Notas iniciais
EU SINTO TANTOOO PELA DEMORA POR FAVOR NÃO ME ODEIEM.

Havia muito barulho ao meu redor. Tanto barulho que meu reflexo foi fechar olhos para tentar afastá-lo. As silhuetas dos meus amigos jogavam sombras sobre mim e eram uma muralha protetora bem-vinda. Porque as lágrimas tinham sido enxugadas pelas minhas mãos secas, mas meu rosto estava paralisado. Tentava balançar a cabeça diante das perguntas apressadas de Dianne e sua expressão denunciava que não estava sendo convincente.

Olhava para todos e para ninguém em especial até que uma figura de armadura completa abriu caminho entre as pessoas que me cercavam. Nem teve a consideração de tirar seu elmo, o que abafou a voz que escapou da viseira.

- Ela está bem? – quis saber e tive vontade de levantar e dar um mortal de costas para mostrar que nunca estivera melhor, mas Morgan entrou na frente. O que talvez fosse melhor.

Estava sentado atrás de mim, me apoiando e garantindo que pudesse respirar corretamente até decidir o que fazer. Seus olhos azuis fuzilaram o falso cavaleiro.

- Ela parece bem para você?! – sibilou – É uma competição demonstrativa, idiota. Aleijar os oponentes não está na programação.

- Ela caiu de mau jeito. – veio a resposta – E não parece ter quebrado nada, me parece que estão fazendo tempestade em um copo d’água.

- Escute, por que não vai brincar de cavaleiro em outro lugar? – Dianne falou e lhe deu as costas, indicando que a conversa havia acabado.

Quase senti pena. Dianne conseguia despertar nas pessoas um sentimento de que sua presença não é desejada de uma maneira que deixava qualquer um sem resposta.

“Lancelot” provava essa experiência agora e deu de ombros, afastando-se.

Leon deu um sinal positivo para Jay, que parecia confuso sobre ir ou não checar se eu havia quebrado alguma coisa.

- Eu vou ter uma pequena conversa com Jay. – comentou Morgan olhando para o organizador do evento – Eu quero aquele cara fora da competição.

- Foi culpa minha. – consegui dizer enquanto a voz de Jay anunciava ao microfone que eu não havia morrido – Fui lenta demais.

As palavras de Jay acalmaram as pessoas nas arquibancadas. Deixei que Leon e Dianne me apoiassem enquanto me levantava. Os rostos dos dois saíram de foco durante algum tempo, mas consegui dar um pequeno sorriso alentador.

- Devagar agora, coração valente. – falou Dianne – Não queremos que tropece.

Leon suspirou diante do comentário e eu repremi o riso. Fui meio guiada, meio arrastada de volta à tenda de preparação e quando a aba foi puxada para o lado vi que estava vazia. Fui cuidadosamente depositada sobre um dos baús de equipamentos.

- Eu vou procurar alguém para ajudar. – disse Leon – E talvez um pouco de água caísse bem.

Parecia meio perdido em meio a tudo aquilo, mas deixou a tenda bastante decidido. Dianne se agachou ao meu lado e suas mãos tocaram as minhas com gentileza.

- Não como você imaginava, não é? – disse com suavidade.

- Está tudo bem.

- Sim, posso ver isso. – retrucou e afastou tufos de cabelo para conseguir uma visão melhor do meu corte – Sua mãe não estaria nem um pouco satisfeita.

- É verdade. – respondi e senti minha garganta se fechando novamente – Você poderia checar se Morgan não está cobrindo Jay de ameaças, ou pior, seguindo sir Lancelot com uma tocha?

Dianne entendeu e se levantou de vez.

- Eu poderia ajudá-lo com a tocha. – sugeriu com um meio sorriso e depois se voltou para mim — Não saia em nenhuma aventura por aí, vou encontrá-lo e arrastá-lo de volta.

Agradeci e quando o tecido balançou cobrindo a sua saída suspirei longamente.

