O Último Final Feliz
9 Capítulo 9
Notas iniciais
"Recapitulando...
Um sonho estranho.
Um velho me perseguindo.
Um incêndio que aparentemente foi causado por mim, porque simplesmente escrevi algo em algum papel insignificante.
O velho que me perseguia me deu a caixinha que eu não consigo abrir e disse que eu era uma guardiã e que a caixinha só abriria se eu encontrasse o outro guardião, o que poderia nunca acontecer.
Jake estava estranhamente rápido demais no jogo. E então, eu descubro que ele é o outro guardião.
Uma marca de um espada e uma pena entrelaçadas, flutuando sobre um livro aparece em meu pulso de repente e quando Jake vem me toca, aparece uma no dele também."
Ok. Por mais que eu tenha organizado tudo em um caderninho, para clarear minhas ideias, estou há meia hora no banheiro feminino – onde aquele insuportável não pode ficar me perturbando – olhando para as folhas escritas e tudo ainda parece um sonho ridículo que se acabará em um abrir de olhos.
Espera.
Ele disse que a caixinha se permitiria ser aberta quando estivéssemos juntos. Eu não tentei abrir a caixinha desde aquela manhã em que quase fiquei cega. Talvez isso traga mais respostas.
Mas será que quero mais respostas? Posso simplesmente fingir que nada aconteceu e seguir minha vida...
Não tenho muito mais tempo para ficar refletindo isso, já que deu meu horário de voltar para aula. No caminho compro um suco em uma das máquinas que ficam no corredor. O professor de geografia está sentado em seu lugar, lendo o material que vai utilizar para a aula, a maioria dos alunos já está na sala. Estranho ao ver Jake sentado na primeira carteira, mas tento ignora-lo de novo.
Sinto de repente um pé travando o meu e eu desequilibro. Felizmente não me esborracho no chão, mas o meu suco sai voando de minha mão e cai sobre todo o material do professor. Lentamente o senhor Parn levanta o olhar enfurecido pra mim.
— O que é isso?
— Desculpe, desculpe, eu tropecei e meu suco saiu voando. – Digo desesperada para o professor. Mas ele só parece mais enfurecido.
— O que está fazendo garota? Porque está falando comigo em grego? Acha que isso tudo é uma grande brincadeira?
Grego? Ele está ficando louco?
— Não! De jeito nenhum, senhor. Desculpe-me. – E então percebo que apesar de estar pensado perfeitamente em inglês, as palavras que saem de minha boca na verdade são em um fluente grego. A sala dá risada como se eu estivesse fazendo realmente piada.
Ah! Mais essa agora?! Eu nem falo grego!
— Já que está tão animada para brincar, pode ficar brincando na detenção após a aula, senhorita Locke. – O senhor Parn diz severamente e eu fico boquiaberta. – Agora, direto pro seu lugar, antes que eu aumente para bem mais que apenas uma tarde.
Ando lentamente até uma mesa mais ao fundo tentando entender o que acabou de acontecer. Atualmente, nada pode ser chamado de normal na minha vida. Bufo e encaro de forma odiosa Williams, ele me lança um olhar de canto de olho e sorri.
Argh, insuportável!
Não acredito que vou ter ficar mais de uma hora depois da aula por causa dele. A minha primeira detenção em anos é por algo que eu nem fiz!
Passo o resto da aula emburrada. A detenção vai me atrasar para tudo. Eu preciso editar dezenas das fotos que eu tirei, muitas são para o jornal escolar desta semana e precisam ser entregues o quanto antes.
— Oi. Um, dois, três, testando. – murmuro algumas vezes para ver se voltei a falar em inglês e na maioria das vezes eu falei normalmente, mas em algumas outras as palavras saíram em línguas que eu não fazia a mínima ideia de quais eram.
Será que Jordan vai gostar do presente que comprei?
Quem disse isso? Será que estou ficando oficialmente louca? Observo em volta procurando a pessoa que falou comigo, mas aparentemente ninguém nem olha para mim. Jordan é o nome namorado de Alisa, uma das garotas da turma, por isso a encaro, mas ela está longe e não poderia estar falando comigo sem que estivesse usando um tom elevado de voz.
Ai que fome! Se eu não tivesse dormido tão tarde teria acordado pro café.
Com os olhos arregalados olho em volta e vejo Allan com as mãos na barriga, ele faz uma careta e apoia a cabeça nas mãos.
Por que eu tenho que saber os tipos de pedras predominantes na cidade?
Vejo Tiffany encarar o professor com muito tédio e bocejar disfarçadamente. Ela percebe que a estou olhando, ela acena amigavelmente e faz uma cara engraçada imitando o senhor Parn, dou risada. Uma lâmpada se ascende em minha cabeça.
— Tiff, pense em um animal. – Murmuro e ela franze a testa, mas parece pensar. – Pensou? – Ela balança a cabeça afirmativamente.
Puff, ela nunca vai adivinhar que eu pensei em um Jabuti.
— Você pensou em um camaleão? – Falo qualquer outro animal, já que se eu acertasse ia ser muito estranho.
— Não. – Ela soltou uma risadinha. – Jabuti. – Finjo decepção, ela faz menção de perguntar o porquê da brincadeira, mas o professor está mais atento e nós voltamos a prestar atenção. Contudo, eu já tinha minha confirmação.
