O último da neve
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Enquanto todos achavam o calor reconfortante, ele preferia o frio. O frio o acalmava, o frio o deixava pensar melhor, fazia com que ele visse melhor, ouvisse e fizesse as coisas da melhor forma possível. Já era de se esperar já que tinha nascido e vivido boa parte da sua vida afundando os pés em grossas camadas de neve densa, branca e reluzente.
Havia nascido em terras geladas, com um destino a frente já traçado, com um futuro e dom. Recebeu o nome de Krim, nome dado pelos seus pais, aqueles que o queriam bem e o amavam. Krim nasceu num ambiente que a primeira vista poderia parece hostil demais para uma criança.
O Clã do Monte Nevado, um clã de assassinos e ladrões, que já havia conquistado um grande renome nos quatro cantos de todo o continente, e era ali que o pequeno Krim seria criado. Seus pais faziam parte do clã a anos, e por isso seu filho também faria parte dali. Seus pais eram um casal de pequenos Halflings, que tinham uma aparência frágil, mas de frágeis só mantinham a aparência. Eram dois dos mais fortes ladinos do clã, e mantinham respeito perante a todos os irmãos. Mesmo sendo de um classe considerada superior, não tratavam nenhum com arrogância, demonstrando, assim, que qualquer um poderia chegar onde chegaram, se trabalhassem duro.
Krim então cresceu neste ambiente, que por mais que a aparência possa enganar, era um lar pra ele. Todos no clã se respeitavam mutuamente, formando uma grande família respeitosa uns com os outros. Devido as formalidades do clã, logo Krim teve que adotar um nome para ser chamado, algo que não revelasse sua verdadeira identidade. Escolheu então Snow, já que desde criança, sempre comparavam a coloração de sua pele com a cor da neve.
Krim, agora era conhecido por todos por Snow. Iniciou seu treinamento o mais cedo possível, seriam longos anos treinando tudo que pudesse um dia salvar a sua pele, seriam longos anos até alcançar os 16 anos de idade, onde participaria da cerimônia que faria com que ele entrasse para o primeiro nível dentro do clã, para que ele pudesse se tornar um ladino de verdade.
Os testes foram vários, treinou muito sobre tudo. Passava dias treinando arduamente, para que suas habilidades pudessem se aperfeiçoar cada vez mais, ele tinha que se tornar forte e ser um orgulho para os seus pais. Ele gostava de tudo isso, ele sentia como se realmente tivesse nascido pra isso, como se tivesse em seu sangue, como se os movimentos fluíssem de sua própria alma para as mãos, pés, tronco e todas as partes do corpo. Passava horas brincando de esconde-esconde, na época achava divertido, mas quando cresceu um pouco mais, viu como aquilo havia o tornado mais aguçado os lugares mais propícios para se esconder e também a não fazer barulho ao se movimentar.
Muitas horas de treino eram voltadas ao combate também, como desembainhar a adaga e espada, sem fazer barulho, como desliza-las sobre a pele do oponente, como perfurar e como cortar. Isso era fluido, suave e leve, porém pra isso havia muito estudo já, que para um ataque ser forte, deve-se acertar no ponto certo. Mais horas do que as horas dedicadas ao treino físico, eram dedicas para um ensino teórico, onde se aprendia quais pontos eram importantes pro corpo, quais pontos eram sensíveis, era uma aula de anatomia muito completa para fazer com que cada ataque fosse ainda mais mortal.
Ali ele aprendeu tudo que precisava, como mentir, como fingir, como ser silencioso... Realmente tudo que precisava. Alguns momentos ele se sentia um tanto perdido, então subia no telhado e pensava, se tudo ali realmente era bom pra ele, se aquele era o destino dele, mas sempre que se perguntava isso, uma brisa gélida soprava seu rosto e enchia seu pulmão, trazendo conforto para o garoto, e reafirmando que aquilo fazia parte dele.
Os anos de treinamento haviam sido concluídos, tinha finalmente alcançado seus 16 anos de idade, estava pronto, pronto para alcançar a primeira etapa daquilo que havia sonhado. O procedimento era simples, uma cerimonia básica. Seus pais haviam escolhido alguém para que fosse seu padrinho, como havia de ser. Haviam escolhido seu tio, que também fazia parte do clã, estando ainda mais acima que seus pais perante a hierarquia do clã.
—Finalmente garoto, chegou a hora, você depois de tantos anos se tornará um de nós, tome isso.- Disse enquanto entregava um embrulho de pano.- Isso é o que vai te classificar, isso é o que diz que faz parte da nossa família.
Essas palavras soavam forte dentro do peito do garoto, ele realmente queria aquilo, e se sentia totalmente preparado e capaz para cumprir com o seu dever.
—Agora,- Continuou o tio.- Você deve seguir para sua primeira missão sozinho, para mostrar que realmente é um de nós, aqui estão todas as informações das quais precisa.- Disse enquanto entregava algumas folhas envoltas em uma capa de couro.
—Obrigado!- Disse Snow com alegria na voz.- Farei tudo como diz aqui!
Fez uma breve reverência ao tio que estava em uma classe superior a sua, e cumprimentou os pais rapidamente, então saiu correndo pela porta principal do salão. Seu pensamento era um turbilhão de ideias e táticas, que nem sabia se seriam uteis na sua primeira missão.
