O Último Shirian [hiatsu]
11 Capítulo 11 - Revelações
Notas iniciais
—Dilan — A voz saiu em um guincho, chamando a atenção do príncipe, que se voltou á Alexander em atenção —Pensei que tivesse dito que falaria a verdade a Hiroshi —Cobrou impaciente.
—Eu vou falar — Retrucou o loiro amuado, fugindo da conversa.
—Disse isso há três semanas — Relembrou o soldado, os olhos pregados na figura ruiva à longe, avistando através da vasta janela Hiroshi trabalhar.
Sim, haviam se passado vários dias desde que tudo aquilo havia ocorrido: a discussão, a promessa, a primeira vez... E os sumiços de Hiroshi agora já estavam se tornando mais do que frequentes.
Provocando indagações e boatos de mal gosto por parte dos outros empregados. “Ouvi dizer que anteontem roubou a cafezal de Joelhim” comentavam alguns. Já outros, não viam por esse lado. “Roubar é pouco, deve é estar vandalizando por ai” acusou um. “Vândalo? Ladrão?”. Repetiu o ferreiro movendo a cabeça negativamente “Deve é estar abusando das cabritas”.
“Ou nos prostíbulos” intensificou mais um, o boca a boca correndo tomou conta do assunto da semana. Os olhares de desprezo dobraram de quantidade enquanto tinham fé nas piores hipóteses, encarando com fervor Hiroshi.
Mas o ruivo nem ao menos o encarava, fazia as tarefas com um sorriso largo estampado no rosto, as mãos faziam com a agilidade que só ele tinha após anos de trabalho, manuseando e limpando com avidez. E sempre que o sol se punha, fazia os serviços com tal pressa que deixava-os muitas vezes enrolados.
E naquela tarde não foi diferente. O sol mal se pôs e o pequeno colocou um sorriso apaixonado na face; estava perdido, caído de amores.
Com rapidez, guardou a vassoura e passou as mãos pelas vestes as arrumando de modo eufórico. Pela primeira vez parou a frente a janela para olhar seu reflexo, deixando-se desaminar. Não via beleza em si.
Mas os olhos, ah, os olhos possuíam um brilho a mais, do qual nunca antes teve. No peito o coração batia como louco quase querendo sair garganta acima. Olhou para os lados de modo esgueiro antes de correr em direção a aquelas arvores distantes que davam inicio a floresta, encostando rente aos galhos o corpo esbelto para passar de modo rápido.
Já não caia ou tropeçava fácil, os olhos se acostumaram à pouca iluminação noturna, notando e decorado cada novo caminho que fazia em direção ao jardim.
Chegara cedo, não se importou, sentou-se sobre o raso gramado do chão, brincando por entre os dedos com a pedra azul, sempre envolvida por um cordão presa ao seu pescoço.
Um amuleto, era assim que o via. Proteção, sorte. Aquele azul que só os olhos de Kyo tinham. Brilhante e intenso, não tinha como não se pegar comparando tal beleza da natureza ao Shirian.
O coração falhou quando os arbustos se mexeram e olhou em volta sem identificar nada. Maldita escura floresta. Não importava quantos dias ia lá, sempre temia cruzar com algum animal feroz.
—Kyo...? —Chamou Hiroshi, temeroso ao extremo, as mãos suaram frio e as levantou em forma de punho como em uma luta.
Antes que pudesse ter qualquer outra reação, sentiu ser atirado no chão, gritou assustado, fechando os olhos com força, as mãos em extinto tentaram socar o corpo que caiu em cima de si.
Sentiu o toque em sua mão, segurando-a, enquanto uma risada ecoava no local, fazendo Hiroshi abrir os olhos para averiguar o que estava acontecendo.
O corpo relaxou em alivio ao entrar em contato com aquele olhar já tão conhecido, sentindo o estômago embrulhar como sempre. Por que aqueles olhos pareciam ver através de si?
—Bobo — Xingou o ruivo. Pelos céus... bobo? Esse era sua melhor ofensa? Kyo não retrucou, na face o sorriso ainda se mantinha aberto.
Soltou as mãos do menor, que o socou no peito em birra. Aqueles toques nem lhe fizeram cócegas, porém Hiroshi não sabia disso, certo? Fechou a cara em uma dor fingida, vendo Hiroshi arregalar os olhos assustado. Machucou-o? Kyo estava bem? Ah céus, e agora!
E novamente risadas, um gargalhar sutil e animada, os lábios de Kyo abertos em um amplo sorriso, demonstrando as fileiras de dentes brancos, destacando ali os caninos pontudos que davam-lhe um ar selvagem.
A cauda felina balançava rente ao chão, roçando propositalmente nas pernas de Hiroshi quando ia para o lado.
—Você devia ter visto sua cara — Comentou o Shirian, rindo em um sussurro baixo, mas alto o suficiente para sobressair o som dos galhos altos das árvores que chocavam uns aos outros com a ventania.
O ruivo inchou as bochechas formando um bico infantil em um protesto silencioso pelo comentário de Kyo.
Nem perceberam a situação em que se encontraram, os corpos um sobre o outro, próximos o bastante para formarem um perfeito encaixe. Os minutos se passaram e em silencio encararam-se, os olhos focados nos lábios um do outro de modo tímido, escondendo o desejo que sentiam.
Céus... Queria beijá-lo, queria sentir o gosto daqueles lábios vermelhos entreabertos de Hiroshi. Foco Kyo, tenha foco. Ergueu a cabeça obrigando-se a desviar a atenção daquela boca, optando por encarar aqueles olhos acanhados.
