O Último Reino da Terra

9 Capitulo 8: O existencialismo


O jornal da manhã começou bem cedo entrevistando um filósofo acerca dos seus ponderamentos sobre o aprimoramento genético forçado da raça humana

A evolução é um processo natural de adaptação e transformação das espécies ao longo do tempo. No entanto, quando essa evolução é induzida artificialmente, seja por meio de engenharia genética, aprimoramento biotecnológico ou manipulação social, surgem implicações filosóficas profundas.

Platão, em A República, imaginou uma sociedade estratificada onde a educação e a seleção rigorosa garantiriam a ascensão dos mais aptos. Sua ideia de um "governo dos sábios" poderia ser reinterpretada na biotecnologia moderna, onde apenas determinados aprimoramentos seriam incentivados, gerando desigualdades. Já Nietzsche, com o conceito do Übermensch (super-homem), sugeriu que a humanidade poderia transcender suas limitações naturais, mas alertava para o risco de que essa superação fosse guiada por valores distorcidos.

Hannah Arendt criticou o controle totalitário sobre a vida humana, argumentando que a instrumentalização da existência pode destruir a espontaneidade e a pluralidade essenciais à liberdade. Se a evolução for induzida por mecanismos políticos ou tecnológicos, corremos o risco de reduzir a humanidade a um experimento de eficiência, afastando-nos do que nos torna singulares: nossas imperfeições e nossa capacidade de escolha.

Jean-Paul Sartre, por outro lado, via o ser humano como um projeto em aberto, determinado pela liberdade. A indução da evolução poderia, portanto, ser vista como uma ameaça à autenticidade individual se limitasse nossas opções de ser. Da mesma forma, Foucault alertava para o biopoder—o controle dos corpos e da vida pela sociedade—como uma forma de domesticação do humano.

Se a evolução humana for conduzida de maneira forçada, arriscamos redefinir o que significa ser humano e, por consequência, alterar drasticamente nossas interações sociais. A busca por aprimoramento pode gerar novos padrões de exclusão, criar castas biológicas ou transformar a identidade em algo programável. A liberdade de existir como somos poderia ser suprimida em nome de um ideal de perfeição que nem sempre reflete a complexidade e a diversidade da condição humana.”

“Em qual dessas correntes você acredita?” – perguntou a entrevistadora, mostrando uma nítida preocupação com a resposta, mas ao mesmo tem uma curiosidade instigante.

“Acredito fielmente em uma corrente chamada de existencialismo, como Sartre e Camus, argumentam que a identidade do ser humano se constrói pela liberdade e pela experiência única de cada indivíduo. Se nossos corpos e mentes forem moldados geneticamente, perderemos a autenticidade da existência, tornando-nos produtos de uma engenharia previsível, sem a possibilidade de escolher quem queremos ser. Da mesma forma, Rousseau defendia que a civilização frequentemente corrompe o ser humano ao afastá-lo de sua essência natural. Os aprimoramentos poderiam ser uma nova forma de domesticação, onde buscamos eliminar imperfeições sem perceber que são elas que moldam a riqueza da experiência humana”

“Falar sua opinião tão claramente em rede nacional não causa algum preocupação?” – perguntou a entrevistadora ainda confusa com tamanho posicionamento.

Como um bom fiel seguidor do existencialismo, não tomar partido algum já é escolher o status quo, o momento que vivemos. É escolher não alterar. Tudo é uma escolha até mesmo não escolher.”

“Nunca havia pensado desse jeito” – disse a entrevistadora apreensiva com o debate mais instigada pela produção a continuar, pois a audiência estava enorme e teriam poucos minutos até que a monarquia ou o parlamento conseguisse derrubar. “Então você não tem medo da morte?”

Eu? Não, tenho medo de viver sem liberdade, tenho medo de viver acreditando numa mentira e principalmente tenho medo de viver se para isso tenho que me eximir de opinar sobre coisas que não concordo. Como um puro existencialista, a liberdade é inquestionável e a natureza é sabia. Deveríamos aceitar que a evolução natural nos fez chegar até aqui, antes de todos esses aprimoramento, correto? Se estava certa antes, por que a consideramos errada e enxergamos a necessidade de corrigir o que foi entregue por ela? A natureza sente os rumos para qual o mundo está caminhando, talvez esse aprimoramento seja a nossa extinção.”

