O último adeus a Enos
1 Enos' last goodbye
Notas iniciais
O último adeus a Enos
A atmosfera de Cyrus estava pesada e escura, nessas alturas os seus cidadãos respiravam sangue e violência provinda da interminável guerra que assolava a dimensão, provocada pelos Enns denominados rebeldes.
Nesta noite, outro alvo havia sido demarcado pelas forças revoltosas e, na calada da madrugada, uma explosão devastou a mansão de uma das famílias Cyrans mais influentes da atualidade dimensional: a família Deviron.
Após o ataque, os rebeldes aproveitaram-se da fragilidade da família que havia sofrido perdas e escoriações com a explosão e atacaram os sobreviventes, entre eles, os Enns da filha mais nova dos Deviron – Lya – que havia desmaiado com a explosão inicial.
Naquele dia, mais cedo, a herdeira havia se sentido mal e por isso tinha estado de cama desde muito cedo, e Eryon estava a acompanhando e cuidando para que ela melhorasse. Mas a explosão aconteceu, o quarto onde os dois estavam virou escombros; Eryon saiu quase ileso, exceto pela sua perna esquerda que sangrava pela perfuração de um pedaço de vidro da janela que a atravessara; Lya, por outro lado, percebeu Eryon, paralisado por um segundo de desespero, tinha sangue em abundância escorrendo pela cabeça e um filete carmesim escorrendo pela boca machucada dela, assim como o restante do corpo.
Os seis Enns que haviam continuado ao lado de sua invocadora lutaram contra o grupo de rebeldes, lutaram para proteger a sua dona ferida e a família que era preciosa para ela, mas infelizmente eles também haviam sofrido com a explosão e tiveram dificuldade de lidar com os oponentes.
Nesta noite, a garota Lya perdeu cinco de seus companheiros. E foi a noite em que deixou Cyrus também.
Pelos escombros, quatro corpos de espalhavam ao final do confronto – com a vitória com gosto de derrota pelos Enns aliados dos Devirons – e dois garotos tentavam se recuperar, repletos de sangue e sem fôlego. E uma garota continuava desmaiada, repleta de machucados preocupantes. Enos, Eryon e Lya – sobreviventes da tragédia.
Eryon havia apoiado a sua dona no seu colo, de modo a oferecer o máximo de conforto possível a despeito da própria condição, cuja perna esquerda já fragilizada pela explosão havia sido quebrada durante a batalha, em conjunto com algumas costelas.
– I’m sorry, Lya... (Desculpe-me, Lya...) I’m sorry... If I would stronger...! (Desculpe… Se eu fosse mais forte…!) – o loiro pressionou sua testa na da morena, sua expressão estava contorcida de dor.
Do outro lado, Enos retirava a lâmina de sua espada do peito do último rebelde. Com um ar cansado, ele cambaleou sobre um monte de escombros, sentando-se por um segundo ali, tentando respirar. Seus olhos fitaram Lya por um instante, os pensamentos que nem por um segundo haviam se desviado dela, ele se levantou sem dizer uma palavra e andou com dificuldade até onde a sua prezada dona e Eryon estavam. Suas condições não eram melhores do que as do loiro, na verdade, ele era quem estava em piores condições dos três.
O Enn de cabelos escuro-azulados, bagunçados devido à exaustiva batalha, e com a franja caindo-lhe pelos olhos agachou-se em frente ao seu companheiro e a sua dona, recebendo um olhar apagado de Eryon. Os seus próprios olhos claros como o céu que há tempos não se via em Cyrus estavam sem brilho, cansados, cheios de dor. Ele fitou o corpo manchado de sangue de Lya e o seu coração se apertou como se uma mão invisível o esmagasse por dentro.
Mas ainda era uma agonia menos perturbadora do que a que havia sentido ao entrar no quarto completamente destruído de Lya, encontrá-la imóvel sob os escombros e pensar que nunca mais poderia ver um sorriso dela novamente.
E foi devido a essa agonia dilacerante de apenas ter imaginado que a sua senhorita Deviron havia morrido, que Enos tomou uma decisão.
– Eryon, we can’t take care of her like this… (Eryon, nós não podemos cuidar dela assim…) – a voz de Enos soava triste e os seus olhos não se atreviam a se afastar de Lya pelos poucos momentos que ainda lhe restavam – We can’t fight anymore and lost more than half of us... (Nós não podemos mais lutar e perdemos mais da metade de nós...) If the lady stay here she will be in danger. (Se a senhorita permanecer aqui, ela está em perigo).
