares estavam em cima de mim. Olhe aí meus cinco minutos de fama. Suspirei e me joguei no sofá, colocando as pernas da minha morena no meu colo.
– Não pense que tu vai fugir da nossa conversinha, Logan – Disse minha mãe quando viu meu sorriso de quem tinha aprontado.
– Ah, qual é, mãe – Fiz minha voz mais manhosa e ela me repreendeu com o olhar – Não foi culpa minha – Levantei meus braços para o alto em sinal de rendição.
Logo senti mãos frias e pequenas no meu pescoço. Alice tinha se aproximado por detrás do sofá. Suspirei. Era incrível o fato de que certo moreno também estava ali.
Quieto e encostado no canto da parede, usando a mesma expressão de que não queria estar ali. Em qualquer lugar, menos ali.
– Tu vai resolver essa situação, mocinho – Suspirou – Não quero nem saber.
– Tá – Concordei, mas não fazia ideia do que faria pra arrumar tudo isso.
– E eu não te ensinei? Não te ensinei que não deve ceder aos seus impulsos? Te falei que a gente demorou anos de evolução para podermos pensar e sermos capazes de tomar nossas decisões. Está negando todo o sangue derramado até aqui? Então quem mandou bater no garoto? Sem pensar nas consequências? E...
Porra! Se eu não interrompesse, ela continuaria a falar para sempre.
– Mãe! – Interrompi e ela pôde tomar fôlego, já que falava sem parar.
– Tu vai resolver isso, ouviu?
– Já disse que sim, mãe – Sorri para a loucura da minha progenitora.
– Tudo bem – Sorriu em resposta.
– Logan – Escutei a voz em falsa manha da loira no meu ouvido.
Arrepiei. Óbvio. Odiava-a, mas não era santo.
– Fala – Sorri, já pensando em sexo. Apesar de que não era com ela.
– Tu viu? Não acredito nisso – Choramingou – Olha quem essa daí trouxe pra casa do pai do meu filho!
– Estou ouvindo – Iris informou, estendendo seu pé e puxando, com o dedão e o segundo dedo, o cabelo da loira que estava caindo sobre meus ombros no momento em que ela se inclinou para sussurrar no meu ouvido.
– Ai! – Gritou e a morena caiu na risada com a cara de desgosto da “patricinha”.
Ainda usam essa palavra?
– Eu pagava pra ver essa cara de novo – E piscou.
Alice, que era outra que não aguentava nada calada, queria ir pra cima da menina, mas eu segurei sua mão e não permiti.
– Vai defender esses dois? Essas más influências? Imagina só, um gay e uma puta perto do meu filho?! – Usou sua voz de maior ultraje.
Eu permitia muita coisa, mas não que falasse mal dos meus amigos.
– A... – Fui começar a falar e fui interrompido.
– Alice, querida – Por algum motivo, parecia escorrer ironia das palavras da minha MÃE – Não permito que fale mal dos meus filhos, dentro da minha casa. Então, por favor, se tem algum problema com isso, peço que guarde pra você.
– Não quero que meu filho nasça com essas influências! – Deu um gritinho fino.
Ai, minha cabeça.
– Não seja preconceituosa – Inquiri enquanto me controlava pra não ficar puto.
– Não aceito isso.
– E eu não aceito olhar pra tua cara nojenta, e aí? – Disse Iris com uma voz infantil depois de mandar o dedo médio para a loira.
Tive que me conter para não rir da infantilidade da minha melhor amiga. Ela era tão madura as vezes que até eu me assustava com a parte infantil dela.
– Enfim, o que ‘tão fazendo aqui?
– Viemos ver como tu tá, gatinho – Iris se sentou e inclinou para que pudesse me dar um beijo na bochecha.
– Eu ‘tô ótimo – Ironizei – Só fui expulso no meu último ano, nada demais.
– A gente resolve – Deu tapinhas na minha coxa.
– Sai, vadia – Alice empurrou Iris e veio sentar no meu colo – Eu ‘tô aqui, amor – E sorriu.
