O último ato no Tabuleiro de Copas
1 Prólogo
Notas iniciais
Stuart
Dizem que existe uma linha tênue entre a sanidade e a compreensão absoluta da razão de nossa existência. Basta uma pequena anomalia genética ou uma maldição forte para arrebentar a linha e fazer um homem compreender a razão de todo o universo. Porém, assim que os dois lados da linha se separam, ele fica louco. Sem sua sanidade, é lançado em algum lugar frio e sem vida para definhar com outros como ele, ou é empurrado para a margem da sociedade, onde a lei do mais forte rege.
Para as pessoas, minha mãe descobriu tudo e perdeu sua sanidade. Para mim, ela é minha mãe e eu a amo. Nada do que dizem faz jus a sua imagem. Infelizmente a voz de um garoto é baixa demais para os ouvidos ignorantes de adultos que adoram o cheiro do desespero e a dor da destruição.
Minha história começa em um dia chuvoso de verão, numa pequena cidade chamada Paradise, no âmago de Ohio. Eu tinha treze anos. Era um feriado e todas as crianças da escola tinham decidido ir ao parque de diversões, como sempre faziam em dias assim. Antes da loucura invadir nossa família, eu costumava ir. Nada se comparava à sensação de ter o vento abraçando minhas bochechas enquanto a roda gigante girava em seu ciclo mágico, ou com o balançar da carroça nos passeios que fazíamos pelo bosque, envolto pelos mitos e lendas da pequena população. Minha imaginação e a das outras crianças voava pelos monstros escondidos nas encostas e pelas sereias que viviam nos lagos. Só que aconteceu, e foi tão rápido que só percebi que a tinha perdido quando era tarde demais para gritar e tentar fazer alguma coisa. Eles vieram e a levaram arrastada, sob os gritos agoniantes de meu pai que conseguiam perfurar minha alma. Via o desespero nos olhos azuis de minha mãe enquanto a amarravam em uma camisa de força e ouvia o choro de meu pai, me abraçando e tentando me impedir de ver a cena que ele sabia que eu nunca esqueceria.
Já havia passado seis meses desde que a levaram e começávamos a nos acostumar com a nossa nova vida. Meu pai aprendeu a cozinhar com a velha Farglass – uma amável senhora de cabelos avermelhados que mora com vários gatos e se compadeceu pela trágica loucura de Anne, minha mãe – e teve que dobrar a carga horária na madeireira para conseguir pagar nossas contas. Eu continuei com a minha vida da melhor maneira que pude, exceto nos feriados. Os feriados são as datas em que eu e meu pai largamos tudo e viajamos por pelo menos uma hora em uma estrada de cascalhos na nossa caminhonete vermelha, até chegar na casa de repouso Green Garden, onde minha mãe está encarcerada. Casa de repouso só serve para amenizar seu sinônimo: manicômio. Junto com outros loucos, minha mãe vive cada segundo de seu cárcere por ter sido avaliada como perigosa demais para viver em sociedade. Louca.
Mais um feriado, mais uma visita. Em geral, não converso muito com meu pai. Depois que minha mãe se foi, nossas conversas se reduziram a discursos monótonos onde ele vive regulando as palavras que usa para tentar não me machucar. O que ele ainda não percebeu é que não tem mais onde me machucar. Fui dilacerado pela perda, embora até hoje force um ou dois sorrisos por dia para fingir que passei por cima de tudo. Já é ruim ter que ir pra escola e ser taxado como louco, esquisito e problemático por causa da minha mãe. Pior ainda é ter que chegar em casa e ser taxado da mesma maneira através dos olhos do meu pai.
Não demoramos muito para sair e, depois que coloquei o fone de ouvido e me perdi nas bandas de rock dos anos 80, a viagem pareceu passar em poucos minutos. Só me dei conta do quanto tínhamos avançado no caminho quando estávamos bem perto da casa de repouso. Foi quando eu tirei os fones de ouvido e me ajeitei no banco.
– Estamos quase chegando. – ele murmurou e olhou para mim, com um sorriso que me forçou a responde-lo.
– Nem vi a estrada. – murmurei. Foi tudo o que consegui dizer e ele ficou satisfeito com isso. Nos três primeiros meses eu não dizia uma palavra e isso o fez achar que eu talvez estivesse louco também. Talvez eu seja mesmo, considerando os meus problemas... Porém, seria doloroso para ele perder a mulher e o filho em menos de um ano, então guardo todas as minhas loucuras numa caixa dentro de mim e a tranco.
– E como vai escola? – outra pergunta seguida de um sorriso. Bem que eu queria dizer a ele que a escola é um antro de destruição de valores onde todos me chamam de louco e me perseguem, mas não queria preocupá-lo ainda mais. Meu pai é forte, mas não sei quantos problemas ele aguenta e não quero chegar nem perto do limite.
– Legal... – murmurei e me virei para o vidro da janela, encarando as árvores suntuosas que cresciam na paisagem externa. Ele entendeu o gesto. Fim de papo.
A chuva fina e insistente fustigava o vidro da janela enquanto os cascalhos da estrada balançavam o carro e começavam a me dar náuseas, tanto que fechei os olhos e cochilei um pouco. Fui acordado pela voz grave de meu pai e por seu balanço leve em meu ombro, dizendo que havíamos chegado.