Eryon baixou o rosto para a morena em seus braços e estreitou os olhos. Não queria concordar com isso, mas estava mais que óbvio que, na sua atual situação, ele não conseguiria protegê-la por muito tempo sem cometer um descuido. E um descuido era tudo o que os rebeldes esperavam dele.
–... I know it. (... Eu sei disso) But what we can do? (Mas o que podemos fazer?) Her parents are missing and we can’t rely on hospitals. We both are all she has now. (Os pais dela estão desaparecidos e nós dois não podemos confiar nos hospitais. Nós dois somos tudo o que ela tem agora).
A expressão de Enos tornou-se ainda mais perdida, como se ele soubesse de algo, mas não quisesse falar. E Eryon percebeu isso.
– What? (O que foi?) Do you know something, Enos? (Você sabe de alguma coisa, Enos?) Say! (Diga!) – exigiu saber.
Enos estremeceu levemente com a elevação do tom de Eryon.
O loiro respirou fundo, arrependido de ter gritado e tentou de novo, desta vez, mais controlado.
– If you do know something, say, Enos. (Se você sabe alguma coisa, diga, Enos).
O Enn hesitou a princípio, embora ele houvesse pensado bastante sobre o assunto, ainda não se sentia confortável com a única solução que havia se aberto aos seus olhos. E foi apenas por não haver outra opção que Enos se obrigou a falar.
– Our dimension was destroied... With it the rebels start the war in this dimension. (A nossa dimensão foi destruída… Com isso, os rebeldes começaram a guerra nesta dimensão) – ele deu uma pausa, dando um tempo para o companheiro juntas as peças – But... Only in this dimension. (Mas... Somente nesta dimensão).
Os olhos de Eryon se arregalaram, brilhando com uma luz do terrível entendimento.
–... You mean...! (... Você quer dizer...!) Send her to another dimension?! (Enviá-la para outra dimensão?!) – o loiro baixou os olhos para Lya, sentindo o seu coração doer com o mero pensamento de se afastar dela – But the rebels can find a way to go after her, since she is a important target. (Mas os rebeldes podem descobrir uma maneira de ir atrás dela, já que ela é um alvo importante) – ele argumentou.
Enos fechou os olhos por um momento, dor tingia o seu rosto, como se ele já esperasse por esse questionamento e não gostasse da resposta que já tinha para ele.
– Yes... I’ve...Thought about it. (Sim… Eu… Já pensei nisso.) – a essa altura o tom do Enn havia se tornado melancólico.
Foi então que Eryon finalmente compreendeu onde Enos queria chegar com toda aquela história, e seus olhos se arregalaram outra vez.
– An unknow dimension?! (Uma dimensão desconhecida?!) – Eryon fitou-o, incrédulo.
Enos limitou-se a assentir, não era como se gostasse da ideia, também.
– How am I supposed to agree with such ideia?! (Como eu supostamente concordaria com tal ideia?!) – gritou o loiro, inconformado com como o seu companheiro podia vir com uma solução tão sem pé nem cabeça – How can I leave her alone in such conditions?! (Como eu posso deixá-la sozinha em tais condições?!) – involuntariamente os braços do Enn se apertaram em volta do corpo machucado sobre as suas pernas.
– I know it, ok? (Eu sei, ok?) – Eryon mordeu o lábio inferior, desconfortável com a própria ideia – Do you think I wanna do it? Of course not! (Você acha que eu quero isso? É claro que não!).
Com isso, ambos caíram em silêncio. Um silêncio que só fez confirmar aquela ideia como única, mesmo que nenhum dos dois Enns gostasse de pensar em deixar a sua preciosa pessoa em comum sozinha, em um lugar onde ela não teria alguém com quem contar e, principalmente, em que eles dois não poderiam a ajudar.
Depois de um momento, Eryon chamou a atenção de Enos ao se dar conta de algo.
– Hey. – ele chamou, recebendo a atenção do companheiro – If you send Lya to an unknow dimension we will not be able to find her unless she call us. You know that, right? (Se você mandar Lya para uma dimensão desconhecida, nós não poderemos achá-la a menos que ela nos chame. Você sabe, né?).
A mente de Eryon estava a mil. Afinal, e se ela, por algum motivo, não conseguisse chamá-los? Como ele poderia saber se ela estaria bem ou se precisaria dele? E, se precisasse, como ele poderia ir até ela sem saber onde ela estaria? Como...?!