As orelhas se ergueram reagindo a surpresa. Hiroshi também olhava com intuito para seus lábios, a face corada em uma expressão envergonhada. Hiroshi foi vagarosamente, agarrando o tecido que cobria Kyo. O toque provocou um arrepio no Shirian, e odiava isso. O fato de que até os pequenos movimentos e contatos do pequeno tivessem tantos efeitos sobre si.
Kyo fechou os olhos, apoiando-se em apenas uma mão enquanto a outra tocava a face de Hiroshi, os dedos longos e finos resvalando delicadamente na bochecha rubra.
E ao invés de empurrá-lo, Hiroshi, em puro desplante, o puxou sutilmente para si. Ambos em pleno enlevo não falaram nada, as faces se aproximaram como nos outros dias, dando inicio a um beijo.
Se antes não tinham experiência agora já conseguiam agir inconscientemente, quase como instinto; os lábios se uniram em um encaixe perfeito, e não separaram, pelo contrário, se abriram em busca de mais contato.
Aquele gosto, ah, como era inebriante aquele gosto, o sabor único doce daqueles lábios do ruivo. As línguas tornaram-se envolventes, em um atrito pudico, no qual um curioso explorava cada vez mais a boca do parceiro.
Shirian? Humano? O que era isso? É, tudo perdia o sentido quando aquele beijo se iniciava, os lábios devorando com gula uns ao outros.
O peito se fechou. Precisavam de ar e se separaram a contragosto, sem fôlego. As bochechas rubras já pareciam ser algo costumeiro neles.
Porém Kyo não parecia disposto a parar, os beijo seguiram o caminho reto para o pescoço do ruivo, se aventurando em morder aquela pele alva, fincando com delicadeza suas presas afiadas em alguns momentos.
Ele queria, queria ir mais além, e por estar consciente disso afastou-se aos pouco do pequeno; se continuasse assim, não conseguiria se controlar o tomaria o menor para si. Hiroshi sorriu constrangido, jogando-se no gramado, cansado. Dos lábios um suspiro foi solto.
—Estou exausto — Protestou Hiroshi reclamando do trabalho, assunto no qual não agradava em nada Kyo, mas o Shirian nada ditou apenas um pigarrear.
—Já achou o que tanto procura? — Questionou Hiroshi inclinando a cabeça na direção do outro, que sorriu tristemente.
—Nada. Youru procurou, mas não conseguiu nem ao menos uma informação — Reclamou.
—Você disse que está há anos atrás disso — Continuou o pequeno ansiando por mais informação — Disse que há algo que busca e que nunca encontra, o que é?
O Shirian ergueu o olhar receoso, perdido entre a indecisão de falar ou não para o menor.
Silencio foi o que obteve como resposta do outro. Mas não insistiu, não naquela hora; sabia que nada adiantaria, porém não conseguia cessar a interna curiosidade que sentia. Por que o olhar de Kyo sempre mudava quando se referia ao passado? Por que tornava-se sem vida? Nada sabia, nem de sua família, apenas que ela se fora... nem de sua vida, e isso o deixava angustiado.
Para que persistir no assunto se fazia tão mal ao outro? Não podia. Calou-se, consentindo apenas em saber que Kyo tinha um objetivo, e mesmo sem nunca falar qual era, podia ver no modo como o outro se referia, o compromisso de não desistir em nenhuma hipótese.
—Cunhado — Falou Youru animado abrindo os braços em um abraço convidativo para o menor, os cabelos brancos soltos esvoaçando ao vento.
O olhar de Kyo se fixou no amigo de modo acusador. Qualquer um tremeria diante daquele olhar, entretanto Youru não era qualquer um. Hiroshi se limitou a sorrir, recusando o abraço fazendo o Shirian rir com entusiasmo pelo fora indireto do pequeno.
Aquela noite pareceu seguir-se como muitas outras, onde iluminados pelo luar, Kyo e Youru discutiam atentos, e Hiroshi observava rindo.
De acordo com Youru, era irmão de Kyo. O mesmo se auto proclamara assim, já que Shirian jamais se referia a ele de tal modo.
A lua já estava alta quando um bocejo deixou os lábios do pequeno, que corou desculpando-se por não segurá-lo; avisou-os de que já era hora de partir, acanhado.
—Não vá —Falou Youru segurando o pequeno pelo braço —Não sabe como Kyo fica mal humorado quando você parte, é insuportável — O comentário inconveniente fez o pequeno sorrir de lado enquanto enrubescia, já o Shirian ultrajado abriu os lábios para retrucar, a face vermelha como os olhos de Youru.
—Pensando bem, o Kyo em si é insuportável, como aguenta? —Provocou Youru novamente, recebendo um tapa na cabeça de Kyo, que já estava puto da vida, um rosnado deixou os lábios em um aviso para o outro calar a boca.
—Ele não é —defendeu Hiroshi.
—Não? —Continuou Youru.
—Não. —Falou o ruivo agora convicto — É gentil e carinhoso, sorri sempre apesar de não falar muito e...
—Cachorro vira-lata —Cortou Youru surtando ao virar na direção de Kyo —Por que não me mostrou esse lado seu? O que eu fiz? Não gosta de mim? —A falsa cara de incredulidade de Youru durou pouco, pois o próprio caiu na risada pela atuação, ao ver a face de Kyo se tornar rubra por conta do comentário de Hiroshi e indignada perante a fala do amigo.
Não demorou muito para que o caminho até as arvores mais finas, que indicavam o final da florestas fossem avistadas, para o desânimo de Kyo e Hiroshi, que não queriam se afastar, como em todos os encontros.
A relação deles não podia ser bem definida, eram mais que amigos, e menos que amantes. Mas eles não se importavam em defini-la, afinal, nem descrever os próprios sentimentos conseguiam, então como iriam definir tal coisa?
