O Último Final Feliz
5 Capítulo 5
Notas iniciais
“Jake derrubou o adversário e pulou para pegar a bola. Com o objeto oval de couro em mãos ele corre, desviando de mais e mais gigantes. A torcida está tensa. O que há de acontecer? Os Tigres de Tale City conseguirão desempatar e derrotar os Mamutes de Oscar Millian?
Jake não arrisca olhar para a grande plateia, qualquer distração pode ser o fim da temporada para os Tigres. Todo o caminho percorrido parece-lhe uma mistura da câmera lenta e do modo velocidade em dobro, rápido demais para se ver qualquer coisa ao certo, contudo, lento demais para o peso de sua ansiedade. Um mamute vem em sua direção com força, mas Jake lança a bola para um de seus colegas de time e se joga na tentativa de desviar do oponente.
O outro Tigre, Caion, consegue receber a bola arremessada por Jake e corre. Mesmo sem a bola em mãos, o primeiro garoto corre também, acelerando ainda mais que o com o objeto de couro e lhe fazendo sinal para devolver a jogada. Jake recebe a bola, mas a atira logo em seguida com bastante velocidade.
O garoto é capaz de ouvir sua respiração acelerada, afinal, o estádio está tão silencioso quanto poderia ficar. Todos os jogadores observam a bola voar longe e... Acertar bem no aro!
O sinal de fim de jogo pode ser escutado alguns segundos após e a torcida vai a loucura. Os tigres ganharam o jogo e agora poderiam se preparar para as próximas fases. Colegas de time erguem o grande herói da partida e o comemoram euforicamente. Uma banda começa a tocar e vários fogos de artifício estouram no ar. Parece tudo muito irreal.
Jake é colocado no chão à frente de um homem estranhamente familiar, ele abre o casaco e tira de lá uma espada reluzente. Quando ele retira a espada da bainha um flash de luz lhe ofusca o olhar e um barulho de lâminas chocando-se pode ser ouvido, quase conseguindo ensurdece-lo...”
Tiiiiiiiiiiiiiim, tiiiiiiiiiiim.
Jogo o travesseiro no despertador que cai no chão e continua tocando. Bufando, levanto e pego o despertador para que ele não acorde a casa inteira.
Que sonho perfeito. Tudo o que eu mais quero agora é ganhar o torneio eliminatório e poder ir pra próxima fase do torneio de futebol americano. É claro que tinha aquele cara estranho. Quer dizer, ele me parecia familiar, mas isso não o fazia menos estranho.
Será que isso é algum tipo de sinal? Premonição? Puff, claro que não. Senão o que significaria a espada?
Caminho para o banheiro e faço todas as minhas higienes matinais, mas esse sonho não sai da minha cabeça. Parecia ter alguém narrando todos os fatos, como se lesse um livro... Argh, por que estou pensando nisso? Acho a ruiva está me contaminando com suas loucuras.
Balanço a cabeça e saio do banheiro, descendo em seguida para o primeiro andar – tenho que fazer tudo na ponta do pé, já que são 5h horas da manhã. Devoro uma fruta e calço um tênis.
Todo dia acordo bem cedo e saio para correr antes da aula, isso ajuda bastante nos treinos e eu estou focado em fazer dar certo. Quando saio na rua poucas pessoas estão transitando por ali. Coloco uma música nos meus fones e começo a correr.
O cachorro do vizinho me vê correndo e vem atrás de mim, é um vira-lata muito animado. Na primeira vez que ele fez isso tomei um baita susto, mas agora, todas as manhãs ele é minha companhia de corrida. O senhor Cardi nem sabia que o cachorro fazia isso, o danado é bastante esperto e descobriu como passar pela cerca, quando o homem descobriu ficou muito agradecido por eu tomar conta do animal e até me paga para isso.
— Hey Trovão. – Balanço uma das mãos no ar sem parar de correr e o cão pula para tocar nela. – Garoto esperto!
Percorremos um grande caminho até termos de parar por causa de um carro saindo da garagem. Aproveito para beber água e dar um pouco para Trovão também. Observo o carro, um casal está conversando animadamente sobre algo dentro, a mulher põe um par de óculos de sol e mexe na bolsa. Ela é a cineasta que me falaram. Não moro por aqui há tanto tempo, mas os vizinhos comentam bastante do casal que trabalha com cinema, pelo jeito ela já dirigiu muitos filmes bons.
