O Último Grito
1 O último grito
Notas iniciais
O ÚLTIMO GRITO
Deitado naquela sala branca, meus olhos procuravam um escape das terríveis lembranças que me atormentavam há muito tempo. Nada parecia me salvar daquela escuridão terrível, sem dormir, sem comer direito, meu corpo estava enfraquecendo cada vez mais, a ponto de cada passo que eu desse eu podia sentir o longo metal que o imperador da escuridão carregava contigo.
De repente, escuto alguns ruídos similares a uma agulha encostando-se a um disco. Aparentemente, tinha uma vitrola ao fundo daquela sala.
— Pode começar senhor, estou aqui para ajuda-lo.
Meus olhos agora se fixavam na criatura que se dirigia a uma cadeira confortável em frente ao meu sofá, sentou-se, olhou no fundo de meus olhos e a penas dirigiu um sorriso, fitou uma prancheta que havia em suas mãos e voltou a olhar para mim com uma cara não tanto agradável quanto apresentara segundos atrás.
— Senhor, estou aqui para ajuda-lo, preciso que se abra conosco e assim poderemos ver o que será possível para se recuperar do seu ... trauma.
Olhando mais atento com meus olhos ainda forçados e cansados, consegui definir os traços e me vem a expressão de que aquela pessoa já me era familiar. Não estava conseguindo raciocinar direito, deveria ser porque o meu cérebro não estava oxigenado o suficiente para pensar, mas isso não vinha ao caso.
— Quem é você? – Falei olhando pra ele que não demonstrava nenhuma surpresa em minha pergunta, como se ele convivesse com isso todo dia.
— Provavelmente você não deve se lembrar, sou o seu psiquiatra, estou aqui para ajuda-lo a recuperar suas lembranças e poder voltar a viver em sua casa sem se preocupar com o que tem ocorrido.
— Me desculpe, mas não me lembro do senhor, tampouco do que aconteceu comigo. Até onde me lembro bem, estou doente a alguns dias, e aqui estou eu de repente, com o senhor.
— Alguns dias? Sua saúde está no estado grave há 2 meses, senhor. O senhor permaneceu no hospital psiquiátrico desde então.
2 meses? Onde foram parar todos esses dias que não me lembro? O que será que está acontecendo? Meu cérebro dói, quero morrer...
— Antes de o senhor perder a consciência da situação, disse-nos que estava tendo pesadelos. E por isso não queria dormir, o senhor poderia tentar se lembrar de que pesadelo estava falando? Mas não force muito sua cabeça, pode prejudica-lo.
— Pesadelos? Não me lembro de nada familiar.
— Pois bem, irei usar uma técnica de hipnose, o senhor aceita?
Hipnose? Será que é verdade? Apesar de eu não querer fazer, preciso lembrar o que tenho ocorrido comigo e por que.
— Aceito...
O psiquiatra então, se dirigiu até a vitrola, trocou a posição da agulha e outra música começou a tocar. Bem elegante e calma de primeira aparência, ouvindo-a consegui relaxar tão bem quanto há muito não relaxava.
— Preciso que feche os seus olhos e siga apenas o que eu falar, nada mais. Se começar a sentir algo desconfortável não hesite em abrir os olhos, quero que retrate tudo que vê. Certo?
— Certo, doutor.
No começo parecia estranho, minha mente estava vazia e nada parecia fazer sentido, isso realmente estava dando certo? Mas ao passar de alguns minutos, lembranças me vinham a mente, e eu ia lembrando detalhe por detalhe. A única coisa que pensei em fazer é contar para o doutor o que eu estava vendo.
- Estou vendo doutor. Estou vendo ...
Foi um dia cansativo porém divertido, a festa foi legal, meus amigos todos estavam presente, nunca pensei que poderíamos está tão unidos depois de 10 anos. A única coisa que eu pensava em fazer era dormir, me encaminhei à cama, apalpei o relógio meio sem jeito para ajeitar uma posição favorável à minha visão, logo que eu pudesse ver as horas. 22:40.
