O Último Pendragon
2 Capítulo 2
Que uma coisa fique muito clara desde o início: eu tenho uma fraqueza por pessoas velhas. Especialmente pessoas velhas chorando ou simplesmente sentadas sozinhas em uma mesa de restaurante. Tenho vontade de me sentar junto, mesmo sabendo que causaria uma situação constrangedora (como na vez em que fiquei uma tarde inteira jogando xadrez em um parque com um senhor de oitenta e cinco anos tendo que gritar por cima de seu aparelho auditivo de que precisava ir ao que ele respondia com um gesto de indiferença. Pensando agora aquele senhor realmente se aproveitou da minha empatia. E, pior, venceu todas as partidas). De qualquer forma, foi um tipo de empatia, uma sensação forte de piedade que me impediu de empurrar o senhor para trás, o que talvez fosse a reação esperada caso um mendigo ancião resolvesse chorar em seus ombros.
- Hey, está tudo bem – eu disse desconfortável. Dei umas tapinhas em suas costas, talvez o ajudasse a se controlar – Por que está chorando?
O velho se afastou, mantendo as mãos fechadas sobre os meus braços como se tivesse medo que eu desaparecesse e apenas sorriu entre as lágrimas.
- De saudades, eu suponho.
Ceeeerto. Deve ter notado a minha expressão porque me soltou e limpou as lágrimas do rosto desajeitadamente. Percebi que se controlava para não sorrir demais, mas não estava dando certo.
- Olha... – comecei, dando uma olhadela em minha casa. As luzes do hall de entrada estavam acesas. Caso ficasse perigoso eu poderia gritar ou chutar a sua perna e sair correndo (por mais que a ideia de chutar idosos não me agradasse muito) – Eu não sei quem você é – e francamente não me importo – mas eu tive um dia um tanto quanto movimentado, então assim que resolvermos esse desentendimento...
- Não é um desentendimento. – respondeu com simplicidade – Estive esperando você por centenas de anos.
- Claro que estava. – nessas horas era melhor não ir contra a corrente — Quer ficar aqui enquanto entro e trago alguma coisa para comer?Podemos ligar para alguém se quiser.
- Ligar para quem?
- Para um funcionário do lugar que você veio, é claro.
Ficou em silêncio por alguns segundos, depois me fulminou com os olhos azuis. Havia algo sobre aqueles olhos... Algo que não combinava com o resto do corpo, como se as muitas décadas que deveria ter não os tivessem alcançado.
- Você acha que sou maluco. – concluiu, a voz pesada de dor.
- Como pensaria uma coisa dessas? Você surgiu no meio da estrada mais cedo e me fez ter um acidente, você – espere – Como chegou aqui tão rápido de qualquer forma? — não conseguia acreditar que alguém em sã consciência lhe daria carona.
- Em um dragão, é claro. – retrucou e cruzou os braços em desafio.
- Certo, em um dragão. – um carro surgiu no fim da rua e passou por nós, um garotinho pressionou o rosto contra a janela e arregalou os olhos. Que bela imagem deveríamos ser. E de repente estava cheia daquilo tudo, cheia de bruxas, gatos voando em minha cara e mendigos me perseguindo – Escute velho, não sei como chegou aqui, não sei quem você é e nem quero saber. Mas exijo que pare de me seguir ou chamarei a polícia, está me ouvindo?
- Sim, prudência nunca foi uma das suas qualidades de qualquer forma. – comentou o velho, brincando com algo que estava preso ao seu cinto, na penumbra parecia ser o rabo de um esquilo ou a pata de um coelho.
- Me desculpe?! – falei quase alto demais – Não sou eu quem está diante da mansão dos Pendragon insultando a sua filha. Cuidado com o que fala, velho.
Isso pareceu diverti-lo porque parou de mexer nas partes de animais mortos que carregava consigo para me olhar. E naqueles olhos brilhava a zombaria.
- Vejo que ainda sofre do mesmo mal, mas daremos um jeito.
- Você não dará um jeito em nada, apenas em desaparecer da frente da minha casa e nunca mais voltar! Você pode até ir de dragão, eu não me importo.
- Aithusa só aparece quando o chamo.
