- Está falando sério? – Merlin tinha dificuldades para me acompanhar e não pude deixar de reprimir um sorriso.

- E quando eu não sou séria? – devolvi.

- Um simples sim ou não seria suficiente. – murmurou o feiticeiro.

- Então, sim.

Dei uma olhadela para confirmar que a resposta o havia deixado contente.

- Está feliz agora?

- Isso é uma pergunta truque? – e lá estava de novo. O tom de voz que tentava desviar o assunto. Que tentava fazer com que eu abandonasse aquele caminho e tomasse um mais leve, em que não tínhamos ele como assunto principal. Mas não dessa vez.

- Não.

Merlin enlaçou as mãos atrás das costas e diminuiu o passo.

- Ninguém me perguntou isso antes. – ele disse, olhando para algum ponto atrás de mim.

- Se faz você chorar podemos parar por aqui. – falei, me dando conta de como aquilo poderia soar grosseiro. Mas não era a intenção e esperava que Merlin o entendesse. Não era de hoje que o observava quando estava sozinho. Quando achava que eu não estava olhando. E sempre, sempre parecia alguém que estava se segurando em pé por um fio. E então, quando alguém lhe dirigia a palavra se reconstruía num piscar de olhos. Não queria saber quantas vezes seu auto conserto poderia funcionar. Talvez tivesse prazo de validade.

- Com você é brincadeiras e sarcasmo em um segundo e conversas profundas em outro, não é?

- É meu charme. – respondi e esperei.

- Não estou acostumado com isso Avina. – ele disse e de repente ficou sério – Eu não... Normalmente eu iria... – ele deu um pequeno sorriso – Sim.

- Sim?

- Estou feliz. Eu devo ter ficado muito enferrujado em todos esses anos falando com arvores e esquilos. Eles são ouvintes excepcionais, claro, mas não esperam que você seja muito bom em formar frases que expressam o que esteja sentindo. Mesmo em Albion eu costumava ficar calado na maior parte das vezes.

- Agora isso é difícil de se imaginar.

- Com coisas serias. – ele se corrigiu.

- Mas você tinha alguém para falar, não tinha?

Merlin observava uma garota trançar margaridas em uma coroa com pequenas prímulas. A imagem talvez lhe trouxesse lembranças, porque precisou de um bom tempo para responder. Tanto que estávamos diante da tenda de preparação quando encontrou a resposta.

- Sim, amigos e também um dragão.

- As coisas nunca são simples com você, são Merlin? – quis saber, sentindo meus ombros relaxarem. Merlin tivera pessoas, tivera ouvintes. Não estivera sozinho.

- Me esforço para que sejam. – e baixou meu braço que segurava a aba da tenda – O rapaz curandeiro, qual é o nome dele?

Rezei para que Merlin não visse minhas bochechas se tornarem vermelhas. Limpei a garganta e enlacei os braços atrás das costas, tentando soar o mais casual possível.

- Oh, eu esqueci de apresenta-lo a você, não foi? – passei os dedos pelo cabelo só para constatar que não estava grande o suficiente para cair nos meus olhos, o que justificaria o movimento para começar — O nome dele é Gwynn. Ele é amigo do meu irmão e todo o mais.

- E todo o mais. – Merlin concordou e quando arranjei coragem para olha-lo estava se esforçando para não rir – Gwynn... Seria carma? – perguntou mais para si mesmo que para mim.

- Merlin! – vociferei dando um tapa em seu braço – Pare!

- Hey! – Merlin se afastou acariciando o lugar onde minha mão o batera — Você não pode me maltratar! Essa foi uma das primeiras coisas que descobri sobre esse século. E a mais importante também!

Meus risos pararam assim que entramos na tenda de preparação. De alguma maneira, com Merlin ao meu lado os duelos haviam parecido algo de um futuro distante, mas agora a hora finalmente havia chegado. Acho que ele sentiu minha tensão, porque colocou a minha armadura em silencio, se certificando de que tudo estava no lugar certo. Os outros participantes já deveriam estar na arena. O meu grupo era o oposto de Leon e sir Lancelot e os duelos aconteceriam mais tarde. Mas queria estar lá para ver Leon, por isso não dei muita atenção para as dicas de última hora que Merlin me dava.

