Gwen não via a hora de ir embora para casa. A aula parecia uma eternidade para acabar. Encarava o relógio por sobre a lousa e sentia como se o ponteiro teimasse em não querer se mover.

Vamos... – pensou. Sua perna direita balançava por debaixo da cadeira.

Ela olhou para os colegas ao seu redor. Um rebanho de pré-adolescentes de onze anos que, àquela hora do dia, já não prestavam atenção em nenhuma palavra dita pela professora de matemática.

Eis que veio o aguardado sinal.

Em questão de instantes, Gwen enfiou seu caderno, estojo e livro na mochila, jogou-a sobre o ombro e correu em direção à porta. A professora passou uma última instrução aos alunos, mas ela não ouviu. Adentrou o corredor, desviando do mar de estudantes, rumo à porta dupla da saída.

De mochila nas costas, ela correu pela calçada. Em sua mente ela tentava relembrar as etapas que seriam necessárias para a execução do feitiço. Treinou bastante os passo-a-passos, estudou a pronúncia correta das palavras, bem como, meditou por horas para conseguir alcançar o nível exigido de mana. Agora era colocar tudo em prática.

Abriu a porta de casa e gritou para quem quisesse ouvir:

― Cheguei! ― Ela subia as escadas de dois em dois degraus.

― Mas já!? ― respondeu sua mãe da cozinha ― A aula não acabou faz nem dez minutos?

Gwen não respondeu, entrou no quarto, jogou a mochila para um lado e foi em direção à gaveta de sua mesa de estudos. Escondido por debaixo de três cadernos, estava ali o livro de feitiços de Encantriz.

Foi graças a ele que a jovem garota de onze anos encontrou seu propósito. Seu primo pateta tinha um relógio que lhe permitia se transformar em aliens. Ela tinha a magia. Suas últimas férias foram um aglomerado de aventuras que jamais esqueceria. Enfrentou vilões, salvou pessoas, foi chamada de heroína. E como toda heroína, precisava estar preparada para o próximo desafio que surgisse.

Gwen não parava de estudar esse livro. Sempre que havia uma chance estava lendo ou recitando algum encantamento. Certa vez pronunciou errado uma magia: confundiu “D” com “T” e acabou transformando sua mesa de cabeceira numa planta carnívora. Precisou seu avô vir de longe para conseguir dar cabo à criatura. Desde então ele deixou orientações:

― Gwen, eu sei que você é uma garota muito curiosa e inteligente, mas não pode ser descuidada. Procure sempre se preparar bem antes de tentar alguma magia e, caso precise, me avise que eu te levo em algum local aberto e seguro para que possa treinar.

― Sim, vovô... ― Ela mantinha a cabeça baixa, encarando os próprios pés. ― E me desculpe por ter feito o senhor viajar até aqui pra isso...

― Não se preocupe, eu já estava planejando vir visitar vocês mesmo ― Vô Max sorria. Ele levou a mão ao seu bolso traseiro, tirou de lá um pequeno objeto e colocou na mão da neta. ― Aqui, sempre que você for treinar deixe isso perto de você.

Gwen olhou para o objeto com dúvida.

― Uma presilha de cabelo?

― Sim.

― Mas eu já tenho uma, olha. ― Ela levou a mão à mecha presa para não cair nos olhos.

― Mas não é apenas uma presilha. ― Max levou a mão ao cabelo da neta, retirou a presilha antiga e colocou a nova. ― Ela age também como um contador Geiger de radiação, só que para mana.

― O senhor vai ficar me vigiando como se eu estivesse de castigo!? ― Gwen tirou a presilha do cabelo. ― Por quê!? Eu já pedi desculpas pela planta!

― Acalme-se, Gwen. ― Ele pegou a presilha da mão da garota e novamente colocou em seu cabelo. ― Como eu disse, é apenas um medidor, ele só irá me avisar se caso ultrapassar níveis acima do seguro para você e para as pessoas ao seu redor.

Gwen sentiu um leve desconforto em seu estômago. Por mais que adorasse a magia, ela sabia que era algo com grande potencial de fazer mal.

― Dessa forma, ― continuou Max ― eu consigo vir ao seu socorro antes mesmo de você pensar em me chamar. ― Ele sorriu com carinho, então abriu os braços e disse ― Vem cá, me dá um abraço.

Gwen envolveu o corpanzil dele com seus bracinhos num apertado abraço.