“O que faria com seus filhos caso tivesse que escolher entre o cesto ou o casulo?” – essa era a pergunta de milhões.

Eu fico muito indignado com quem ainda se dá ao luxo de ter filhos vivendo como nós vivemos. Eu não teria filhos, preferia abortá-los a colocar mais vidas num mundo que não respeitaria a liberdade deles e traria sofrimento. Antes de se tornarem um ser pensante, uma vida, eu já teria livrado eles do sofrimento que viria logo ao nascer.”

“Abortar é melhor do que tentar aprimorá-los?”

Para que aprimorar o que a natureza já criou? O ser humano tem que parar com esse complexo de ser Deus e acreditar que ele consegue fazer tudo melhor. Quem garante que esses aprimoramentos serão uteis daqui a 3 ou 4 gerações? Quem garante que esses aprimorados estarão vivos em 20 ou 30 anos, qual o preço que vão pagar? Eu acho que é muito fácil brincar de Deus com a vida dos outros, quem institui esse sistema nunca foi aprimorado. Mas a covardia é tão grande que nem coube poupar os seus tiveram.”

A entrevista rapidamente se tornou o assunto mais comentado nas ruas, nos mercados clandestinos e até mesmo em espaços de trabalho. Para muitos, as palavras do filósofo foram um eco das inquietações que não podiam ser ditas em voz alta.

Nos bairros mais pobres, onde o medo do Cesto era uma realidade constante, as pessoas se dividiam entre a esperança de que finalmente alguém havia exposto a verdade e o temor das consequências. Muitos acreditavam que sua execução seria um aviso para qualquer um que ousasse desafiar o sistema tão abertamente. Entretanto, a ideia de que existia um pensamento crítico sendo transmitido ao vivo inflamou pequenos movimentos de resistência.

Nos setores mais privilegiados do Domo, onde o Casulo era visto como um privilégio e não uma imposição, a entrevista foi recebida com desdém. Para essas famílias, a ideia de negar aprimoramentos era um absurdo. Os debates que se seguiam questionavam se permitir uma discussão dessas não enfraqueceria a estabilidade do sistema.

"Ele foi corajoso, mas não vai durar." "Finalmente alguém falou o que todos pensam, mas quem vai protegê-lo?" "Isso não muda nada, o governo não permitiria que essas ideias se espalhassem."

Ao mesmo tempo que a entrevista se propagava pela população, june assistia com os pais no café da manhã

“Já sabemos que é o próximo enforcado na praça da cidade” – pensou a sua mãe

“Eu não duvidaria em nada” – respondeu em voz alta June, como ela sempre fazia.

“Talvez não, chamaria muito atenção” – disse Marcus – “Pelo menos não por agora” – pensou.

“Eu acho que por ser agora, com toda essa conjuntura, é o melhor momento para ele morrer” – June respondeu e seu pai parecia frustrado porque ele sempre tentava esconder seus pensamentos mais sombrios, mas nunca conseguia. “Se uma pessoa como ele pode ir na TV e criticar o governo de maneira tão direta, por que outros não podem protestar?”

“Se o matarem agora, terão um mártir. Teremos trabalho hoje no parlamento querida” – Marcus disse e June avaliava os cenários que ele imaginava... Cada um era mais caótico que o outro... Se uma sessão fechada do parlamento assim, pareciam mais com um bando de macacos gritando do que com seres humanos.

Mais tarde, após seus pais irem ao parlamente, June recebeu os “amigos” de maneira discreta em casa:

June, Alex, Maddy, Lisa e Maddox assistiram a entrevista com um misto de surpresa e inquietação. O discurso do filósofo refletia muitos dos pontos que eles mesmos debatiam em particular, mas a exposição em rede nacional era algo sem precedentes.

"Isso pode mudar alguma coisa?" Maddox perguntou, sem esconder o ceticismo. "Depende do que aconteça com ele depois," June respondeu. "Se sumir ou morrer, será apenas mais um exemplo para calar os outros."

