O Último Suspiro
1 Reprovei em Francês
Eu odiava tudo aquilo. Aquela maneira de viver. Morar apenas com minha governanta e tutora, Olga, estudar em escolas caras e particulares. Tudo isso me anojava. Todas aquelas pessoas me anojavam. Eu tinha apenas 12 anos e minha mãe tinha sumido no mundo (não antes de me deixar uma polpuda herança) e meu pai… Nunca deu as caras.
— Olga? — chamei vestindo a camisa da escola. — O café está pronto?
— Sim senhorita. — disse ela pegando-me pela mão. — Vamos logo ou irá se atrasar.
Eu me sentia grata por Olga não agir com histeria quando chegava à data de meu aniversário, mas naquela manhã ela se permitiu usufruir de sua criatividade para montar meu café da manhã. Um muffin com a vela de número “13” estava sobre a mesa, junto com um copo de suco de mamão (meu preferido), torradas e bacon.
— Feliz aniversário, menina! — sorriu ela carinhosa.
— Coma comigo, por favor, Olga. — pedi sentando-me a cabeceira da mesa. — E comemore comigo meu 13º ano de vida.
Naquela manhã Martim, meu motorista, também me desejou um feliz aniversário e um dia agradável. Por um lado ficava feliz por eles se lembrarem de meu aniversário, que eles se lembrassem de mim, mas não era algo com o qual eu me importava. Era só um ano a menos de vida. Desci do carro em frente à escola e encontrei Ohana me encarando curiosa, escondendo as mãos atrás das cotas. Não! Gemi mentalmente.
— Parabéns! — sussurrou jogando os braços em torno do meu pescoço e logo após entregando-me uma caixinha. — É simples!
Era um anel. Um anel no qual se via entalhada à frase “nossa amizade será eterna”. Ela sorriu tímida e corou, mas ainda era Ohana. Minha melhor amiga. Sorri para ela enquanto colocava o anel no dedo anelar. Ela me observou por um tempo e depois sorriu confiante.
— Juntei grana por um bom tempo para isso. — gabou-se ela. — Gostou?
— Um bolo já estava de bom tamanho! — admiti, ainda sorrindo.
— Sei que comparado com o que você pode comprar isso é uma mixaria. — ela abaixou a cabeça.
— Eu adorei! — lhe garanti. — Você sabe, poderia ter me dado meias e eu ainda adoraria.
A Sra. Cristal estava doente aquela manhã e por isso teríamos aula com uma professora substituta. Sra. Rock! Ela parecia simpática com todos. Todos menos eu. Pedia para que eu repetisse e repetisse sem parar todas as frases, mas eu tinha certeza que meu francês estava bem apurado.
— Acha engraçado o que está fazendo, Srta. Brenner? — perguntou em tom acusatório. — Vamos conversar depois da aula.
Ohana me lançou um olhar em minha direção antes de ser pega de surpresa por uma pergunta, da qual se esquivou muito bem. Quando o sinal tocou todos os alunos deixaram a sala, menos eu.
— A senhorita acha que sou boba? — perguntou ela.
— Não sei do que está falando!
— Hoje é seu aniversário, não é?
— Sim senhora.
— Quantos anos?
— Treze!
— Meu número da sorte!
E dizendo isso um par de dentes a mais surgiu em sua boca, junto com uma língua bifurcada. A Sra. Rock grasnou e um par assas negras surgiram em suas costas. Fiz o que qualquer adolescente faria no meu lugar. Corri como se não houvesse amanhã. Não foi como se eu corresse como uma garotinha. Senti que algo dentro de mim mudava, eu sabia o que tinha que fazer e quando, mas não sabia como. Naquele momento corri como se minha vida estivesse em jogo. E, pensando bem, estava mesmo.
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