Analiso a casa deles, é uma casa muito bonita e bem cuidada, mas o que me chama mais atenção é o show de luzes saindo de uma das janelas, parece estar acontecendo uma festa ali de tanto que são as luzes coloridas. Disseram-me que o casal tinha uma filha da minha idade, mas nem eu ia ser doido de dar uma festa a essa hora da manhã.
— Au! – Trovão late, tirando-me a distração das luzes coloridas.
— Tudo bem, vamos continuar. – Desvio o olhar do quarto e continuo o meu caminho. Não temos mais nenhuma distração até em casa, onde espero trovão entrar em sua casa e me dirijo para a minha. Estou completamente suado e fedido, preciso tomar um banho urgentemente.
— Bom dia querido. – Minha mãe sorri para mim da cozinha. Dou-lhe um beijinho na bochecha bem rápido e subo para me arrumar para o colégio.
Annelise e Edgar Williams são meus pais adotivos, estou com eles há um pouco mais de uma década e sempre fui tratado com o maior amor do mundo pelos dois. Minha mãe pensou que não podia ter filhos, mas era o sonho dela e o meu pai sugeriu a adoção, foi aí que apareci na história. Passei por várias entrevistas e outras casas quando menor, mas nunca me trataram como da família tanto quanto os Williams fizeram.
Acabou que Annelise podia sim ter filhos e anos depois de me adotarem tiveram a Mila. Pensei que isso era o fim pra mim, mas eles nunca mostraram um arrependimento sequer por terem me adotado e também acabei me apaixonando por aquela pequena. Ok... Talvez eu seja o irmão ciumento.
Passo em frente ao quarto de Mila e ela está capotada em sua caminha de princesa – a qual esta ficando pequena, já que a garota já tem oito anos. Seus cachos louros e sedosos caiem sobre seu rosto dando-lhe um ar angelical, isso me faz sorrir, essa coisinha sempre me faz sorrir. Encosto a porta com muito cuidado só soltado a maçaneta quando ela está toda fechada.
Passo por Bingo, o gato branco de Mila. É um gato bem quietinho, mas gosta de estar sempre na companhia de alguém. Quando vê a porta da garotinha fechada, se vira e me segue pelo corredor, entro no banheiro e ele se aloja em cima do vaso como se fosse todo seu. Sua presença não me incomoda mais, mas não consigo deixar de revirar os olhos para o gato e sua necessidade de estar em todas as situações constrangedoras.
Acabo me perdendo no banho e só percebo que a hora quando meu pai vem bater na porta me mandando sair porque, de acordo com ele, a água do planeta vai acabar.
— E ai? Como foi a corrida?
— Corremos para o outro lado hoje, passando pela casa daquela cineasta. – Cometo e pego um suco na geladeira.
— Ah, você deve estar falando da Izzie. – Minha mãe comenta tomando seu café totalmente sem açúcar, pois para ela adoçar o café é algo horrível.
— Você os conhece querida? – Meu pai pergunta.
— Ah sim, ela esteve naquele jantar que fomos na casa da Millys. É uma mulher muito educada, hora nenhuma tratou-nos de forma superior, e vocês sabem como esses cineastas são metidos. – O assunto não me interessa muito, mas balanço a cabeça por consideração a Anne. Faço um sanduíche de pasta de amendoim e geleia e mordo.
— Legal... Desculpa mãe, mas tenho que ir. – Digo olhando no relógio e pegando minha mochila e jogando nas costas.
— Nada de brigas. – Meu pai adverte enquanto saio pela porta.
— Já sei.
No último semestre entrei em uma briga com um cara por causa de uma garota e a agora meu pai está sempre me avisando sobre isso, já que pode me prejudicar no time. A briga foi uma verdadeira burrice, a garota nem valia a pena, mas na hora parecia a melhor decisão a se tomar.
Minha linda máquina potente está estacionada no jardim da casa, sua pintura preta a deixa com bastante estilo. Alguns diriam que é apenas uma bicicleta, mas não é assim que a enxergo, meus pais defendem uma forma de educação onde os filhos têm de aprender a ter independência e por isso... Nada de carro de presente para mim. Mas isso não me incomoda ou atrapalha muito, até porque sei dirigir e sempre que preciso do carro Edgar não se importa de emprestar-me seu próprio carro – se ele não estiver usando, claro.
