O último inverno
1 O encontro

Drake — 5 °C
Bato a porta do carro com tanta força que os pássaros que estão em cima das árvores voam para longe.
Aproximo-me determinado ao final da estrada como se fosse completamente natural caminhar em direção ao nada sozinho.
Pulo a cerca de arame farpado com a elegância de um gato e continuo caminhando até chegar à pequena trilha para o alto da montanha.
Definitivamente é um péssimo lugar para marcar encontros, mas um dos meus favoritos também.
A vista do alto das Montanhas Rochosas é simplesmente de tirar o folego até do mais duro coração.
Avisto os cabelos vermelhos de minha irmã Manuella, apontando na outra extremidade da montanha.
Ela está com as mãos nos bolsos de sua jaqueta de couro vermelha, e seus olhos achocolatados se erguem para mim preocupados.
Quando Manuella esta perto o suficiente, antes que possa dizer algo a seguro pela cintura e a pressiono contra a parede rochosa da montanha fazendo sinal para que ela fique em silêncio.
Meus sentidos se intensificam e eu consigo ouvir um grupo de policiais conversando.
Estão um pouco mais a frente de nós, são muito barulhentos, falam no rádio, gritam ordens uns aos outros e um deles chega a fazer ânsia de vomito.
— Você é uma marica Phill! – um deles diz rindo chacoalhando o parceiro que está agachado no chão.
— Respeite os mortos Thom. – é a voz do xerife ecoando pelas paredes montanhosas como se estivesse cada vez mais longe.
Manuella olha para mim suplicando para irmos embora, coloca a mão sobre seu estomago e se inclina para frente tentando conter um grunhido.
— Quieta! – ordeno em sibilos, apertando o braço dela ainda mais forte porque o meu próprio estomago dói.
O cheiro é horroroso e simplesmente inebriante.
Sangue.
Um vermelho ainda mais nítido quando espirrado sobre a neve.
Ouço as vozes se afastarem um pouco, olho sorrateiramente para trás da parede rochosa onde estava, alguns policiais entram na viatura.
Solto Ella de meu aperto e minha irmã corre em direção ao meu carro como se a vida dela dependesse disso.
Observo novamente a movimentação dos policiais.
Phill se levanta devagar, parecendo chocado e enojado.
Faz uma cara de quem vai chorar, mas logo se recompõe.
Passa a manga do uniforme no nariz escorrendo, se vira devagar e se junta aos seus colegas na viatura.
Há uma enorme faixa amarela cercando parte do caminho em direção à caverna que eu e Ella vamos quando o inverno chega.
Meu coração bombeia dentro do meu peito em descontrole.
Meu estomago dói.
Fecho meus olhos, porém a imagem continua nítida em minha mente.
No chão, metade de um cadáver.
Os restos mortais destroçados de Ed Sullivan – capitão do time de futebol da escola.
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