Notas iniciais
Capítulo fresquinho pra vocês, espero que gostem! Esse capítulo foi revisado e comentado pela maravilhosa da Cor das palavras

Eu definitivamente ainda estou cagando de medo. Enquanto faço um lanche para a seção de filmes com os meus pais, a música toca num volume bem alto – talvez mais que o necessário. Isso me ajuda muito a não pensar nas várias coisas misteriosas que aconteceram.

Decidi que tudo não passou de uma grande coincidência. Alguém deve ter usado o meu caderno outra hora e colocado de forma que quando levantei deve ter caído e aberto na página mais usada. Isso deu no barulho que ouvi do banheiro. E o senhor da cafeteria deve ter mais de um trabalho ou tem um irmão gêmeo. Tudo mera coincidência.

Mas porque estou tão aflita se é apenas isso?

Ah, deve ser só o meu coração que ainda não conseguiu diminuir completamente o ritmo.

— Deixa de ser ridícula Megan, você assiste filmes de terror desde que se conhecesse por gente, sabe muito bem que essas coisas não existem. – Tento me convencer.

Contudo, quando a música para de repente pego a primeira coisa que me vem à mente e aponto para a porta, assustadíssima. Dessa vez algo realmente passa por ela, minha mãe, e ela também toma um susto ao me ver – quem não tomaria ao ver um ser humano apontando uma frigideira na sua cara?

— Ficou maluca garota? – Ela pergunta afastando a frigideira para longe, solto um longo suspiro aliviado.

— Quase dava pra ouvir a música da esquina. – Meu pai comenta ao entrar na cozinha, ele trás consigo uma caixa cheia de coisas que coloca no chão ao lado da bancada.

— Desculpem, aconteceu coisas estranhas aqui em casa e eu fiquei paranoica. Mas olhem o lado bom, agora temos um montão de lanches para os filmes. – Eles encaram a bancada cheia de comida. – Talvez eu tenha exagerado um pouquinho. Só um pouquinho.

Minha mãe balança a cabeça e me abraça.

— Você conferiu com o Bip se tinha mais alguém na casa?

— Mais de uma vez.

— Devem ser apenas coisas da sua cabeça, querida. Essa semana vi que não dormiu muito bem, madrugou vários dias lendo algum livro.

— É, talvez seja apenas isso mesmo. – Concordo.

— Vamos assistir uma comédia para aliviar isso tudo. – Meu pai sugere e nós duas concordamos com ele sem nenhuma relutância.

Eles sobem para tomar seus banhos e eu levo os lanches para o porão que após uma bela reforma, se tornou uma aconchegante sala de cinema. Coloco “As branquelas” no projetor e me jogo no sofá espaçoso e olho as mensagens do meu celular.

Abro o grupo com as meninas. Elas comentam alguma coisa sobre a festa de formatura e depois sobre a festa na casa de alguém na próxima semana. Hanna me chamou para ir, mas tenho quase certeza de que não irei. Não gosto de beber e tenho certeza que se eu for, serei a babá das quatro doidas.

Recebo uma mensagem de Tim. “Um boa noite para a melhor pessoa do mundo.”, é o que diz a mensagem, reviro os olhos – porém sorrindo — e lhe respondo com um “deixa de ser falso, Tim”. Felizmente ele entende que é brincadeira e me manda uma risada. Não digito mais nada, já que meus pais entram na sala de cinema. Eles se sentam confortavelmente ao meu lado e damos inicio ao filme.

..........

— Estou com tanto sono que não aguentaria assisti nem mesmo um episódio de Friends. – Minha mãe diz e se estica toda assim que o filme termina. – Não sei vocês, mas eu estou subindo para dormir. – Ela me da um beijo na testa e sobe as escadas do porão.

— Não vá dormir muito tarde, garota. – Meu pai dá um peteleco na minha cabeça — mania dele desde que me conheço por gente, e sobe também.

Fico vendo eles subirem antes de voltar a olhar para a grande tela branca para projetor. Não estou com um pingo de sono sequer, porém também não tenho vontade de assistir mais nada. Resolvo subir para o meu quarto também.

Desligo tudo na sala de cinema e subo para o andar de cima, batendo palmas o caminho para as luzes se apagarem. Dou risada a me ver fazendo isso pelo espelho da sala, pareço uma maluca.

