O último canto do melro

1 O último canto do melro


O último canto do melro


Depois de terminar o treino de Regulus, Sísifo voltou a ser encarregado da vigília do templo de Sagitário no período da tarde e da noite. Como a maioria dos cavaleiros preferia ser mais ativa durante o dia, costumava trabalhar à noite para manter as Doze Casas mais bem protegidas. Também era o período mais ativo de Aldebaran, com quem gostava de passar seu tempo de descanso, apesar de este ficar ocupado parte das manhãs treinando seus discípulos.


Era um novo dia. Levantou-se, cuidou de sua higiene e dirigiu-se ao cômodo vizinho, onde havia uma pequena cozinha com uma mesa de jantar. Suas servas já haviam preparado o desjejum, com a mesma dedicação costumeira. Cumprimentou-as e notou, pousado na janela, o mesmo pássaro de sempre — um melro preto. Tão acostumado com sua presença, praticamente era como um habitante da casa. Separou alguns grãos e água para o pequeno visitante e deixou-os sobre um dos balcões da cozinha. Imediatamente, o pássaro saltou sobre a refeição.


“Boa tarde para você também, meu amigo.”


“Esse melro te adora”, comentou Olga, sua serva já de idade. “Preciso deixar comida e água de antemão quando o senhor não está, porque ele não chega perto quando somos só nós duas. Mas, se o senhor estiver aqui, ele não tem medo.”


“É que existe um pequeno segredo, Olga. É preciso conversar com ele, mas é claro que animais não conseguem entender nossas palavras… É preciso utilizar outra língua.”


“A dos pássaros?”, perguntou Dália, sua outra serva.


“Lógico que não. Essa eu não conheço também. Existe uma linguagem comum a toda a natureza, que vai além de palavras e… piados? E, com essa linguagem, podemos nos comunicar. Dessa forma, ele entende que não há perigo em vir aqui e não sente medo de chegar perto de nós. Ainda bem que a barreira de Athena-sama não afeta esses pequenos animais.”


Depois de limpar a tigela de grãos, o melro voava para dentro do templo e roubava as migalhas do pão de Sísifo que acabavam espalhadas na mesa, às vezes voluntariamente. Tratava-se de um adorável ritual sempre que iniciava seu dia, há mais de um ano. Contudo, recentemente, as forças de Hades andavam cada vez mais violentas, de modo que a tensão crescia diariamente no Santuário. Talvez, em breve, aquele não fosse mais um lugar seguro ao seu amigo de asas.


Por causa do horário, tinha apenas poucos momentos para interagir com o bichinho. Depois de comer o pão, o pássaro cantava e explorava o templo, antes de voltar às árvores do bosque próximo ao Santuário, enquanto Sísifo voltava-se aos deveres como cavaleiro. Às vezes, quando este montava guarda, o melro vinha até a frente da casa, ficava um pouco e ia embora. Acabaram, daquela forma, criando certo vínculo durante os pequenos encontros.


Naquele dia, o pequeno visitante criou coragem para roubar um pedaço do pão diretamente do prato de Sísifo, que não se importou. Na verdade, sentia-se, mesmo um pouco, mais próximo da natureza que seu irmão tanto prezava.


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Quando a guerra contra Hades estourou, todos os animais sentiram a influência da morte sobre o Santuário e refugiaram-se onde puderam. Além de pequenos insetos, aves e mamíferos fugiram para longe e cães e cavalos utilizados pelos soldados ficavam constantemente inquietos, tentando escapar das instalações. Muitos servos pediram permissão para não participarem da guerra, temendo por suas vidas. Como não eram obrigados a lutar por Athena, por não serem militares, puderam fugir para outras cidades, de modo que muitos soldados tiveram de substituí-los.


Olga e Dalia receberam a mesma proposta, mas ambas recusaram. Disseram que aquele era o momento em que Sísifo mais precisava do apoio delas e decidiram permanecer no Santuário, a despeito dos riscos. Muitos servos leais como elas também continuaram firmes em seus trabalhos, mesmo que alguns tivessem sido feridos durante a invasão de Alone.


