O Último Conto Leah e Bella
1 Capítulo Único
Notas iniciais
As Crianças Swan-Clearwater
Numa manhã de quinta-feira, Leah Clearwater acordou mais cedo do que o costumeiro. Atirou as pernas pra fora da cama e observou sua esposa dormindo. Toda a exaustão do dia anterior estava refletida no sono de Bella, que parecia tão imóvel quanto uma pedra, apesar de respirar corretamente. Depois de trinta anos, Bella continuava imensamente linda. Em seu rosto e pescoço existiam algumas marcas da idade, denunciando seus quase cinquenta anos. Marquinhas que Leah adorava tocar e rir, afirmando-lhe que continuava esplendorosa. Silenciosamente, Leah se levantou e andou com passos delicados até o quarto da filha mais velha.
A mais velha Swan-Clearwater dormia, aconchegada num edredom cor-de-rosa que usava desde os dez anos de idade. Parecia tão pequenina quando dormia que Leah tinha o desejo de poder pegá-la no colo e enchê-la de beijos nas bochechas; da mesma forma que fazia quando Suzana era um bebê. Suspirando, Leah escorou a cabeça no batente da porta. Tinha passado o último mês na sala da diretoria da escola. Contudo, sabia que não podia culpar Suze. Era sempre a mesma coisa; mesmo que os alunos conhecessem Leah e soubessem muito bem da situação atual.
Não havia quem não sussurrasse no corredor sobre o casinho da treinadora Clearwater com a moça da padaria! Para Leah aquilo soava tão cômico quando incômodo. Cômico porque se referiam a trinta anos de companheirismo como casinho. Incômodo porque trabalhava naquela escola fazia quinze anos; o esperado era que, pelo menos, os professores parassem de murmurar sobre a vida íntima dela. Mas era como em toda cidade: os moradores tinham uma sede sobrenatural por fofocas. “Nunca mais ouse falar das minhas mães”. A ameaça de Suzana era clara, mas não convencia facilmente.
― Mããeee! ― falara Suzana, sentada na bancada da cozinha e balançando as perninhas curtas. ― Por que eu não tenho um pai? ― Isabella, que procurava na caixinha de primeiros socorros um pouco de mertiolate, deixara a caixa cair no chão e olhara com os olhos arregalados para a filha. Vendo a descrença da mãe, Suzana dera continuidade a explicação: ― Thomas disse que… Que eu não tenho pai.
― Bem… ― sorrira Bella, juntando do chão os objetos e guardando-os na caixa branca. Pegara um pequeno frasco em spray e parara na frente de Suzana. ― Thomas é muito… Indelicado.
― A profe disse que ele é muito mal. ― Bella semicerrara os olhos e erguera uma sobrancelha. ― É por isso que ele fica de castigo todo dia.
― Escutando conversas, Suzana? ― questionara num tom desaprovativo.
― Mãe ― ela cruzara os braços e franzira a testa, formando um vínculo entre as sobrancelhas. Era tão teimosa quanto Leah! ― Ainda não me respondeu!
― Tudo bem, tudo bem… ― Bella começara seu serviço de enfermeira, aplicando seu conhecimento básico sobre o que fazer com um joelho ralado. Limpara o ferimento. ― As pessoas pensam que para ser feliz e saudável, psicologicamente, é necessário ter uma família tradicional. Isso é puro preconceito. ― a menininha assentira e Bella passara o remédio. Escutara Suzana choramingando (e mentalmente, Bella resmungara: que droga! Na propaganda prometiam que não ardia!). ― Você não é menos amada por não ter uma figura masculina na sua vida.
― Então ― começara Suzana, fazendo sua conclusão. ― Eu não tenho um pai?