Naquele momento tive certeza: o velho estava com os dois pés dentro da loucura. Possivelmente escapara de um manicômio e todo o mais, a única coisa que não conseguia entender era como tinha achado a minha casa. Estivera claramente esperando por mim, disso tinha certeza. Vi novos faróis brilharem, dessa vez na direção contrária. Reconheci a Mercedes do meu pai e sem parar para pensar agarrei o braço do velho e o arrastei para o lado da casa, bem debaixo da grande cerejeira.
- Você vive bem. – notou o velho com os olhos na fonte que gorgolejava alegremente não muito longe. Estávamos na lateral do nosso enorme jardim, que rodeava toda a casa. Caminhos de cascalho branco levavam à fonte e a bancos debaixo de cerejeiras e arbustos com formas de animais medonhos (isto também um toque pessoal da minha mãe). Nos fundos da casa estava a nossa piscina, usada há anos apenas para decoração. Debaixo da maior cerejeira estava um balanço, colocado por meu pai para mim e Morgan há muitos e muitos anos. Assim que atingimos o início da adolescência lady Catherine mandou removê-lo por não ser bonito e na última grande arrumação do porão eu o achara e amarrara novamente na árvore. Agora ainda era removido sempre que ela quer fazer uma festa no jardim, mas ao menos não torcia mais (tanto) o nariz quando me via subindo nos galhos de novo.
- Não vá se acomodando. – murmurei ouvindo o barulho dos pneus contra o cascalho fino. Ninguém saia ao jardim nesse horário e se falássemos baixo talvez não percebessem que trouxera um mendigo para o jardim de estimação da minha mãe. Silenciei o aviso “Avina isso é loucura” que soava em minha cabeça – Olhe, só quero respostas.
- Respostas? Isso é bem conveniente, continue, continue. – me encorajou. Demorei um tempo encarando aqueles olhos, não conseguindo me livrar da sensação de que não combinavam com um rosto tão velho.
- Como me encontrou? — consegui balbuciar finalmente — O máximo que sabia sobre mim era a placa da minha moto.
O velho não respondeu de imediato. Apenas cruzou os braços e encarou o céu, aqui e ali se viam estrelas piscando e também um avião. Não era a primeira vez que percebi que aquele homem parecia perdido na época errada. Estava prestes a repetir a minha pergunta quando sua voz rouca pelo que eu achava ser desuso cortou o silêncio.
- Vou sempre encontrá-la. – disse por fim e aquelas palavras estavam carregadas de tanta verdade que dei um passo para trás, pronta para gritar se fizesse alguma ação suspeita – E poderia, por favor, parar de agir como se fosse uma presa acuada? Estou tão mal assim?
- Você não olhou em um espelho por um longo tempo, não foi?
- Isso é verdade, nem consigo me lembrar de quando foi a última vez. Mas isso não importa, você importa. Avina Pendragon, estou tão feliz em finalmente tê-la encontrado. – fez menção de se aproximar, mas o mantive a distância com um gesto de mão.
- Eu odeio mistérios. – expliquei com sinceridade – Agora quero saber como você sabe meu nome e como me achou.
O velho suspirou.
- As exigências, sempre as exigências. Eu sei quem você é, mais do que você mesma. E a achei porque sabia quem procurar. Você já tentou encontrar alguém que você não sabia quem era? É uma chatice, isso eu garanto.
- Você disse que sempre soube quem eu era.
- Não, não, não. Eu disse que sempre soube quem você é agora que a vejo diante de mim. São duas coisas diferentes. – quando viu a minha expressão de descrença balançou a cabeça como se eu fosse o caso perdido da dupla – Eu vou te explicar algum dia.
- E quem é você? — eu quis saber – Você diz saber tanto sobre mim, é menos que justo que saiba o seu nome.
- Nomes não dizem muita coisa sobre nós, ainda que com você seja diferente. Às vezes são também a única coisa que nos lembra quem somos e eu quase esqueci, mas meu nome é Merlin.
- Merlin?
- Merlin.
- Como nas crônicas arturianas?
- Como nas suas crônicas. Você é Arthur e Arthur é você. São duas pessoas diferentes, mas com a mesma essência. Exatamente a mesma essência. – ele se perdeu por um momento, como se lembrasse de algo extremamente doloroso – Espero que tenha um fim diferente.
O encarei por tanto tempo que pela primeira vez na noite não era eu quem estava desconfortável.