Que papelão. Pensei, sentindo as lágrimas voltarem. Minha cabeça pulsava e tinha certeza de que algo estava errado com meu braço direito, mas o que me corroia por dentro era a derrota. Com suas garras e palavras maldosas. E de repente me lembrei do meu pior defeito.

Foi durante uma das sessões quebra-gelo de uma matéria que havia me fugido da memória há muito tempo. O professor achara por bem começar as apresentações entre um grupo de pessoas que mal se conhecia através de um jogo. Estivera muito animado durante todo o processo e não percebeu como estava alcançado o contrário do que pretendia. Consistia em simplesmente se virar para a pessoa ao seu lado e dizer seu maior defeito e maior qualidade. O que faria sentido se não tivéssemos nos conhecido três horas atrás. Dianne se sentara ao meu lado, mas não havíamos trocado nenhuma palavra até aquela aula. Sua presença era um pouco intimidadora para mim com seu rosto marcante, grandes olhos castanhos e atitude relaxada. Todos os meus músculos estavam tensionados quando se virou para mim, piscou os olhos e declarou que me achara presunçosa. O professor parecia tocado pela palavra empregada (a maioria havia usado coisas como “tímida” “vaidosa” ou “idiota”), mas eu fiquei completamente confusa durante semanas tentando entender o que aquilo significava. E o que significava a determinação com que Dianne tentava se aproximar de mim, se me achara tão desprezível à primeira vista. Nunca tocamos no assunto com o passar dos anos, mas a dúvida se instalara em minha cabeça e sempre me encontrava. A coisa engraçada é que não fazia ideia de qual fora a qualidade com que me descreveu. Talvez não importasse.

A aba da tenda levantou-se novamente e me fez sobressaltar.

- Tente não se jogar do baú. A queda ainda seria considerável. – cumprimentou Merlin.

- Veio se divertir? – a pergunta saíra mais defensiva que pretendia, mas Merlin não pareceu incomodado.

- Vim cuidar de você. – respondeu, abaixando-se em minha frente – Você está tirando o canhão inferior errado, vai acabar quebrando.

Puxei o meu braço para longe de seu toque. Estivera tentando remover a parte da armadura que cobria meu antebraço machucado e a frustração viera acompanhada por uma dor aguda.

- Eu posso fazer isso. – assegurei com teimosia.

- E por mais que eu gostaria de vê-la tentar, preciso agir rápido se não quisermos explicar como consegui curá-la tão rápido. Parecem ser novos tempos, mas pessoas costumavam serem queimadas na fogueira por coisas assim.

- Às vezes esqueço como você é velho. – suspirei, estendendo o braço em sua direção.

Um minuto depois Merlin havia me livrado das placas metálicas, revelando uma mancha arroxeada que, eu que tinha que admitir, era um pouco impressionante.

- Não acredito que não aprendeu a cair.

- Eu aprendi! – respondi exasperada – Apenas não estava preparada para cavaleiros ninjas!

- Ninjas? – Merlin franziu o cenho.

Balancei a mão saudável e olhei para o lado oposto da tenda.

- Não importa.

- Bem – ele continuou, recobrando seu tom de superioridade — eu tentei avisá-la.

- Telepatia apenas funciona quando as duas pessoas estão engajadas na conversa, Merlin.

- Então você deve se esforçar mais.

Estava prestes a responder algo que provavelmente não o agradaria, quando o rapaz murmurou um punhado de palavras sem sentido. O azul em seus olhos mudou para dourado e logo voltou ao normal. Merlin inspecionava o local que agora estava livre do hematoma e quando ergueu os olhos para mim piscou confuso.

- Está doendo ainda?

- Está perfeito. – respondi com um sorriso – Então é um padrão, seus olhos mudam quando está fazendo algum feitiço?

- Suponho que sim. – Merlin recuou como um animal tímido que recebera atenção demais.

- É bonito. Acho que me poupou de alguns dias de analgésicos. São remédios para diminuir dores. – acrescentei rapidamente – Acha que daria um jeito no corte na cabeça também?

- Feitiços consomem muito da minha energia. – desculpou-se – Ando praticando, mas acho que seria demais.