― É difícil explicar isso, meu amor ― Bella sentara-se num banco alto e apoiara o cotovelo no mármore da bancada. Como explicaria para uma menina de seis anos a situação? Não queria comentar com ela, não naquele momento, sobre o processo de reprodução e pôr em palavras delicadas que ela não tinha um pai. Ela tivera um “reprodutor”. Apenas isso. Pai, na mais honesta colocação, é um homem que ama e cuida da criança. Não aquele que tem parte genética. ― Mas você veio para nós de uma forma inusitada. ― Bella pôs a mão no peito, onde se localiza o coração e falara, dando algumas batidinhas: ― Você nasceu do coração da mamãe e do meu. E não existe nesse mundo um amor maior. ― Bella colocara a não no coração de Suzana, dando as mesmas batidinhas.
― Bebê do coração. ― afirmara Suze, rindo.
― Sim, meu bebê favorito. ― Bella aproximara-se mais de Suzana e rira junto da pequena, roçando a ponta do nariz no da garotinha, num afetuoso “beijinho de esquimó”. ― Mas não conte para a mamãe. ― Suze rira longamente e Bella dera um beijinho na testa de Suzana. ― Ela também é o meu bebê.
Leah não tinha presenciado o episódio, mas enquanto corrigia alguns trabalhos escritos escutara a versão de Bella. Para alguns poderia parecer chato, mas Leah amava a rotina que tinha criado ao lado de Bella. Gostava de ouvir os relatos de Isabella sobre o dia-a-dia. Adorava as histórias sobre o trabalho e os comentários sobre o novo ingrediente que tinha acrescentado no recheio do bolo de chocolate. Detestava ouvir os resmungos sobre o preconceito e não ter o consentimento de Bella para quebrar os dentes da frente do idiota que falara as atrocidades. Divertia-se ao ouvir sobre o capítulo da novela e aproveitar-se da brecha para fazer sua própria cena.
― Como você consegue transar comigo? ― questionara Bella na quarta-feira. Leah, que não aparentava mais do que trinta anos, gargalhou baixinho e apoiou-se no colchão, observando a beleza de Bella Swan. ― Quer dizer, eu estou velha e com rugas.
― Você é linda ― sussurra e inclinara-se da direção de Bella, beijando-lhe com lentidão e devoção. Apreciara do gosto de sua boca e quase gemera em prazer. Sua paixão por Bella só tinha aumentado depois de tantos anos. ― Nunca vai deixar de ser.
― Ok, Lee. ― concordara a contragosto. ― Eu também te amo. Muito. Porém… Eu não consigo imaginar o tamanho da sua coragem. Tipo: você se transformou até os trinta anos. A idade chegou a você com muita piedade e…
― Eu sei que sou gostosa. ― piscara Leah.
― Sim, você é. Mas… ― Leah revirara os olhos quando Bella pronunciara outro “mas”. ― Eu perdi qualquer sinal de “gostosura”.
― Em primeiro lugar: ― bufara Leah. ― Acho que você esqueceu que nossa relação é muito mais do que “sexo e filhos”. Você é o meu imprinting e não adianta o que você diga: vou ter tesão quando te ver nua. ― de repente, o rosto de Bella transformara-se num forte tom vermelho. ― Em segundo lugar: eu sou a teimosa da relação. Por que está fazendo isso? E justamente agora: trinta anos depois? Tarde demais. Esse posto é meu. ― concluíra Leah, fazendo ambas rirem e Bella, finalmente, desprender-se da ideia da idade.
Mordendo os lábios e segurando o riso, Leah dirigiu-se até o quarto de Caleb, o caçula da família Swan-Clearwater. Assim como a mãe e a irmã mais velha, ele parecia afundado nos próprios sonhos e seu único movimento era o da respiração estável. A única parte se seu corpo que era visível era o rosto redondo e os cabelos loiros encaracolados, que caiam na frente dos olhos, deixando-o parecido com um anjo. Não; ele era um anjo. Certeza absoluta; não só pela aparência, pelas atitudes também. Caleb Swan-Clearwater era o tipo de criança que ajudava idosos e deficientes a atravessaram a faixa de pedestres, que comia verduras porque gostava, que se aconchegava nos braços das mães e declarava todo o seu amor por ela; o tipo de criança que dava comida a quem passava fome.