Desde então, ela jamais deixou de usar o presente de seu avô. No entanto, tinha um certo receio de que talvez o encantamento que iria tentar hoje pudesse disparar a presilha.

A voz de sua mãe propagou-se do andar de baixo pelas escadas:

― Gwen, vou ter que sair para ir ao mercado, você precisa de alguma coisa!?

― Preciso não, mãe!

― Qualquer coisa é só me ligar!

― Ok!

Já estava nos planos da garota a ausência de sua mãe. Seu pai estava trabalhando e só chegaria à noite. Sua mãe avisou no dia anterior que faria compras naquela tarde. Era a oportunidade perfeita!

Há algumas semanas, enquanto estudava o livro de Encantriz, Gwen viu um capítulo em que se instruía formas de alcançar e liberar limitadores internos do fluxo de mana para se conseguir amplificar seus poderes. Como dito antes, para uma heroína é sempre bom estar preparada para os desafios futuros e ficar mais poderosa era um passo importante para essa preparação.

Assim que ela ouviu o som da porta de entrada se fechando, Gwen levantou o tapete de seu quarto, revelando um círculo mágico desenhado em giz em seu carpete. Abriu o guarda-roupa e tirou de lá velas que foram posicionadas em pontos estratégicos no círculo. Entrou dentro do desenho e com um fósforo acendeu as velas, em seguida, sentou-se com as pernas entrecruzadas entre si, com o livro aberto apoiado sobre elas.

Inspirou profundamente e soltou o ar. Fez isso algumas vezes até conseguir respirar sem ansiedade. Posicionou as palmas das mãos uma sobre a outra, em seguida, fechou os dedos formando dois “C’s” encaixados entre si. Concentrou-se ainda mais.

Aos poucos começou a visualizar seu próprio corpo no interior de sua mente. Quanto mais se concentrava, mais conseguia ver pequenas linhas desenhando-se por ele, indicando o caminho que sua mana percorria dentro de si. Quase num cochicho começou a falar:

Juuem si, corpore ksa...

As linhas começaram a ficar cada vez mais definidas, desenhando caminhos, espirais e desvios.

Yuurem baa, corpore tzu...

Gwen percebeu que havia locais em seu corpo em que o fluxo de mana era quase insignificante, focou-se neles.

Reserare!

Ouviu-se um som agudo, como de sino, ecoar pelo ambiente e, então, sobre o ponto em que focava, vários novos caminhos surgiram e se conectarem entre si. Gwen sentiu seu poder crescer no mesmo instante. Sorriu de leve.

Voltou a se concentrar. Outro ponto em que sentia o fluxo ser mais limitado. Quantos mais novos caminhos poderia abrir? Bem, mais um pelo menos. Focou sua atenção.

Reserare!

Novamente o som de sino. Novas rotas preencheram seu corpo. Seu poder cresceu incrivelmente. Novamente sorriu.

Mas já estava bom, não é mesmo?

Ainda imersa na meditação, Gwen buscou uma última olhada em seu fluxo antes de começar a finalizar o encantamento. A mana percorria seu corpo com uma velocidade incrível. Junto ao seu ombro esquerdo, havia outro desvio. Sua mana avançava velozmente e então ali virava numa curva fechada rumo seu coração e, então, eis que se ouviu o som de sino pela terceira vez.

Gwen novamente sentiu a onda de poder preencher seu corpo, fazendo-a, dessa vez, flutuar levemente por alguns segundos. Não sorriu.

Preciso parar! ― pensou.

Junto ao seu joelho direito, outro desvio. Pelo menos havia, pois com o soar do quarto sino, novos caminhos surgiram ali.

No total, soaram sete sinos.

◇───────◇───────◇

Max se encontrava saindo do Quartel general dos Encanadores, caminhava em direção à Lata-velha quando um agudo som ecoou de seu distintivo. Não precisou pegá-lo para ver o que era; só havia uma coisa que faria o distintivo soar dessa maneira. Correu para o trailer, sentou-se no banco do motorista, colocou o distintivo por sobre o painel do carro e deu a partida.

Mal os portões da garagem estavam abertos e a Lata-velha já havia saído em alta velocidade. O distintivo projetava sobre si um mapa circular da cidade com um ponto brilhante piscando. Na borda do mapa, um ponteiro subia velozmente, apontando para o que seria níveis cada vez maiores de mana.

Max apertou um botão no painel e iniciou a comunicação:

― Quartel, aqui quem fala é o Magistrado Tennyson, preciso de reforços com urgência nas coordenadas que estou enviando agora. Apenas forças de contenção e controle, nada de armas, repito, nada de armas.

