O Último Shirian [hiatsu]

5 Capítulo 5 - Indecisões


Notas iniciais
E hoje então o tão esperado... acho que ja sabem néh? Aproveitem o cap e boa leitura! "E tudo o que restou foi aquele rosto, pintado de lembranças, pincelado por sentimentos, imóvel e mudo fixado nas paginas brancas da vida" Hisachi Mynari


Capitulo 5 -Indecisões

O quarto escuro e mal iluminado ainda exalava o forte cheiro de charuto, Hiroshi se ajeitou no chão duro e frio, mas o sono não vinha, abriu os olhos verdes grandes e animados, animação essa que só uma criança teria, ele já havia saído.

Caminhou apressado até o irmão, e o mesmo estava agachado, o rosto entre as pernas, os olhos azuis fechados enquanto os cabelos louros caiam em cascatas por sua face triste, ergueu o olhar vendo o irmão o encarar curioso, forçou um sorriso amarelo tentando convencer o menor de que estava bem.

Tudo o que vestia era a camisa de mangas longas que iam até seus joelhos, a mesma ainda tinha o cheiro dele, fechou a cara com tal observação, sentia nojo de seu próprio corpo por ser novamente usado.

—Já disse que não é para vir aqui —Ladrou Dilan irritado, o menor se encolheu arrependido ouvindo o outro suspirar cansado —Apenas evite está bem? —Hiroshi concordou sorrindo enquanto abraçava o irmão.

Os olhos do ruivo desceram pelo pescoço do irmão vendo a corrente com a pedra branca cintilar, a olhou curioso antes de descer mais ainda o olhar e parar nos pulsos de Dilan, os mesmo com cicatrizes profundas marcadas no formato de algemas, tocou de leve e inocentemente nelas, que pulsaram em dor, mas mesmo assim Dilan mantinha o sorriso, a dor parecia ser a única coisa boa para ele ali, era ela o lembrava que tudo não passava de um pesadelo que nunca acabava, ela que o lembrava de que era real, ela era a única coisa que o lembrava de que ainda estava vivo.

—Se esconda ele já esta chegando —Falou Dilan em um sussurro, Hiroshi concordou em silencio dando as costas ao irmão o corpo pequeno se moveu rápido e a todo movimento Dilan reparava e gravava em sua mente como uma lembrança —Hiro —Chamou e o menor parou para encará-lo —Quando ele chegar feche os olhos e tampe os ouvidos ok?

—Por quê? —Perguntou Hiroshi curioso

—Apenas faça —Falou Dilan enquanto o menor concordava, se virando.

Viu o começo das marcas na costa do irmão com um semblante triste, em pensar que o outro também tivera que passar por tudo aquilo, desviou a sua atenção ao ouvir a porta ser aberta com brutalidade, o homem entrou caminhando formalmente, sem perder a postura, os olhos focados em Dilan brilhavam de cobiça.

Envolveu os dedos longos nos fios loiros do menor os puxando, Dilan não lutou, não resistiu, apenas o encarou com nojo “Está tão obediente” observou o homem com tédio o soltando, caminhou até Hiroshi segurando forte o pulso do ruivo.

—Largue ele —Ladrou Dilan se levantando.

O homem o encarou arqueando as sobrancelhas soltando Hiroshi que correu em direção a parede se abaixando, o homem se aproximou de Dilan novamente “assim é mais interessante” Falou vendo o olhar do loiro se estreitar em raiva, “Acho que já sabe o que fazer” falou o maior o olhando, Dilan encarou Hiroshi pensativo.

—Tire ele daqui —Falou Dilan firme, o homem seguiu o olhar vendo o pequeno encolhido no chão.

“Não está em condições de negociar”

—Não estou negociando —Afirmou Dilan serio, o olhar maduro apesar da pequena idade, o homem soltou um riso antes de se virar para Hiroshi e o expulsar do quarto.

O menor saiu as pressas entrando no corredor longo e escuro, se agachou no chão tampando os ouvidos ao ouvir um grito abafado, os olhos se fecharam assim como Dilan ordenara entrando na escuridão.

Hiroshi acordou exaltado, o rosto suava frio enquanto se levantava com pressa, o azul da noite ainda pairava no céu. “Um pesadelo, apenas um pesadelo”, era nisso que pensava, porém não tinha tanta certeza, talvez seja sua mente pregando apenas mais uma peça em suas memórias inexistentes.

Já havia tido diversas lembranças assim, e agora estavam cada vez mais frequentes, isso só aumentava mais as duvidas que tinha sobre o próprio passado, trocou de roupa se vestindo em silêncio sem acordar os outros empregados e saiu, andando até a mansão.