- Lembre-se de manter o escudo sempre erguido. – comentou enquanto afivelava meu cinto – Uma boa guarda vai vencer metade do duelo para você.

- Aham.

- E cuidado para não deixar as pernas desprotegidas, preste atenção nos movimentos do oponente e nunca fique parada.

- Okay Merlin.

- Se ver uma abertura não mergulhe de cabeça. Coloque o seu melhor no golpe, mas não se exponha demais. – pegou o elmo e o pressionou em minhas mãos, olhando diretamente em meus olhos – Você está me ouvindo?

- Sim.

- Qual foi o último conselho que lhe dei?

- Use sempre o elmo. – tentei.

Merlin revirou os olhos e se afastou para arrumar as coisas.

- Ainda bem que é apenas um festival. – ele tentou se alentar sem muito sucesso – Apenas não morra nem nada do tipo.

- Anotado. – murmurei, sentindo o frio na barriga aumentar. Lembre-se de respirar. Repeti a regra mais importante enquanto deixava a tenda de preparação para trás.

Da tenda eram apenas duzentas passadas para a pequena arena de duelo. Basicamente um grande círculo delimitado por estacas no gramado e areia em seu interior. Quatro confrontos em cada grupo, tentei lembrar. Depois os melhores de cada grupo se enfrentariam em uma final. A divisão não era das melhores. Significava que ninguém lutaria contra todos e como nenhum dos grupos era ordenado por habilidade alguns tinham o azar de ter a primeira disputa contra o melhor ou a melhor de seu grupo. Parte de mim estava feliz por não estar no grupo de Lancelot, enquanto outra se sentia mal por Leon.

Meu amigo derrubava o seu primeiro oponente no momento em que consegui chegar mais perto para assistir. Me espremi entre Dianne e Ellie, dando um pequeno aceno para Gwynn que segurava um dos irmãos no colo enquanto o outro estava sentado em seus ombros.

- Por que demorou tanto? – quis saber Dianne enquanto aplaudia Leon.

Observei o rapaz ruivo dar a mão para seu adversário para ajudá-lo a levantar e tentei me fazer audível por cima da multidão que gritava.

- Eu estava colocando as peças. – respondi apontando para minha armadura, o que Dianne considerou uma desculpa boa o suficiente para voltar sua atenção para o ruivo.

O próximo duelo foi entre Felice e Jack. Felice era rápida e ágil, enquanto Jack dava tudo de si em cada golpe. No fim cravou sua espada de treino no gramado por baixo da areia e recebeu o escudo da garota em seu rosto. O duelo que se seguiu acabou em um minuto, quando o homem com uma águia estampada na cota de malha acertou seu oponente com uma força que o fez cair duro no chão. Jay se levantou de sua cadeira alta (de alguma forma achava que teria alguma autoridade se se sentasse em uma posição superior) e anunciou que desclassificaria o agressor, pois se tratava de um golpe potencialmente danoso. Por um momento achei que o homem avançaria contra ele também, no lugar disso jogou a espada no chão e deixou a arena sob vaias.

Me endireitei no lugar quando vi sir Lancelot entrando na arena. Ele lutaria contra o rapaz que já perdera contra Leon e parecia pouco impressionado com o que viu. Sua viseira estava novamente abaixada antes mesmo de pisar na arena e o pelo de cavalo balançava quando se movia. Desembainhou sua espada e ajustou o escudo, enquanto o oponente fazia o mesmo, um pouco inseguro.

- Eu acho que ele vai morrer. – disse Dianne e eu tive que anuir, porque não sabia se Lancelot podia segurar seu instinto de matar tudo que se movesse.

Quando Jay gritou “comecem!” com sua melhor voz o rapaz que perdera contra Leon não sabia bem o que fazer. Provavelmente pensava em como Leon o havia batido e via destino semelhante enquanto Lancelot se aproximava. Este poderia estar indo até a padaria, de tão pouco esforço que colocava em cada movimento. Tentei lembrar de como aquela armadura deveria ser pesada, mas ele a fazia parecer composta de isopor.