– Eryon. – Enos interrompeu os pensamentos dele, soltando um suspiro exausto em seguida – We can’t go after her. (Nós não podemos ir atrás dela). – ele viu que Eryon iria retrucar e fez sinal para que ele parasse, continuando a falar – This is also to us. (Isso é para nós também). Is better we don’t know where the lady will be. This away we will not be able to regret and go after her. (É melhor nós não sabermos onde a senhorita estará. Desse jeito, nós não poderemos nos arrepender e ir atrás dela). Because if we do it will just demand more of her. (Porque se o fizermos, isso apenas exigirá mais dela).
Ele respirou melancolicamente antes de continuar.
– And... (E...) – Enos contornou o rosto machucado de Lya com uma de seus trêmulas mãos, fitando-a com um olhar cálido –... She can’t waste more energy in her delicate situation... (Ela não pode gastar mais energia na situação delicada dela).
Isso porque os Enns não podem se manter fora da sua dimensão –que no caso, agora, é Cyrus, considerando que Enea foi destruída – sem a mediação de um invocador, e tal invocador teria a sua magia drenada para manter um Enn em outra dimensão, como um escudo protetor que repeliria a atmosfera nociva a eles.
E Eryon sabia disso. E também sabia que, na atual situação, qualquer quantidade de energia era indispensável para Lya. E isso deixava o loiro sem argumentos e sem outra escolha, a não ser deixá-la ir.
Eryon não era egoísta ao ponto de mantê-la ao alcance de suas mãos, porém exposta ao perigo.
–... – ele apertou as mãos por alguns segundos, mas depois se resignou – I got it. (Entendi). I will do it. (Eu farei isso). – disse ele, mas ao tentar se levantar, a sua perna reclamou com a mínima menção de esforço, arrancando um gemido doloroso do loiro.
– Don’t force yourself, Eryon. (Não se esforce, Eryon). – Enos logo interveio, colocando uma mão sobre os ombros do companheiro – Don’t worry, I will do it. (Não se preocupe, eu farei isso).
– But... (Mas...) – Eryon tentou outra vez, mas só fez se machucar ainda mais.
Enos o empurrou pelos ombros para que ele se mantivesse sentado.
– Don’t overdo yourself. (Não exagere) You mustn’t force your body. Your wounds won’t heal like before, remember? (Você não deve forçar o seu corpo. As suas feridas não irão se curar como antes, lembra?).
– Tsk. – Eryon reclamou do “lembrete”, mal humorado.
– It’s for your sake. (Isso é para o seu bem) – Enos tentou acalmar os ânimos, sorrindo gentilmente.
Então ele fez menção de tirar Lya dos braços do loiro, mas ele o interrompeu, segurando-lhe a mão estendida.
– Wait. (Espere) Gimme... Just one minute. (Dê-me… Só um minuto).
Enos fitou o semblante indescritível do loiro que o olhava com um ar triste para o rosto desacordado de Lya, então ele assentiu sutilmente e se afastou um pouco, disfarçando uma tosse discreta.
Um minuto.
Eryon continuou olhando para o rosto machucado de Lya, incapacitado de fazer qualquer coisa por ela. Um minuto definitivamente não era suficiente para dizer tudo o que queria ou para olhá-la até que se desse por satisfeito. Mas era tudo o que ele tinha.
Então o Enn se inclinou suavemente e beijou o rosto frio de Lya, demorando-se nisso como se os seus lábios pudessem aquecê-la.
– I’m sorry, Lya... (Desculpe-me, Lya...) – ele falou afastando os seus lábios e passando a acariciar suavemente o local – I should have protected you... But I’m too weak yet...! (Eu deveria tê-la protegido... Mas eu ainda sou tão fraco...!) – as mãos do Enn se fecharam com força, demonstrando toda a frustração do loiro – I trust you, Lya, so I will be waiting for you. I will always be. (Eu confio em você, Lya, então estarei esperando por você. Sempre estarei).
– Eryon. – Enos chamou, interrompendo-o – It’s time. (Está na hora).
O loiro fitou o companheiro a sua frente, depois jogou um olhar para Lya novamente, sentindo a dor da separação. Não queria deixá-la ir para um lugar onde não podia intervir quando ela precisasse, mas... Era melhor a incerteza de um futuro desconhecido do que a certeza de um futuro em que a perderia se Lya continuasse em Cyrus.
– I will become stronger. (Eu ficarei mais forte) – Eryon prometeu à morena em segredo – Until there... Don’t die. (Até lá... Não morra).