Na minha cama o caderno ainda está escancarado na página escrita. Um arrepio desde pela minha espinha. O que fazer com ele? Jogar no lixo? Botar fogo? Arremessar pela janela? Estranhamente não sinto vontade nenhuma de descarta-lo. Sinto uma energia nele que me atrai para mais perto. Já não sinto mais nenhum medo.

“E foi assim que a bela adormecida caiu no sono profundo, sua trouxa.”

Ignoro meus próprios pensamentos, aquilo é mais forte que eu. Vejo uma caneta na minha escrivaninha e sem pensar muito a pego e me dirijo para o caderno. Deito-me na cama e apoio a caneta na folha. Instintivamente minha mente começa a vasculhar cada detalhezinho do sono da noite anterior. Sinto-me capaz de entrar na minha própria mente, é uma sensação que eu nunca antes havia percebido. Consigo enxergar com clareza o sonho como se ele ainda ocorresse.

Minha mão vai deslizando pelo papel de forma tão leve que parece mágica, parece que faz parte de mim. Chego a parte que acordei, mas não quero por fim na história desse jeito, por isso minha mente trabalha a todo vapor criando uma continuação para ela.

Quando termino me sinto completamente esgotada, tal como se estivesse saindo de uma maratona. Olho para o relógio e ele marca quase três da manhã. Nem vi o tempo passar! Coloco o caderno e a caneta em um lugar qualquer e deito.

Contudo, dormir é a última coisa que faço.

...........

— Cruzes! Garota, que cara é essa? – Hanna se assusta quando eu entro no carro. Antes de que eu responda qualquer coisa ela coloca na minha mão uma base corretiva para minhas olheiras monstruosas e só anda com o carro quando eu finalmente termino de passar no meu rosto.

— Não consegui dormir direito, insônia. – Digo bocejando e é a melhor coisa que tenho para dizer, já que nunca conseguiria explicar ao certo as coisas malucas que aconteceram no dia anterior.

— Algum garoto? – Pergunta curiosa.

— É só nisso que se baseiam os seus problemas? – Levanto uma sobrancelha para ela. Hanna pensa um pouquinho e balança a cabeça.

— Não, tem razão. Mas você não respondeu.

— Não, eu realmente não faço ideia do que aconteceu. – Não é completamente mentira, já que estou tentando processar até agora os acontecimentos.

— Você devia experimentar tomar chá antes de dormir, eles te ajudam a relaxar. Eu tinha insônias direto, mas a amiga da minha mãe dormiu lá em casa um vez e ela sempre bebe chá para dormir e fez para mim também. Nunca tinha dormido tão bem, passei a tomar todas as noites. Melhor decisão.

— Mas eu não costumo ter muita insônia, na verdade, durmo como uma pedra. Acho que foi só um dia agitado. Ainda assim, obrigada pela dica.

— Ah! Conseguimos resolver o problema da festa! – Ela se vira animada para mim. – Graças a você, claro. Eles gostaram da ideia de uma festa meia a meia, e nós espalhamos a notícia no grupo da turma e eles rapidinho deram um jeito de achar um candidato. Até a meia noite teremos a banda e depois o DJ comanda o som. Vamos ouvir o cara hoje à tarde.

— Que bom que deu tudo certo.

— Obrigada pela ajuda.

— Disponha. Aliás... Você disse hoje à tarde?

— Sim, desculpa, esqueci-me de te avisar que vamos nos encontrar mais vezes agora. Clarisse me disse que eles te deram carona, mas acho que não vai conseguir uma carona de novo. Droga, eu devia ter avisado. Sou uma péssima amiga!

— Relaxa Hanna, você está ocupada e já me faz o favor de me levar todo dia. Além disso, hoje vim preparada. – Abro minha mochila que está bem mais pesada hoje e lhe mostro o motivo. Trouxe comigo o meu par de patins. – Eu não uso eles há um tempão, é uma forma de fazer essas coisinhas aqui voltarem a rolar por ai.

— Você está levando um patins para o colégio?! – Ela começa a rir. – Você é a pessoa mais doida que eu conheço. De onde você tira essas ideias?