Dois segundos depois o rapaz gritava apavorado. O compreendi, provavelmente também gritaria se alguém se jogasse contra mim com um escudo de um metro e alguma coisa. De alguma forma conseguiu resistir, mas Lancelot empurrou o seu escudo para cima e o atingiu, fazendo-o cambalear para trás. “Devagar, devagar” avisava Jay através do alto falante, mas ele não parecia ouvir. O rapaz se erguia e tentava nervosamente manter o escudo firme, mas ele foi arremessado para longe quando se chocou com Lancelot, que avançou. Deu uma cotovelada no braço do garoto e lhe apontou a espada contra onde deveria estar o seu nariz debaixo da viseira.

- Eu me rendo! – guinchou o garoto, ao que o cavaleiro falso abaixou a espada como se fosse um robô que recebera o código correto para abordar o ataque.

- Menos mal que eu achei que seria. – confessou Dianne – Ele ainda tem cabeça e tudo.

Sorri, tentando controlar o nervosismo que sentia por Leon. Com um dos ganhadores desclassificados, teria que passar apenas por Felice e Lancelot. Tentava não pensar muito sobre como seria com Lancelot.

O que nem foi preciso. Leon e a garota duelaram por oito minutos, até que estivessem ensopados de suor e com respiração pesada. Ele bloqueava seu último ataque quando ela se deixou deslizar para o lado e se posicionou nas costas de Leon. Quando tentou acompanhar o movimento o tornozelo direito não acompanhou, fazendo-o balancear seu peso em uma perna enquanto eu roía todos os resquícios de unha que me restavam. Dianne enfiara seus dedos no cercado com tanta forca que parecia capaz de atravessá-lo quando Jay finalmente interrompeu a luta e deu a vitória a garota.

Assim que ouviu o resultado a ela foi ao seu encontro para ampará-lo e quando viu Dianne correr em sua direção vi uma pequena esperança se apagando em seus olhos. Bem, não se podia ter as duas coisas.

- Como você está? – quis saber assim que Dianne o arrastara para fora da arena.

Leon suspirou, afastando uma mecha de seu cabelo que estava pregada em sua testa.

- Bem. – tentou soar confiante – Dianne está fazendo mais caso do que realmente é.

- Diga isso de novo quando você estiver com a perna completamente inchada. – Dianne retrucou – Avina, eu sinto muito, mas-

- Claro, leve-o para o hospital.

- Eu não vou, eu estou bem!

- Leon. – falei com firmeza – Você tem que ir para o hospital. Não estrague as suas próximas duas semanas por causa de um festival.

- Mas como vou poder ver você chutando a bunda desse Lancelot?

- Morgan está filmando tudo. Você poderá assistir mais tarde no sofá enquanto coloca a perna para cima.

Leon bufou ainda alguma coisa, mas cedeu com desgosto. Dianne me deu um beijo na bochecha de boa sorte e se despediu de todos antes de se afastar falando suavemente com um Leon que não estava nada satisfeito. Os observei se afastarem com uma sensação crescente de fragilidade. Agora minha torcida favorita não estaria aqui para me ver.

Um tumulto no meio da arena me trouxe de volta do meu estado de preocupação. Vi Jay gritando coisas para garoto que havia se recomposto do golpe na cabeça enquanto Lancelot esperava de braços cruzados.

- O que está acontecendo? – perguntei para Gwynn – Por que eles não estão lutando?

- Parece que o rapaz quer desistir. – retrucou – Talvez a pancada na cabeça foi forte demais.

O que se comprovou verdade quando o rapaz teve um princípio de desmaio enquanto Jay consultava o livro de regras que consistia em uma anotação feita por ele próprio. Lancelot observou em silencio, depois saiu da arena quando o garoto foi carregado para fora.

- Coitado. – disse Gwynn, incomodado – Não deveriam tê-lo pressionado tanto.

- Então só restam Lancelot e a garota. – murmurei mais para mim mesma que para Gwynn, que mesmo assim anuiu.

Eu esperava que fosse um duelo bom. Felice era boa em desviar e explorar as fraquezas do inimigo, coisa que Lancelot parecia saber bem.

E ele não a deixou piscar.

Ouviu a palavra que dava início a disputa, avançou com a arma em punho e deu uma finta no exato momento em que a garota o atacou. Desceu a espada nas suas costas, o que a jogou para frente e a fez quebrar o nariz em seu próprio escudo.

Gwynn soltou um assobio baixo.

- Desnecessário. – sentenciou enquanto a multidão explodia em aplausos. Desceu Billy de suas costas para que não visse Felice sendo amparada para fora da arena.