- Pode afastar esses olhos? São iguais aos do meu Arthur.
Fechei a boca com esforço, depois balancei a cabeça esperando acordar na minha cama em qualquer momento.
- Uma mosca entrou em seu ouvido? Eu posso ajudar. – ofereceu-se.
- Não encoste em mim. –avisei, puxando os cabelos para trás em vão, o gesto ainda vinha automático para mim quando ficava nervosa. Senti suor descendo pelas minhas costas. Não pode ser verdade. Repeti de novo e de novo em minha cabeça. Não é verdade. Como os sonhos também não eram.
Os primeiros que me recordo tive aos sete. Lembro-me de me enfiar entre meus pais, chorando e aterrorizada (a máscara facial noturna da minha mãe também não aliviava as coisas). Mas à medida que crescia, os sonhos eram muitas vezes até esperados com ansiedade. Na maior parte das vezes envolviam batalhas travadas sob circunstâncias impossíveis de vencer, criaturas que tinha que enfrentar e que não sabia nem o que eram ou pessoas que morriam em minha frente e que eram importantes para mim, mas nem ao menos conhecia. Era um mundo paralelo que visitava vez ou outra e que era muito mais empolgante que o meu. Por isso muitas vezes eu dormia contente, imaginando o que enfrentaria naquela noite. Mas isso, como muitas outras coisas, havia mudado. Analisei aquela figura que parecia sair de um dos meus sonhos (mas não em uma forma romântica, óbvio) pensando se poderia explicá-los para mim. Porque meus pais não conseguiram, a terapeuta que frequentei por dois anos também não e Morgan se esforçava muito para não rir sempre que lhe contava um deles.
- Certo, certo. – fechei os olhos e respirei fundo duas vezes, imaginando o ar chegando a cada pontinha do meu corpo como meu irmão havia me ensinado – Se isso é verdade – e eu não estou dizendo que é – você é Merlin, o bruxo?
- O feiticeiro.
- Existe alguma diferença? — abri os olhos e quando vi que seu rosto havia se iluminado acrescentei – Não, não importa. Certo, então faça alguma coisa.
Merlin, eu não acreditava que realmente aceitara esse nome, olhou para mim como se fosse eu quem havia declarado ser um ser sobrenatural.
- Fazer o quê?
- Uma feitiçaria. – apoiei as mãos nos quadris – Um dragão! Faça um dragão.
O senti se retrair antes mesmo de abrir a boca.
- Não. – disse, repentinamente muito sério – Não posso fazer isso.
- Não pode fazer um dragão?
- Não posso fazer feitiçaria.
Percebi de imediato que era um ponto delicado e se tivesse frequentado Hogwarts teria envolvido-o em meus braços e dado pequenas tapas reconfortantes em seus ombros. Como não tinha e como magia e dragões não existiam apenas me senti desconfortável. Como alguém que acredita em fadas e acha que viu uma em seu jardim, corre até lá e vê uma borboleta especialmente bonita. E também tola. Tola e irritada por ter me deixado levar pela anormalidade do dia para fazer a minha imaginação enlouquecer.
- Foi o que pensei. – falei, tentando soar mais irritada que desapontada. Apontei para o caminho que levava ao portão principal – Agora vá, estou cheia de gente louca por hoje.
Ele acompanhou o meu indicador com o olhar e depois voltou-se para mim novamente.
- Eu não posso.
- Existe algo que você pode fazer Merlin? Porque não pode fazer feitiçaria, não pode sair. Não pode me deixar em paz. Eu odiaria gritar com um velho, então, por favor, vá embora.
- Eu não posso. – repetiu e dessa vez era ele quem estava irritado – Eu não posso ir porque se eu for coisas ruins vão começar a acontecer. Vou fazer diferente desta vez Avina, apenas a verdade entre nós dois porque ela é a única coisa que pode nos proteger.
Agora parecia um lunático religioso, revirei os olhos. De que me a verdade me protegeria? De alguma tarde de compras forçadas com minha mãe ou descobrir que Felix saia com outra garota? E que tipo de verdade era essa, afinal?
- Está me ameaçando? Porque eu não preciso de verdade alguma, eu sei me proteger, eu não preciso de você. – deixei as palavras no ar, esperando que ele as aceitasse. No lugar disso ficou petrificado por alguns segundos e seus olhos começavam a ficar perigosamente brilhantes. Oh deus, ele vai começar a chorar de novo.