O jovem não se lembrava de nada em seu passado, e sempre que perguntava todos eram diretos falando que desde o começo trabalhou ali, até mesmo Dilan afirmara isso, graças a isso ele sempre imaginou que teria feito desde o começo as mesmas coisas de agora, os mesmos trabalhos, e as mesmas punições.

As cicatrizes deveriam ter vindo dos castigos, era nisso que acreditava, a pele clara talvez por não trabalhar muito ao sol e sim destro do castelo, mas todas essas afirmações que fizera para si mesmo estavam em colisão com seus sonhos, será que as conclusões que sempre pensara eram mesmo reais?

Entrou na mansão que estava vazia, ainda era muito cedo pois era o único ali, caminhou silenciosamente pelos corredores, e inconscientemente se guiou até o quarto de Dilan.

—Entre —Falou Dilan sentado na cama, Hiroshi nem ao menos se aproximara da porta e já fora descoberto, o ruivo abriu a porta com o máximo cuidado para a mesma não fazer barulho, e adentrou ao quarto do loiro.

Dilan o encarou em silencio, vendo o mesmo em nenhum momento o olhar, é , ele estava estranho, em nenhum momento o desafiara, ou implicara consigo, nem ao menos se curvara em reverencia, um sorriso surgiu nos lábios de Dilan, poderia repreendê-lo por isso.

Mas todas as suas idéias se dissiparam em sua mente, ao ver o que Hiroshi encarava, levantou-se rapidamente e apanhou o colar que o ruivo olhava, tinha certeza de que o guardara na noite anterior, se enganara.

—Isso... — Começou Hiroshi reconhecendo o colar que vira no sonho.

—É um presente de Van Fourty Terceiro —Explicou Dilan irritado guardando-o novamente na gaveta.

—Eu tenho certeza de que já o vi em algum lugar... — Começou Hiroshi se aproximando da gaveta, a mão se esticou para abri-la, mas o pulso foi segurado por Dilan que o olhou irritado.

Os olhos pararam de encarar o outro, e os mesmos desceram mais, parando no pescoço de Hiroshi.

—O que é isso? —Perguntou puxando Hiroshi para mais perto vendo o ponto roxo que o outro detinha.

—Nada —Afirmou temeroso afastando a mão de Dilan, um erro. O loiro em um movimento rápido imobilizou Hiroshi, o prendendo contra a parede.

Não era exatamente algo brusco, mas também não fora nada delicado, o prensou na parede sem realmente esfregar seu corpo no outro, as mãos apenas pousaram uma de cada lado de Hiroshi o deixando sem fuga, um passo para o lado e os braços iriam lhe envolver, para trás a parede lhe impedia, e em sua frente Dilan o encarava.

—Quem fez isso Hiroshi? —Ladrou Dilan irritado, de uma forma que o ruivo nunca o tinha visto.

—Ninguém —Falou Hiroshi firme

—Não estou de brincadeira garoto — Dilan bateu forte a mão contra a parede do quarto assuntando Hiroshi, o mesmo não estava com pensamentos nisso, não temia Dilan, e poderia muito bem lhe falar quem fizera, uma duvida ecoava em sua mente, e desconfiava que a mesma fosse a mais pura verdade.

—Desde quando você liga? Você nunca ligou, nunca fui mais que o empregado para você, então pare de pegar no meu pé — Retrucou Hiroshi em um impulso nervoso, as mãos se apoiaram no peito de Dilan o empurrando para longe, não, não era que Hiroshi era mais forte, mas o loiro congelou ao ouvir aquelas palavras e deixou-se por um instante se afastar —Você não é nada meu, não finja que se importa com o que acontece comigo — Continuou o ruivo correndo para fora do quarto, os olhos lacrimejaram sem deixar cair lagrimas, não choraria, não agora.

Os olhos de Dilan ainda estavam arregalados, deveria ter segurado Hiroshi, deveria ter o puxado de volta sem o deixar ir, até o mesmo esclarecer o que queria dizer com isso. Mas sabia muito bem o que ele quis dizer, tinha sido bem direto e talvez por isso o choque lhe fora tão grande.

Então era isso que Hiroshi pensava de si, que não fora nada mais que um empregado para ele, que o mesmo não passava de um escravo? A raiva e a angustia se apossou do corpo de Dilan socando a parede e gritando irritado.

Mas por que se incomodara tanto? Afinal era isso que estava no plano, era assim que Hiroshi deveria pensar, que não fora nada além disso, não deveria o ver como uma família, isso o manteria seguro.