- Certo. – murmurei, sentindo as pernas tremerem levemente – Minha vez.

Busquei meu escudo enquanto Jay anunciava que Lancelot era o primeiro finalista do torneio de duelos, o que foi difícil de se ouvir em meio ao barulho que faziam.

Merlin esperava do lado de fora da tenda e me deu uma olhada sugestiva quando passei por ele na melhor impersonificação de uma guerreira confiante e mortal.

- Por que assistiu aos primeiros duelos? – quis saber enquanto cruzava os braços.

- Eu quis ver como Leon iria se sair. – respondi evasiva.

- E como ele se saiu?

- Ele quebrou o tornozelo.

- Oh. Lancelot?

- Não, mas poderia ter sido. O penúltimo oponente se recusou a duelar com ele e uma garota teve o nariz quebrado.

- Animador. Agora, lembre-se que para chegar nele você precisa bater os anteriores.

Eu anui, começando a andar.

- Você não vem? – quis saber depois de dois passos, ignorando o quão dependente isso poderia soar.

- Estou bem atrás de você. – ele concordou com um sorriso.

Quando alcancei a arena Jay anunciava o primeiro duelo. Não consegui prestar atenção porque Lancelot estava no outro lado, observando como um carrasco que vê seu condenado e se pergunta se a corda esta longa o suficiente. Tentei ignorar ao máximo, enquanto o elmo debaixo do braço pesava cada vez mais.

- Você vai se sair bem. – murmurou Gwynn acompanhando meu olhar – Pode ter certeza.

- Eu queria ter esse confiança. – sussurrei de volta, não tendo certeza se tinha me ouvido.

Meu primeiro duelo foi acompanhado por uma salva de palmas e não tive muita certeza do motivo. Talvez porque havia caído do cavalo horas antes. As pessoas adoram um azarão. Quando Jay anunciou meu nome Gwynn me plantou outro beijo na testa antes que entrasse na arena.

- Vou precisar algo bem melhor se vencer. – falei, tarde demais para me dar conta de que meus pensamentos e minha língua estavam em perfeita sintonia. Me virei alarmada, mas Gwynn sorria da mesma maneira gentil dee quando Leon entrara para seu segundo duelo. Devo ter falado baixo demais. Me convenci, enquanto colocava o elmo e abaixava a viseira a tempo de ouvir um “chute a bunda dele Avina!” vindo de onde Ellie estava.

Apenas isso já me ajudava a me isolar do mundo lá fora. Havia apenas eu e meu oponente. Os gritos e as vaias eram abafadas e minha respiração dominava dentro do elmo. Desde o princípio sabia que meu grupo era mais fácil que o de Leon e de Lancelot. Passaria com facilidade das primeiras disputas se conseguisse me focar no que importava. Manter a guarda erguida. Se movimentar. Não se jogar de cabeça. As dicas de Merlin surgiram na minha cabeça vindas do nada. Sorri, encontrando-o em meio à multidão.

As primeiras duas disputas foram fáceis, tão fáceis que me sentia como se estivesse voando. Ou fluindo como agua que se dobra para desviar e se junta para atacar numa velocidade e força. O primeiro oponente era Danny, um garoto magricela que podia dar problemas se lhe desse espaço. Não dei, acertando-o com o escudo e o jogando para o lado. Pobre Danny. Não se levantou, o que poderia ser tanto devido ao golpe, quanto por conta da maneira exagerada como via qualquer ferimento. A segunda foi Jenny. Estava apenas começando e por isso a deixei ganhar confiança até bloquear seu golpe e encaixar um ataque de baixo para cima em seguida. Quando lhe estendi a mão ela estava sorrindo.

- Obrigada por pegar leve e me fazer parecer boa. – ela sussurrou quando andávamos para fora da arena.

- Eu não fiz nada disso. – lhe assegurei, estendendo a palma da mão para ela bater – Bom trabalho.