A Lata-velha percorria a cidade numa velocidade e destreza desproporcional à sua aparência externa. Atravessou faróis vermelhos, derrapou para realizar curvas fechadas e passou por cima de cercas residenciais até, enfim, chegar ao seu destino.

As pessoas saíam de suas casas e começavam a se aglomerar na rua para observar o evento. Vozes questionadoras se ajuntavam aos sons de espanto.

Vô Max saiu do trailer e encarou o primeiro andar da casa de seu filho, mais precisamente onde ficava o quarto de Gwen.

― Essa não... ― disse Max.

As paredes do quarto eram apenas destroços que flutuavam em pleno ar, junto com objetos e móveis. Um ruído alto e grave propagava-se pela região num ritmo pausadamente obediente. Flutuando em meio ao seu próprio quarto, Gwen se encontrava com o tronco içado, seus braços e pernas caídos inertes e sua cabeça curvada para trás. Um forte brilho róseo emanava de seus olhos e boca. Sua pele adquiria pequenas manchas violáceas que agrupavam em máculas cada vez maiores.

Um camburão dos Encanadores parou de maneira brusca próximo à Lata-velha; rapidamente, cinco soldados desceram e se aproximaram de Max.

― Magistrado, ― disse um dos soldados ― quais são as ordens!?

― Precisamos isolar a área imediatamente. Comecem a afastar as pessoas daqui. Precisaremos da equipe de Controle de Memória também para apagar os eventos que essas pessoas estão testemunhando.

Mais dois camburões chegaram e tão logo foram desembarcando seus membros.

Max continuou:

― Preciso que alguém descubra onde meu filho e minha nora estão, se não estiverem por aqui, preciso que os distraia e não permitam que voltem para casa.

― E sobre a garota, Magistrado, o que nós faremos?

― Da garota cuido eu, agora vamos!

Os soldados acenaram uma afirmativa com a cabeça e se dirigiram para suas funções. Max, por sua vez, seguiu em direção à porta de entrada da casa.

◇───────◇───────◇

Gwen perdeu o controle sobre si. Perdeu o controle de sua magia, de seu corpo e de seus pensamentos. Apenas um instinto de sobrevivência gritava dentro de seu ser. Quero viver! Mas viver lhe causava medo. Estar viva significava ter que lidar com essa gama de sentimentos e estímulos amplificados ao extremo. Quero viver!

Ela sentia seu peito arfar freneticamente, seu coração latejar em seus ouvidos. Seus pensamentos não lhe obedeciam e corria para caminhos inimagináveis. Sentia-se presa, com a certeza de que não sobreviveria àquilo. Quero viver!

Começou a sentir além de si. Começou a enxergar tudo, em todo lugar e ao mesmo tempo. Via linhas de mana em tudo à sua volta, algumas mais grossas do que outras. Algumas mais tortuosas do que outras. Algumas mais cheias de vida do que outras. Sentiu uma necessidade imensa de alcançá-las, como se sua sobrevivência dependesse disso, mas seu corpo não se mexia. Ela clamava por elas, precisava delas. Quero viver!

Aos poucos as linhas começaram a vir em sua direção e seu ser as recebeu de braços abertos. À medida que a mana percorria seu corpo, as linhas ao seu redor começavam a afunilar e desaparecer. Precisava de mais! Quero viver!

E então um ponto denso e disforme entrou no seu campo de atenção. Era pequeno, mas seu interior era rico em magia. Preciso dele! Seu corpo inclinou-se para frente, suas mãos indo de encontro a ele. De repente, o ponto se expandiu como um pequeno sol, trazendo consigo um número infinito de linhas. Os riscos a rodearam e foram tocando a superfície de sua pele, alimentando sua fome por energia. Iria viver...

Sua respiração foi se acalmando.

Sua mente foi se apaziguando.

Silêncio...

― Gwen?

Uma pequena fresta de luz surgiu por entre suas pálpebras.

Escuridão novamente.

― Gwen?

Abriu novamente os olhos. Uma imagem embaçada foi ganhando nitidez: o rosto de seu avô.

― Vamos, Gwen... ― disse Max ― Acorde!

― Vovô?

A garota se encontrava deitada no chão de seu quarto, a cabeça apoiada no colo de seu avô. Suas mãos seguravam a mão esquerda dele apoiada sobre seu abdome.

― Como você está se sentindo? ― perguntou Max.