Eu estava lendo mentes!
. ......
Entro pela porta da detenção com um pouco de vergonha, mas logo a vergonha passa quando vejo que o inspetor está largado na cadeira, com os pés sobre a mesa, ele nem levanta os olhos para me olhar. Encaro o lugar.
Ah não.
A única outra pessoa na sala é justamente a pessoa que pensei que ia me livrar por mais algum tempo. Jake Williams está sentado em uma das cadeiras, sorrindo vitoriosamente para mim.
— Senhorita Locke, que imenso prazer tê-la aqui. – Ele diz debochado.
— Vá se ferrar Williams. – Cruzo os braços e me sento o mais longe o possível dele, mas um centímetro e talvez eu estivesse atravessando a parede.
O inspetor boceja e olha no relógio e em seguida para nós. Ele se levanta com uma caneta e escreve alguma coisa no quadro.
— Parece que vocês são os únicos encrenqueiros do dia. Vou sair para resolver algo na diretoria, aqui no quadro estão alguns temas de redação. Volto em uma hora e quero uma redação de cada um pronta na minha mesa. – O homem pega uns papeis e sai da sala.
Analiso os temas no quadro e todos parecem bem simples. Escolho "A importância da reciclagem." Que me faz lembrar de quando era mais nova e começo a escrever minha redação. A cadeira na minha frente se arrasta e eu tento ignorar, focando no texto.
— Olha, eu não fiz você pegar uma detenção para ficar fazendo uma redação que sequer alguém vai ler. – Imediatamente o encaro.
É claro que ele fez de propósito, eu ainda tinha alguma dúvida?
— Ok, ok. O que você quer Williams? – Vejo o sorriso vitorioso aparecer em seu rosto, ele parece realmente animado por conseguir me fazer falar.
— Eu quero saber tudo o que aconteceu.
— Bem, eu não sei muito mais que você.
Decido finalmente abrir a boca, afinal ele não me deixaria em paz se eu não o fizesse. Contei tudo o que sabia a ele, até a teoria de que o incêndio tenha sido causado por mim.
— E aparentemente somos os guardiões de alguma coisa e agora temos uma ligação. – Termino de explicar. – Acho que essas marcas são a confirmação disso. – Aproximo o meu pulso do dele e a imagem fica mais forte, algo em minha mente me diz para tocá-la, por isso vou aproximando meus dedos finos lentamente para o pulso de Jake. Ele me observa em silêncio e franze a testa, aparentemente antecipando a dor que se seguiria.
Mas dor nenhuma veio. Na verdade, a marca dele foi contornada ligeiramente por uma luz branca brilhante e uma espada apareceu em sua mão direita. Nós dois olhamos para aquilo, surpresos. Jake parece bem animado com a espada, ele a analisa completamente.
— Wow, isso é muito louco! – Ele exclama. Minha atenção recai sobre meu próprio pulso esquerdo e delicadamente o toco também. Assim como aconteceu com o Williams, na minha mão direita surge algo: a caixinha de madeira. – O que tem ai?
— Eu ainda não sei. Toda vez que a abro, começa a sair luzes para todos os lados. – E então um estalo vem em minha mente. – Tive uma ideia. Coloca a espada em direção a tampa e no três eu vou abrir. Se a luz for forte demais, de jeito nenhum tente tampar os olhos com as mãos, apenas os feche naturalmente. Entendido, Williams?
— Ei! Desde quando você passou a dar as ordens aqui?
— Só faça o que falei. – E ele assente meio contradito. Jake coloca a espada na direção da abertura da tampa e eu ponho as mãos sobre a madeira. Nós contamos até três e eu abro a caixa.
A luz é extremamente forte, mas sou capaz de enxergar tempo o suficiente para ver parte da luz encontrar com a espada e refletir de volta para caixa. E então a luz acaba. Lentamente abrimos nossos olhos, foco em um ponto qualquer de Jake para acostumar minha visão. Não sai mais nenhum brilho cegante da caixa e eu posso finalmente ver o seu conteúdo.
A pena mágica!
— Uma pena? Para que serve isso? – Jake se aproxima da pena exuberante.
— É uma pena para escrever, aquelas que usavam antigamente para escrever cartas e documentos. Essa é como a do meu sonho, toda feita de ouro e pedras preciosas. – Eu poderia ficar olhando para aquele objeto deslumbrante por horas a fio sem me cansar. Até me esqueço da raiva por Jake me fazer parar na detenção. – No meu sonho eu usei a pena para escrever...
Viro a página que pretendia usar para escrever a redação e começo a escrever com minha letra delicada sobre o papel, a tinta que sai da pena é prata.
"Era uma vez..."
Quando termino de desenhar as três palavras, o clima a nossa volta começa a mudar. As cortinas da sala balançam fortemente e letras começam a sair da página como hologramas em filmes de ficção científica, mas não de uma aparência moderna, na verdade, mais como algo tirado do século XVIII. As letras começam a nos rodear e a cobrir toda a nossa visão do cenário a volta, me sinto tonta, mas não deixo de olhar maravilhada para aquilo tudo. É tão... mágico!
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