Vi Iris indo puxar os cabelos oxigenados, mas, antes que algum desastre acontecesse, dona Carolina interviu e a puxou pra cozinha. Grey estava mexendo em algo no celular e não tinha falado nada.
O que não era estranho, óbvio. O que era estranho era o fato dele estar ali.
– Eu sei – Forcei um sorriso.
– Ah – Soltou um muxoxo – Tenho que ir, mas me liga, tá lindo? – Deu um beijo na minha bochecha e já foi indo em direção a porta, mas pareceu se lembrar de algo.
Voltou correndo e me deu um selinho, dizendo: Não se mistura com essa gente. Quem ela achava que era? Logo sorriu e saiu correndo em direção a saída da casa.
Fiquei um tempo ali, tentando processar. Essa menina tinha algum tipo de problema?
Senti o sofá se afundando e era o moreno se jogando folgadamente nele, ainda mexendo naquele aparelho eletrônico. Ficamos assim por alguns minutos, sem falar nada.
Mas não era um silêncio que me incomodava.
E por isso era estranho.
Ouvi um suspiro quebrar o silêncio. Minha mãe e Iris ainda tagarelavam na cozinha. Não sei como essas duas podiam ser tão amigas. Provavelmente era pelo fato de nenhuma delas serem boa de cabeça.
– Porque não foi na aula, prego? – Perguntei como quem não quer nada enquanto alcançava o controle pra ligar a TV.
Só queria algo para iniciar o assunto, não era como se eu estivesse curioso...
– Cala a boca – Massageou as têmporas, largando o celular incrivelmente velho no peito.
– Ainda de ressaca? – Sorri provocativo.
– Vai se foder.
– Ui, ‘tá estressadinho o maluco – Ri enquanto me inclinava um pouco sobre seu corpo.
– Desencosta.
– Não sentiu minha falta não? – Sorri enquanto apoiava minha mão direita sobre sua coxa, bem perto da virilha.
Seus olhos coloridos se focaram em mim e ficamos mais uma vez naquele silêncio. Não quebrávamos o contato, nem pra piscar.
– Acho que tu curte meu rostinho lindo – Continuava com o meu sorriso mais safado.
Precisava de uma relaxada. E todos já sabiam que Grey conseguia isso com muita facilidade.
– Sua boca fica melhor calada – Desviou o olhar para a televisão ligada.
Estendi minha mão para seu rosto e o puxei para que olhasse em minha direção. Quase deitava meu corpo em cima do dele, que estava esparramado no sofá.
Inclinei-me até que nossos narizes se chocassem. Podia sentir sua respiração começando a acelerar enquanto sua inexpressão continuava presente naquela face extremamente branca.
Será que ele nunca tinha colocado a cara no sol?
Nos dois sentidos.
– Quer ver um jeito ‘mó maneiro de fazer isso? – Fiz aquela minha voz que, particularmente, achava irresistível.
E eu nem era convencido.
Sua expressão não mudava, mas eu estava perto o suficiente pra ouvir o seu coração bombear sangue mais rápido. Nada melhor do que isso pra mostrar que ele também desejava isso.
Levei minhas mãos para seu cabelo, puxando-o com força, fazendo com que o moreno gemesse de dor e abrisse passagem entre seus lábios para minha língua.
Enquanto uma mão continuava nos seus fios negros e brancos, a outra foi descendo por entre nossos corpos, apertando sua cintura. Até havia esquecido onde estávamos.
E que Carolina e Iris estavam ali do lado. E se não fossem por elas chegando... Não sei aonde teríamos ido com aquela pegação. Provavelmente até o fim. Estávamos ambos necessitados. Ambos na seca, completamente.
Porém, mesmo depois de parar, a sensação não passava.
Era simplesmente tão excitante sentir aquele piercing preto. Não sabia por que fazia com que eu achasse seu dono tão lascivo. Aumentava exponencialmente minha vontade de deflorá-lo.
De todas as maneiras imagináveis.
E a vontade, a sensação... Não passava. Não passava.
O que fazer?
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