― Minha cabeça está estranha... ― tentou erguer o pescoço.

― Não, não! ― Max recostou a cabeça da neta em sua perna. ― Não se levante agora, procure descansar.

― O que foi que aconteceu?

― Isso não importa agora, o importante é que você está bem e ninguém se machucou.

Gwen abaixou os olhos para a mão esquerda de seu avô, em seu dedo anelar, um anel de casamento com uma joia de fraco brilho rosa. Olhou para cima e viu o céu alaranjado de um fim de tarde.

Mas onde está o teto? ― pensou ― E as paredes?

Encarou seu avô com uma grande expressão de dúvida.

― Eu explico depois, agora descanse.

◇───────◇───────◇

Depois que a situação fora controlada pelos Encanadores e os médicos garantiram que estava tudo bem com Gwen, Max resolveu explicar à neta o que acontecera. Afinal de contas, por mais que pedisse muitas desculpas, a garota deixava claro que não iria ficar tranquila enquanto não soubesse o que aconteceu com ela e se não correria o risco de acontecer de novo.

Max sentou-se na poltrona do quarto de hospital, apoiou os cotovelos sobre os joelhos e mexendo em seu anel de casamento, começou a falar:

― Acho que nem eu nem seu pai contou nada para você sobre sua avó, estou certo?

― A vovó? ― perguntou Gwen ― Não, sempre pareceu um assunto que não se devia falar na família. Depois de um tempo eu parei de perguntar.

― Isso é coisa de seu pai, não tem razão nenhuma para se envergonhar sobre quem sua avó é...

― Como assim, vovô?

Max encostou as costas na poltrona e encarou o teto do quarto. Seu olhar visitava suas memórias.

― Ela se chama Verdona...

― Vovó está viva!?

― Sim, está.

― E-e onde ela está? Você sabe onde fica a casa dela?

― Sim, eu sei ― Max sorriu. ― Em Anodyne.

― Vovó é alienígena! ― Gwen saiu de debaixo da coberta e ficou de joelhos sobre a cama. ― Por que o senhor não me falou antes!?

― Porque ele tem medo de que eu me torne a favorita dos netos.

― Verdona... ― Max levantou-se da poltrona num sobressalto.

Uma mulher de cabelos brancos entrou pela porta do quarto. Em seus lábios desenhava-se um sorriso de ternura e alegria.

― Essa que é a vovó? ― Gwen perguntou.

Max caminhou ao redor da cama, aproximou-se da mulher e disse numa voz calma, mas preocupada:

― O que está fazendo aqui?

― Também é bom te ver, Maxwell ― Ela acariciou-lhe a bochecha com a mão. ― Até parece que eu não iria vir visitar minha neta no dia que ela desperta sua verdadeira essência.

― Pérai, como é!? ― Gwen inclinou-se para frente.

Max abaixou a cabeça, inspirou silenciosamente e deixou o ar escapar de seus pulmões sem resistência.

― Eu pretendia abordar o assunto de uma maneira menos direta...

― Por quê? A garota tem o direito de saber quem é de verdade!

― Sim, ela tem, mas tudo tem um jeito de se abordar. Pode assustá-la e-

― Oi! ― interrompeu Gwen ― Por que vocês não deixam os modos de lado e me expliquem logo o que está acontecendo comigo?

― Você é uma anodita, Gwen. ― disse Verdona.

Max colocou as mãos na cintura e caminhou pelo quarto inquieto.

― Ano o que? ― disse Gwen.

Verdona sentou-se na cama e com sua mão esquerda começou a acariciar os cabelos de sua neta.

― Anodita, minha querida.

― Meio-anodita ― cortou Max.

― Você sabe muito bem que não existe isso com os anoditas ― Verdona falava por sobre o ombro ― Ou é ou não é, basta apenas que desperte a essência.

― Vó... Quer dizer... Posso chamar a senhora de vovó?

― Claro, minha querida! ― Verdona abriu um sorriso de orgulho.

― Vovó, o que é uma anodita?

― Anodita é o que você é. Uma habitante do planeta Anodyne, assim como eu. ― Os olhos de Verdona adquiriram um brilho rósea.

Gwen se encheu de entusiasmo.

― A senhora tem poderes!? O que a senhora sabe fazer? Eu consigo fazer também?

― Acalme-se, acalme-se, minha criança... ― Verdona segurou ambas as mãos de Gwen ― Você vai aprender tudo que eu sei no tempo certo-

― Verdona, ela ainda não está pronta ― disse Max firmemente.

