OMNITRANIL (Ben 10 - Força Alienígena)
11 Um encaixe na agenda de compromissos

Kevin iniciou sua jornada investigativa assim que saiu do Quartel dos Encanadores. Precisava manter a cabeça ocupada para não fazer besteira, então procurar pistas e tentar entender o plano do Albedo era algo que poderia lhe manter “distraído” por bastante tempo.
O que ele faria quando encontrasse o galvaniano, ele já não sabia dizer com certeza: Quão grande era a força de vontade dele em manter a promessa que fez com Gwen?
Em seu carro, Kevin viajava pela cidade em busca de informações. Foi em bases de motoqueiros e na Cidade baixa, passou por redes de tv e lixões de tecnologia alienígena, atravessou parques de diversão abandonados e zoológicos peculiares. Em questão de horas, trafegou por quase toda Bellwood.
Mesmo sem querer, foi obrigado a rever velhos conhecidos. Chamar de amigos talvez fosse demais, pois boa parte deles gostariam de ver sua cabeça ser servida com molho de churrasco numa bandeja de prata.
E foi numa série de encontros casuais com Argit, o porcupine trambiqueiro do submundo, que Kevin descobriu uma de suas informações mais relevantes:
― Vamos, Argit, fale o que sabe!
― E-espera um pouco, Kevin, meu chapa! ― Argit se encontrava de ponta-cabeça, sendo segurado por Kevin apenas por uma de suas pernas. Abaixo dele, uma queda de cerca de 20 andares. ― Q-qual a necessidade dessa agressividade toda?
― Você está fugindo de mim desde a primeira vez que me viu.
― Sim, mas...
― Na segunda vez, correu por cima do meu carro e arranhou a pintura com suas garras.
― Mesmo!? Olha, dá pra paga-
― Na terceira, você tentou disparar esses teus espinhos nojentos em mim quando eu estava prestes a te agarrar.
― Mas você estava recoberto de metal, eu sabia que não ia te machucar e-
― Na quarta vez, você jogou uma lata de lixo no meu para-brisa e me fez bater o carro.
― Isso eu já não consigo pagar...
― Depois armou uma emboscada com Octógono e Romboide na Cidade Baixa pra me capturar.
― Eles me disseram que iam fazer uma festa surpresa pra você. Não imaginei que iam tentar arrancar a sua cabeça...
Kevin olhava de cima, encarando Argit, com a avenida logo abaixo. O trambiqueiro mostrou um sorriso amarelo. O jovem seguiu os bons modos do contrato social e disse sorrindo:
― Fico feliz que conseguiu arrumar um espaço na sua agenda tão apertada para conversar comigo, caro amigo.
― Q-que isso, meu chapa, amigo é pra essas coisas... ― Argit sentia o vento balançar seu corpo de um lado para o outro ― M-mas será que não poderia me colocar no chão pra gente conversar c-como duas pessoas c-civilizadas?
― Dá não.
― Entendi... ― Argit via os carros passando abaixo dele como pequenas formiguinhas coloridas. ― E-então me fala, como posso te ajudar?
Kevin adquiriu uma expressão séria e disse:
― Albedo.
― Não conheço.
Kevin abriu um dos dedos da mão que segurava o porcupine.
― P-péra aí! ― Argit tentava se mexer o mínimo possível para não acabar escapando da mão de Kevin ― A-acho que estou me lembrando de a-alguma coisa.
― Imaginei que estava.
― Albedo... Albedo...
Kevin abriu mais um dedo. O vento naquela altura golpeava com violência.
― Albedo! Lembrei! S-sim, ele me procurou. Ele queria informações sobre alguns equipamentos e materiais.
― Pra quê?
― Eu não sei.
― Argit...
― Tô falando sério, eu não sei!
Kevin confiou na resposta. Voltou a dobrar os dois dedos ao redor da perda do interrogado.
― O que ele tá procurando?
― N-não posso dizer.
Kevin abriu três dedos da mão.