O Shirian encarou o pequeno em um pedido mudo para despedir-se adequadamente, e mesmo sem fala pode ver Hiroshi assentir. Aproximou-se para tomar-lhe os lábios de modo afoito, ambos ignorando totalmente a presença de Youru, que sorriu de lado, saindo de fininho.
—Tem mesmo que ir? —Questionou Kyo em um sussurro, apertando mais os braços em volta do corpo do menor que fechou os olhos.
—Kyo... —Falou em uma advertência que foi ignorada, o Shirian beijou-lhe novamente nos lábios, em êxtase, sentindo os braços do ruivo passarem em seu pescoço, ajeitando as posições.
—Hummm — Murmurou Hiroshi quando se separaram; o corpo vibrava quente, pedindo por mais, ao mesmo tempo em que os músculos latejavam querendo descanso — Até, Kyo. —Falou afastando-se, cortando o maior. Seria melhor assim, pois se deixasse cair nos encantos dele ficaria novamente sem dormir, e o corpo não suportava mais essa falta de descanso.
Mal se afastara, e Youru, rindo, pousou a mão no ombro do amigo, que se virou com a mão em punho disposto a socá-lo pelos comentários, mas o mestiço com agilidade desviou.
—Kyo —Falou, o tom serio não típico dele encerrou a luta, o Shirian ergueu suas orelhas ajeitando-se em uma postura reta, esperando que ele prosseguisse —O que Hiroshi te falou?
—Como assim? —Perguntou sem entender.
—Há três semanas —Relembrou Youru, fazendo Kyo fechar a cara —Depois de vê-lo, retornou avisando que caçaria, nunca vi-te matar tantas presas como naquele dia, pensei que estavas com muita fome para isso, mas nem ao menos tocara na carne. —Afirmou estreitando-se os olhos vermelhos — Estava a descontar raiva, coisa que nunca faz, ainda mais a seres vivos.
—Não vamos falar disso —Cortou Kyo incomodado, se virando posto a sair e dar um fim naquele assunto.
O Shirian rosnava. Youru calou-se sabendo que se insistisse começaria uma briga, não como as lutinhas que tinham. Pelo jeito, algo sério acontecera, pois o único momento em que o Shirian ficava com aquele olhar repleto de descrença e raiva, era quando falavam algo de seu clã, e ele se segurava para não quebrar o pescoço de quem dizia, e se algo aconteceu entre os dois para fazê-lo ficar assim, então não eram boas noticias.
Enquanto isso, Hiroshi caminhava calmo, com um sorriso no rosto, a natureza se movia conforme a brisa e em instante um cantarolar soou sutilmente. Sua voz parecia uma melodia própria e encantadora, e foi ao passar pela mansão que seus passos diminuíram a velocidade até parar.
Encarou, vendo as luzes apagadas. Era sua chance, quem sabe quando teria coragem para fazê-lo? Caminho em silencio nas pontas dos pés abrindo a porta que rangeu baixo.
Não sabia ler com agilidade, mas apesar de demorar e não compreender muitas palavras, sabia o básico para entender o sentindo de uma frase pronta. Era claro que não recebera a devida educação, mas mesmo assim, curioso, lembrava-se que desde pequeno espiava ao varrer a sala, as aulas serem dadas a Dilan, fingindo estar totalmente concentrado no trabalho captava lições aleatórias.
Entrou sem problemas na biblioteca, esgueirando-se sorrateiramente, até avistar o livro que queria. Escondido na gaveta da escrivaninha, novo por quase nunca ter sido lido. A guerra de 16 anos atrás. Talvez isso o ajudasse a descobrir mais sobre Kyo. Que escolha tinha, se não essa, para descobrir mais sobre o Shirian?
Mas antes que pudesse ler, nem que fosse a primeira pagina, as vozes do lado de fora se sobressaíram, chamando sua atenção. Fechou o livro com rapidez, estreitando-se entre a porta entre aberta.
Os olhos brilharam com medo ao notar o que se sucedia. Dilan andava eufórico de um lado para o outro seguido de Alexander.
O maior segurou firme o braço do jovem príncipe que lhe olhou com rancor.
—Covarde — Acusou Alexander, vendo que discutir na defensiva não funcionava mais com Dilan.
—O que? Que audácia, ainda é um soldado, ponha-se em seu lugar.
—Poupe-me. Já estou cansado disso, sabe muito bem quem eu sou, para me tratar como qualquer um.
—... O que queres?
—Vá atrás de Hiroshi.
—Não.
—Preciso falar com ele.
—Para que?
—Como assim para que? Ele também corre risco e... Você não contou? Não creio... Pelos céus, Dilan, até quando vai adiar isso?
—O que quer que eu faça? Que eu o amarre na cadeira e fale até me sentir satisfeito?
—Se for preciso, sim.
—Claro que não, ele pode ser um empregado, mas ainda sim tem meu sangue nas veias. Acha mesmo que meu irmão aceitaria tão facilmente isso?
—Se vai aceitar não cabe a você decidir.
—Não vou falar, o que raios eu diria?
—A verdade.
—Ah claro, já to vendo, seria tão simples eu chegar no Hiroshi e falar “Eii, adivinha só, você perdeu sua memória por causa de um maníaco”
—Não seja irônico, não estamos brincando.
—Também não estou brincando. Estás louco. O que mais poderia falar, essa é a verdade.
—Não discordo, mas há modo melhor de falar isso.
—Tipo? Eii, Hiroshi. Ah não, não vim lhe esculachar dessa vez, estive passando e pensei que talvez você quisesse saber o motivo de não recordar-se de nada e de ter tantas cicatrizes. Bom, primeiro eu e você fomos sequestrados por Edward, lembra? Isso, meu tio. Segundo, ele me estuprou; terceiro, por tentarmos fugir uma vez e ele nos capturar, não me puniu, pois não lhe excitava marcas que não sejam de chupões, então lhe cortou até se dar por satisfeito. Acha mesmo que eu falaria isso? —Gritou Dilan incrédulo, todas as frases recheadas de um sarcasmo maldoso.