Alexander adentrou a porta sem nem ao menos bater, pois a mesma ainda estava escancarada, viu o loiro ainda parado com o punho na parede, a costa da mão formando gotas de sangue com tamanha força que usara no soco.

—Se continuar com isso só magoara ambos —Falou Alexander calmo, o mesmo dormira na mansão aproveitando a oportunidade para ficar por aquelas bandas, já que teria que resolver alguns assuntos na cidade.

—Não, é o melhor a se fazer —Retrucou o loiro frio, tentando acreditar nas próprias palavras que falara.

—O melhor para quem? — Contrariou Alexander agora em tom mais serio que o normal — Eu sei muito bem que está sofrendo com isso, mais do que qualquer um.

—Não devo colocar o todo o peso nas costas dele Alex.

—E não deve carregar tudo sozinho.

Ambos se encararam, os cabelos loiros voando com a brisa fria que entrava pela janela, Alexander deu um passo a mais se aproximando de Dilan

— Ele te vê como um patrão, é isso que você quer?

Dilan desviou o olhar o abaixando.

— Está realmente feliz com isso? Ele nem ao menos te vê como um irmão, ele disse que você não era nada dele.

Estava perdendo a paciência, e isso só piorava as coisas, viu Dilan se encolher ao ouvir aquelas palavras, que pareciam facadas em seu coração, ainda mais por ter certeza de que as mesmas eram reais.

O loiro ergueu o rosto, o mesmo com um semblante triste e frágil, as mãos de Alexander formigaram em vontade de abraçá-lo, mas não o faria.

—Você está certo... —Falou Dilan com um pesar sentando-se na cama, as mãos pousaram na testa cobrindo os olhos abatidos.

—Não a nada de errado em chorar quando se está triste —Encorajou Alexander, não poderia abraçá-lo, mas pelo menos tentaria o fazer liberar suas tristezas.

—Já as despejei tantas que desconfio que tenham secado — Revelou Dilan com um pesar, o silencio se instalou entre os dois, Alexander deu um passo a frente ficando próximo a cama, sentou-se na mesma do lado de Dilan —Ele está se lembrando...

—Quem? —Perguntou Alexander calmo, Dilan tombou o rosto para o lado encostando no peito do mais velho, ninguém imaginaria que Dilan estaria em tal situação algum dia, mas ninguém nunca imaginaria também pelo o que Dilan passou, e o único que sabia era Alexander.

—Hiroshi, ele está se lembrando —Avisou Dilan.

Alexander calou-se, mudo, o silencio se instalou novamente, mas o mesmo não incomodava, apenas trazia paz, que durou alguns segundos antes das duvidas que sempre desencorajavam nossas mentes surgirem em ambos.

—Deveria falar a verdade para ele.

—Ele não precisa saber

—Será melhor do que ele se lembrar por si próprio.

—Eu daria tudo para não ter que se recordar — Admitiu Dilan —Não vou fazê-lo se lembrar disso por eu não ser forte o bastante — O loiro se ergueu vestindo as roupas reais e assim que saiu pela porta o semblante assumiu a mesma expressão fria e sádica que tinha diariamente, o sorriso irônico nos lábios, e as sobrancelhas contraídas demonstrando a irritação diária que tinha quando acordava.

“Até quando vai aguentar segurar essa mascara?” Questionou Alexander em pensamento se levantando, andou alguns passos vedo a gaveta ainda meio aberta, se aproximou dela empurrando-a para fechá-la, mas a mesma ainda tinha o colar dentro, o apanhou com um sorriso triste, a guardando novamente. Dilan estava certo, o que aconteceu no passado, que fique no passado, assim era o melhor para todos, seria mesmo?

Não muito distante daquele quarto Gors acabara de despertar, levantou-se da cadeira em que dormira, poderia muito bem ter dormido confortavelmente em uma cama, mas após as travessuras de Toriam não poderia deixá-lo sozinho.

Olhou para cama aonde o garoto dormia se re-mexendo, no maior varias perguntas vieram em sua cabeça, por que o outro aprontara dessa vez era a pergunta que mais ecoava, talvez não quisesse saber ... Era melhor não saber, sempre se irritava com o que descobria e nunca conseguia entende-lo.

Realmente Toriam não era uma pessoa exatamente fácil de se lidar, nunca fora, sua definição para liberdade era sem limites, seu modo de pensar era ultrapassado e mesquinho, tudo nele contribuía para que ninguém o entende-se, ele não queria ser compreendido, não por qualquer um.

Abriu os olhos manhosos, encarando a face emburrada de Gors ao seu lado.