- O que quero dizer é que pode ir embora. – tentei dizer de forma mais amena, mas não parecia adiantar muito.
Merlin levou as costas das mãos até os olhos, depois olhou novamente para mim e agora parecia realmente furioso. Como Gandalf quando enfrenta o Balrog, mas não havia desapontamento na sua voz quando falou com o monstro, já a de Merlin parecia ser feita metade raiva, metade desapontamento. E em seus olhos estava a frustração.
- Ótimo. – disse, virando-se para a entrada da casa – Se quer tanto morrer, que assim seja. Vou adorar que algum deles apareça para te fazer acreditar. Ah, sim. – começou a se afastar a passos largos e firmes – E não venha gritando “Merlin, me salve!” porque eu vou estar longe. Você mocinha – disse virando-se teatralmente para mim – É pior do que Arthur mil vezes. Estou cheio de vocês.
Não tinha nada para dizer por isso fiquei calada. Observei aquela criatura estranha afastar-se cada vez mais, as pedrinhas que formavam o caminho rangendo debaixo de seus pés até finalmente dobrar para o portão dianteiro e sumir da minha vista. Esperei que fosse para sempre. É engraçado como podemos estar tão errados sobre algo.
Quando entrei na casa vi que meu pai trouxera companhia. Uma voz masculina que me era estranha acompanhava a sua quando passei pela porta do escritório, por isso apressei os passos. Não queria ser apresentada a mais um de seus infinitos colegas de trabalho, cada um mais ansioso para agradar ao chefe que o anterior. Dei uma passada na cozinha e vi que o jantar estava prestes a ser servido.
- Não deveria comer guloseimas antes do jantar. – avisou Jodie, a nossa amável cozinheira, quando me viu abrindo a geladeira.
- Desculpe. – falei com sinceridade e ressurgi com um prato com torta de maçã. Era apenas um pequeno pedaço que sobrara do fim de semana, mas Jodie apoiou as mãos nos quadris mesmo assim.
- Ina – começou com a voz que sempre usava quando eu e Morgan fazíamos algo errado. Tinha pele morena e olhos verdes, minha mãe a contratara a princípio porque passara algum tempo na França e sabia todos aqueles pratos que não sei pronunciar até hoje, mas ficar nós ficamos com ela porque se tornou parte da nossa família. Isso foi há treze anos e durante todo esse tempo Jodie significava os mais crocantes e saborosos profiteroles que alguém podia querer, a palavra final em uma briga entre a cria dos Pendragon e a pessoa para a qual corríamos quando nos machucávamos. Também era a única pessoa da casa que era sincera com minha mãe quando desfilava seus mais novos tesouros que “caçara” em alguma nova butique de luxo. Apenas essa última coisa já seria o bastante para amá-la, mas Jodie se superava a cada dia.
Quando fingia estar chateada, como agora, as rugas em seu rosto se pronunciavam e a faziam parecer realmente ameaçadora.
- Sinto muito Jodie. – desculpei-me – O puxa-saco vai ficar para jantar?
- Não fale assim. – disse Jodie, mas seu rosto já se suavizava – Sim, ele vai ficar.
- Então estou subindo.
- Avina.
- Morgan vai descer?
- Não é o que a estranha ausência das sobras do almoço diz.
Dei de ombros.
- Então também não vou.
Jodie suspirou derrotada e voltou-se para o forno. O cheiro tentador que escapava das panelas quase me fez ficar, mas aproximei-me apenas o suficiente para dar um ligeiro beijo em seu ombro e desapareci pela porta antes que pudesse chamar por mim.
- Vejo que a noite bombou. – cumprimentou-me Morgan quando arrastei o prato para o assoalho do sótão e me puxei para cima.
Ele não esperava uma resposta, por isso apenas me larguei no velho sofá-cama que jazia encostado em um canto de onde poderia observar Morgan e seus rascunhos e voltei a minha atenção para meu pedaço de felicidade. A torta estava ainda mais deliciosa que eu lembrava e devagar senti a atmosfera do sótão diminuir o caos em minha cabeça.