Minha última oponente antes da final foi Kiara. Ela tinha um e noventa e cinco de altura e parecia um pequeno monte de placas quando veio em minha direção. Anuiu respeitosamente e ergueu a espada de treinamento bem maior que a minha. Colocava toda sua força em seus ataques, então não tinha tempo ou paciência para escudos. Segurou a sua espada de duas mãos e eu tive que canalizar as minhas energias nas pernas antes que ela me acertasse. Colocou todo o peso contra mim e tentou me empurrar para o cercado, meus braços ardiam e eu sentia que o oxigênio estava começando a ficar pouco. Suor descia pela minha testa e entrava em meus olhos, queimando. Trinquei os dentes quando senti a madeira do cercado contra minhas costas. Olhei para o lado e vi Merlin no outro extremo. Ele fez um pequeno gesto com a cabeça, sugerindo para avançar. Eu quis muito poder soltar Kiara e o colocar no meu lugar, para ver como era divertido. E então meus olhos se abaixaram para os meus pés e o da minha oponente. A resposta veio como um raio.

Finquei minhas botas na areia, amaldiçoando Jay por não nos dar uma superfície mais estável. Empurrei meu corpo centímetros para o lado, o suficiente para não ficar de frente com Kiara e segurei a posição por três segundos até que sentisse o peso de seu corpo mudando para a outra perna. E então enganchei sua perna que estava entre meus pés e a puxei para frente, fazendo-a cair para trás. Quando abriu os olhos minha espada estava pousada em sua garganta e só saiu de lá quando Jay anunciou meu nome como finalista. Assim que ouvi a confirmação do público joguei a espada pro lado e lhe estendi a mão que ela prontamente aceitou. Deu algumas tapas nas minhas costas e me congratulou, ao que pedi desculpas pelo jogo sujo. Kiara gargalhou e me deu uma última tapa que me fez dar dois passos de uma só vez.

Durante o intervalo para o duelo com Lancelot, Morgan acenou para que me aproximasse o que era uma boa desculpa para não voltar para Gwynn e Ellie. Meu irmão filmava tudo de sua câmera de última geração que faria inveja a qualquer turista chinês. A abaixou ao me ver tirando o elmo e me enfiou uma garrafa d’água na mão.

- Parabéns irmãzinha. – cumprimentou – Preste atenção com esse daí – apontou para Lancelot sem cerimônia – Porque deve estar planejando algo grande e malévolo.

- Morgan. – me peguei usando o mesmo tom apaziguador de Gwynn – Não foi nada.

- É o que eu vou dizer no hospital se ele te machucar. – meu irmão parecia estranhamente determinado a quebrar o pescoço de Lancelot, o que me divertia mais que alarmava.

- Hey, você normalmente é um amor de pessoa.

- Até mexerem com meus amores, isso é certo. – soltou a câmera para poder amarrar seu cabelo que começava a se soltar do coque baixo. O efeito que Morgan conseguia causar era tremendo e mesmo debaixo do sol que deixava todos com cabeças vermelhas e suando parecia ter saído do banho um minuto atrás. O que você é, um elfo? Pensei enquanto o observava.

- Vá, raio de sol. Trucide-o. – ele falou com os olhos esverdeados brilhando de humor.

- Eu vou fazer meu melhor. – prometi, beijando sua mão – A honra será toda minha.

Por mais confiantes que as palavras pudessem soar, já não tinha tanta certeza disso quando me aproximei do meio da arena. A agua que havia bebido parecia chacoalhar em minha barriga, o que me fez ter medo de ter um acidente durante o duelo. Me recusava terminantemente a ser lembrada como “aquela menina que fez xixi nas calças durante a final” e por isso respirei fundo. Uma, duas, três vezes. Ignorei a multidão que gritava “Lancelot, Lancelot!” e o punhado de gente que cantava o meu nome e me foquei na movimentação. Levantei meu escudo e coloquei a espada na posição certa. Ao longe ouvi Jay gritar para começarmos. Como se fosse um sonho.

Por algum tempo apenas andamos em círculos, nos avaliando. Os dois já haviam visto o outro duelar e esperava mesmo assim ter uma carta na manga. Eu não tinha, mas podia apostar que por trás dos movimentos felinos que Lancelot sorria. A crina de cavalo voava ao vento, que foi um alívio bem-vindo depois de todo o calor. Atrás de Lancelot o céu mostrava os primeiros indícios de que o dia chegaria ao fim em algumas horas, tingindo-se de laranja, azul escuro e purpura gradativamente. Se não terminasse com aquilo logo teria que lutar a luz de velas. A ideia quase me fez rir, mas foi então que Lancelot investiu a primeira vez.