Fechei meus olhos e tentei dormir, logo apaguei e sem perceber entrava em uma escuridão profunda sem pensamentos nem sonhos. Apenas o vazio de minha mente. 22:50
Logo percebo que perco a noção de tempo e ainda nesta terrível escuridão, fico agoniado para ter algum sonho. Estranho, mas o meu pedido estava sendo concretizado e eu comecei a sonhar.
Percebo que não estava em um lugar diferente, estava em frente a minha casa, mas não parecia ser eu quem estava sonhando, eu não tinha sentimento próprio, não tinha forças para andar, apenas observava a minha casa. Pela pouca claridade dos postes ali, era tarde da noite e a rua se encontrava deserta. O meu corpo logo anda por si só, não sendo eu quem o controlava, achei estranho mas deixei seguir. A porta da frente estava aberta, então o meu corpo só se deu o trabalho de empurrá-la.
A garagem estava vazia, não havia nenhum carro no local, o que era estranho a julgar pelo horário, mas o meu corpo não parecia se importar com isso, a penas olhava fixamente para a porta da frente de vidro, a transparência mostrava a área da frente vazia, com apenas alguns móveis.
Ao canto do meu olho eu via uma nítida sombra não muito grande, mas familiar ao corpo humano, e meio que em sincronia, a minha visão se encontrava com a dele e eu me sentia cada vez a estranha sensação de está sendo possuído pela escuridão.
Meio que desaparecendo, o corpo ia caminhando até a porta da frente, cuja estava encostada, assim como a primeira. Empurrando-a para trás, ela se abriu e foi possível ouvir sons abafados de uma respiração ofegante. Era a minha.
Passando pela primeira sala, que era a de visita. ‘Entramos’ numa segunda sala, a de televisão, ignorei os traços mal definidos, pelo meu ver, era tudo um sonho. Não havia motivos para que estivesse tudo em perfeita ordem. Mas o que me assustou foi que o copo que eu havia deixado em descanso ao lado do sofá estava lá, assim como estava há algumas horas antes de eu me encaminhar a cama.
Meu corpo se dirigia até o corredor onde estava os quartos e o banheiro, e percebi que meu coração palpitava cada vez mais, podia senti-lo como se estivesse na palma da minha mão. Já não respirava mais pelo nariz e sim pela boca, sentia ansiedade, e os sentimentos, só pioravam cada vez mais. Eu realmente estava sendo dominado pela escuridão. Estava passando de um sonho à um pesadelo.
Olhou para os lados e em hesitação, meu corpo colocou a mão destra na maçaneta de minha porta ao mesmo tempo em que a esquerda apertava com força a lateral de minha camisa. Seja lá o que estava no meu corpo, parecia está nervoso, indeciso, mas a cima de tudo, com rancor, ódio e sede de sangue. Parecia uma figura demoníaca, não podia ser algo natural, nunca. Meu coração fazia uma sinfonia com o barulho da porta rangendo, a cada instante em que ela se abria, ele disparava.
O momento estava se tornando concreto, eu estava vendo as coisas acontecerem tão lentamente que parecia durar uma eternidade, em meio aos sentimentos, consegui achar um lugar em minha mente que não estava dominado pelo ódio, mas era dúvida. Estava tudo muito confuso, apesar da demora para a porta se abrir, o tempo não era o bastante para eu compreender a situação, resolvi desistir de elaborar pensamentos lógicos, só estava palpitando mais minha cabeça com dores horríveis. Resolvi ‘sentar, pegar uma pipoca e assistir o filme’.
Depois de um leve suspense, veio o espanto maior, a porta se abriu e meu coração congelou, cessando as batidas no mesmo momento em que a porta se encontrou totalmente aberta. Agora estava claro o motivo de todo esse suspense, aquilo não era lógico, chegava a ser impossível, só podia ser algo da minha cabeça. Mas como?... Como um pesadelo podia ser tão real?
