OMNITRANIL (Ben 10 - Força Alienígena)
12 Máscaras
Max Tennyson caminhava pela pista de decolagem em direção à nave Encanadora. Faltando poucos metros, viu o Mecânico-chefe Dankker descer pela rampa de embarque da espaçonave, com um lenço, secando o suor da testa.
― Magistrado Tennyson! ― O mecânico procurava um bolso para guardar o seu lenço, ao perceber que todos estavam ocupados com alguma ferramenta ou lanche para mais tarde, desistiu e resolveu continuar com o pano em mãos. ― Está tudo pronto para a viagem: tanque abastecido, sistema de hiperespaço revisado e água nos limpadores de para-brisa. É só ligar e partir!
― Muito obrigado, Dankker! ― Max disse sorrindo ― Peço desculpas por ter que ajeitar tudo tão em cima da hora...
― Que isso, Magistrado, é o meu trabalho!
― De qualquer forma, muito obrigado, fico lhe devendo uma.
Max subiu a rampa de embarque carregando consigo apenas uma mala de mão. Quando estava prestes a fechar a porta de embarque, o mecânico-chefe chamou sua atenção e disse:
― Vai dar tudo certo, Max, não se preocupe. Cuidaremos dele.
Sem sorrir, Vô Max acenou uma afirmativa com a cabeça e encarou o chão da nave enquanto a porta de embarque se fechava.
***
A espaçonave havia acabado de sair da atmosfera da Terra e seguia pela infinitude sombria do espaço.
Max, vestido com o traje espacial dos encanadores, verificava as condições e dados exibidos nos painéis da nave. Vez ou outra, um determinado ponto do trajeto precisava ser corrigido, mas tirando isso, a espaçonave viajava tranquila, com tudo operando nos conformes.
Ele ativou o piloto automático da nave e preparou o carregamento do hiperespaço. Mesmo com velocidade superior à da luz, a viagem poderia durar alguns dias. Levantou-se da cadeira do piloto e seguiu caminhando pelos corredores da espaçonave. Tratava-se de uma nave de tamanho pequeno, com suporte para cerca de cinco tripulantes; mas, no momento, apenas Max ocupava as mediações do local.
Só.
Apenas ele e seus pensamentos.
Seus malditos pensamentos.
***
Max sentia dor. Uma dor pulsante se espalhava pela parte posterior da cabeça. Escuridão. Aos poucos, conseguiu abrir uma fresta entre as pálpebras. Dor. Seu corpo caído sentado no chão do depósito. A cabeça latejava.
Um caixote choca—se na parede ao seu lado. O que foi isso! Os olhos alertas tentavam compreender as imagens borradas que lutavam para ser formar em sua visão. Mais dor.
Max sentiu como se uma onda de choque empurrasse seu corpo contra a parede. Um feixe elétrico amarelo chocou—se no chão ao seu lado. A visão começava a adquirir o mínimo de definição. Algo laranja... Uma fuga de ideias acometeu sua mente, por alguns instantes não era capaz de dizer quem era ou onde estava. Novamente outra onda de choque lhe pressionava.
Não consigo respirar.
De alguma forma seu cérebro não era mais capaz de transmitir impulsos nervosos e seu diafragma ficou paralisado. De mesma maneira súbita, a respiração voltou. A imagem à sua frente começava a adquirir significado...
Ben...
Max tenta com dificuldade se levantar. Com a mão apoiada no chão, tentava vencer a gravidade que nesse instante se assemelhava à de Júpiter. Ele procurava ao mesmo tempo ficar em pé e se manter fixo no chão para não ser levado pelo turbilhão de objetos que voavam pelo ambiente.
Ben!
Ele olhou para o neto em sua forma cerebrocrustaceana no epicentro do caos, sem nenhum controle de seus poderes. Culpa. Uma abertura numa das paredes posteriores do depósito permitia que mais luz entrasse no ambiente. O teto começava a rachar e, em alguns pontos, parte da estrutura começava a ceder. Ele precisava fazer algo. Quis gritar pelo nome do neto, na vã esperança de ser ouvido, mas naquele momento seu cérebro não sabia mais como falar.
Não sabia o que fazer. Do seu lado, o rifle balançava pendente pela cinta diagonal. Não tinha outro jeito...
Pegou o rifle.
***
Max virou uma curva no corredor e parou em frente a porta de seu dormitório, que se abriu automaticamente com a aproximação. O local, antes ocupado por camas e alguns armários, agora se encontrava revestido de equipamentos médicos do chão ao teto. Tudo automatizado e ligado ao sistema de inteligência artificial da espaçonave.
Obrigado mais uma vez, Dankker ― pensou.
Claro que ele não estava completamente recuperado, mas ele precisava ir atrás de Azmuth. Ele precisava tirar o Omnitrix do braço de Ben. E como fazer isso ainda estando em recuperação? Simples: cobrando todos os favores pendentes possíveis e quebrando cerca de vinte e três artigos de conduta do Código dos Encanadores.
De repente, o silêncio foi coberto pela voz computadorizada da nave:
― Hiperespaço carregado, Magistrado. Ativar hiperespaço?
― Há alguma pendência que limite a ativação? ― Max sempre achou incômodo responder a inteligências artificiais de naves. É esquisito falar com algo que não é capaz de se ver.
― Não, Magistrado.
― Pode ativar.
― Ativando hiperespaço.