- Bom você não daria um tapete legal de qualquer forma se desmaiasse de exaustão. – comentei – E talvez a cura instantânea levantasse suspeita.

Merlin anuiu.

- Mas o machucado na cabeça não é nada demais. Nada que a impeça de competir nos duelos.

Havia passado ao trabalho de remover o resto da armadura. Era mais lenta e desajeitada que Merlin, mas com os dois braços funcionais as coisas ficavam mais fáceis. Quando ouvi as palavras de Merlin ergui a cabeça.

- Competir nos duelos?

- O homem com voz estranha anunciou que os dois finalistas tinham vaga garantida nas competições de mais tarde, não foi? E seu braço está bom de novo.

- Eu não acho que queira participar Merlin. – respondi com a boca seca. Não o confessaria para mais ninguém, mas Merlin havia salvado minha vida naquela queda, lhe devia ao menos sinceridade. Por mais covarde que soasse.

- Eu achei que isso fosse importante para você.

- É apenas um festival, posso me divertir da arquibancada.

Merlin parecia anuir por um momento, como se fizesse pouco caso. Depois quebrou o silêncio.

- Você está com medo.

- Não estou.

- Está com medo porque sabe que chegará ao último duelo e não quer enfrentar o mesmo oponente de novo. Ele teve sorte por você não saber que conseguia mudar a mão da lança tão rápido. Era sua única vantagem e não a terá durante o duelo.

- Sim, mas e se eu perder?

- É apenas um festival. – disse Merlin com um sorriso atravessando o rosto.

- Eu gosto da sua maneira de pensar. – suspirei, sentindo a ideia se espalhar em minha mente. Era instantaneamente abafada pela sensação de falhar, pelo orgulho ferido. Mas Merlin a havia plantado.

Merlin abriu a boca, mas antes que conseguisse falar Gwynn entrou na tenda com Ellie a tiracolo. O rapaz usava jeans gastas e uma camiseta roxa, seus olhos estavam preocupados quando encontraram os meus.

- Não foi nada demais. – me apressei a dizer.

Ellie empurrou o seu irmão para o lado. Com sua jardineira e boné verde-neon virado para trás parecia saído de um desfile de moda exótico, mas claramente não se importava.

- A sua queda foi demais Avina! – disse animada com as mãos nos quadris – Eu achei que tinha quebrado o braço, no mínimo!

- Está usando o tom errado de novo. – observou Gwynn envolvendo o ombro da irmã com o braço livre e dando um sorriso conciliador para mim – O que minha pequena irmã quer dizer é que se sente muito feliz por vê-la inteira.

- Isto não é o que eu quis dizer. – bufou Ellie – Mas obrigada pelo convite Avina, os garotos estão tendo o melhor dia de suas vidas.

- Eles pensaram que veriam apenas cenas ensaiadas. – explicou Gwynn que só agora parecia se dar conta da presença de Merlin. Levantou a mão direita que segurava um pequeno frasco e um pano limpo – Do nosso kit de emergências para passeios, achei que poderia ajudar com esse corte. E você é...?

- George. – disse Merlin antes que eu pudesse abrir a boca, o que fora uma escolha sábia. No meio da confusão o seu nome verdadeiro já estava em meus lábios – Eu ajudo nos preparativos para as competições.

- Um pajem de verdade! – guinchou Ellie, tendo dificuldades para se manter quieta.

- Mais para um escravo.

- George leva muito a sério o personagem. – comentei dirigindo-me a Gwynn. Surtou efeito, porque sua atenção se desprendeu dele e voltou para mim – Mas é muito útil e me ajudou com os machucados.

Gwynn baixou o olhar para o frasco.

- Talvez seja melhor que ele te ajude. Eu só pensei...

- Não tem problema. – assegurei – George já estava de saída.

- Estava?

- Estava. – olhei para ele com meu melhor sorriso – Você iria checar se Smoca estava bem, não era? – me virei para Ellie, que estava ocupada encarando o corte em minha cabeça a menos de um palmo de distância – Aposto que Smoca merece uma maçã depois desse estresse.