—Dilan...
—Ah, e tem mais irmãozinho, você não teria passado por nada disso se Edward, meu tio querido, não soubesse que tenho afeição por você, já que eu não me comovo nunca e você era minha maldita fraqueza.
—Já chega, nós dois sabemos que não foi assim.
—Estou mentindo?
—Não, mas pare com esse tom insolente como quem não se importasse.
—O que mais quer que eu faça? Que escolha eu tenho? Eu falo para ele, ele fica com repulsa de nós, mais do que já tem, foge e Edward o pega para usar contra nós de novo. O povo corre perigo, nós corremos perigo!
O que? Aquilo? Não poderia ser real! Não podia! Dilan não poderia estar falando serio... Poderia? A expressão congelou assustada, a boca entreaberta tremeu, sem saber o que pronunciar.
Paciência? Não detinha mais, abriu a porta com força a fazendo bater com tudo chamando a atenção dos dois presentes para si. Dilan arregalou os olhos e Alexander engoliu em seco, mantendo-se por algum instante, imparcial.
—D- Do que vocês estão fa- falando? —Gaguejou Hiroshi sem acreditar naquelas palavras, recusando-se a crer no que ouvira — É mentira, não é? —Questionou com esperança de que realmente fosse, mas o silencio torturante lhe foi concedido como resposta.
O chão faltou, e não só ele, o ar parecia recusar-se a entrar em seu pulmão, a respiração descompassou alguns segundos. Piscou diversas vezes, temendo perder o foco.
—Por que nunca me contou? —Gritou em direção a Dilan que não se intimidou.
—O que um empregado faz em minha mansão, saia. — Disse em resposta, vendo os olhos verdes faiscarem ao encarar suas orbes azuis.
—Eu merecia saber, não podia me esconder isso, não tinha o direito! — Gritou novamente insistindo no assunto.
—Não precisava saber. Do que adiantaria, faria alguma diferença?
—É claro que faria, tenho o direito de saber o que ocorre em minha vida!
—Era uma criança, era melhor não se lembrar.
—Lembrar-me do que? O que temes? Exijo resposta.
—Cala-te — Gritou Dilan perdendo a compostura batendo forte com a mão no balcão próximo a si, a madeira rangeu alto com o baque.
Hiroshi então calou-se, engolindo em seco, mas não se moveu, não ousou dar um passo para distanciar-se. Permaneceu ali, batendo com o pé de modo com que demonstrasse sua intenção de não se retirar.
—Se acalmem, você dois — Bradou Alexander levando as mãos para o alto, em seguida massageando as têmporas programando com cuidado suas próximas palavras.
—Está certo, tens o direito — Concordou virando-se para o ruivo — Mas quando ouvir isso terá que jurar não falar a ninguém. Isso não lhe envolve apenas a ti para declarar estar ou não no direito de espelhar tal informação.
—Não falarei — Prometeu Hiroshi firme, mas por dentro com receio. Não caiu ainda a ficha em sua mente, mas o que raios estava acontecendo? Não sabia, mas algo em si alertava-o de que deveria saber.
Seguiu com o olhar semicerrado os movimentos de Dilan, que encostou-se à parede e a escorregou até sentar-se ao chão, a cabeça cabisbaixa, com os cabelos à cobrir-lhe boa parte da face, escondendo o olhar angustioso.
—Queres contar você mesmo? —Questionou para Dilan, que negou em um maneio que lhe balançou as madeixas douradas. Alexander assentiu calado, virando-se para Hiroshi com o olhar tão serio que tornou o clima ainda mais pesado —É melhor sentar-se, é uma longa história —Declarou, apoiando-se no balcão e sentando-se em um impulso sobre a madeira.
Hiroshi olhou um ponto qualquer o chão, sem saber o que pronunciar, e concordou com a proposta, sentando-se em uma cadeira próxima que fora deixada de lado.
—Já deves saber que a sucessão do trono é hereditária... —Começou Alexander, vendo Dilan inquietar-se, formando um punho irritado. Encarou Hiroshi que apenas assentiu — Depois de Richard, era Edward deveria assumir o trono se não fosse pelo fato do futuro rei ter tido um filho.
—Mas isso não estava confirmado — Continuou —Quando Dilan completou 7 anos, correu a noticia de que o príncipe havia viajado, junto ao seu meio irmão. —Disse pausadamente encarando ambos.
—Eu viajei? —Questionou Hiroshi surpreso, tentando seguir a linha de pensamento do mais velho, mas desistiu quando viu Dilan rir, uma risada sem o mínimo entusiasmo ou humor, que parecia caçoar de sua suposição.
—Eram boatos — Afirmou Alexander não se dando ao trabalho a repreender Dilan pelo riso cínico —Era mais fácil dizer que viajaram do que espalhar por aí a noticia de que os jovens sumiram. Um escândalo na família real não seria mais uma vez permitido, já bastava o nascimento fora do casamento de Rose —Não foi preciso encarar Hiroshi para saber que era ao menor que ele se referia.
—Sumiram? —Repetiu o ruivo —O que quer dizer com isso? —perguntou sem compreender.
—Acho que já sabe a resposta — Intrometeu-se Dilan erguendo a face, o olhar tão temível a ponto de se comparar ao de Kyo irritado — Você se lembra certo? Daquele porão.
Hiroshi fechou os olhos forçando a mente a lembrar-se, conseguiu, as cenas lhe vieram em rajadas tempestuosas, todos os pesadelos que havia tido, tudo, absolutamente tudo parecia se encaixar agora.