Ao despertar de seu longo pesadelo, Sísifo surpreendeu-se: independentemente da debandada do templo, o pequeno melro continuou a visitá-lo diariamente, atrás da comida. No dia em que o Grande Mestre ofereceu os desesperados animais aos moradores de Rodorio, o pássaro apareceu na janela do tempo de Sagitário como se nada tivesse acontecido. Saboreou as sementes ofertadas, saciou a sede e veio atrás do costumeiro pão. Sísifo deu-lhe um pequeno pedaço do miolo e observou-o, intrigado.


“Quando até mesmo nossos animais mais leais querem fugir daqui, você continua vindo, meu amigo. Não sei se é fome ou se sente seguro neste templo… Lá fora, uma guerra sangrenta está acontecendo, mas você me passa aquela sensação de que tudo está bem… ou a confiança de que tudo vai ficar bem.”


Depois de comer um pouco do pão, o passarinho pôs-se a cantar, saltitando na cozinha. Sísifo acompanhou-o enquanto terminava o desjejum, quando Sasha apareceu em seu templo. Em alerta, o melro escondeu-se atrás de uma jarra.


“Athena-sama…”


“Ah… Acho que assustei esse passarinho…”


“Ele? Ele já volta. Está tudo bem, pequeno, você está seguro.”


Timidamente, o melro saiu de trás da jarra e voltou a cantar. Sasha mostrou-se mais tranquila.


“Que bom… Não queria assustá-lo.”


“Ele entende que a senhorita jamais o machucaria. Mas por que saiu de seu posto, Athena-sama?”


“Eu… vim ver como você está, Sísifo, depois do que aconteceu no mundo dos sonhos. Sente-se melhor?”


“Já estou melhor, obrigado. Precisamos nos concentrar nos nossos esforços para impedir Hades antes da conclusão do The Lost Canvas.”


“Mas… tem certeza? Tenho receio de que você tente esconder de novo os seus sentimentos para não me preocupar… saiba que eu aguento ouvi-lo também.”


“Perdoe-me por não ter conversado mais sobre como me senti durante esses anos. Mas… estou bem, não minto. Nunca me senti mais determinado do que agora para derrotar as forças de Hades, depois do que aconteceu. A senhorita me pediu para lutar ao seu lado… e é pra isso que me dedicarei, até o fim. É para este momento que me preparei… que nos preparamos. Tenho estado bem concentrado nesse objetivo. Quanto às palavras que gostaria de dizer-lhe… acho que ainda não agradeci… por ter me resgatado ali. Eu me sentia triste, com raiva de mim mesmo, indigno… e a senhorita conseguiu abrir os meus olhos e reverter o meu destino… que eu sabia que podia acontecer.”


“Eu ouvi de Sage… sobre a leitura que recebeu do oráculo de Delfos e sua decisão quanto ao seu destino.”


“Pensei que não houvesse uma forma de alterar o meu destino depois de ter lançado aquela flecha. Mas, depois de ter me salvado, senti que estou finalmente livre desse peso. A sensação é a de que ninguém pode me impedir de proteger meus companheiros nesta guerra.”


Sasha sorriu e mostrou-se mais tranquila.


“Sísifo…”


“Estou mais determinado do que nunca, Athena-sama. É hora de acabarmos com essa guerra.”


“Sim, tem razão.”


O melro voou até o báculo de Athena e cantou por uns instantes, antes de voltar à mesa.


“Parece que ele não tem mais medo da senhorita. Vou sentir falta dele.”


“É o primeiro pássaro que vejo desde que todos os animais fugiram do Santuário. Será que eles estão voltando?”


“Provavelmente não. Esse aí deve ter sido o único que não fugiu. Não entendo se gosta tanto da comida a ponto de vencer o medo ou se não está ciente da energia de Hades nesta região.”


“Talvez ele só não queira perder a chance… de passar mais um pouco de tempo com você.”


“Talvez…”, concordou Sísifo. “Por falar nisso, ainda tenho um tempo antes de ir verificar o exército. Gostaria de fazer um lanche? Não tenho nada de especial, mas…”


“Um lanche aqui sempre é especial. Já faz tempo, não?”


“Sim…”


O cavaleiro já desconfiava que Sasha aceitaria, considerando que dificilmente voltariam a sentar-se à mesma mesa para conversar.