Morgan começara a trabalhar nele quando tinha dez anos e minha mãe resolveu desarrumar o velho sótão para fazer uma grande limpeza. Metade de tudo foi jogado fora, outra parte doada e o que restara tornou o imenso espaço vazio iluminado pelas janelas do telhado dolorosamente vazio. Quando pediu para mover todas as suas tintas, tripé, mesa de desenho e caixas e mais caixas de materiais foi uma oportunidade para tornar seu quarto mais habitável, por isso foi atendido prontamente. Desde então o sótão se transformou em uma selva de cores, móbiles que pendiam do teto em metros até quase atingir a cabeça de quem estava no sótão. Eram diversos. Pássaros, planetas, cometas, estrelas e constelações (meu irmão tivera um fraco por motivos galácticos aos quinze) e também inteiras galáxias espiraladas que reluziam em prata e dourado quando a luz do sol ou da lua tocava nelas. O cheiro de incenso tornava o ar pesado, mas eu tinha me acostumado a não ficar desconfortável. Na verdade, a leve essência de alfazema e hortelã deixou minhas respirações mais ritmadas, coisa que jamais revelaria a Morgan. Era uma pessoa que quando conhecia algo novo não parava de falar sobre e se empenhava em espalhar as boas novas para tudo e todos. Dessa vez eram yoga e incensos, no verão passado foi tecelagem (ainda tinha um casaco que me dera que atraía perguntas sobre o estilista sempre que o usava) e há dois anos passou pela terrível fase de pensar com seriedade em se tornar tatuador. Era invejosamente ótimo em tudo que fazia e deixara a ideia de tatuador quando visitou um duas ruas abaixo da nossa e soube que passava setenta por cento do tempo tatuando corações, estrelas e borboletas.
- Em que está pensando? — quis saber, levantando a cabeça do desenho diante do meu silêncio.
- De quando tentou convencer papai a fazer uma tatuagem. – a lembrança me fez sorrir e naquele momento a traição de Felix e o irmão mendigo de Gandalf pareciam fora da minha realidade. Era assim que a vida deveria ser, eu e Morgan falando besteiras enquanto como torta de maçã. Mas claro que não é e meu irmão era uma das últimas pessoas que eu esperava me despertar para essa realidade.
- Enquanto voltava da minha aula ouvi que mais duas pessoas desapareceram de ontem para hoje. Uma delas é a irmã mais nova de uma amiga. – comentou voltando a atenção para o papel diante de si. Morgan era assim, poderia te dar a pior notícia do mundo, mas pra isso precisava de um papel e um lápis para distraí-lo. – Helena, lembra-se dela? Veio uma vez para uma das nossas festas de quintal.
Anui, engolindo em seco. “Se eu não ficar coisas ruins vão acontecer” não era isso que Merlin ameaçara? E se estivesse ligado a esses desaparecimentos?
- Pobre Helena. Eu liguei para ela, mas não tem notícia alguma. É como se ela tivesse desaparecido no parque.
- No parque com a lagoa? — perguntei, desistindo de terminar a torta.
- Aham, é loucura. É com se fosse logo ali na esquina.
Era exagero, mas não estava muito longe da verdade. Larguei o prato junto com o que ele trouxera de baixo e me aproximei para ver o que estava desenhando. Era outra coisa que eu admirava no meu irmão: não tinha medo que as pessoas vissem no que trabalhava, na realidade sentia-se feliz com a atenção. E eu tinha que ser lembrada de como andar em grandes competições, não por causa do oponente, mas por causa do público que acompanharia cada movimento meu.
Era um desenho em algum de seus papéis especiais e café. Morgan era viciado e quando descobriu que podia usar sua bebida favorita para desenhar começou a usar a técnica sempre que podia. Não passava de um esboço inicial, mas seus esboços iniciais eram meus favoritos.
Com traços firmes e finos o retrato de um rapaz ganhava vida. Seus olhos eram pequenos, as sobrancelhas cheias e sérias, o cabelo descia em ondas até um pouco acima de seus ombros. A mandíbula era, literalmente, bem desenhada, o rosto estruturado como a de uma escultura renascentista. Estava sério, posando para a imagem, mas havia algo em seus olhos que me parecia desafiador, como se duvidasse que estudantes conseguissem captar a sua natureza.
- Ele é lindo. – deixei escapar entre os lábios e me afastei para que Morgan não visse as minhas bochechas queimando – É da aula de desenho vivo?