― Ah, meu Deus! ― Argit se desesperava, cobria os olhos com as mãos para tentar evitar a vertigem e o medo que sentia ao olhar para baixo.
― O que ele queria, Argit. Vamos diga logo!
― E-ele vai acabar comigo se descobrir que eu falei alguma coisa, Kevin, e você sabe disso!
― Relaxa, eu não vou deixar. Eu te dou cobertura.
― Esse tipo de “cobertura”!? Dispenso!
Kevin se perguntou se Gwen aprovaria seus métodos. Com certeza não. Voltou a fechar a mão e segurar o porcupine com firmeza. Saiu da beirada do prédio, carregando Argit e o soltou no chão do telhado.
O trambiqueiro apalpava o chão ao redor, procurando garantir que estava novamente em solo firme e tentando acalmar o coração que quase saia pela boca de tão acelerado.
― Argit, eu preciso de alguma informação. Vamos, me ajuda.
Ele encarava Kevin com raiva em seus olhos. Sua vontade era a de enfiar mil espinhos na cara dele nesse exato momento e fugir dali. Não seria tão difícil, era só se inclinar um pouco pra frente e...
***
Kevin caminhava caverna adentro.
“Tadenita”, foi o que Argit disse antes de virar de costas e ir embora. A relação dos dois não era a das melhores, mas digamos que ambos tinham “crédito de canalhice” o suficiente um com o outro pra poder “deixar mais essa passar...”
O interior da caverna apresentava sinais de mineração. Um ou outro carrinho de transporte se encontrava parado num trilho. Havia várias picaretas jogadas pelo caminho. De vez em quando, se encontrava um pequeno pedaço de minério Tadenita caído num canto, isolado. E é um fato: a caverna estava quieta e vazia demais...
Kevin continuou pelo caminho, seguindo o trilho de transporte até chegar numa abertura com vozes e sons vindo de dentro. O trilho seguia abertura adentro e descia numa curva suave até chegar numa intersecção de trilhos no meio de um grande espaço dentro da caverna. Ao centro, Vulkanus e cerca de cinquenta capangas mineradores se encontravam reunidos.
Os pequenos mineiros taedenites caminhavam de um lado para o outro, carregando peças e equipamentos. Vulkanus se encontrava fora de sua armadura. Armadura essa que lhe garantia pelo menos mais dois metros de altura. O que somando com sua estatura física, lhe permitia alcançar algo na faixa de 2,60m no total.
Kevin ouviu atrás de si um som se aproximando e saltou pela abertura instantes antes de quase ser acertado por uma picareta de um minerador. O jovem saltou no trilho e deslizou pelo ferro, como um skatista em um corrimão, até chegar ao solo, ficando a poucos metros de Vulkanus e rodeado de minions mineradores.
― E aí, Vulkanus.
― O que você quer, osmosiano? ― Vulkanus não se virou. Sobre uma plataforma móvel que alterava a altura segundo sua vontade, continuou mexendo em sua armadura.
Kevin notou que a tão famosa armadura se encontrava extremamente danificada. Faltava um braço, além da presença de perfurações, a falta de algumas chapas e com fiações saindo de aberturas do exoesqueleto.
Vulkanus se incomodava por estar sendo observado nessa situação, então perguntou novamente com mais brutalidade em sua voz:
― Diga, o que você quer?
― Albedo ― respondeu Kevin.
Sabe quando a gente está falando alguma besteira com um amigo na sala de aula e, de repente, todos silenciam e você solta aquela informação constrangedora que ressoa e faz todo mundo virar para você e te encarar? Pois bem, foi dessa forma que a caverna reagiu para a fala de Kevin.
Muitos dos mineradores largaram as peças e equipamentos que estavam em mãos e empunharam suas picaretas, prontos para atacar Kevin à primeira ordem. Seu líder, no entanto, mantinha-se atento aos consertos de sua armadura.
― Não sei de nada ― respondeu Vulkanus.