Os seus olhos se iluminaram. Correu para a abertura da tenda e empurrou o tecido para o lado, mantendo-o aberto para Merlin passar.

O feiticeiro parecia menos empolgado com a ideia. Olhou de mim para Gwynn e pensei tê-lo visto revirar os olhos quando se rendeu, acenando em despedida com ânimo próximo a zero.

- Você encontra companhias das mais interessantes. – comentou Gwynn quando ficamos sozinhos. Estava tendo um momento difícil com a proximidade entre nós e tentava ver em seus olhos qualquer sinal de que estava decepcionado.

O pano já estava molhado com água e fiz uma careta quando senti a umidade fria contra minha pele.

- Queixo para cima.

- Não é novato nisso. – comentei me virando para observá-lo molhar o pano com o líquido de desinfecção.

Gwynn me olhou e sorriu paciente.

- Não sou, mas crianças de seis anos cooperam melhor que você.

Segurou minha cabeça gentilmente e fingiu não ouvir os palavrões que saíram da minha boca quando o pano tocou a minha testa.

- Agora, meus irmãos querem saber se vai participar das competições durante a tarde. – falou, guardando as coisas – Eu disse que por mais corajosa que seja talvez os machucados fossem graves demais para isso.

- Esse risco na testa não vai me impedir. – respondi, satisfeita por sair mais firme que eu me sentia.

- Nesse caso você talvez queira encontrar Jay antes que Morgan consiga cancelar todo o evento. Quando passou por nós parecia um pequeno vendaval de indignação. – Gwynn deu um pequeno sorriso – Eu não o culpo.

- Já estou feliz por não estar atrás de Sir Lancelot. – respondi, pronunciando as últimas palavras em tom especial – Na maneira em como estava focado não me surpreenderia se sacasse a espada e o cortasse ao meio.

- Avina – começou em tom apaziguador – O importante é que ninguém se machucou seriamente.

- Além do meu orgulho. – bufei depois me forcei a respirar fundo. Talvez Gwynn ainda não estivesse pronto para me ver no meu melhor estado. Levantei-me do baú – Então, afim de batata frita para o almoço?

Gwynn sorriu. Suas sardas acompanhavam o levantar das bochechas. E de repente fui preenchida por uma vontade incontrolável de beijá-las. Beijar uma por uma e depois descer até seus lábios... Seu sorriso era um convite e ao mesmo tempo um desafio. Quando me dei conta ele estava diante de mim, reduzindo a distância entre nós a poucos centímetros. Queria beijá-lo, ou melhor, queria que me beijasse. Queria testar se seus lábios eram tão suaves como pareciam.

Inclinou-se em minha direção e beijou o topo da minha cabeça. Eu me dei conta do peso da minha mão sobre seu braço e fiz o que deve ter sido o desvencilhamento mais teatral que o mundo já presenciou e lhe virei as costas para que não visse meu rosto em combustão espontânea.

- E então – falei num tom agudo demais encarando um buraco na lona – Batatas fritas?

- Parece ótimo. A refeição ideal para uma cavaleira em formação.

Enfiei-lhe o cotovelo nas costelas e fiz o máximo para ignorar sua risada.

Notas finais
Sorry pelo atraso, sorry por esse capítulo não acrescentar efetivamente nada, sorry por ser tão negligente.
Em minha defesa, minha vida nas últimas semanas beirou o caos. Relatórios de estágio para entregar, preparativos de viagens para fazer, congresso científico e todo o mais. Me sinto na obrigação de justificar porque é inadmissível. *drama queen*
Bom, pros que ainda não sabem em menos de duas semanas vou estar partindo para Inglaterra para passar um ano estudando por lá. Então vou avisando que tentarei ao máximo deixar o próximo capítulo pronto para só ter que postar, mas não é garantido que seja postado no tempo certo. SORRY DDD:
Enfim, a esperança existe e talvez os ares ingleses me ajudem a ter uma inspiração melhor para a fic (??????!!! hahaha).
Beijos beijos e comentem pls! (: