OMNITRANIL (Ben 10 - Força Alienígena)
14 Por detrás das muralhas

― Você, o ruivo, dê um passo à frente e se apresente!
― Phillip, milorde ― disse Kevin. ― Pajem e futuro Sir Eterno.
― Um jovem ambicioso, devo dizer ― Sir William com sua armadura prateada e capa vermelha, encarava Kevin, quer dizer, Philip. Deu um sorriso de canto de boca e continuou ― Isso é bom, sem ambição não se conquista nada! Você, o altão aí, dê um passo à frente e se apresente!
Kevin invadiu o castelo dos Cavaleiros Eternos. Utilizando de uma máscara de identidade, adotou a identidade de Philip, um jovem ruivo com sardas, de nariz largo e um grande sonho de um dia se tornar um Sir Eterno. Mas para isso, seria preciso toda uma caminhada como pajem, para um dia se tornar um escudeiro e, depois de muita dedicação, se alçado à categoria de Cavaleiro. Como iria ganhar o título de Sir já era algo que sua imaginação não permitiu pensar na hora de criar a mentira.
Nesse momento, Kevin se encontrava de pé, enfileirado junto com outros dezenove jovens pajens, na área externa de costas ao portão principal do castelo. Sir William caminhava a passos firmes de um lado para o outro, com seu olhar julgador passeando pelas expressões de medo dos novos recrutas. Ao lado do cavaleiro, um escudeiro com uma prancheta, fazia anotações sobre os novos integrantes da Ordem dos Cavaleiros Eternos e caminhava no mesmo ritmo de seu lorde.
Dos vinte jovens, que nesse momento lutavam para manter a bexiga urinária funcionante, apenas dois além de Kevin (Phillip) são relevantes para a história: Theodore e George. E por que? Porque foram os únicos que Kevin dirigiu a palavra. Na verdade, não. Eles que puxaram assunto com Kevin, mas depois de três grunhidos, duas bufadas com as narinas e seis olhares de desaprovação, o osmosiano finalmente respondeu com palavras.
― ... e caso um de vocês forem pegos quebrando alguma dessas regras, senhores, não esperem piedade ou misericórdia ― Sir William concluía suas instruções aos novos recrutas. Desculpe não colocar as instruções desde o começo para você acompanharem, caros leitores, mas já basta os coitados dos pajens serem obrigados a ouvir vários minutos de blá-blá-blá; “pode isso, não pode isso”; “será decapitado” e mais um monte de baboseiras. Por fim, o cavaleiro concluiu ― Estamos entendidos?
― Sim, milorde! ― responderam ao mesmo tempo.
― O meu Escudeiro os guiará até os seus aposentos. Dispensados!
A fileira de pajens abriu um espaço entre seus membros para permitir a passagem do cavaleiro, com sua capa vermelha esvoaçante, que seguiu para o interior do castelo. Em seguida, o Escudeiro ― um jovem um pouco mais velho que os pajens, com um cabelo preto encaracolado e vestindo uma ridícula roupa vermelha e branca ― pediu a atenção de todos e começou:
― Eu diria “bom dia” se fosse um bom dia, mas o fato de ter que lidar com suas caras desagradáveis logo de manhã é de se acabar com o lado “bom” de qualquer dia.
Os pajens entreolharam entre si, confusos. Seria esse um grande exemplo de Síndrome do pequeno poder?
O Escudeiro continuou:
― Se tiverem alguma pergunta, guardem para vocês. Se tiverem alguma reclamação, guardem para vocês. Se tiverem algum elogio, guardem para vocês também pois eu não me importo com o que vocês gostam ou deixam de gostar. Estamos de acordo?
― Sim, senhor... ― responderam ao mesmo tempo.
― Ótimo, me acompanhem ― E seguiu através da fileira, dando uma trombada no braço de um dos recrutas.
Theodore inclinou a cabeça em direção à Kevin (Phillip) e cochichou:
― Uma simpatia esse cara, hein?
Kevin nada respondeu e seguiu caminhando calado.
― Por favor, me diga que essa “simpatia” toda não é contagiosa... ― disse Theodore.
***
“Vocês três ficarão responsáveis por varrer o pátio”. Os demais pajens também foram divididos em tarefas, mas sobrou para Kevin, Theodore e George a incumbência de limpar a enorme área do pátio. O lado bom é que seria um tempo grande a ser destinado a uma tarefa apenas, o que permitiria Kevin se concentrar nos seus próximos passos agora que estava dentro do castelo. O lado ruim é que Theodore e George eram dos tipos falantes e não calavam a boca um segundo sequer, atrapalhando-o raciocinar.
― Meu pai disse que meu nome foi inspirado no Cavaleiro-Fundador da Ordem ― disse George. O jovem de cabelo crespo e óculos segurava a vassoura como uma espada apontando para o céu.
― Sério? Pensei que fosse Jorge o nome do Fundador... ― disse Theodore. Os traços físicos de descendência asiática aliado à sua altura, elevada para a idade, faziam ele se destacar entre os demais pajens. No momento, ele se encontrava com a cabeça apoiada sobre as mãos que seguravam o topo da vassoura e a mantinha em pé.
― Isso depende do local que você ouve a história. No meu caso, foi inspirada na versão britânica.
― Maneiro. O meu nome não veio inspirado de nada, eu acho... ― Theodore virou-se para Kevin e disse: ― E você, Phillip? Teu nome é alguma homenagem também?
Kevin respondeu com um olhar de desaprovação e continuou varrendo.
― Vai continuar bancando o caladão? Então beleza... ― disse Theodore.
― Vocês deveriam é estar varrendo ao invés de ficar perdendo tempo tagarelando. ― disse Kevin finalmente. ― Se o Sir William aparecer...
― Finalmente resolveu falar!? ― disse George.
― Ele tem razão, George ― disse Theodore ― bora voltar ao trabalho antes que o Sir ou o Escudeiro chato dele apareça aí...
A movimentação tranquila do pátio foi alterada de repente com a chegada do caminhão. Assim que o portão se abriu, o pátio se revestiu de cavaleiros-soldados: alguns para escoltar e garantir a segurança da carga, outros para realizar o descarregamento do caminhão e uns apenas para matar a curiosidade. Fato é que em questão de instantes, toda a atenção do castelo se voltou para o veículo e sua carga misteriosa.
― O que está acontecendo? ― perguntou Theodore.
Kevin se aproximou dos colegas. Não era possível continuar varrendo, pois a multidão e sua curiosidade não deixavam.
― Não comenta com ninguém ― disse George cochichando ― Mas parece que descobriram alguma tecnologia misteriosa no castelo oeste e estão transferindo para o nosso que tem mais segurança.
Um receptáculo quadrado reforçado com lacres era retirado de dentro do caminhão e levado pelo pátio, com uma espécie de plataforma flutuante, para dentro do castelo. Cavaleiros escoltavam a carga com armas em pronto disparo.
― O que foi que encontraram? ― perguntou Kevin à George.
― Eu não sei muito... Mas pelo que eu descobri xeretando o escritório do meu pai-
― Seu pai? ― Kevin interrompeu.
― Meu pai é um dos Sir desse castelo. Responsável pelo planejamento tático. Sir Gustav, já ouviu falar dele?
Kevin se lembrou de ter socado a cara de um cavaleiro-chefe há alguns meses, se o nome é Gustav ele já não sabia dizer. George continuou:
― Ele tem uma falha na sobrancelha direita e uma parte do cabelo grisalha nos lados.
É, foi ele que eu soquei a cara mesmo... ― pensou.
― Conheço não. ― disse Kevin.
― Então, continuando, eles estavam atrás de um objeto milenar chamado Caótica, que de acordo com o meu pai e os outros Sir’s, possui uma tecnologia ainda desconhecida no planeta Terra.
― E o que ela faz? ― perguntou Theodore.
― Não sei cara, mas deve fazer um bom estrago. Senão eles não estariam com esse cuidado todo...
Kevin mantinha o olhar fixo para as portas reforçadas que se fechavam logo após a tal Caótica dar entrada no castelo.
Tenho certeza que é disso que Albedo está atrás... ― pensou ― A dúvida agora é como impedi—lo de pegar...
― E onde vão guardar um negócio perigoso desses? ― perguntou Theodore.
― Na cripta, com certeza. ― respondeu George.
― Ei, inúteis! ― a voz do Escudeiro vinha de uma das janelas do castelo e continuava sendo irritante não importava se ouvida de perto ou de longe. ― Parem de perder tempo e voltem ao trabalho antes que eu os coloque para limpar todas as janelas do castelo também!
― Vamos, gente ― disse George ― Não vamos querer irritar o reizinho ainda mais...
Kevin voltou a varrer, tanto ao chão quanto aos seus pensamentos. Com um novo objetivo em vista, era preciso reformular seus planos do começo...
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