Kevin tentava se manter calmo o suficiente para não fazer uma besteira e colocar tudo a perder.

― Você é apenas um verme! ― o Escudeiro gritava com Theodore ― Um verme não. Um verme seria bom demais pra você... Você é o excremento de um verme! ― o dedo apontado na cara do pajem ― Não, que isso, quem dera você fosse apenas o excremento! Você é a bactéria do excremento de um verme! Não é capaz de fazer uma simples tarefa! Inútil, incompetente! Agora, desaparece da minha frente!

Theodore acenou levemente com a cabeça e saiu pela direita. Não havia sinais do bom humor característico do jovem.

O Escudeiro acompanhou sua vítima com o olhar até vê-lo se ajoelhar junto ao vaso sanitário e pegar um esfregão. Um sorriso se formava no canto de seus lábios. Virou-se na direção contrária à de Theodore e seguiu para os andares superiores.

Kevin se aproximou de Theodore. Agachou próximo a ele, pegou um dos esfregões também e passou a auxiliá-lo na limpeza do banheiro coletivo.

― Não precisa, cara ― disse Theodore.

― Relaxa, já acabei minhas tarefas ― respondeu Kevin.

Se fosse em outros tempos, Kevin já teria absorvido a madeira ou a pedra do primeiro objeto que visse na frente e teria socado a cara do Escudeiro. Seria um belo soco. Imaginou se quebraria o nariz e alguns dentes. Uns dois pelos menos? Nah, três com certeza!

Mas no momento, nada disso era possível. Ele precisava passar despercebido. Seu objetivo atual era conseguir a Caótica antes de Albedo. Estranho ele não ter aparecido ainda...

Sobre o sermão, talvez você ache que Theodore tenha feito algo muito absurdo para receber palavras tão graciosas de motivação. Deixo para você, leitor, julgar:

O Escudeiro deu à Theodore a incumbência de lavar os banheiros coletivos do castelo, todos os cinco. O pajem passou metade do dia esfregando paredes e privadas; tirando tufos de pelos de ralos, suficientes para fazer um tapete persa. Assim que terminou, descobriu que deveria ter usado o sabão de lavanda, não o de coco. O final da história você já deve ter entendido...

― Theodore... Você está chorando? ― perguntou Kevin.

― Quê!? Eu!? ― Theodore limpava os olhos com o braço da camisa ― Tá louco, meu irmão? É o produto...

― Entendi. Ele arde os olhos mesmo...

― ...

Já era o terceiro sermão só nesse dia.

― Aí, não liga para o que o Escudeiro diz ― Kevin enchia um balde com água da torneira.

― Eu não ligo.

― Então beleza.

A partir daí, apenas o som dos esfregões sendo forçado contra paredes, pisos e privadas era ouvido. O cheiro de coco era, aos poucos, substituído pelo de lavanda. Ao terminarem, reuniram os baldes, esfregões e olharam com orgulho para o trabalho concluído.

― Fazendo junto, terminamos mais rápido ― disse Kevin.

― Valeu, Phillip!

― Não agradece, ainda faltam quatro.

Putz, você tinha que lembrar...

― Para de choramingar e vambora!

Assim que removeram a placa de “Em limpeza” da porta do banheiro, George, com seu estilo desengonçado de ser, aproximou-se correndo dos dois:

― Não saiam não, entrem, entrem! ― Ele empurrava os dois de volta para o banheiro.

― Tá maluco, George? ― disse Theodore ― O que houve?

Assim que fechou a porta, George começou:

― Descobri uma forma da gente entrar na Cripta.

― E quem foi que te pediu pra descobrir isso? ― Theodore apoiou o balde no chão.

― Eu pedi ― respondeu Kevin.

― Pra quê?

― Vai me dizer que nunca teve curiosidade de entrar na Cripta? ― O olhar de George dizia um “todo mundo quer entrar na cripta

― Tenho, claro que tenho. Mas minha curiosidade acaba na exata distância entre eu matar a curiosidade e a curiosidade me matar.

Pausa para explicações:

O pedido de Kevin à George também foi construído através de uma mentira. Ele estava ficando bom nisso! Primeiro perguntou ao colega se ele conhecia a tal lenda dos Pajens-Cavaleiros. George não conhecia, embora boa parte de sua criação foi debaixo das asas dos Cavaleiros Eternos. Faz sentido não conhecer, segundo Kevin, pois era uma História que foi guardada a sete chaves nos arquivos dos Eternos e os Líderes temiam que mais pajens resolvessem enfrentar a aventura e arriscassem a vida. George ficou cada vez mais curioso e questionou “o que raios era essa lenda”!? Então Kevin contou a história dos dois Pajens que invadiram a Cripta de Segredos dos Cavaleiros Eternos e, por demonstrarem coragem e aptidão pra enfrentar os perigos da Cripta, foram elevados a categoria de Cavaleiros imediatamente.

Pode parecer uma história tosca, mas a história de origem mais famosa dos Eternos era a de um cavaleiro que lutou contra um dragão na lua, então, assim... O limiar de crença deles é bem baixo. A prova disso é que George acreditou.

O interesse de Kevin, claro, estava na possibilidade de adquirir a Caótica, já que a Cripta é o cofre mais seguro do castelo.