—No que está pensando? —Indagou, a voz ainda tinha o tom sonolento.

—Nas merdas que você apronta — Falou Frio, pretendendo de algum modo fazer o menor se arrepender, ou pelo menos fingir-se arrependido, mas sabia que Toriam não faria isso.

—Então é em mim que você pensa quando acorda? —Provocou o menor animado, os olhos castanhos faiscando com a possibilidade, sentindo o coração quase pular fora de seu peito.

—Em como você dá trabalho —Cortou Gors sem perceber a milícia na provocação de Toriam, fazendo o menino fechar a cara, esta acontecendo de novo, e será que seria sempre assim? Sempre visto como uma criança aos olhos do outro?

Toriam já pensou em amadurecer, e não duvidem disso, ele seria capaz, mas o vasto medo o impedia, o único motivo de o outro ficar consigo era para cuidar que ele não apronte, e se as travessuras parassem? Já estaria grande o suficiente para cuidar-se sozinho, não teria necessidade de Gors o seguir a todo canto, e por fim o maior se afastaria.

Pouco a pouco tomaria distancia, até que trocar um simples “oi” se tornasse um incomodo para ambos, e se continuar agindo como age, o outro nunca o olharia como igual, e será sempre visto como uma criança, se amadurecer o perde, se continuar assim nunca avançara.

Seria bom se aquele fosse o único problema, seria até mesmo ótimo, mas Toriam sabia que não era, um príncipe, futuro rei casado com um homem? Como conseguiria governar tal reino desse jeito? Não ligava para opinião dos outros, pouco se lixava com o trono, sempre teve tudo que sempre quis e a riqueza não lhe faria falta... Não, nem sempre teve tudo, estava ali na sua frente lhe encarando aquele que queria e não poderia ter.

O queria perto, mas também não queria destruir a vida do mesmo, será que seus interesses valiam tanto a ponto de poder destruir a vida de Gors? Não, e sabia muito bem disso, por aquele momento se contentaria somente em lhe sorrir e dar bom dia, como sempre fizera e tentar aproveitar o máximo o que poderia viver, até que o outro se afaste de si aos poucos, e o veria partir sem poder impedir.

Até esse dia chegar tentaria ao máximo, e foi no meio de tantas duvidas, segredos e indecisões rondando a mansão e aos poucos o sol começou a nascer, ainda fraco pelas nuvens, ainda muito distante para esquentar, apenas cintilante o suficiente para clarear os pensamentos de todos.

E razoavelmente distante dali Hiroshi caminhava, assim que discutira com Toriam correu para fora da mansão indo em direção a pequena casa aonde os empregados residiam, abriu a porta com tanta força ainda exaltado que alguns empregados soltaram palavrões por despertar daquela forma, mas não tinham do que reclamar, afinal já deveriam ter acordado.

Mas a noite de sono para a maioria nem dava para o gasto, parecia que deitavam e acordavam em intervalos de minutos, ou até mesmo segundos, apesar de todos serem dispensados por volta das 22:00 os trabalhos feitos pesavam-lhe os olhos, e sempre chegavam exaustos desabando no colchão, dormindo como pedras.

E talvez fosse por isso que o ruivo não conseguia processar mais nada direito, a falta de descanso lhe fazia falta, e muito. Moveu-se até o colchão de sua cama o erguendo, normalmente nem camas teriam, mas como estavam falando do príncipe daquele pequeno reino excluído, rodeado por florestas, tinham mordomias, apesar de nunca ter tempo para aproveitá-las como deveriam, tinham refeições, tinham cama, e dependendo até mesmo podiam banhar-se.

Hoje chamaríamos isso de básico, porém não estamos falando dos nossos tempos, e nem da onde moramos, estamos apenas falando da vida de um empregado jovem com uma vida lotada de duvidas e mistérios, desconhecidos até mesmo para si próprio.

Apanhou o diamante azul que escondeu ali e saiu às pressas, fora para o celeiro, ali teria um pouco de paz, paz aquela que necessitava e muito.

Abriu a porta ouvindo o sino de sempre soar, os cavalos seguiram a direção do barulho e Hiroshi abriu um leve sorriso amarelo, estava irritado, angustioso, mas não deveria descontar neles, isso estava fora de cogitação.

Foi até a cela em que Furt estava, o cavalo bufou, parecia que também não tivera uma boa manhã, Hiroshi se aproximou passando bem ao lado do corcel, a todo passo o encarava, vendo se o mesmo iria mostrar algum movimente que o fizesse parar de andar ou o impedisse de invadir “seu território” mas não demonstrou nenhum protesto.

