Notas iniciais
Olá, meu nome é Ranorrad e sou funcionário do Centro Onipotente de Registro de Histórias e Fatos do Universo e, durante as próximas páginas, vocês leitores podem me chamar de Narrador. Sendo muito sincero, não é permitido ao Narradores fazerem nenhum tipo de registro pessoal como esse antes do cadastro de uma história, mas acabei de ser promovido para a função de Narrador e essa será minha primeira vez narrando, por isso, estou empolgado demais para deixar passar uma oportunidade de contar para alguém que finalmente me tornei um Narrador! Já liguei três vezes para a minha mãe para me gabar e ela parou de me atender... Para que tudo fique devidamente registrado, nós do Centro Onipotente de Registro de Histórias e Fatos do Universo nos dedicamos a buscar e deixar devidamente cadastrado em nossos arquivos tudo que se refere a acontecimentos cruciais para o universo, mesmo que apresentem diferenças sutis entre as versões no Multiverso. Por essa razão, coube a mim registrar a versão 54887885.669.5844.86 do evento 474555.5800000.00.00000.253 conhecido também como “A vez em que Ben Tennyson encontrou o Superomnitrix”. Talvez você que agora me lê já tenha tido acesso a algum dos registros desse evento. Um dos mais populares refere-se à uma vez que Vilgax e Albedo firmaram uma parceria que não deu muito certo. Pois bem, não será essa versão que será registrada aqui. Logo, nada de “Ah, mas não foi assim que aconteceu!” pois se você um dia visitar os nossos arquivos, verá que todas elas aconteceram e estão acontecendo nesse exato instante. Mas o que estou dizendo? Chega de enrolar e vamos começar!

O quarto de Benjamin Tennyson nesse exato momento se encontrava num estado de fazer inveja aos mais podres dos xilitecnianos: as janelas e cortinas fechadas deixavam o ar abafado e quente como uma sauna, os pratos com restos de alimentos espalhados pelo chão emitiam odores quase palpáveis de tão azedos e os objetos do quarto pareciam terem sido acertados por um tufão pois nada se encontrava posicionado onde deveria ficar habitualmente. A única luz dentro do local era a da televisão ligada ininterruptamente há três dias.

Sentado na cama, o grande protetor e herói do planeta Terra, Ben Tennyson, escondia-se debaixo da sombra de um edredom que lhe cobria da cabeça aos pés.

Do outro lado da porta trancada, ouviu-se uma voz de mulher dizer:

— Ben, querido, eu trouxe seu jantar — disse sua mãe.

Já está de noite... — pensou o garoto.

— Abre a porta, filho. Eu e seu pai estamos preocupados contigo.

O jovem permaneceu em silêncio.

— Ben, já faz três dias que você não sai desse quarto.

A senhora não entende... — ele pensou — Nenhum de vocês entendem!

Ouviu-se uma batida dupla de nós dos dedos na porta, acompanhada de uma voz masculina:

— Benjamin, sou eu, teu pai. Abre essa porta.

Com uma voz fraca, devido ao pouco uso, Ben diz:

— Vão embora...

— Vamos conversar, Benjamin — disse o pai. — Já tentamos falar com teu avô, mas ele não soube nos explicar o que está acontecendo.

Ben olhou para o relógio em seu pulso esquerdo e sentiu um leve tremor em suas mãos. Então gritou:

— Vão embora!

— Ben, só estamos preocupados com você, meu filho.

— Me deixem em paz! — Havia um desafino, típico de choro contido, na voz de Ben. — Só me deixem em paz...

O garoto não era capaz de ver, mas sabia que sua mãe teria abaixado a cabeça, olhando para o prato de comida em mãos, e seu pai a teria abraçado e apoiado seu queixo no topo da cabeça da esposa. Era a forma que ambos demonstravam preocupação e sensação de impotência para quem pudesse ver.

— Vou deixar sua comida aqui fora — disse ela.

— E quando estiver pronto para conversar — continuou o pai, — saiba que estamos aqui.

Nenhum pensamento de gratidão passou pela cabeça de Ben. Não tinha como. Não havia espaço numa mente envolta em medo e desespero. O jovem novamente olhou para o epicentro de seu sofrimento preso em seu pulso esquerdo. Uma memória voltou a ressoar no turbilhão de sua mente: “O Omnitrix é a arma mais poderosa do Universo.

E como toda arma, ela serve apenas para ferir...

Uma vibração sobre o colchão e um foco de luz surgia da tela do celular avisando a chegada de uma nova mensagem. Era a Gwen, sua prima. Mais uma mensagem que se acumulava entre as 78 não lidas. 79 agora. 80. 81. Gwen e sua mania de dividir sua fala em várias mensagens menores. 82.

E então houve a explosão.