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Aquela devia ser a última vigília na casa de Sagitário. No dia seguinte, partiriam para terminar o restauro do navio a fim de seguirem ao Lost Canvas. Sísifo não estava com medo; contudo, não podia dizer que não sentia nada. Afinal, eram suas derradeiras horas na vida. Não sabia como seriam os próximos combates, só desejava que conseguissem impedir o plano de Hades e proteger seu maravilhoso planeta. Podia não ser o melhor, mas com certeza era rico em possibilidades para o futuro.


Olga saiu do interior do tempo e veio conversar com ele. Trabalhava ali desde que se tornara cavaleiro de ouro, há dezesseis anos.


“Sísifo-sama?”


“Sim, Olga?”


“Se não for incômodo, gostaria de conversar um pouco com o senhor, antes que parta amanhã.”


“É claro. Diga.”


“Quando o senhor veio para cá, costumava ser um jovem de cabeça quente, que mal conseguia se conter para passar uma falsa imagem de tranquilidade. Mesmo assim, soube esconder muito bem essa face dos demais.”


“É… Mas não poderia enganar olhos experientes como os seus, não é?”, respondeu ele, abrindo um sorriso.


“É claro que não. O senhor me lembrava um pouco o meu filho, quando jovem. Mas depois, à medida que foi conquistando espaço entre os demais guerreiros, adquiriu confiança e aprendeu a incorporar a calma ao seu espírito, de um modo muito parecido com seu honrado irmão. Vejo no senhor a mesma chama da juventude, de uma forma controlada pelo tempo.”


“Obrigado, Olga. É um belo elogio.”


“Não é elogio, apenas uma constatação. Eu sei, porque trabalho neste templo há muito tempo… Nesta semana, apesar de toda a tensão, o senhor parece em paz consigo mesmo. Eu notei que está pronto para ir. Mas… Dália ainda acha que o senhor voltará vivo da batalha final contra o deus Hades.”


“Quando o momento chegar, por favor, dê forças para ela.”


“É claro… Isso se… eu conseguir ser forte. Mesmo inexperiente, sempre foi um mestre gentil para nós, servos. E em breve…”


“É porque vocês mantêm a minha saúde e me dão tempo para focar na missão de proteger Athena. Você e Dália sempre deram o seu melhor por minha causa. Sou muito grato pelo excelente trabalho ao longo desses anos.”


“Não diga isso, senhor, por favor”, respondeu ela, começando a chorar. “É nosso trabalho, mas eu… eu sempre me preocupei… de verdade.”


Sísifo rapidamente segurou-lhe as mãos e respondeu, sorrindo.


“Eu sei. Sempre soube. Mas Olga… Será menos uma despedida e mais uma transformação, porque continuarei com vocês, onde quer que estejam… para sempre.”


Ele deu-lhe tempo para acalmar-se. Compreendia perfeitamente a dor de Olga, que o via como um filho. Tinha uma profunda gratidão por ela, que tanto o apoiara diariamente e quando retornava ferido das missões.


O melro apareceu voando e começou a cantar, próximo a eles. Olga desvencilhou-se de Sísifo, enxugou os olhos e comentou:


“Parece que não sou a única que quer conversar com o senhor. Vou deixá-los a sós. Obrigada, Sísifo-sama. Acho que agora vou ficar bem.”


“Olga… Eu é que agradeço.”


“Vou preparar uma refeição bem completa, para que não lhe falte energia amanhã. Com licença.”


O fato de suas servas terem continuado ali, arriscando as próprias vidas para servir-lhe, era prova do quanto se importavam com ele. Elas estavam sendo fortes, mesmo não pertencendo ao campo de guerra.