- Sim, apareceu na aula no início do mês.
- Parece arrogante. – tentei consertar a minha reação exagerada.
- Se eu tivesse esses lábios e os ombros que ele tem eu me acharia o rei do mundo. – respondeu Morgan, voltando-se para mim – Você não?
- Acho você mais bonito que ele.
Morgan riu.
- Isso é gentil da sua parte, uma pena que ele não pense o mesmo. O convidei duas vezes para um café perto do ateliê e ele foi... Uma graça. Uma graça muito heterossexual para os meus padrões. Mas ainda somos amigos, me convidou para uma pequena festa no sábado, bom, acho que é hora de devolver a gentileza.
Senti a tensão se esvair do meu corpo. Certo, ele não está afim dele. Era desconfortavelmente frequente como nos interessávamos pelo mesmo cara e na maioria das vezes Morgan saía-se melhor no final. O que isso significava não sei ao certo.
- Qual o nome dele? — perguntei num interesse amistoso.
- Gwynn. – respondeu, voltando sua atenção ao cabelo do retrato.
- Gwen?!
- É, mas com y. Pronuncia-se como se escreve: Gwynn.
- Isso é nome de garota.
Arrependi-me das palavras assim que saíram da minha boca. “Isso é coisa de garota” estava no top três frases que Morgan ouviu à medida que crescia, as outras duas eram “não pinte a parede” e “largue sua irmã”.
- Eu quis dizer, é realmente muito parecido com Gwen. De Gwendoline.
- Ou Guinevere. – ele fez uma pausa para que eu fizesse um comentário sobre a lenda arturiana, que não veio – Mas o nome dele Gwynn. Simples, curto, fofo. Quer que apresente os dois ou você ainda tá de rolo com Felix?
- Eu não sei. – respondi e Morgan entendeu. Morgan sempre entende.
- Bom, estou à sua disposição irmãzinha. Ele é ainda mais atraente ao vivo.
- Morgan!
- Certo, o desenho.
Voltei pro sofá e abracei as pernas. Por mais que Gwynn fosse bonito, ele não era nada mais que um esboço para mim. Felix era real e por mais que eu odiasse reconhecer Merlin também o era. Repousei o queixo nos joelhos e fiz o melhor que pude para não me deixar levar pela minha imaginação perigosa. Mas não pude evitar. Nas lendas, ou pelo menos em todas as versões que eu conhecia, Merlin era um poderoso bruxo (ou como aprendera mais cedo, feiticeiro). Era protetor de Arthur e o ajudava a ser um rei justo e forte, salvava sua vida mais vezes que consegui contar e possuía a sabedoria de centenas de vidas humanas. A cada momento que pensava mais sobre o assunto a ideia desse Merlin e o Merlin que encontrei serem a mesma pessoa parecia cada vez mais absurda. Talvez o nome fosse moda há oitenta anos, ou noventa. Cem, estourando. E ao mesmo tempo não conseguia me livrar da sensação de que havia alguém ou algo me seguindo antes da estação. Havia também a velha e seu gato que pareciam ter saltado das páginas de um conto de fadas. Suspirei frustrada e me levantei, atraindo a atenção de Morgan.
- Não vai esperar eu terminar?
- O dia foi cheio, acho que vou dormir.
Morgan anuiu, desejando uma boa noite. Quando desci a escada do sótão balanceando o meu prato quase o deixei sair, atraindo Morgan que enfiou a sua cabeça pelo alçapão.
- Sem quebrar o pescoço. – pediu e quando me viu bem desapareceu novamente – Ei – chamou mais afastado – pode levar as minhas coisas também.
- Tenho certeza que você consegue encontrar a cozinha sozinho. – falei.
- Mas tem um estranho na casa. – Morgan reapareceu segurando prato e talheres – Por favor, Avina. Por favor, por favor. – choramingou e sua voz estava tão engraçada que não consegui resistir.
- Que não se torne um hábito.
Morgan sorriu.
- Amo você. – cantarolou antes de desaparecer no sótão novamente.