—Edward precisava saber o que aconteceria se Dilan não existisse; não havia melhor situação, era só ele desaparecer para que pudesse tomar seu lugar como sucessor. A corte se reuniu cinco dias após o sumiço, totalmente desesperados, já declarando que talvez o irmão de Richard devesse assumir o trono... —Na voz de Alexander era claro a revolta da situação ocorrida.
—Mas... Por que eu fui pego junto a Dilan? —Questionou ou ruivo indelicadamente. Era muita informação ao mesmo tempo, demais para aceitar, demais para raciocinar.
—Apesar de Edward saber que era apenas um empregado, também saiba do seu parentesco comigo. —Falou Dilan.
—Um irmão — Completou Alexander —Ele sempre tinha uma carta na manga para impedir que fossem contra si — Uma pausa, silêncio. Alexander ergueu o olhar cansado ao ruivo — Isso impediria Dilan de fugir ou desobedecer, qualquer descumprimento de suas ordens já deixava óbvio o castigo. Dilan não era mais seu sobrinho, era agora apenas um meio rápido e descartável para ele chegar ao poder. Mas claro que Edward arranjaria outros planos para ele —A ultima parte foi dita com ânsia, Alexander franziu o cenho, é aquele assunto não lhe agradava, nem um pouco.
Como queria ele poder cortar e desmembrar lentamente cada parte do corpo de Edward. Nunca foi a favor da violência, mas agora, ah, agora já era outra história. Só de pensar nisso fazia um bom sentimento prazeroso apossar-se de si, nunca se sentira tão sádico quanto quando falavam nesse assunto.
Dilan olhou para Alexander vendo que era melhor por hora ele não prosseguir, já começaram a falar, então que terminassem logo com isso, do que adiantaria esconder? Dilan sabia que Edward estava pronto para fazer o que fosse preciso, e tudo ocorreria quando assumisse oficialmente o trono, para isso poucos meses faltavam, e não seria ignorante ao ponto de deixar Hiroshi à par de nada.
—Foi ai que comecei a rebelar-me — Falou o príncipe com certo pesar — Mordi-lhe a mão quando tentou me apalpar, com tanta força que deixou marca —Contou rindo, dessa vez com gosto, relembrando o ato —Não adiantava me punir, eu me recusava a dar alguma reação, não gritava, não chorava. Ele não me cortava como a ti, só batia-me, alegava que cicatrizes não lhe eram atraentes, e que beleza era o único motivo de manter-me vivo. Levou algum tempo até ele aprender de que não teria nenhuma reação de mim, a não ser repulsa.
—E então você ganhou sua primeira cicatriz — Declarou Dilan, prosseguindo a fala —seis anos, você só tinha seis anos — Ele parecia descrente, com raiva, a voz foi abaixando o tom até ficar o silencio.
—Se Dilan não aprendia a lição sozinho, então apreenderia de outro jeito —Interrompeu Alexander, virando-se para olhar Hiroshi — Foi após tentar fugir e pedir ajuda, que Edward percebeu que Dilan o obedeceria se o ameaça-se ferí-lo — Disse se referindo ao ruivo, que baixou a face.
Agora parecia que até a natureza calara-se em atenção, o som do vento ricocheteando afora nas árvores não se fazia presente.
—E eu não pude protegê-lo, desculpe —Ladrou Dilan com angústia —Não fui capaz de fazê-lo parar de maltratar-te, tudo o que eu podia fazer era obedecer a ele... Aquele maldito desgraçado.
—Era uma criança, é claro que não conseguiria ir contra Edward —Protestou Alexander, irritado, aumentando o tom de voz ,que ecoou pelo corredor.
—CRIANÇA?! — Repetiu indignado o jovem louro —Crianças não faziam o que ele me obrigava a fazer —Não era preciso esclarecimentos para saber à que Dilan se referia com tais palavras.
—Eu também...? —Perguntou o ruivo com receio. Dilan negou mas mesmo assim o aperto em seu peito não se aliviou —Então as cicatrizes...
—Eram feitas quando eu me recusava, parei de ir contra ele quando lhe fez a terceira... — A voz falhou.
Hiroshi calou-se. Parecia demais, irreal, um pesadelo do qual torcia para acordar em instantes, mas não era um sonho, era real. Algo não se encaixava naquele quebra-cabeça, faltavam peças.
—Eu não tenho só três — Informou confuso, olhando Dilan como se pedisse uma explicação que não veio de imediato.
O príncipe, sempre mesquinho e sádico aos seus olhos agora detinha mais nada a não ser o semblante sem vida, os olhos opacos pareciam não tem disposição nem ao menos para chorar.
Nunca simpatizou com ele, nunca o viu como irmão, porem também nunca o vira com tal expressão, por pior que fosse o motivo; agora essa situação se tornara incomoda, o peito não se alivia, estava sofrendo com o loiro em meio a situação. O silencio foi quebrado após vários minutos pela voz de Alexander.
—Isso foi quando tentaram fugir —Explicou — foi depois de duas semanas de seu sumiço, mas antes de escaparem muro afora foram pegos. A essa altura a côrte já preparava os pergaminhos e cartas com a mudança de sucessor avisando do reinado de Edward, e não tinha pior hora para tentarem escapar aos olhos de Edward, poderiam acabar com tudo, foi ai que ele... — É, eles sabiam a que Alexander se referia —Não sei o que passava na mente daquele maníaco, será que ele pensava que quanto pior, mais calado ficariam? —Gritou exaltado.
—E ficamos — Cortou Dilan, sem o encarar.
—Mas então... Por que só eu tenho cicatrizes? —Perguntou o ruivo que mesmo não querendo deixou transparece certa revolta, podia se ver a acusação sub escrita “Só eu fui punido”.