O garoto deitou-se nos fenos espalhados, a mão se ergueu visualizando a pedra, ela tinha a mesma cor ... Como era possível? Era como se visse os olhos dele ali, o observando, mas o que mais tinha medo era da sensação que sentia quando o via.

Isso estava errado, tudo estava errado, nada fazia sentido, ele era um ser mágico, pelo menos o que os contos diziam, sempre ferozes, porque se sentia tão seguro perto dele? Aquilo tornava tudo mais e mais perigoso e desconhecido para si.

—Kyo —Sussurrou ainda olhando a pedra em seus dedos, o cansaço tomou seu corpo e o sentiu pesar, se dormisse seria repreendido, não queria ver Dilan, não naquele dia, não queria encarar ninguém, os olhos se fecharam em um descanso temporário, que após alguns segundos o fez adormecer.

O dia parecia passar lento, lento até demais, Dilan olhava em volta toda hora e a todo instante, Hiroshi nunca aparecia em seu campo de visão no fundo isso era bom, afinal como iria fitá-lo? Ambos precisavam disso, desse momento a sós, para tentar esquecer de tudo e de todos.

Passou pelo quarto de Toriam e Gors que partiriam dali hoje, os negócios já tinham sido fechados e agora arrumavam as malas, apesar de querer o irmão bem distante de si ainda uma pergunta saltava em sua mente.

O que aquela marca significava? Apenas de pensar que alguém fizera aquilo o fazia irritar-se, mas quem seria louco o bastante para isso?

Sabia, e poderia estar errado, comprar a briga com um talvez inocente, valeria o risco? O sol já estava alto quando escancarou a porta de Toriam vendo ele o encarar surpreso. Não poderia vacilar, não poderia mostrar indecisão fechou a cara e cerrou o punho levantando pela gola a blusa do garoto.

—Quem deu permissão para encostar um dedo em Hiroshi? —Ladrou irritado, sentiu a mão de Gors pousar em seu ombro e pressioná-lo com um pouco de rudeza, fazendo Dilan soltar Toriam.

—Quem disse que ele fez algo? —Falou Gors em defesa.

—Não acredito que ainda não dormiu com o ruivo, ele era uma delicia — Atiçou Toriam, ótimo a defesa de Gors veio água a baixo, o mesmo fechou a cara ao ver o outro se entregar.

Toriam poderia sair bem dessa, parecia que pela primeira vez queria assumir suas ações, fechou os olhos recebendo o soco de Dilan, forte e rápido, cambaleou alguns segundos antes de cair na cama com a mão no queixo.

—Como ousou sujá-lo com as suas mãos seu... —

—Tsc, só foi um beijo —Falou desviando o rosto dolorido de mais um soco.

—Vão embora —Ordenou irritado, Gors apanhou as malas saindo do quarto junto com Toriam e indo em direção a carruagem que o esperava.

—Você passou dos limites Toriam —Repreendeu Gors entrando na carruagem.

—Eu sei...

A fala de Toriam fez Gors calar-se e o encarar assustado, sempre falava a mesma frase toda vez que o outro aprontava, então por que dessa vez ela fez efeito? Parecia que as duvidas que rondavam a mente de Toriam o abatiam mais do que o normal, e pela primeira vez se sentiu bem pelo soco que levara, talvez esse mesmo soco trouxe-se sua sanidade e o fizesse voltar a ser como antes, antes de se apaixonar por Gors, antes de conhecê-lo, antes conhecer o sentimento que mais aquecia, confortava e machucava, antes de conhecer o amor.

E foi com esse sentimento que Hiroshi acordou, a tarde já partira, e o crepúsculo invadia o horizonte, Dilan não se dera ao trabalho de ir atrás de Hiroshi, por hoje queira apenas se afundar nas cobertas e tentar dormir, dessa vez sem pesadelos e lembranças.

Ainda era tarde quando Dilan dispensou todos, para a felicidade de muitos e deitou-se na sua cama, Alexander saiu para a cidade e agora o loiro estava sozinho naquela vasta casa, e o silencio parecia algo agonizante para si, que o fazia olhar a todo instante para a porta se recordando, achando que por ali ele entraria, como no passado.

Hiroshi sentiu Furt abocanhar-lhe a cabeça, fazendo-o dar um pulo de medo, o cavalo comia o feno e parecia que como Hiroshi estava dormindo em seu almoço não havia jeito melhor de afastá-lo.

O ruivo fechou a cara entendendo o recado, por enquanto que saia, o sono que tivera pareceu-lhe dar mais força que o normal, tirando todo cansaço à mão ainda segurava a pedra e deixou-se guiar para fora.