Subo na bicicleta e pedalo meio descuidado pelo jardim, tentando desviar de potes de flores e brinquedos de Mila – quase bato numa casinha de boneca que ela se esqueceu de guardar. Quando alcanço a rua consigo pegar o equilíbrio certo e pedalo normalmente.
Passo por algumas garotas e pisco para elas, as mesmas soltam risinhos e acenam de volta. Não sou o maioral da escola, mas costumo arrancar bastantes reações das garotas por quais passo, meus olhos cinza não tão comuns sabem como chamar a atenção.
Falando em arrancar reações... Entro em uma longa reta e enxergo mais a frente os inconfundíveis cabelos ruivos. A Locke anda de patins com suavidade pela rua, sua mochila está nas costas e o par de tênis está amarrado pelos cadarços na alça da bolsa. Ela está completamente despreocupada, ouvindo música – percebo. Megan da um giro com os patins. É uma ação descuidada e ela perde o equilíbrio por alguns segundos – sem poder controlar prendo a respiração. – mas logo o recupera, continuando seu caminho. Vejo-a gargalhar sozinha por sua quase queda, parece realmente estar se divertindo.
Quando passo por ela com minha bicicleta não faço menção de demonstrar reconhecimento e ela está tão perdida em sua bolha que nem ao menos percebe minha presença.
— Maluca. – murmuro para mim mesmo e sigo pedalando. A escola não demora muito para aparecer no meu campo de visão, consigo ver as marcas pretas que a explosão do carro ocasionou no asfalto. Aquele dia foi loucura, a escola permaneceu fechada por apenas mais um dia, já que os bombeiros e engenheiros foram rápidos fazendo a verificação do colégio e decidiram que não havia riscos.
Como foi comprovado que o incêndio na escola foi devido à explosão do carro da tal detetive, o meu pai acha que o dono do colégio ainda vai conseguir um bom dinheiro se processar o tal bandido.
Paro minha bicicleta no bicicletário que fica próximo á entrada, prendo ela com o cadeado e guardo a chave na mochila. Antes de seguir para dentro da escola, sinto uma mão no meu ombro.
— Ei mano, chegou mais tarde hoje. – Gabbie cumprimenta. Somos amigos há bastante tempo, ele morava na rua, mas os pais dele resolveram se mudar para o outro bairro, já que a mãe dele queria ficar mais próxima do restante da família. Felizmente, ela gosta o suficiente da escola para não querer tirá-lo. – Ficamos te esperando perto do outro bicicletário e você não apareceu.
— Fiz uma volta maior hoje, passei na rua daquela cineasta, sabe? – Ele afirma confirmando que me entendeu. – Quando eu cheguei, o outro biclicletário já estava todo cheio. Aliás, onde está o resto do pessoal?
— Foram se encontrar com o treinador no campo, me mandaram vir aqui e te procurar.
— E a primeira aula?
— Fomos liberados, amanhã é o jogo, estamos todos ficando doidos. – Ele troca a mochila de lado. – Vamos logo ou o treinador vai chutar nossas bundas.
A professora de redação já me detesta, faltar a aula dela por causa de um jogo vai só jogar mais sal na ferida. Mas o que posso fazer? O treinador que mandou. Mudamos de direção, indo contra o fluxo de estudantes que queriam entrar.
— Ei, falando na cineasta... A filha dela parece meio loucona.
— Loucona? – ele me olha com interrogação.
— É. Eu parei para beber água e vi os pais dela saindo, quando olhei pra casa parecia estar tendo uma festa em um dos quartos.
— Sério? A garota parece tão certinha.
— Conhece?
— Bem, eu sei quem é... Conhecer é uma coisa bem distante. – Ele da de ombros e eu dou risada.
...........
— Está tudo entendido? – O treinador se inclina pra nós com a sobrancelha erguida. Bem... Se naquele momento alguém não tivesse entendido, duvido que diria algo, já é a quarta vez que o treinador Peters – Adam Peters — repete o plano de jogo.
O treinador já é um homem velho, seus cabelos já estão completamente cinza – a passagem lenta do preto para o branco – ele tem uma altura mediana e apesar de ter uma pequena barriga de cerveja, ele parece ser um homem bem saudável. Sua personalidade é um pouco complicada de lidar, já que com a idade a impaciência veio também. Acima de tudo, é um treinador incrível.