Depois de Olga voltar ao templo, o melro saltitou, aproximando-se. Às vezes, vinha visitá-lo durante a vigília, pouco antes do pôr do sol, mesmo que não recebesse nenhuma comida. Embora fossem amigos, nunca havia tocado no passarinho, que tomava o cuidado de não chegar perto demais. Desta vez, no entanto, surpreendentemente voou até seu braço e fitou-o com atenção


“Você sabe de tudo, não é?”, comentou, dando-se conta da real intenção daquele amigo de asas. “Sabe o que vai acontecer amanhã… Bem que eu queria ter uma relação mais forte com a natureza, como o meu irmão, para entender melhor sua mensagem. Mas eu sei que sabe. Amanhã nós partiremos para o Lost Canvas, a fim de lutar contra o restante das forças de Hades. Eu cumprirei o meu destino como cavaleiro de Sagitário e deixarei este mundo para as próximas gerações, tal como planejo há muitos anos. Apesar das dificuldades, foi uma boa vida, e não levo mais arrependimentos; apenas gratidão. Sou sortudo, não concorda?”


O melro cantou um pouco, como se respondesse. O cavaleiro esperou que terminasse e comentou, sorrindo.


“Estou feliz por tê-lo ouvido mais uma vez, meu amigo. Espero que viva bem e feliz sem nossos encontros da tarde. Eu gostaria de dizer, mais uma vez: obrigado por tudo desde que nos conhecemos.”


Com mais um breve olhar, seu pequeno amigo voou e sumiu de vista.


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No dia seguinte, seu companheiro de asas não veio visitá-lo; sinal de que compreendera sua mensagem. Sísifo, preocupado demais com as preparações para a guerra, não pensou muito a esse respeito. Precisava reunir o restante dos homens, conversar com os cavaleiros de prata responsáveis pelos grupos, verificar provisões e aparato médico e organizar a defesa do Santuário durante sua ausência. Embora a deusa também participasse do ataque e não fizesse mais tanto sentido fortificar um lugar vazio, havia um grande acervo cultural e bélico ali, além de ser o lar de todos que, esperançosamente, voltariam.


Tudo estava pronto para a partida. Bastava retornar para o templo de Athena e chamá-la para a batalha final. Em breve, o destino da Terra seria decidido, e ele jurava que faria de tudo para abrir o caminho da vitória aos seus companheiros.


Ao passar por seu templo, surpreendeu-se com a presença de Sasha e de Tenma, um pouco mais afastada. Ela tinha um prato com um pão em mãos? Aproximou-se, intrigado.


“Athena-sama? Por que veio para cá? Aconteceu algo?”


“Sim… Não sei se foi real, mas… eu tive um sonho.”


“Sobre a guerra?”


“Não… De início, não entendi, mas... Aqui está. Ele me pediu para dizer obrigado.”


Sasha passou-lhe o prato com o pão; um com azeitonas, cuja receita Olga havia aprendido a partir de um relato seu de uma missão realizada na Espanha. Sem entender, perguntou:


“Ele quem, Athena-sama?”


“Sonhei com uma pequena sombra nesta noite. Ela me mostrou esse pão e me disse: ‘por favor, dê esta comida para ele e diga obrigado por mim’. Era uma pequena sombra preta…”


“Uma sombra preta… O melro?”


“Não tenho certeza, mas acho que era ele. Assim que acordei, ouvi aquele canto. Pedi a Olga que assasse um, antes de partirmos.”


Olga estava um pouco distante, acompanhando a conversa de ambos. Sísifo pegou o pão, ainda quente, e comentou:


“Este era o favorito dele. Olga sabe fazer uma variedade enorme de pães, mas quando preparava este, ele ficava louco e nem tocava nas sementes… Não pode ser coincidência.”


Sísifo partiu um pedaço do pão e saboreou-o. Não era por acaso que aquele era o predileto de seu pequeno amigo.


“Tão perfeito… Obrigado, Athena-sama. Obrigado, Olga. Então este é o presente de despedida dele…”


Talvez aquele fosse o melhor pão que comera em vida, pois estava recheado de gratidão. Jurou que transformaria todos aqueles sentimentos em determinação no campo de batalha, para abrir o caminho para todas as pessoas que nele depositaram a confiança. Quem sabe, em outra vida, viesse a reencontrá-los e a partilhar, mais uma vez, de momentos preciosos como aquele?


Ouviram, ao longe, o último canto do melro, gradualmente diminuindo, até desaparecer por completo. Que aquele fosse o anúncio de um promissor futuro ao mundo que ele tanto amava.

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FIM




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