Correu para o quarto e abriu o embrulho de pano, e lá estavam suas novas vestes. Um corselete de couro escuro, que não chegava a ser preto, cheio de fivelas onde se poderia prender várias coisas diferentes, haviam várias bainhas também. Uma calça também feita em couro, que cabia como uma luva, não prendia nenhum movimento e dava uma ótima mobilidade. Por fim a capa, onde um dos lados era totalmente negro como a noite mais escura já vista por qualquer um, e do outro lado branca e reluzente como a neve da qual era rodeado durante sua vida toda. Vestiu tudo numa velocidade feroz, e colocou o manto com a parte branca para fora, já que imaginava que sua missão seria em território com neve, assim sendo iria se camuflar melhor.
Dentro do embrulho também haviam adagas, onde foi pegando e preenchendo cada bainha vazia com uma daquelas, e por fim uma caixa, não muito grande e nem muito pequena. Abriu-a lentamente sem tirar o olho para ver o que era. Uma adaga toda ornada e trabalhada, uma adaga que ao ser olhada trazia paz de espirito, o cabo era trabalhado em couro e havia muitos detalhes no cabo feitos em branco. Aquilo era o que dizia que ele era um ladino da primeira classe. Seu pai já havia lhe falado isso, onde os primeiros recebem uma adaga ornada com o cabo detalhado em branco. Os do segundo nível então recebem uma adaga tão bela quanto a primeira, porém esta até mesmo a lâmina tem detalhes brancos. Já a de terceiro nível é uma adaga inteiramente branca, com detalhes na lâmina em preto.
Guardou a adaga do clã, pegou suas folhas e correu. Antes de sair, foi ao encontro de seus pais, achando-os, deu-lhes um forte abraço em forma de retribuição.
—Filho se cuide, essa é a nossa vida, você decidiu segui-la também, por isso tome cuidado em relação a tudo e a todos.- Advertiu a mãe, com um olhar carinhoso.
—Boa sorte garotão, acredito que você vai conseguir essa fácil.- Incentivou o pequeno com um grande sorriso no rosto.
—Obrigado! Vocês me criaram muito bem, fiquem tranquilos!
Snow disse isso e já começou a correr novamente até a saída. Enquanto corria ia lendo alguns dos papéis para saber aonde ir. Quando chegou aos estábulos já sabia qual rota era a ideal para chegar onde queria, porém isso levaria tempo, demoraria cerca de dois dias para chegar ao local, um dia provavelmente para o trabalho, e mais dois para voltar. Nas notas que o tio havia entregado, ele dizia que em um determinado ponto, em uma árvore, haveriam mais informações do trabalho. Ele então subiu no cavalo e cavalgou durante os dois dias inteiros, parando somente durante a noite para poder dar descanso para o cavalo e a si próprio.
Havia então chegado a árvore. Começou a procurar então por alguma mensagem que pudesse indicar como prosseguir. Procurou até encontrar uma nota dobrada em um dos galhos da árvore. Analisou o papel e o abriu.
"Olá, meu caro sobrinho, espero que não leve nada do que eu fiz com o clã para o lado pessoal, eram apenas negócios. Alias até te poupei.
Abraços do seu titio e padrinho!"
O tom de deboche naquela nota era imenso, mas Snow não havia entendido exatamente o que aquilo queria dizer, mas sabia que o tio fizera algo com clã, não sabia o que era, nem quando, como ou o porque, mas sabia que havia feito.
Subiu no cavalo e foi a galope em direção de volta, dessa vez não pararia para descansar, estava realmente preocupado com o que poderia ter acontecido a todos aqueles que o criaram com amor e carinho.
Os dois dias de volta foram tremendamente cansativos, tanto Snow quanto o cavalo estavam exaustos e esgotados. Porém quando chegaram o ambiente não foi receptivo. Onde a grande casa do clã se erguia, agora só haviam toras queimadas, tudo ali havia sido destruído. Snow não conseguia acreditar no que seus olhos mostravam, porém, tudo era real. O ambiente no qual cresceu, treinou, se tornou melhor, agora estava no chão, virado em cinzas, que já estavam sendo engolidas pela neve.
Ele chegou mais próximo de tudo, e para o seu próprio terror, seus temores foram concretizados. Não só o ambiente foi queimado, mas sim todos ali dentro, cada um daqueles que proporcionava bons momentos para Snow. Um lágrima saiu do seu olho direito, e correu até a ponta do seu queixo. Se levantou e começou a procurar desenfreadamente os corpos de seus pais, até que então os encontrou. Ficou ali olhando para os cadáveres por alguns minutos, apreciando as faces que haviam agora sido carbonizadas.
Depois de passar um tempo encarando o seu passado bem vivido, levantou-se com o objetivo de enterrar cada um deles ali mesmo. Com as próprias mãos cavou cova por cova na neve. Após isso, preencheu-as com os corpos, um por um. Então os tampou, havia terminado tudo quando a noite começava a cair. Montou no cavalo, e seguiu seu rumo pra longe dali.
Snow permaneceu cabisbaixo, jamais esqueceria aquilo, mas sabia que a morte era algo presente na sua vida, e para os que matam, a morte é algo quase que natural. Ele não foi atrás do tio, sabia que se fosse iria cair na neve sem vida, como todos os outros. Iria se tornar mais forte, forte de verdade, para então ir atrás do tio, não por vingança, não mataria ele por ver sangue em suas próprias mãos. Mataria em memória daqueles que haviam morrido, mataria para que todos que houvessem morrido pudessem então descansar em paz.
Enquanto cavalgava e seguia um caminho ainda sem rumo, sua cabeça estava num turbilhão de pensamentos. Muitas emoções misturadas, sentia medo, raiva, angustia, não sabia o que fazer. Então o vento soprou forte contra sua direção, o ar gélido entrou nos seu pulmão, ele sentiu quase como se entrasse diretamente em suas veias, e mais uma vez o vento fez com que ficasse calmo em relação a tudo. E agora, já sabia o que fazer.
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