Sem perceber já estava entre as arvores da floresta, tinha que parar com essa mania de sempre ir para lá, afinal há uma semana atrás a floresta era entrada proibida e sempre o assustava, era até irônico pegar-se sempre caminhando em direção a ela.

Olhou por entre as arvores vendo distante o ponto branco se destacar na escuridão da mata fechada, e foi em direção a ele, inspirou fundo sentindo o perfume natural que as flores exalavam até chegar naquele local.

Os olhos brilharam animados vendo o pequeno gramado verde, e ao fundo as flores de diversificadas cores mesclaram-se no escuro da mata, e entre todas a rosa branca se destacou, tão delicada, frágil e ao mesmo tempo tão segura, protegida pelos espinhos finos.

Abaixou-se a tocando de um modo sutil, o rosto se abriu em um sorriso alegre, e os olhos brilharam, as arvores altas pareciam ser insuficientes para impedir a luz do luar de iluminar o chão.

—Sabia que a floresta pode ser perigosa à noite? —Falou Kyo, a voz suou baixa invadindo os ouvidos de Hiroshi que sem resistir abriu um sorriso, a pele alva se destacou na luz singela do luar fazendo contraste aos fios ruivos de seu cabelo que voavam de acordo com a brisa noturna.

Virou-se encarando Kyo, o mesmo mais próximo que o normal o que o fez corar ainda mantendo o sorriso, que não se desfez no nervosismo, era incrível como o coração parecia que ia saltar de seu peito com tamanha velocidade e intensidade que batia. Mas o mais incrível, era como aquele na sua frente lhe fazia esquecer de tudo, dos problemas, das duvidas, das indecisões, e ainda por cima de seus medos.

Os dedos ainda estavam entrelaçados no diamante azul que Kyo deixara consigo, Hiroshi nem percebeu que acabara por provocar o Shirian, o sorriso leve simpático, o rosto rubro convidativo, e o jeito inocente e frágil exalando para ser protegido, o maior corou mesmo que um pouco com o pensamento, pelos deuses era um humano ali na sua frente, um humano ainda por cima homem.

Olhou para o ruivo abrindo um sorriso animado, e o silencio se instalou, não um silencio incomodo, já que os barulhos da mata o quebravam de vez em quando, mas Kyo queria escutar aquela voz, fina e sutil falando.

O incomodo passou-se após alguns minutos de silencio, e Hiroshi já iniciou a conversa meio encabulado, talvez falassem de flores? Pedras? Tantos assuntos se desenrolavam que não era possível distinguir, não tinha aquele momento de silencio quando o assunto terminava, ou um ou outro iniciava uma nova.

E isso era incrível, para ambos que nunca falavam com os outros, e agora conversavam tão abertamente como se si conhecessem há anos, como amigos de infância de muito tempo, tudo que falavam era assuntos de terceiros, de gostos, de opiniões e nunca de sua própria vida, ambos queriam esconder um do outro.

O que Kyo pensaria se soubesse o que se passa com Hiroshi? E o que Hiroshi pensaria quando descobrisse tudo que se passa com Kyo?

—Poderia ter encontrado algum animal selvagem vindo há essa hora —Falou Kyo tentando dar continuidade ao dialogo, o menor soltou um riso animado fazendo Kyo lhe encarar sem entender.

—Da última vez que pensei isso acabei te salvando —Afirmou sorrindo.

—Deveria tomar mais cuidado —Repreendeu em tom serio, não era essa a intenção, queria apenas rebater a resposta do outro, se arrependeu ao notar que o ruivo se encolhera pensativo.

—Eu sei ... —Falou manhoso —Mas... —Os olhos verdes grandes se viraram para encarar os de Kyo se perdendo na vasta imensidão azul —Eu queria te ver.

O Shirian perdeu a fala, mudo era o que poderia dizer de seu estado ainda estático, sentiu o ar faltar-lhe em seu peito e o mesmo parecia querer sair de seu corpo com a intensidade que o coração batera, o que estava acontecendo... Estava se sentindo feliz? Estava Feliz pelo outro falar aquelas palavras, parecia que o mundo tinha virado de cabeça para baixo.

Como poderia se sentir assim com uma simples declaração de um humano? E o pior de tudo era que também se sentia desse modo, também queria o ver, ouvir a sua vez, sentir seu cheiro, seu toque.

Foi um ato impensado de Hiroshi? Foi! Foi na mais pura inocência? Foi! Foi uma resposta que dera inconsciente? Foi! Mas revelaram tudo em uma declaração indireta, e aquilo se tornou a gota d’água para Kyo, “Que se Dane” pensou jogando fora todas as indecisões e deixando apenas que aquele momento o tomasse, não aguentava mais, não suportava mais.