Fim da pausa.

― Cara, não precisa vir se não quiser ― disse Kevin.

― Mas vai se arrepender se não vir ― desafiou George.

― Não sei porque, mas acho que vou me arrepender mais se eu for...

― Você que sabe ― Kevin respondeu.

Theodore pensou por alguns instantes, então lançou uma contraproposta:

― Se me ajudarem a limpar os outros banheiros eu vou com vocês.

Oxi, por quê? ― questionou George ― A funça é tua mermão...

Kevin encarou George. A frieza em seu olhar fez o pajem conferir o funcionamento adequado de sua bexiga urinária.

Por razões “desconhecidas”, George mudou de opinião:

― A-a gente ajuda sim, s-sem problema.

― Se for assim, então beleza. ― Theodore sorria. Três fazendo o trabalho, talvez desse tempo de assistir a série “O Jogo dos Reinos” que ele estava planejando tirar o atraso há dias. ― Mas se eu morrer, eu mato vocês.

― Certo ― respondeu Kevin.

― Certo... ― respondeu George.

***

Quatro banheiros com cheiro de lavanda depois, os três pajens resolveram se reunir próximo à cama de George para discutir o plano.

Theodore expressava uma cara de “vai dar errado...” a cada nova informação. Kevin mantinha-se atento às explicações e às fotos no celular de George, que ele tirou na sala de seu pai. George, obviamente, não parava de falar um segundo; de vez em quando, sendo obrigado pelo próprio pulmão a respirar quando a voz começava a sumir.

― Não, não, não! ― George movia as mãos no ar acenando uma negativa ― Isso aqui são os lasers ― o dedo indicador apontava um ponto na foto do celular ― a área eletrocutada está mais pra frente ― o dedo deslizava pelo celular, passando as fotos, até encontrar o que desejava ― Aqui. Essa é a parte eletrocutada.

― Uma dúvida ― disse Theodore ― Na verdade, várias dúvidas, mas vamos por partes. A primeira é, por que raios debaixo do castelo tem um cofre inspirado nas masmorras medievais, com armadilhas de alta tecnologia?

― Por uma questão de identidade e respeito às origens, oras... ― disse George.

― Eu estava me referindo à necessidade do cofre.

― Ah! Saquei. Então, é que temos aqui no castelo tecnologias e descobertas instáveis ou perigosas demais pra ficarem de fácil acesso. Por isso, melhor manter bem guardado abaixo da terra.

― Beleza então ― a cara de Theodore mudou de “vai dar errado” para “vamos morrer com toda e absoluta certeza.” ― Desistir dessa ideia não é mesmo uma opção?

― Não ― responderam George e Kevin.

― Entendi, pode continuar.

― Então... Amanhã, depois do jantar, devemos nos reu—

― Amanhã? ― perguntou Kevin.

― Isso, amanhã.

― Por que não vamos hoje?

― Hoje não dá...

― Por que? ― Kevin começou a se incomodar com a hesitação do colega.

― É que eu planejei para irmos amanhã, então...

― Como assim, cara, qual a diferença de irmos hoje ou amanhã? E a aventura?

Algo estava errado ― pensou Kevin.

― Relaxa, Phillip, não tem problema nenhum irmos hoje ― George começou a guardar o celular ― Mas é melhor deixarmos para amanhã, hoje a gente está cansado...

― Eu estou cansado ― disse Theodore.

Kevin olhava para os colegas. As suspeitas começavam a atravessar sua mente numa velocidade incrível. E se fosse uma armadilha? E se Albedo também tivesse se disfarçado e adotado a identidade de George? Ou Theodore? Não, Theodore não... E se George tivesse aberto o bico para o pai? Talvez nesse exato momento os Cavaleiros Eternos estivessem preparando uma emboscada para prendê-lo, mas só estaria pronta amanhã... E se? E se?

― Só me dê uma razão decente para não irmos hoje ― disse Kevin.

― Eu... ― George desviava o olhar de Kevin. ― Eu tinha planejado ver “O Jogo dos Reinos”...

― Você também assiste!? ― Theodore deixou de lado toda sua preocupação e abraçou o entusiasmo de sempre

― Mas é claro que vejo! ― George também abraçou a empolgação ― A série é muito boa, poxa!

― Eu estou um pouco preocupado com essa última temporada, na verdade...

― Você também!? Eu achei que eles começaram a desviar demais dos livros e...

A partir daí Kevin parou de ouvir. Deixou os colegas tagarelando entre si sobre sua série tosca de cavaleiros e dragões.

Sobre o plano: suas suspeitas se mantinham, claro, mas o que fazer?

***

Madrugada. Lua cheia.

Parado em frente a abertura do duto de ventilação, Kevin mais uma vez se questiona se era o mais certo a se fazer. Em sua mão direita, o celular de George com as fotos dos mapas e anotações sobre as armadilhas. Depois ele devolvia.

Seu plano sempre foi ir sozinho, mas depois da postura hesitante de George, já não sabia mais o momento ideal para agir.

Colocou o celular no bolso traseiro. Absorveu parte do ferro da grade de abertura do duto, ganhando, dessa maneira, consistência e força o suficiente para entortar as grades a ponto de ganhar espaço suficiente para passar.

Entrou.