Dilan ri, sem som, um gargalhar mudo com um singelo mover de lábios. Os olhos cintilaram como se houvesse lágrimas que não ousaram cair.
—Eles nos punia de modos diferentes — Sussurrou de um modo alto suficiente para ser escutado, o sorriso manteve-se na face triste — Não excitava marcas que não fosse chupões ou mordidas —Grunhiu agastado erguendo-se do chão, a mão se cerrou em um punho.
Solevou-a ,todavia não pôde socar a parede, colidindo-a com algo macio que entrou no caminho. Sublevou o olhar vendo que Alexander a segurava em silencio, no olhar um pedido mudo para que o outro se acalmasse.
Mas aquilo não era tão sincero, podia se notar a própria revolta de Alexander. Ele não queria ter calma, não queria que Dilan aceitasse aquilo, não desejava nem ao menos que o menor tivesse passado por aquilo.
Só que o que ele queria não podia modificar o passado. O silencio passageiro proporcionou longos segundos para que Hiroshi absorvesse toda a informação.
Ele não conseguia compreender, não queria compreender, não queria! Não podiam estar falando serio, levantou-se negando em um maneio frenético com a cabeça.
—Eu não posso acreditar —Admitiu —O príncipe some, e ninguém vai atrás? Ninguém desconfia? Não fazem nada?!!
—É claro que fomos atrás — Berrou Alexander perdendo a pouca compostura que lhe restava, movendo as mãos em quanto falava dando ênfase em as suas palavras — Procuramos por dias, e cada dia tinha menos pistas, uma semana, depois de uma semana já desistiram, todos desistiram, a corte desistiu! Alegaram ser já um caso perdido; a ordem foi para cancelar a missão, para retornar ao reino.
—E você a descumpriu —Dilan sorriu, dessa vez sem ironia, sarcasmos ou deboche, um sorriso sincero —Você nos encontrou —Completou abaixando a face, e por fim as lágrimas tão censuradas desabaram.
Já não aguentava mais fingir que estava tudo bem, fingir que nunca havia sofrido, fingir uma vida feliz de príncipe que tinha consciência de nunca ter.
Uma por uma, caindo escorrendo por sua pele lisa, pendendo no final do queixo antes de cair, lágrima por lágrima, arregalou os olhos surpreendendo-se consigo mesmo, elas ainda existiam.
Naqueles dias, aqueles malditos dias em que passou por aquilo chorara tanto, tanto que após ser salvo não demonstrou emoção, não chorou, e assim durou por anos, alegando para si mesmo que já chorara tanto que não restava mais lágrimas para derramar.
—Por que não o denunciaram? — Perguntou Hiroshi após alguns instantes, mesmo não admitindo estava compadecido com a situação que pouco recordava, com a dor do irmão.
—Não é tão simples. —Falou Alexander.
—É sim —Retrucou de modo ingênuo —Tinha provas, era um príncipe, sua palavra contava — Retrucou, virando-se para Dilan, que estava cabisbaixo.
—E se humilhar? —Falou Alexander — Quando achei vocês estavam tremendos, presos em um porão de um vilarejo distante, a ruas distantes da casa de Edward. Começaram a gritar quando tentei me aproximar. Pareciam ter medo de tudo; do movimento, do toque até mesmo da escuridão. Demorou meses após eu resgatar Dilan, para ele voltar a pronunciar nem que fosse uma palavra, e dias até eu o convencer de que não lhe fariam mal se tentasse comer alguma coisa. Estava guenzo.
—Quando Dilan teve coragem de falar sobre isso para mim, já havia se passado um ano, e mesmo assim ele me fez jurar não contar. É claro que eu poderia muito bem quebrar tal promessa, mas não o faria. Com que olhos o povo encararia um príncipe sujo pelo pecado se sodomia? A côrte não se seguraria, dariam por entre as línguas espalhando, e com sangue real ou não as leis são firmes, para tal pecado só a forca resta, eu não poderia jamais aceitar isso — continuou Alexander.
—E eu? —Hiroshi sussurrou desviando o olhar de Dilan que estava a se encolher com o relato. Como Alexander queria cortar a conversa e abraçar o menor, como queria falar repetidas vezes que estava tudo bem e que o protegeria como não havia feito antes, que não o resgataria dessa vez, e que na realidade impediria que fosse pego.
—Você estava com cortes ainda abertos, não falou nada, o trouxemos para cá e após cuidarem de seus ferimentos e de comer, caiu em um sono, adoeceu, só voltando a despertar depois de dias. E quando fui tentar conseguir informações contigo já não se lembrava de nada; era como se a mente estivesse excluído o trauma.
Ok, se aquilo era um pesadelo, então já estava passando dos limites! Acorde! Vamos, acorde! Hiroshi ordenava a si mesmo para acordar daquele sonho, que para seu pesar, era real.
Então, em tudo que ele acreditou nesses anos era mentira? Não ganhara as cicatrizes no trabalho?! Dilan o via sim como um irmão! E saber disso foi como uma forte chibatada em seu orgulho. Se sua vida era uma mentira... então o que era a sua existência?
Levantou-se encarando os dois presentes, as peças moldando-se umas as outras em seus pensamento.
—Por que estão me falando isso só agora?
—Por que Edward pode voltar a agir em qualquer instante, principalmente agora que Dilan completará a idade mínima para suceder o trono — Disse Alexander.
Hiroshi ouviu tudo em silencio absoluto, a face não demonstrava nenhuma expressão. Mas sentia cada vez mais a visão turvar-se, não choraria, não ali.