— Ótimo. Esse é o último jogo da primeira fase e vai acontecer aqui. Por isso acho bom vocês não me envergonharem, seus pirralhos, ou vou chutar a bunda de cada um. Já que perderam parte da manhã, aproveitem mais uma hora para treinar, após o intervalo vocês todos voltem para suas aulas.
Um coro de reclamações se segue, mas o treinador finge que não vê e manda todos para o vestiário. Após estarmos todos prontos, as voltas no campo começam. Felizmente eu saí para correr de manhã e, por isso, meu corpo está bem acordado.
— Pros abdominais seus molengas. – Sim, ele é sempre muito delicado mesmo.
Aos poucos alguns alunos que não pertencem ao time vão se acomodando nas arquibancadas, provavelmente estavam com alguma aula vaga. O treinador adora quando isso acontece porquê... Bem, o porquê é bem aparente. Os caras que estavam fazendo corpo mole imediatamente se ajeitam ao perceber os olhares das garotas curiosas.
— Sua garota sabe marcar território, Tony. – Caçoo de sua cara ao ver que Clarice, na arquibancada, parece está deixando bem claro às outras meninas que Tony é seu namorado.
— Acha que eu não sei? – Ele diz entre uma flexão e outra. – Ela tem ciúmes até das minhas primas, cara.
— É por isso que eu não tenho namorada. – Joe, um cara do time cheio de tatuagens, entra na conversa.
— Você não tem porque a Jenny nem te da bola. – Tony retruca.
— Jenny? – Pergunto.
— Uma das amigas de Clarice.
— A que tem cara de metida? – Tony concorda com a cabeça.
— Eu é que não dou bola para ela, tenho certeza que ela iria vir correndo. – Joe murmura emburrado, fazendo-nos dar risada. – É sério, seus merdas. – Mas a gente só ri mais.
— O dia que isso acontecer, a gente toma um vidro de molho de pimenta como se fosse suco. – O outro comenta rindo e eu vou na onda.
— Beleza, preparem essas línguas que logo elas vão fritar.
— Basta por hoje. – o treinador diz enquanto olha no relógio. Levanto-me da grama e abano s pedacinhos de mato que ficaram na minha perna. Joe me estende a mão e eu a puxo revirando os olhos, folgado.
Tony se dirige até a arquibancada e a gente acaba seguindo ele. Clarice se levanta e o beija rapidamente, sem chegar muito perto, comentando que o namorado está todo suado. As outras garotas também estão ali, Hanna está mexendo distraída no celular; Jenny, a que tem cara de metida, está sentada um degrau acima dela, atrás da outra garota, que não sei o nome, fazendo um penteado qualquer. E por fim, Megan está concentrada em seu livro, como sempre.
— Bom dia meninas. – Tony as cumprimenta, e elas sorriem e devolvem o cumprimento. Elas parecem ter uma amizade inocente com o namorado da amiga, talvez vejam ele como um irmão ou algo assim, é até engraçado de ver como elas se entrosam com ele. – Vocês já conhecem o Joe, mas esse aqui é o Jake. – Ele aponta pra gente.
— Senta aí Jake. – Hanna aponta para a arquibancada onde estão sentadas. As garotas se apresentam, com exceção de Megan que continua concentrada em seu livro. Joe senta-se ao lado de Jenny e eu me sento ao seu lado. Tony se senta ao lado de Locke e pega o livro de sua mão.
— Seja sociável garota. – Ele implica, ela pega o seu livro das mãos deles e o bate de leve em sua cabeça.
— Suas mãos estão suadas. E eu sou sociável, tá?
— Você nem ao menos reparou no Joe e Jake. – E parece ser verdade, já que ela olha para gente com dúvida.
— Ah, oi Joe. – A garota estende a mão e eles trocam um hi-five despreocupado. – Williams, você parece bem ferrado, a senhorita Clark está bem irritada e mandou-me entregar-lhe isto. – Ela estende-me um papel com um sorrisinho – escrota. Em seguida ela simplesmente começa uma conversa com Tony e Joe sobre o jogo de amanhã.
Abro o papel já com uma careta no rosto. Leio mais ou menos o que está escrito e bufo. Droga, aquela bruxa não larga do meu pé. E dessa vez eu pareço ferrado de verdade.
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