Então ele tirou o próprio casaco manchado com o seu sangue, guardou a sua essência de um amarelo tempestuoso e cobriu a sua dona gentilmente, passando os olhos pelo rosto dela uma última vez, imaginando quando o veria com um sorriso outra vez. Então Enos envolveu os seus braços nela e a carregou cuidadosamente, deixando um vazio gelado sobre Eryon, cujos olhos seguiram ambos, vendo Enos fazer alguns movimentos com a mão livre e um portal, então, se abrir.
– Hey. – Eryon chamou antes de Ennos entrar no portal negro, sentindo o sopro gelado que vinha da abertura esfriar o seu coração – You know... It’s a quite dangeorous to you. (Você sabe... Isso é meio perigoso para você.) What will you do if the rebels catch you and try to obtain information about it? (O que você fará se os rebeldes o pegarem e tentarem obter informação sobre isso?).
A preocupação de Eryon era pertinente, considerando que, com a magia certa, os rebeldes poderiam extrair informação à força de Enos, mesmo que ele próprio não soubesse onde o portal se abriria.
Mas, por não estar de frente para Enos, Eryon não pode ver o infeliz sorriso conformado que surgiu nos lábios do Enn. Porém, tossindo outra vez, ele virou o rosto por sobre o ombro, então Eryon arregalou levemente os olhos, vendo que, embora Enos mantivesse um fraco sorriso, do canto da sua boca escorria um filete de sangue.
– They won’t catch me. (Eles não me pegarão).
–… – Eryon então entendeu.
Eles não o pegariam, pois um corpo sem vida não seria de nenhuma utilidade.
Em respeito ao seu companheiro, Eryon assentiu solenemente.
Então Enos voltou os seus olhos para o portal desconhecido que se abria a sua frente. Suas mãos tremiam levemente, interiormente assustado. Não era porque ele sabia o que o futuro lhe reservava que Enos ficaria calmo, na verdade, ele estava realmente amedrontado, mas... Ele ainda tinha um último dever a cumprir para com a sua preciosa dona.
Seus olhos buscaram força no semblante de Lya, o sangue que estava ali, as feridas, os cortes sangrentos... Enos não queria vê-la assim nunca mais, então entrou na escuridão.
Já se sabe o que houve naquele portal e onde ele havia dado, mas o que não se sabe é que depois de deixar Lya na dimensão que depois seria descoberta como Ernas, naquela noite, Enos voltou vivo pelo portal para Cyrus. E mais que a dor em seu corpo quase sem forças, a dor por ter deixado a sua estimada dona, sozinha, naquela rua fria e vazia, era incomparável, até desprezível.
Incapaz de suportar sequer o peso do próprio corpo, Enos caiu aos pés de Eryon, que apoiou o companheiro sobre as suas pernas, sem se importar se isso lhe trazia dor ou não, e o viu abrir os olhos escurecidos, focando o rosto do loiro com dificuldade por culpa da sua visão estar embaçada.
Já não havia mais o que fazer. Eryon sabia. Enos também.
Com o último de seus esforços, Enos moveu um de seus braços; Eryon seguiu os frágeis movimentos dele até senti-lo segurar uma de suas mãos e apertá-la com firmeza.
– Eryon... – a voz dele soou fraca e rouca, porém tinha convicção em seu tom – Be sure... To be here... For her... (Certifique-se... De estar aqui... Por ela...).
O sangue escorreu devagar pelo canto dos lábios sem cor.
– I got it, Enos. (Entendi, Enos.) – Eryon o confortou; era a única coisa que podia fazer agora.
– Don’t... Ler her... Alone... (Não… Deixe-a… Sozinha…).
– Yes. (Sim.) – Eryon apertou a mão de seu amigo, tentando passar-lhe toda a segurança possível para que ele ficasse em paz.
E mais uma última vez os olhos azuis buscaram os amarelos atentos nele e, naquele momento, aquela troca de olhares tranquilizou Enos muito mais do que qualquer palavra que Eyon poderia dizer.
Então os olhos claros se fecharam satisfeitos e um pequeno sorriso pintou os lábios de Enos.
– So... I’m letting the lady... On yours cares… (Então… Estou deixando a senhorita… Sob os seus cuidados…).
E, naquele instante, sem saber, Lya perdeu mais um de seus companheiros sob as trevas do céu corrompido de Cyrus.
Eryon limpou a lágrima que escorrera pelos olhos do seu companheiro e segurou com ambas as mãos a mão que já não pressionava mais as suas, fazendo-lhe uma promessa silenciosa.
– Yes... Thank you for everything, Enos... (Sim… Obrigado por tudo, Enos…) And goodbye… (E adeus…).
The End (Fim)
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