Curvou-se, em um aviso de que se retiraria, e assim o fez. Com passos calmos saiu porta frente, e mal pisara no lado de fora e já se pôs a correr, com tal pressa que embaralhava-se nos próprios pés. Não sabia o que pensar. Tanto de si, quanto da situação toda e correndo sussurrou o nome de quem precisava; entrando correndo na floresta, que já parecia se inquietar diante do fim da madrugada, preparando-se para o amanhecer.
Desabou ao chão chorando sob os últimos raios de luar. Não queria pensar em nada, e mesmo assim sua mente cutucava a mesma tecla, repetindo cada palavra que ouvira. O medo retornara, a cada cena que lhe vinha mais seus olhos se arregalaram e menos foco tinha, sua pele empalideceu.
Soluçou, recordando de tudo. Parecia que as palavras que tinha escutado eram a chave para abrir as memórias aprisionadas. Urrou tentando afastar as lembranças quando a dor foi recordada. Aquilo não podia estar acontecendo, não podia!
—Kyo... Kyo... Kyo... Kyo... — Repetiu, chorando em um chamado desesperado. Sentia-se perdido, sozinho, e precisava dele.
As orelhas do Shirian se ergueram distantes dali, os olhos se estreitaram olhando a floresta.
—O que foi? —Perguntou Youru ao ver Kyo agir de modo estranho, mas não obteve resposta. O Shirian o ignorara, respirando fundo para se concentrar nos mínimos sons, nada ouvia. Por que sua mente pensou ter captado algo? O que era aquele sentimento ominoso em si?
Seguiu o instinto, pondo-se a correr, deixando para trás um confuso Youru. Lufadas lhe colidiam à face enquanto acelerava.
Não demorou para que o cheiro tão conhecido para si fosse captado, Hiroshi. Sorriu, alegre internamente por poder revê-lo tão cedo.
Mas o que o pequeno poderia estar fazendo ali em tal horário? Esticou os braços até guindar em um galho forte o bastante para sustentá-lo. Aspirando fundo a brisa em busca de direção a se seguir.
Não tardou para que começasse a correr avistando os fios ruivos de seu amado.
—Hiroshi —Chamou sorrindo, mas a felicidade durou pouco. Com rapidez que só Kyo detinha, em menos de dois segundos já percorrera a distancia entre eles, ficando em pé ao lado do menor —Ei Hiroshi —Falou esticando a mão para tocá-lo.
E bastou aproximar-se para o ruivo arregalar os olhos, afastando-se de modo rastejado no chão. Pela reação que tivera era como se estivesse a ver um fantasma.
—Kyo... Kyo... — Ainda repetia, as Iris olhavam em direção reta sem encarar nada.
Estático ficou o Shirian sem saber como reagir a tal situação. “Hiroshi’ — chamou novamente, e os olhos verdes se viraram lentamente em sua direção.
Lágrimas despencaram caindo ao chão de terra úmida, os primeiros raios de sol iluminaram-no destacando o modo frágil e instável em que se encontrava. “É mentira, é mentira — dizia ele em um mover de lábios sem som. Não foi preciso mais nada para que Kyo fosse até ele e o aconchegasse em seus braços.
Hiroshi tremia. Pelos céus o que estava acontecendo? Da última vez que o viu não devia ter se passado nem 6 horas, e ele se fora sorridente, com um brilho nos olhos, e agora se desatava em lágrimas árduas.
Tremia de tal modo, que talvez fosse até mais intenso do que na segunda vez que o encontrara, aonde o salvara de um desconhecido que tentara abusar-se dele.
O coração de Kyo doeu, sofrendo sem compreender. O que o deixara assim? O que houve? Hiroshi se agarrava a si passando os braços por volta de sua cintura como se sua vida dependesse disso, como se por algum motivo soltasse Kyo, se machucaria.
—O que aconteceu a você? —Pensou alto, falando tais palavras de modo doloroso, que receberam apenas mais lágrimas como choro.
Pousou a mão nas costas do pequeno em uma tentativa de acolhê-lo melhor em seus braços, o ruivo tremeu com mais intensidade. Com pressa, afastou-o e tocou nos ombros do pequeno.
O distanciou o suficiente para ver sua face banhada em lágrimas. Não questionou, não insistiria nisso, não agora em que ele se encontrava em tal situação.
Passou os braços em torno de Hiroshi, levantando-o, sentindo a cabeça dele acolher-se na curva do seu pescoço. Olhou uma ultima vez para o céu, vendo ele tingir-se de um azul claro iluminado pelos raios de sol, pondo-se a correr. Kyo foi em direção a caverna que dava passagem a seu esconderijo, o local em que levou Hiroshi na primeira vez que se viram.
Naquela manhã Toriam se espreguiçava na cama, saindo por debaixo das camadas extensa de cobertas que lhe afastavam o frio da noite.
—Locse — Chamou, e não tardou para o jovem vir em passos leves até seu encontro entrando no quarto.
Desde daquele dia em que se entregara a Gors, Locse se tornou um grande amigo de Toriam, afinal, o pequeno ficou a par do excesso de intimidade entre o soldado e o príncipe, já que fora ele que arrumará o quarto após aquela noite.
E novamente Toriam o olhava ansiando por informação, alguma, qualquer uma, por menos que fosse de onde Gors estava.
Desde que acontecerá aquilo fora como um sonho, e como um sonho apenas uma noite durou, ao amanhecer despertou sem o amado ao seu lado.
Desesperara-se, saiu à procura do outro sem o encontrar, pondo-se a chorar. Três semanas, três semanas inteiras haviam se passado e nada. Nenhuma informação, uma carta, ninguém o vira. Uma missão? Era a única coisa provável.