Antes de descer do carro, dei uma boa olhada no lugar. Mesmo depois da entrada – um grande arco enferrujado com o nome "Green Garden" em letras curvas e um grande portão de ferro envolto por arame enfarpado -, a estrada de cascalhos se arrastava por um ou dois quilômetros, para depois revelar a casa. Era um lugar cinza, mesmo rodeado por árvores coloridas e bombardeado constantemente pelo coro dos pássaros que, felizes, cantam sem saber o que existia atrás das portas do lugar. Tinha uma entrada para o estacionamento que ficava ao lado do portão principal, onde os visitantes passavam pelo processo de identificação e de revista, no qual devíamos deixar todos os objetos pontiagudos, celulares e coisas do gênero antes de entrar. Tudo no lugar rangia, desde o chão de madeira até as portas de carvalho. Vários corredores formavam um labirinto interno, dotados de portas com várias trancas. Atrás das portas, os pacientes passavam a maior parte do dia. Sentia arrepios só de imaginar minha mãe dentro de uma dessas salas, sozinha, sendo consumida pela própria loucura.
Ao andar dentro do lugar, chegava-se a um pátio com grama verde e bancos de madeira onde os pacientes passavam um pedaço do dia e era lá que encontravam seus parentes. Era lá que eu via minha mãe, e era lá que eu me lembrava da cena dolorosa de seis meses atrás, que me acometia sempre que fixava em seus olhos tão azuis quanto os meus.
– Vamos. – meu pai disse e respirei fundo antes de sair do carro. Caminhamos lentamente até a entrada, sob os protestos das pedras e folhas que gemiam sob nossos pés, e entramos. A identificação foi rápida, considerando nossa frequência. A revista também não demorou muito e logo fomos encaminhados ao pátio. Lá estava ela sentada em um banco, com os cabelos platinados e esvoaçantes soltos. Estava sorrindo, mas sabia que aquele sorriso provinha dos sedativos que ela tomava frequentemente. Diziam que ela era uma das mais desobedientes e que por isso ficava quase o tempo todo sedada. O único dia em que ela ficava tranquila era nos feriados, quando a visitávamos.
– Podem entrar. – a enfermeira disse com um sorriso aberto e atravessamos o arco de pedra em direção ao pátio. Minha mãe nos viu e acenou, sorridente. Pelo menos ela nos reconhece. Os sedativos ainda não ruíram sua memória.
– Stuart... Oh, Stuart... Senti tanto a sua falta... – ela disse e me puxou para um abraço apertado. Seu cheiro de flores me invadiu e permaneceu comigo mesmo quando ela me soltou e foi em direção a meu pai.
– Albert... – ela o abraçou também e sorriu mais ainda. Então seus olhos ficaram lúcidos e ela se virou para uma moita.
– Saiam daí, seus bisbilhoteiros. – ela murmurou e soltou uma risada medonha que partiu meu coração. Queria a ter de volta exatamente como era antes, sem esses ataques de loucura.
– São eles, Stuart... São eles! – ela disse empolgada e me segurou pelo braço, forte o suficiente para me marcar. – Você pode vê-los. Eu sei que pode... – sua euforia era tanta que eu nem sabia como me desvencilhar de sua mão, muito menos de suas palavras.
– Mãe... eu... – comecei, mas meu pai nos interrompeu. Ele tirou a mão dela do meu braço e a puxou para um abraço caloroso, tentando acalmá-la.
– Não! – ela gritou e empurrou meu pai com uma força que eu não sabia que ela possuía. Ela me abraçou em me jogou na grama. Suas lágrimas quentes escorriam e molhavam meu rosto enquanto ela se engasgava com alguma coisa.
– Você sabe que não é comum... Você é como eu. – ela disse e meu coração disparou.
– Não... mãe... me solta... – murmurei, mas ela me prendia.
– Você precisa salvar a família Liddel. Você precisa quebrar a maldição. – ela sussurrou e colocou algo em meu bolso que eu nem tive tempo de ver, pois mãos fortes a agarravam e a puxavam de cima de mim.
– Me soltem! Me soltem! Stuart! Albert! – ela gritava desesperada enquanto dois homens uniformizados a seguravam pelos braços. Uma de suas mãos se soltou e ela acertou um dos homens no rosto. A pancada foi forte o suficiente para desorienta-lo e atrair a atenção do outro. Se desvencilhando dos dois, ela correu e se jogou no chão. E eu, estúpido, só conseguia olhar.
Meu pai se levantou e se aproximou dela, mas os homens mandaram-no se afastar com um gesto. Minha mãe começou a cavar furiosamente, como se essa fosse a razão de sua vida. Suas roupas brancas se sujaram com a lama que ela desenterrava e com o sangue que escapava pelos cortes nas mãos.
– Quero voltar! Quero voltar! – ela gritava. Lágrimas escorriam nos olhos dela, assim como nos meus. Os homens se aproximaram dela novamente e, num resquício de coragem, me atirei contra eles, pulando e tentando derrubá-los. O problema é que sempre fui franzino e meu ataque não fez nem efeito. Gritei desesperado enquanto as mãos de meu pai me agarravam para me impedir de pará-los. Eles se aproximaram dela, que reagiu com violência, mas foi neutralizada por uma seringa com um liquido amarelado. Eles arrastaram seu corpo inerte para dentro enquanto eu gritava a plenos pulmões. Meu pai me segurava pelo peito e, depois de sentir uma picada em meu pescoço, apaguei.
Naquele dia, tive um pesadelo. Eu corria por um labirinto enquanto ouvia a voz de minha mãe me chamando. O labirinto mudava e eu me perdia na trilha. Caía, chorava, levantava e corria atrás da voz. Então vi um coelho e sumi na escuridão.
Aquele foi o último dia em que vi minha mãe.
*
Sabe... Dizem que a loucura é a porta para a realização dos desejos mais profundos da alma, desejos incompreendidos pelos que não convivem com a insanidade. Meu nome é Stuart George Liddell e eu caminho lado a lado com a insanidade, brincando na beira da fossa da loucura. Meu nome é Stuart, e talvez eu já seja um louco. Não somos todos?
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