Não entendia, não queria entender, não podia, não precisava de permissão, necessitava daquilo, e apenas por isso o faria.

— Me desculpe —Falou Kyo envolvendo a cintura de Hiroshi que o olhou assustado e surpreso —Mas preciso de minha recompensa agora.

Kyo agira tão rápido que Hiroshi teve uma atitude atrasada, sentiu os lábios do outro roçarem nos seus, sentindo o hálito quente em seu rosto, e o mesmo encostar aos poucos.

Os olhos arregalados em surpresa e as mãos tentavam afastá-lo, as imagens de Toriam voltaram em sua mente, estava com medo, medo do desconhecido, medo de arriscar. As mãos de Kyo apertaram mais forte sua cintura trazendo o corpo do ruivo para si, naquele instante pareceu que tudo tinha esvaziado na mente de Hiroshi, o medo, a incerteza, tudo.

Pareceu que a floresta não existia, que as arvores não os rondava, perdeu o foco de tudo fechando os olhos e se concentrando naquele momento, e aquilo pareceu tão único e forte para si, o coração parecia querer sair lhe pela boca, e o rosto com certeza estava mais vermelhos que os próprios cabelos ruivos se isso fosse fisicamente possível.

O toque delicado o bastante para ser sutil e forte o suficiente para dar proteção, o ruivo abriu os lábios a procura de ar, nem deu tempo de apanhá-lo, aos poucos a boca do Shirian encostou na sua em um encaixe até mesmo perfeito.

A língua invadiu a boca do outro, curiosa, explorando tudo, e pela primeira vez não sentiu nojo daquilo, e sim um prazer, ambos se moveram em conjunto e sincronia, apesar de desajeitadas podiam transmitir os sentimentos escondidos, os sentimentos proibidos, e ainda por cima totalmente novos e desconhecidos.

Não adiantava mais mentir para si mesmo, falar que não gostava do outro, falar que não queria, e nessa linha de pensamento Hiroshi deixou-se levar, as mãos antes pousadas nos ombros de Kyo o empurrando agora se moveram delicadas até o pescoço o puxando para si.

Não sabiam o que estava acontecendo, tudo era novo, a sensação era nova, não tinham noção de quanto tempo ficaram naquele beijo, segundos? Minutos? Não sabiam, quando o peito pediu por ar ignoraram, quando a razão tentou afastá-los, ignoraram.

Se concentraram apenas naquele beijo, que ocorria cercado pelas flores que exalavam o perfume tornando tudo mais belo, os corpos iluminados pela luz fraca da lua destacando-os da imensa escuridão que os rondava.

Não era preciso palavras para descrever, a todo singelo movimento podiam conhecer mais o outro, podia sentir os sentimentos, as falas, os medos. Os lábios se separam deixando que eles respirassem por fim, o peito subia e descia em descompasse, e o coração batia de tal forma que desconfiavam que o outro podia ouvir.

Hiroshi abriu os olhos encarando Kyo que sorria, as mãos de ambos ainda estavam zparadas nos mesmos locais, o ruivo movera a sua levemente para cima tocando o cabelo azulado do Shirian.

Nada falaram, não era necessário, e mesmo que tivessem não saberiam o que dizer, ambos sorriam, ambos se encaravam, e ambos sentiam o corpo pedir por mais, mais toques, mais contato.

As mãos de Kyo o soltaram para pousarem sobre as bochechas do outro, e só agora o corpo saia do transe, fazendo o de Hiroshi tremer pela brisa fria, isso apenas fez Kyo o puxar para mais perto de si, o envolvendo em seus braços, a cabeça recostando em seu peito, o fazendo sentir a respiração baixa do outro. Não se sabia quanto tempo permaneceram assim, mas quando a lua já estava bastante alta os iluminando com intensidade os fez se afastar em um aviso.

—Não vai me apresentar a ele? —Questionou Youru aparecendo.

—Não vai largar do meu pé? —Rebateu Kyo.

Hiroshi se desvencilhou dos braços de Kyo e correu em direção a Youru, o Shirian abriu os lábios mostrando as presas afiadas em aviso à Youru que sorriu em resposta.

O ruivo se aproximou-se, os olhos pousados na face de Youru, a mão se ergueu temerosa, e a todo instante ambos os seres mágicos o encarava, os dedos tocaram a face de Youru enquanto limpava a mancha de sangue que descia por seus lábios, provavelmente estava voltando de uma caçada.