Locse suspirou negando com a cabeça, sem descobrir nada a respeito. Então Gors não gostava mesmo de Toriam? Só o usara e depois descartou? Dormiu e descobriu que não era isso que sentia? Que realmente não o via como algo a mais?
Não! Toriam sabia que não era isso. Gors havia dito se lembrava muito bem, disse que o amava, e nunca, jamais ele mentiu para ele.
Ele tinha um bom motivo, ele tinha que ter...
—Deveria perguntar a seu pai — Falou Locse sentando-se ao lado de Toriam que cabisbaixo o encarou.
—Tem razão — Desistiu por fim. Não estava aguentando, era insuportável não ter informações do outro, não saber onde estava. Se foi em uma missão, ou se encontrava-se bem.
Ergueu-se decidido, virando-se e esticando a mão para Locse ajudá-lo a se levantar.
—Pode me levar até ele? — Pediu. Em algum momento nessas três semanas, de empregado e confidente, Locse virara seu amigo, e mesmo inconscientemente suas falas, que deveriam soar como ordens a um empregado viraram pedidos.
Locse concordou, em passos rápidos foram juntos até os aposentos do pai de Toriam. O pequeno de cachos negros como a noite respirou fundo antes de bater a porta, pedindo para que Toriam aguardasse.
—Majestade... — Chamou, abrindo a porta, vendo o rei erguer-se da cama com cara de poucos amigos.
—Como ousas me acordar a essa hora? —Ladrou o homem irritado — Retire-se, seu estorvo, onde já se viu? Que ousadia, nem para colocar-se em seu lugar presta. Só venha até mim quando eu chamar-te; até essa hora arranje algo para fazer, animal que não trabalha, sobra como alimento aos cães.
A expressão de Locse se suavizou, não demonstrou medo ou receio.
—Seu filho está aqui para vê-lo — Informou, curvando-se e saindo, fechando a porta, deixando um rei atônito sentado na cama. O pequeno virou-se ao príncipe que trincava os dentes, disposto a começar um briga com o pai por desferir tais palavras a Locse. —Nem pense em me defender, não veio aqui badernar, e sim procurar Gors — Censurou firme.
—Ele chamou-te de estorvo, o que quer? Que eu fique quieto? — Grunhiu Toriam irritado.
—Exato, sabes muito bem que já estou acostumado a isso, servia desde pequeno o conde, e você deveria ter consciência disso. Não arranje mais problemas; já é mal falado por sempre andar com Gors como guarda costas, não deixe que espalhe-se mais boatos por ficar defendendo um empregado —Disse escancarando a porta e se retirando, deixando-a aberta para Toriam entrar.
O jovem príncipe pegou fôlego, respirando fundo. Locse estava certo... Não, ele não estava. Onde já se viu, nem ao menos se ofender ou magoar-se ao ouvir tais palavras?
—Pai — Falou firme erguendo a face dando-lhe um ar de superioridade e convicção — Tenho algo a perguntar-te.
—É sobre Gors? —Falou o rei que calado viu os olhos de Toriam se arregalarem em confirmação — Ele foi dispensado. —Falou com calma, massageando as têmporas — Afinal, já está na hora de se casar, e não amadurecerá com Gors cuidando de ti como uma babá.
O corpo de Toriam travou e os olhos já arregalados dobraram de tamanho, se estreitando com avidez ao ouvir tais palavras.
—Cadê ele?
—Ele está em uma missão — Falou o pai se fazendo de desentendido.
—Disso eu já sei, mas nenhuma missão dura mais que duas semanas.
—Ele não tem permissão de retorno até eu ordenar o contrário.
—O que?! —Falou Toriam sem acreditar, podia imaginar diversas teorias do que havia acontecido, e essa seria a última. Pensando bem, essa nem ao menos se passaria por sua cabeça. Até o pai ordenar? Ele que estava por trás disso? —Como pode seu...
—Trave a língua Toriam, não está falando com um de seus criados.
O jovem príncipe virou-se, iria a procura de Gors, não ficaria parado diante daquilo. Por que demorou tanto para ir em busca de resposta? Achava que talvez Gors precisasse daquele tempo para si.
—Aonde pensa que vai? —Proferiu o rei, segurando com força excessiva o pulso do filho, que franziu o cenho, a pele ficando vermelha com as marca dos dedos.
—Atrás de Gors — Falou de modo óbvio. “Vou atrás de quem amo”, completou mentalmente puxando o pulso para si na tentativa de soltar-se — Larga-me.
—Não vai achá-lo.
—O que você quer? —Perguntou por fim o jovem sem saber o que fazer, viu o pai manter o olhar irritado enquanto abria um sorriso maldoso. O mesmo sorriso debochado que Toriam usava quando se sentia em vantagem.
—Eu, querer algo? A que se refere?
—Gors — Bradou Toriam irritado com brutalidade tentando soltar-se em vão — Diga logo o que deseja!
—Dê-me sua palavra —Falou o rei recebendo um olhar confuso do pequeno —É disso que preciso.
—Minha palavra? Só isso e o deixara retornar? —Disse Toriam esperançoso. O rei concordou — E o que queres que eu prometa?
—Prometa que irá casar-se —Falou soltando o filho e alargando o sorriso —Se atreve sempre a me desobedecer e a se recusar, então por hora, enquanto não prometer e acatar minha ordem, não terá sua “babá” de volta.
O chão faltou para Toriam que abriu e fechou os lábios diversas vezes, sem saber o que pronunciar.
—Tens minha palavra — Sussurrou Toriam sendo deixado sozinho no quarto, o rei mal deixara o aposento e o jovem sentiu suas pernas fraquejarem, caindo ao chão.
—Droga — Reclamou em fúria gritando irritado, socando diversas vezes o chão com o punho fechado. “Mas que droga” era a única coisa que pensava, revoltado com o pai
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