Um som agudo se espalhou por toda a nave. Pela janela, o que antes eram pontos fixos de brilhos fantasmas, agora se tornavam linhas horizontais sem sinais de começo ou fim. Um leve tranco indicava que a espaçonave acabava de entrar no hiperespaço. Agora era apenas esperar.
― Hiperespaço ativado ― disse a voz computadorizada. ― Destino: Galvan Prime. Tempo estimado: 64 horas terrestres.
― Certo. Obrigado comput-
A dor de cabeça de Max voltou a aparecer. Não era a primeira vez que acontecia e não seria a última se ele não fizesse o tratamento adequado, segundo seu médico. “Duas semanas em câmara de suspensão, com medicamentos para impedir a progressão da lesão, em infusão contínua”. A contraproposta de Max foi: “O quanto do tratamento eu consigo fazer com equipamentos médicos das nossas espaçonaves?”
A dor durou segundos que pareciam horas. O ponto positivo é que de mesma maneira súbita que a dor surgia, ela também desaparecia. O ponto negativo: mais cedo ou mais tarde ela apareceria novamente.
Max tirou a parte mais grosseira de seu uniforme e se sentou na cama de hospital preparada exclusivamente para ele. Braços automatizados saíram das paredes e começaram a se mover ao seu redor, preparando os equipamentos médicos e os medicamentos necessários para o tratamento. O movimento acelerado e absurdamente coordenado dos braços mecânicos fez sua mente voltar à entrada do Setor Leste de Energia.
***
Max carregava Ben em seus braços e corria pelos corredores do Setor de Energia. Assim que avistou as ambulâncias dos Encanadores estacionadas na entrada, correu em direção aos veículos e começou a gritar:
― Médico! Preciso de um médico!
Uma paramédica se afastou de um paciente que estava sendo colocado em uma das ambulâncias, indicando que poderiam partir sem ela e correu em direção à Max e Ben.
― O que aconteceu!? ― A paramédica solicitava, com a mão, uma maca para um dos enfermeiros.
― E—eu não sei! ― Max colocou cuidadosamente Ben sobre a maca móvel. ― Ele estava tendo problemas com o Omnitrix e parece que perdeu o controle com uma de suas transformações.
A paramédica olhou confusa para Max. Do que diabos ele estava falando? Ela voltou o olhar para o jovem desacordado, a princípio, não o reconheceu, mas ao ver o relógio com o símbolo dos Encanadores em seu punho, tudo fez sentido:
― Este é Ben Tennyson!?
― Exato ― respondeu Max.
De repente, o Bem inconsciente voltou a mexer seu corpo. Não com movimentos coordenados como “acenar um olá” com a mão ou “um joinha com o polegar”, mas com movimentos desconexos, como se todas as musculaturas passassem a serem contraídas desorganizadamente, fazendo—o tremer e balançar por sobre a maca.
― Ele está convulsionando! Jackson me ajude a virá—lo ― gritou a paramédica para o enfermeiro.
Max manteve—se paralisado. Ele sabia o que fazer, ele conhecia o básico dos primeiros socorros, mas naquele momento, naquele instante, não era capaz de mover um músculo se quer.
O corpo do jovem balançava com uma força que Max jamais imaginou que o neto teria, os enfermeiros e a paramédica tentavam mantê—lo de lado até a crise passar. De repente, os braços de Ben se dobraram por sobre o peito e suas pernas se esticaram totalmente, com a cabeça curvando para trás.
― Segurem—no, eu vou pegar o sedativo! ― disse a paramédica correndo em direção a um dos veículos. Voltou de dentro da ambulância em questão de segundos com uma seringa puxando o líquido de dentro de um vidro.
Assim que injetou a medicação, aos poucos o corpo de Ben saiu de um estado de completa contratura e adotou uma postura de relaxamento, permanecendo desacordado. O enfermeiro posicionou a máscara com balão por sobre o rosto do jovem e ofertou oxigênio enquanto levava o paciente para a ambulância.
― Vamos levá—lo a Ala Médica dos Encanadores ― A fala da paramédica agiu como se tirasse Max de um transe. ― Pode acompanhar a ambulância se o senhor desejar. Aliás, senhor...
― Tennyson. Max Tennyson.
― Prazer Magistrado. Dra Espinoza. Não se preocupe, cuidaremos dele...
***
A dor aguda da agulha perfurando sua pele fez Max deixar suas memórias no lugar em que elas pertenciam.
― Magistrado, estamos prontos para começar o tratamento. ― disse a nave.
― Certo. ― Max se deitou na cama e encarou a lâmpada de dormitório no teto que destoava da sala médica improvisada.
― Durante o tratamento, uma pequena dose de sedativo lhe será ofertada. Dessa forma, o senhor irá dormir e-
― Não. Sem sedativo.
― Mas magistrado, segundo o protocolo, o tratamento demanda um longo período em repouso, o senhor não poderá se mexer. Se o senhor dormir, o tempo passará mais rápido e-
― Não é preciso. Pode começar o tratamento.
― Senhor, lamento, mas preciso insistir que-
― Sem. Sedativo.
― Certo, Magistrado. Iniciando infusão.
Um braço mecânico apoia uma máscara de oxigênio sobre o rosto de Max.
Ele permanece acordado durante todo o tempo.
Só.
Apenas ele e seus pensamentos.
Seus malditos pensamentos.
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