Meu plano de passar despercebida pela visita correndo através do corredor e passar para a cozinha sem pisar na sala de jantar foi pelos ares assim que pus os pés no último lance de escadas. As vozes me fizeram congelar e quando vi as duas figuras no fim do corredor diante da porta quis dar meia volta e subir correndo. Mas, claro, meu pai tinha me visto e com um último toque sádico do destino minha mãe saiu do da sala de jantar em um de seus mais belos vestidos. Era verde e simples, mas nela era como se ganhasse vida própria. O cabelo negro como piche estava preso em um coque, o típico visual para ao mesmo tempo encantar e chocar as visitas. Ninguém jamais diria que tinha quarenta e cinco anos sobre os ombros delicados.
- Ah! – ela gritou e foi o aviso que precisava para saber que não podia escapar – Avina minha querida, desça, desça. Você chegou bem a tempo de conhecer o novo sócio do seu pai.
Eu não me importo com o novo sócio do meu pai. Quis dizer, mas saberia que as palavras de bravura me renderiam horas e horas de dor de cabeça. Por isso pus o meu melhor sorriso “sou obrigada a estar aqui” e desci as escadas.
Meu pai usava suas roupas de trabalho em que precisava parecer o mais poderoso e influente possível, o que conseguia fazer. Jonathan Pendragon era o mais velho de três irmãos e tinha herdado o império multimilionário da família depois de se formar em direito em Harvard, onde conheceu minha mãe (o que era bem difícil de acreditar à princípio). Ao lado da minha mãe parecia mesmo um imperador, ou um rei. Era alto e corpulento, os cabelos loiros penteados para trás e o terno sob encomenda o vestia muito bem. Sorriu quando viu o desconforto em meu rosto numa tentativa de me acalmar, o que não deu muito certo. Estava pensando em apertar a mão do desconhecido, aceitar qualquer cumprimento que viesse e desaparecer na cozinha quando o homem que estivera o tempo inteiro de costas virou-se para mim.
- Quero que conheça Mo Tabersman filha – anunciou meu pai, segurando o meu ombro com carinho e ao mesmo tempo garantindo que eu não saísse correndo. Minha mãe arrancou os pratos da minha mão e com um grito estridente chamou por Stella, a nossa empregada. Não sei até hoje se Stella veio, a verdade era que quando me virei desnorteada rumo ao meu quarto ela estava com as mãos livres para me segurar.
O homem não devia passar dos vinte e cinco anos, talvez fosse até mais novo que isso. Sua pele era branca e os cabelos negros como as penas de um corvo, os olhos uma mistura assustadora de verde e azul. Sempre ri de pessoas que julgavam o olhar das outras, mas aquele rapaz definitivamente tinha olhos frios. Frios como gelo.
- Ah, senhor Pendragon – disse, lançando um sorriso para meu pai – Acho que devo explicar isso.
Vestia um terno negro debaixo da jaqueta de couro preta que o interrompi de colocar. Enfiou a direita na manga que sobrara e a estendeu para mim.
- Mo é como prefiro ser chamado, meu nome é um tanto quanto antiquado. – algo em seu sorriso era falso, percebi de imediato. Talvez ele ganharia o prêmio de puxa-saco mais chato, mas na combinação dos olhos e sorriso uma outra palavra me veio à mente. Perigoso.
Aceitei a sua mão e quando o senti erguendo-a fiz força no o sentido contrário. Estava cheia de ter a mão beijada pelos bichos de estimação de meu pai. Senti seu sorriso estremecer.
- Ora vamos Mordred. Não é um nome antiquado, é apenas exótico.
Antes que minha mãe pudesse perceber o efeito de suas palavras doces livrei a minha mão da de Mordred e o encarei como se fosse de outro mundo. Tinha dado três passos para trás quando os dedos finos de Catherine se fecharam sobre meu braço.
- Está enlouquecendo Avina? — exigiu saber, mas apenas arranquei meu braço de seu aperto e me afastei rumo às escadas. De alguma forma consegui não cair, por mais que minhas pernas fraquejassem.
Ouvi os gritos da minha mãe e as desculpas balbuciadas pelo meu pai me seguindo até o meu quarto. Tranquei a porta atrás de mim bem a tempo de ouvir Catherine subir as escadas. Teria dor de cabeça afinal. Deixei-me deslizar até o chão, fechando os olhos com força. Havia enlouquecido. Merlin, Mordred e até Gwynn, era como se a vida risse na minha cara. E quando abri os olhos e vi o quadro um grito de puro terror escapou da minha boca.
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