Alex se sentia estranhamente identificado com as palavras do filósofo. Ele sabia o que significava ser uma experiência, uma tentativa de brincar de Deus com vidas humanas. Mas o que o incomodava mais era a ideia de que, mesmo entre os aprimorados, alguns ainda achavam que valia a pena continuar esse ciclo.

Maddy permaneceu em silêncio, sua mente girando. A entrevista a fez pensar ainda mais sobre o que sua própria família fazia para sustentar o sistema. Será que Dalila, sua irmã, também acreditava nas palavras do filósofo?

Lisa, sempre mais pragmática, apenas disse: "Se ele não for eliminado agora, é porque o governo quer usar isso para algo. Precisamos ver o próximo passo deles."

“Onde seus pais foram?” – perguntou Lisa enquanto examinava a sala da casa.

“Foram para a sessão de emergência que foram convocados logo depois dessa entrevista, provavelmente não voltam tão cedo... pelo menos era isso que minha mãe estava pensando... ela imaginou que ficariam pelo menos umas 6h votando em coisas que não resolveriam em nada e tendo que ouvir a bancada conservador gritar seus jargões e quebrar o decoro enquanto alguém tenta falar algo diferente do que eles querem ouvir.”

June franziu a testa, pensando em como poderiam usar o impacto da entrevista para expor ainda mais verdades. "Se postarmos as provas que temos de forma irrastreável, não podem nos silenciar. A verdade já estaria lá fora."

Alex então se lembrou de alguém que poderia ajudar. "Eu conheço alguém que pode fazer isso."

Todos se voltaram para ele.

"O nome dele é Ethan. Ele foi um dos prodígios do Casulo e tem um QI próximo a 200. Nunca vi ninguém mexer com sistemas como ele. Se alguém pode criar algo totalmente seguro e invisível para o governo, é ele."

Maddy arqueou uma sobrancelha. "Ele confiaria na gente?"

Alex assentiu. "Ele confia em mim. Mas precisamos decidir juntos se queremos envolver mais alguém."

O grupo ponderou. Incluir Ethan significava mais riscos, mas também mais possibilidades. Após uma breve votação, todos concordaram em trazê-lo para a causa, pelo menos para uma sondagem.

Poucas horas depois, Ethan apareceu, trazendo consigo um laptop modificado e uma mente já trabalhando intensamente. "Me expliquem o que vocês querem, e eu farei acontecer."

“Primeiro quero entender por que está disposto a nos ajudar?” – Maddox como sempre a desconfiada do grupo falou primeiro

E June logo começou a analisar os pensamentos deles, era tanta informação passando pela cabeça dele que ela não conseguia nem respirar, cada detalhe do ambiente, todas as rotas de fugas caso eles fossem expostos, ele mapeava cada um tentando ranquear quem era o mais perigoso ali...mas no final de tudo um pensamento ficou flutuando na cabeça dele “Imagina viver assim por anos, cansativo não acha?” junto a esse pensamento vieram várias memórias das vezes em que ele simplesmente tentou fazer as vozes se calarem tirando a própria “Eu acho que você me entende, melhor do que eles... porque nada é tão agonizante quando brigar com o seu próprio cérebro”.

“Ele tem problemas iguais a gente” – foi a única coisa que disse, mas aparentemente o grupo aceitou por confiar na decisão dela. Ela não conseguia dizer mais nada, os sentimentos estavam todos embolados e Maddox a encarava, parecia ponderar se ela precisava de ajuda para lidar com aquela avalanche ou não.

Mostraram as fotos do subterrâneo para Ethan e a única coisa que perguntou foi:

“Quando querem isso online?”

“Agora seria possível?” – perguntou Maddox

“Não, hoje a noite, consegue colocar isso na TV? Horário principal?” – June queria causar impacto, mas também queria tempo para avisar Dalila que não estava ali. – “Falta avisarmos uma pessoa” – Ela olhou para Maddy que pareceu entender para quem era a mensagem.