― Tenho quase certeza que sabe sim ― Kevin observava o vilão soldando uma chapa na lateral do exoesqueleto. ― Essa armadura não se esbagaçou toda sozinha...
― Está achando engraçado, moleque? ― Vulkanus largou sua ferramenta e finalmente encarou Kevin.
― Na verdade, tô achando sim.
― Eu sempre te achei trapaceiro, mentiroso e irresponsável ― Vulkanus cerrava os olhos com raiva ― mas estúpido eu nunca imaginei que fosse. Está querendo que eu acabe com você, osmosiano?
― O que foi? Tá com vergonha que levou uma surra do Albedo e fica fazendo ameaças pra tentar disfarçar!?
Os segundos que se seguiram pareciam durar horas. Talvez o mutismo tenso fosse uma variável importante na construção do ambiente de desconforto em que se encontravam.
O silêncio foi quebrado no instante que o vilão deu a ordem:
― Acabem com ele!
Os mineradores atacaram todos de uma só vez. Kevin disparava chutes e socos, lançando minions para todos os lados. A caverna se revestiu do som da batalha.
Vulkanus virou-se de costas para a confusão e continuou os consertos em sua armadura. Com um alicate ele cortava alguns fios e os reposicionavam no interior de um dos painéis laterais.
Kevin saltou por sobre um carrinho de transporte e o chutou em direção aos capangas que vinha em sua direção. Um minerador saltou pronto a acertar a sua cabeça, quando ele o agarrou ainda no ar e o arremessou na parede mais próxima.
Vulkanus descia a plataforma até a altura dos joelhos da armadura e parafusava a articulação direita. Procurou um parafuso, quando percebeu que ele se encontrava entre seus lábios. Pensou um “nossa como sou distraído” e continuou a parafusar.
Kevin se livrou de dois mineradores que saltou em suas costas, jogando-os contra uns pilares de madeira que sustentavam os trilhos. Outros dois minions corriam em sua direção, um deles golpeou com a picareta à direita de seu rosto. Kevin desviou, em seguida, socou o minerador com força suficiente para impulsioná-lo contra outro capanga.
Vulkanus, por sua vez, com a plataforma na altura do tórax da armadura, terminava de repor as chapas dos ombros e concluía os últimos retoques. Percebeu então que os sons da balbúrdia haviam parado. Ouvia-se apenas uma única respiração ofegante.
― Vulkanus! ― De pé, rodeado por vários capangas desmaiados, Kevin mantinha o olhar fixo no vilão que tentava, ao máximo, não mostrar a intensidade de seu incômodo.
― ...
― O Albedo, pra onde ele foi!?
O vilão mantinha o silêncio. Sua arrogância não lhe permitia assumir que perdeu. Duas vezes ainda.
Um minerador remanescente saltou em direção à Kevin, de picareta em punho, pronto a perfurar o tórax do jovem. Kevin, segurou a ferramenta e socou o rosto do capanga fazendo-o soltar a picareta.
Vulkanus sentiu um vento passar ao lado de seu rosto no instante que a picareta atingiu o centro do tórax de sua armadura.
O núcleo da armadura virou uma bola de fogo ao explodir, transformando o exoesqueleto em milhares de pedaços. Vulkanus foi arremessado com a onda de choque e deslizou de costas pelo chão até ser parado pelo pé de Kevin, apoiado em sua enorme cabeça.
― Eu vou perguntar só mais uma vez ― Kevin se encontrava revestido de Tadenita, com seu braço deformado numa enorme ponta, lembrando uma estalagmite verde, que balançava por sobre os olhos do vilão ― Onde. Está. O Albedo?
***
Kevin parou o carro assim que alcançou o local. Uma enorme construção, com sua arquitetura baseada nos castelos do século XVI, ornada com bandeiras vermelhas. Cavaleiros caminhavam de um lado para o outro, fazendo a segurança do local.
― Tinha que ser os nerds-cabeça-de-lata...
Fale com o autor