Quem estava deitado na cama, era eu. Na mesma posição que costumo dormir, fitando a parede com os olhos fechados, dormindo tranquilamente deitando a cabeça no travesseiro, segurando a coberta e com os pés meio fechados.
Eu estava me observando dormir? Algo assim poderia ser possível?
O corpo em que eu estava dentro se pois a sorrir, e agora estava claro. Esse ser queria me espantar, por isso me trouxe aqui. E parecia que eu estava recobrando a consciência pois a partir daquele momento senti que podia me mexer, logo como primeira reação tive que apertar meu braço para confirmar que estava em um sonho.
Dor... foi tudo que senti naquele momento. A terrível dor de está sendo apertado pela minha mão, mas estava tudo somado a terrível descoberta de que eu não estava dormindo, era tudo... real! Como pode alguém sentir dor em um sonho? Não podia ser um pesadelo, era tudo verdade.
O corpo que estava dormindo, o verdadeiro eu, agora se virava. Como? Se estou aqui, como ele pode está se mexendo? Ele se virou e ainda se encontrava dormindo, tudo indicado pelos olhos que ainda se encontravam fechados. Senti um alívio, apesar de pouco.
Negros... aos poucos os olhos foram se abrindo e eu pude observar a malícia daqueles olhos totalmente negros, não havia nenhum índice de piedade naquela alma, a feição era pálida, extremamente branca. E os traços eram definidos perfeitamente igual aos meus.
Meu coração não aguentou, voltou a palpitar extremamente forte, e o ser parecia sentir isso, se alegrando cada vez mais. Esboçando um terrível sorriso, apavorante. Ele me olhava como se fosse me engolir por inteiro com os olhos sedento por um pingo de bondade para devorar e transformar em tristeza.
Fechei os olhos, ainda em pé foi minha única solução, fugir daquele momento terrível, apagar a terrível imagem de meu corpo está sendo dominado por uma criatura horrorosa.
Por que? A única pergunta que ecoava em meus pensamentos. Esqueci totalmente do resto. E fui lembrando. Percebi então que já havia visto aqueles olhos antes, não só uma ou duas vezes, mais dezenas ou centenas. Era subitamente familiar.
Uma vez, num beco não muito estreito vi uma figura similar aquela ao canto de meu olho, apenas ignorei. Outra vez na faculdade, a noite, no estacionamento, também ignorei. E sim, muitas vezes em meu quarto em meio a escuridão e iluminação do poste ao lado de minha janela, a criatura estava ali, seja ao lado de meu guarda roupa me fitando, ou seja na boca de minha cama, sempre demonstrando ódio. Mas por que nunca demonstrei interesse nela? E por que somente agora ela resolveu se revelar para mim?
Nada mais fazia sentindo, e tampouco era o tempo que eu tinha para pensar, eu sentia que não iria passar daquilo, o meu momento chegou. Um último suspiro de vida foi me dado e eu o recebi de bom grado. Respirei fundo já sabendo o que me aguardava a alguns centímetros de mim.
Abri meus olhos, fitei a criatura.
— A morte mandou-lhe me buscar?
— Ainda não. – Disse ela esboçando o sorriso mais uma vez.
Logo o cenário mudou de repente, e eu percebi que voltei a sala branca de terapia, procurei o doutor pela sala e não achei. Suspirei e senti que estava vivo.
Alívio... estava feliz de ainda não ter morrido. E pensando aos poucos, percebi que a gente sempre vê a morte, mas apenas ignoramos ela. Mas ela não nos ignora, ela nos observa de longe, seja como outra pessoa ou seja como sombras que nos cercam por volta a escuridão.
— Gostaria de conversar sobre isso?
Ouvi uma voz atrás de mim, provavelmente do doutor.
— Sim, é tudo muito confuso. – Eu disse me virando para confirmar a vista.
De novo não... Olhando para trás me deparei com a criatura de antes. Os olhos negros me fitavam, e o terrível sorriso me perseguiu até aqui. Ela estava ali, atrás do doutor olhando para mim. Não resisti. Fechei os olhos e só pude fazer uma coisa.
Dá o meu último grito.
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