“Posso colocar por cima no pronunciamento, que obviamente deve ter, coloco alguma narração robótica por cima, querem dizer algo?” – Ethan parecia achar aquilo uma tarefa bem mundana, rotineira e básica.

“Eles não saberiam que foi você?” – Alex perguntou parecendo preocupado.

“Há outros como eu, não tão inteligentes mas capazes de fazer isso e...” – ele parou de falar do nada mas June ouviu os seus pensamentos “e não tenho mais nada a perder”

“Você trabalha em laboratórios?” – June perguntou assim que as imagens se formaram na cabeça dele.

Maddox sentiu o clima ficar tenso no ambiente e já estava pronto para agir

“Se acalmem, não trabalho nos casulos ou para nada do tipo, trabalho no algoritmo de defesa externa do Domo. Eu não ligo que eles descubram que foi eu que fiz e tão pouco entregaria vocês. Perdi três irmãos para o casulo... um deles até conseguiu sobreviver após sair de lá, mas 3 anos depois ‘morreu de causas naturais’... meu pai virou alcoólatra e morreu pouco tempo depois num acidente de carro e a minha mãe se sentiu culpada e se matou... eu não tenho mais ninguém e viver sozinho com a cabeça que tenho é um inferno, mas me recuso a me matar porque não quero dar esse gosto a eles. Eles fizeram o monstro, então eles que me matem.”

Ethan analisava as imagens com calma, percebendo todos os detalhes, até que falou:

“Tem quatro pessoas na foto, nas sombras nas paredes, pelo formato e tamanho chutaria June, Alex no centro e Maddy, mas a outra pessoa não é nenhum de vocês. Não gosto de trabalhar sem saber de todas as variáveis...quem mais está envolvido?” – June tinha olhado aquelas fotos tantas vezes e nem percebeu que dava para ver as sombras na parede.

“Doutora Evelyn” – June respondeu, tentando ao máximo deixar Dalila fora disso.

“Bem, a julgar pelo fato que ela está morta, quem é a pessoa que precisam avisar então?” – “Você achou que eu tinha esquecido desse detalhe, querida” a provocação havia sido apenas para June.

Eles se entreolharam fixamente por uns 2 minutos, até Maddox interveio.

“Primeiro você faz o que disse que poderia fazer, depois te damos a informação” – Maddox interferiu diretamente na conexão que June e Ethan haviam formado... isso não era bom na visão dela.

“Aceito, mas espero que me falem antes deles me matarem” Ethan arrumou suas coisas enquanto ria do seu humor negro.

“Como vai sair daqui?” – perguntou lisa

“Andando pela porta dos fundos, são 17:45h é o horário com menos policiais na rua. As 18h eles trocam de plantão, então 15min antes eles retornam as delegacias para preencher os relatórios e os que estão chegando precisam ser informados dos casos em andamento. Então eu tenho 30min mais ou menos para chegar próximo a estação da minha casa sem ser visto por nenhum dos responsáveis pela patrulha do seu bairro. Além do mais as câmeras não vão me pegar, tenho dispositivo que congela as imagens quando passo por uma câmera... assim, antes de aparecer nela, a imagem é congelada e eu passo livremente.” Enquanto falava já se direcionava a porta dos fundos “E além do mais preciso preparar tudo para as 20:30, horário favorito da rainha para seus pronunciamentos...”

“Como sabe onde é a porta dos fundos?” June perguntou aturdida com o raciocínio dele.

“Bem estamos na sala de estar presumo, a cozinha fica logo atrás dessa parede porque sinto cheiro de comida vindo de lá... a maioria das pessoas planejam a casa com a porta dos fundos sendo na cozinha para facilitar com a entrada de sacolas do mercado ou saída com o lixo” – Depois que ele disse isso pareceu óbvio e meio idiota a pergunta.

“A pergunta não foi idiota” – ele percebeu que June estava meio constrangida. “Se o meu jeito de responder foi grosseiro ou rude, peço desculpas. Até mais”

A despedida parecia ser apenas para June, mas o restante também respondeu com um até mais. Exceto Maddox que continuava analisando qualquer sentimento que poderia vir de June ou Ethan.