Ele foi rápido, disparando para o lado e fazendo uma finta no último momento para o outro. Mas eu não tinha mais paciência para seus truques ninja. Bloqueei o ataque e lhe arremessei o escudo no rosto, forçando-o a dar dois passos para trás. Recuperei minha respiração e avancei, tentando acertá-lo de cima para baixo. Mas seu escudo estava no lugar certo e com um golpe de espada empurrou minha lâmina cega para o lado. Tive tempo de me abaixar antes que tentasse um golpe horizontal. Movimente-se. Pensei a beira do desespero, sufocada pelo elmo.

Lancelot podia ter ouvido isso, porque seu próximo golpe foi direto em minha cabeça. Dei um passo para trás, mas mesmo assim sua espada encontrou caminho através da viseira. Pude ouvir o público prender a respiração e imaginar Morgan acenando para atiradores de elite estrategicamente posicionados. Mas então puxou a espada para cima, arrancando meu elmo e o fazendo voar para longe. As pessoas foram à loucura e eu cambaleei para trás, percebendo que estava servindo como brinquedo. Não estou aqui para que possa se amostrar. Pensei, levantando a guarda e me deixando cair em um novo ataque antes que ele pudesse perceber o que estava acontecendo. O ataque o pegou de surpresa, porque havia levantado metade da guarda antes do meu escudo arremessar o seu escudo cinco passos para o lado. O choque fez meu ombro explodir em dor, mas eu não lhe dei atenção. No lugar disso transferi toda a força que consegui para minha espada, fazendo-a rodopiar no ar enquanto disparava em direção a Lancelot, que ainda não tinha se recuperado da perda do escudo. O bloqueio foi fraco e arrastei a minha lâmina até ter apoio suficiente para girar o pulso e fazer sua espada voar para longe. Senti meus músculos se encherem de energia diante da reação do público e plantei meu pé direito em seu peito, empurrando-o para o chão.

- Renda-se. – sugeri, a ponta da espada direcionada ao seu rosto.

Meu coração batia tão rápido que tive medo de que pudesse ouvir. Então percebi que a arena inteira havia caído em silencio. Sentia o sangue pulsar na minha cabeça e imaginava o que Lancelot estava pensando. Não podia avaliar sua expressão por trás do elmo, por isso demorei a reagir quando o movimento veio. Em um momento estava de pé, no seguinte havia empurrado a minha espada para o lado e me dado uma rasteira. Me levantei de sobressalto, vendo-o se aproximar de sua espada. Não dessa vez. Pensei enquanto corria atrás. Sua mão havia se fechado na espada quando me arremessei contra ele. O virei para mim com as últimas forças que me restavam e me sentei em sua barriga para que não tivesse mais nenhuma ideia engraçada. O mantive no chão colocando todo o meu peso em uma das mãos e fechei a outra, levantando o punho erguido acima da minha cabeça.

- Renda-se. – murmurei ofegante e senti meu corpo relaxar o suficiente para dar um pequeno sorriso – Ou eu esmago sua cabeça.

Lancelot virou o rosto em direção ao lugar onde sua espada jazia e voltou a me olhar.

- Justo. – falou por fim.

E por estar tão próxima a voz me fez congelar.

Percebi movimento abaixo de mim e antes que conseguisse reagir fui cortada.

- Agora sem escândalo. – assegurou Lancelot – Ou quer privar o público de ver o rosto do segundo lugar?

- Primeiro diga que se rende.

- Ora vamos...

- DIGA!

Lancelot deu um pequeno suspiro de frustração. Depois encheu os pulmões e gritou:

- Eu me rendo!

O público reagiu em um misto de êxtase e arquejo de surpresa. Não podia culpá-los.

Enquanto eu tentava processar o que estava acontecendo Lancelot se levantou e puxou o elmo de sua cabeça, revelando cabelos castanhos que chegavam em sua cintura.

O que não seria uma surpresa tão grande se o rosto que era emoldurado por ele não fosse o da menina mais bonita que eu já vira.

Notas finais
ohhhhhhh. No proximo capitulo: Avina ganha sua recompensa e o plot aparece para fazer um papel secundario.
KISSESS, comentarios alimentam meu animo para continuar :))