— Não é tão estranho assim! – Faço careta. – Quando não se tem um carro a sua disposição, você é obrigada a pensar em alternativas.

— Eu consigo pensar em duas bem rápido: Ônibus ou taxi.

Entramos no estacionamento e paramos na vaga de sempre. Saio do carro com uma pequena dificuldade, já que aquelas botas de rodinhas não eram tão leves.

— Primeiro: não tem nenhum ponto de ônibus perto da minha casa, segundo: porque gastar dinheiro com táxi se posso gastar com livros? E terceiro: ir patinando é bem mais divertido.

— Se você diz. – Ela vai em direção as meninas, mas dessa vez eu apenas as cumprimento de longe. Quero ir logo no meu armário guardar esses benditos patins ou vou me tornar o corcunda de Notredame logo, logo.

O corredor não está muito cheio, a maioria dos alunos ainda estão do lado de fora – como eu normalmente faria. Consigo guardar o patins no armário e ir pra aula com bastante tranquilidade – e dessa vez sem trombar com ninguém.

Como está cedo não tem ninguém na sala, por isso me sento confortavelmente na cadeira e pego um livro para ler. Mas antes que eu possa abrir o livro, ouço um barulho atrás de mim. Olho para o fundo da sala e vejo Jake sentado na última carteira do canto. Ele está com os pés em cima da mesa e parece bem concentrado no caderno em seu colo. Vejo-o bufar e rabiscar alguma coisa e em seguida apagar.

Estranho, nunca o vi tão concentrado em alguma coisa, nem sequer percebeu minha presença. Seus pés me chamam atenção, balançam ansiosamente sobre a mesa. O que será que aconteceu?

“Ah, que seja, a vida dele não me interessa.” Dou de ombros e volto para o meu livro.

— Desisto, eu... – Ouço-o começar a reclamar, mas acho que percebe a minha presença e fecha a boca. Não dou importância para isso, apenas continuo a minha leitura normalmente.

Quando começo a ficar completamente absorta ao livro um barulho alto me tira dessa bolha, a mesa de trás à minha treme e eu sinto a presença de alguém. A pessoa pega o meu cabelo – hoje, solto. – e começa a trança-lo.

— Tem um cara muito estranho te encarando. – Jake diz enquanto cruza as minhas mechas ruivas.

— Igual ao cara muito estranho mexendo no meu cabelo sem minha permissão? – retruco fazendo o gesto de puxar minha cabeça, mas ele não solta o meu cabelo.

— Estou falando sério. Olhe discretamente para a janela. – Faço o que ele pede e olho com o canto do olho para janela. Estávamos no térreo, logo dava pra ver o lado de fora diretamente. E lá fora estava ele, o mesmo homem da lanchonete, o mesmo homem do cortador de grama. Vestido de um uniforme cinza, ele varria o chão e olhava vidrado para mim. Um arrepio gelado sobe por minha espinha. – Ele está te encarando tem um tempão, não desviou uma vez o olhar.

— Eu estou vendo esse cara em todos os lugares. — Digo olhando para frente novamente. – Eu já o vi em três lugares diferentes desde ontem. O que eu faço?

— Elástico. – Ele estende a mão e eu lhe entrego o elástico de cabelo que trago sempre no meu pulso. – A polícia existe de verdade, caso você não saiba.

— O alienado aqui é você. – Retruco. – Será que da pra abrir uma queixa de perseguição?

— Acho que sim, devem investigar o cara pra você. Se eu fosse você, pelo menos tentava. Não deve ser muito legal sair andando por aí com a sensação de estar sendo perseguido.

— Acho que você deve ter razão. – Faço uma careta com essa afirmação. Ele se levanta, soltando o meu cabelo. Pego a trança e a analiso, parece melhor do que se eu mesma tivesse feito, mas prefiro nem perguntar sobre isso. – Obrigada.

Ele dá de ombros ao meu agradecimento e acrescenta:

— Não pense que isso significa que desgosto menos de você. – Reviro os olhos com isso.

— Não pensei que significaria. – O sinal bate e ele volta para o seu lugar no fundo, logo todos da turma estão entrando e ocupando seus lugares. Olho com cautela para janela. O homem continua ali.

Notas finais
Comentem e acompanhem, estarei sempre trazendo novos capítulos assim!