Gwen e a avó encararam Max. Havia frustração no rosto de Gwen, já Verdona mantinha-se séria.

― Mas vovô...

― Me desculpe, Gwen.

― Max, ela despertou.

― Sim e por muito pouco ela não sugou a energia de todas as pessoas do bairro.

― Como é? ― Gwen aos poucos foi soltando as mãos de sua avó.

― Eu estava tentando te explicar tudo com calma antes de sua avó chegar, Gwen, mas-

― Max, exatamente por isso que ela deve ir comigo ― interrompeu Verdona. ― Sua espécie não é capaz de lidar com-

― Verdona, ela só tem onze anos! Eu não posso deixar minha neta ir para outro planeta. Os pais dela não permitiriam.

― Se ela perder o controle novamente, não sabemos o que pode acontecer...

― Eu sei disso...

― O que pode acontecer? ― perguntou Gwen. ― O que tem de errado comigo? ― Seus olhos começaram a ficar marejados.

― Ô, minha querida ― Verdona puxou Gwen para perto de si e a abraçou ― Não se preocupe, não tem nada de errado com você.

― Mas vocês disseram...

― Nós, anoditas, somos uma espécie feita de pura energia. Usamos e manipulamos o que chamamos de mana ao nosso bel prazer.

Gwen afastou a cabeça do tronco de sua avó e disse:

― Assim como se faz na magia?

― Exatamente...

― Mas num nível totalmente fora de comparação ― intrometeu-se Max.

― Sim, somos uma espécie muito poderosa ― disse Verdona.

― O que foi que aconteceu comigo lá em casa? ― perguntou Gwen ― Eu pensei que havia perdido o controle de um feitiço, mas parece que não foi só isso...

― Não, não foi, minha querida ― Verdona voltou a acariciar os cabelos de Gwen. ― Você se importa de me dizer qual era o feitiço que estava tentando?

― Eu estava tentando abrir algumas limitações internas do meu fluxo de mana para tentar ficar mais poderosa, só que-

― Só que as barreiras começaram a cair uma atrás da outra e você não conseguiu mais parar.

― Isso...

― Como eu falei, Gwen, somos uma espécie que tem uma relação muito íntima com a mana. Cada caminho dentro de nosso ser precisa ter uma quantidade mínima de energia para que ele flua com qualidade. Um caminho sem mana dentro de nós e como uma artéria sem sangue. Nosso corpo sofre uma espécie de asfixia de energia.

― Então quando eu comecei a abrir as barreiras...

― Faltou energia para preencher essas novas “artérias”.

― Eu pensei que eu fosse morrer... ― disse Gwen.

― E infelizmente a sensação é essa mesmo, só que nosso instinto de sobrevivência é maior. Na falta de mana interna, seu corpo começou a buscar energia nos arredores.

Gwen virou-se para seu avô com medo em seus olhos:

― O que foi que eu fiz!?

Max aproximou-se da cama e abraçou a neta.

― Ninguém se machucou, Gwen, não se preocupe. ― Ele levantou a cabeça dela e encarando seus olhos, continuou ― Eu disse que estaria lá para te proteger.

Gwen afrouxou o abraço, virou-se para a avó e perguntou:

― O que aconteceria se eu absorvesse todo a mana de uma pessoa?

Verdona abaixou a cabeça, pensou por alguns segundos e então disse:

― Nenhuma criatura viva sobrevive sem mana dentro de seu ser.

◇───────◇───────◇

Cinco anos depois. Numa claraboia no interior da floresta de Bellwood. Uma grossa fumaça branca começava a se dissipar.

― Gw-Gwen, pa... re... ― disse Kevin com dificuldade.

A pele do jovem osmosiano se encontrava revestida por rocha, no entanto, a força do aperto dos dedos da garota era suficiente para rachar a cobertura ao redor de sua garganta. As pernas dele balançavam inutilmente no ar. Suas mãos seguravam o antebraço violeta de Gwen numa tentativa vã de diminuir o efeito do peso de seu próprio corpo no estrangulamento. Kevin começou então a sentir que algo de vital importância começava a escapar de dentro de seu ser. Estava morrendo.

Notas finais
Sim, Omnitranil não morreu! Peço mil desculpas pela ausência de atualização. Nesse meio tempo eu estava na reta final dos meus estudos para alcançar um objetivo numa prova e, graças à Deus, consegui! Agora não tenho mais desculpas para não escrever :)