Hiroshi viu por trás dela a pele lisa e branca se destacar, fazendo o olhar sem entender.

—Pensei que tivesse machucado... — falou, mais para si mesmo do que para os outros presentes, fato que fez Youru encarar Kyo surpreso pelo ato do outro, que provavelmente ainda desconhecia todos os perigos daquela mata, e que se conhecesse nunca faria tal ato, nem se aproximaria dele.

A mão de Youru tocou o pulso de Hiroshi o segurando, os lábios se abriram enquanto inspirava fundo sentindo o cheiro inexplicavelmente saboroso que o ruivo tinha, fazendo com que as presas crescessem inconscientemente.

Em questão de segundos Kyo afastara Hiroshi, fora tão rápido que todos os movimentos pareceram um baque para o menor, que agora estava atrás de Kyo, o Shirian deixava um rosnado baixo escapar de seus lábios enquanto encarava Youru.

—Decidiram que hoje seria a caçada em grupos dos adultos —Começou Youru —Acho melhor levá-lo daqui antes que captem o cheiro dele.

—Seres mágicos não comem humanos —Rebateu Kyo sem realmente falar, apenas movendo os lábios não querendo que Hiroshi ouvisse.

—Não estou falando da tribo de minha mãe, e sim da de meu pai —Advertiu Youru com cara de nojo, dentre todos os familiares, sejam seres mágicos ou demônios, os demônios eram aqueles que menos se familiarizara, e particularmente odiava o fato de seu modo de se alimentar ter puxado o lado do pai.

Isso apenas o tornou um sugador de sangue frio, e se não fosse por parte da mãe não possuiria nem ao menos sentimentos.

—Eu o levo —Falou Kyo

—Eu vou junto

—Não

—Se eu estiver contigo eles não se aproximaram

—Como tem certeza?

—Eles mesmos dizem, eu tenho cheiro ruim —Falou Youru.

—Isso é mentira —Falou Hiroshi entrando na conversa sentindo os olhares dos dois pousarem em si — ... Você não fede.

Isso fez Youru abrir um sorriso, não era a isso que se referia e sim ao cheiro de seu sangue, que não era puro e sim a junção de dois, o tornando com um gosto a parte ruim. O comentário fez escapar-lhe um riso, dentre tudo o que Kyo poderia escolher para se apaixonar, logo um humano ele escolhera.

E esse humano parecia cada vez mais surpreender Youru, compreendendo o porquê de ter conquistado o Shirian, talvez ele também o conquistasse a ponto de se tornar um amigo, pois não passaria disso, já que se si aproximasse mais o devoraria, literalmente.

E foi nesse clima sereno da noite, iluminados pela lua, que as três figuras se guiaram até os campos abertos, se despedindo.

—Tome cuidado —Falou Youru sorrindo, não ele não era simpático, aquilo era apenas ironia se esbaldando que não foi percebida por Hiroshi.

—Não venha aqui a noite — Reforçou Kyo.

—Mas não posso aparecer de dia...

—Por quê? —Indagou Youru curioso.

—...

—Ok, apenas... — Começou Kyo sem saber, tinha certeza que o outro gostaria de revê-lo assim como ele quis —Apenas me encontre aonde estávamos hoje ok?

Assim era o melhor já que poucos seres se aproximavam das flores, já que com o olfato aguçado as mesmas pareciam um odor muito forte para si, Hiroshi apenas concordou com a cabeça, olhou para Kyo e para trás em duvida antes de correr em direção ao Shirian e beijar-lhe a bochecha, para por fim sair correndo se afastando.

—Que fofo —Brincou Youru, mas Kyo nem o reaprendera apenas mantinha o sorriso sentindo ainda o cheiro de Hiroshi apesar de estar cada vez mais distante.

E foi às pressas que entrara na casa dos empregados e se jogava na cama, o ruivo escutou alguns palavrões e ignorou, ainda com o sorriso alegre no rosto corado, o sorriso singelo do garoto estava estampado em sua face relembrando tudo o que ocorrera e com esses pensamentos adormeceu, caindo em um vasto mais de sonhos e recordações.

Notas finais
Mil desculpas pelo atraso e pelos erros, ja devem ter percebido que não tenho beta =_=, o que tão achando, tão gostando? Desenvolvi quase todos os personagens nesse cap *orgulhosa* a e não tentem entender o Toriam, gostem odeiam, não importa que nem eu o compreendo rsrsO que acharam do beijo *olhar temeroso* fiquei horas pensando em o que digitar... está bom? agradecimentos especiais a: grecielelima Van_Michaelis Larytriz pelas recomendações, elas me ajudaram mto no auto-estima Bjs