Segundo a assistente social (que era metida a sensitiva e a conservadora, e que só entregara o menino a Leah e Bella porque o governo obrigou-a), Caleb tinha tudo para ser um pequeno vândalo: os pais biológicos dele eram totalmente pirados e bêbados; viviam na delegacia. Segundo a mesma, Caleb era o sexto filho de uma ninhada.
― Aquela mulherzinha… ― Sra. Mead, a assistente social, batucou com os dedos numa planilha. Ocasionalmente, faria algumas visitas para ver se Caleb estava sendo verdadeiramente bem-cuidado e não exposto a situações de risco, quando ainda estava nas mãos da mãe biológica. ― Não sei como esse tipo de gente consegue sobreviver! ― ela inclinou-se e puxou da mesinha de centro um copo de chá gelado. Bebericou um pouquinho e ergueu os olhos para Isabella Swan, que escutara todo o seu depoimento, assentindo ora sim ora não. Era verão na Califórnia, então, Bella usava um vestidinho vermelho com dourado. Alças finas pendiam dos ombros magros e ela tinha os cabelos presos no topo da cabeça num coque frouxo, de onde alguns fios de cabelo caiam. ― Então ― ela pigarreou e pousou o copo na mesinha. ― Como está o menino?
― Caleb está ótimo. ― um sorriso bailou nos lábios de Bella, memorando-se de o quão prazeroso foi o primeiro mês ao lado do novo filho. Há algum tempo atrás, Bella tinha aprendido novas práticas de relaxar um bebezinho, incluindo uma espécie de massagem com óleo que, além de acalmar o pequeno, deixava mais afetiva a relação entre mãe e filho. Caleb se derretia todo quando Bella passava as mãos pela barriguinha; gargalhava, mexia as perninhas e batia palmas. A sessão de risos fora tão alta da última vez que Suzana desistira de sair com uma amiga para ficar na volta da mãe, apreciando o irmãozinho. Ter um filho num verão escaldante parecia a melhor sensação do mundo.
― Onde está Leah? ― Bella pusera as mãos nos quadris e esticara o pescoço, tentando enxergar Leah no quintal ou indo para a garagem. Era incrível como não davam valor a certos trabalhos: Bella e Suzana tinham ajeitado todo o quintal por meses, deixando-o perfeito e a espera da criança. E aonde Caleb gostava de brincar? Na garagem! ― Não acredito que foram pra garagem outra vez… ― ela bufara enquanto um vínculo formara-se entre as sobrancelhas. A mágoa foi maior ainda, pois Suzana estava acompanhando Leah. Até ela tinha cedido àquela traição?
― Quem foi para a garagem? ― Bella virou-se, vendo Leah parada a alguns passos dela. Segurava um balde verde e grande nos braços; cuidava da peça com demasiado cuidado.
― Achei que estivessem na garagem… ― ansiosa Bella percorrera os olhos pelo recinto. Suze não estava… Deveria estar com Caleb. ― Onde estão as crianças?
― Suze está vindo… ― Bella semicerrara os olhos. ― Da garagem. ― e então, revirara os olhos. Largara o guardanapo de pano na pia e respirara profundamente. Leah dera uma risadinha.
― O que vocês estavam fazendo? ― indagara.
― Brincando com água. ― deu de ombros. Com os quase 40graus, era óbvio que água não faria mal para o bebê.
― Humm… ― respondera ainda ressentida pelo fator garagem. ― O que tem nesse balde? ― indicara com a cabeça. Leah arqueara as sobrancelhas, como se pensasse numa resposta inteligente.
― Bem… ― começara a se explicar quando uma mãozinha pequena erguera-se do balde e um gritinho animado ecoara. O rosto de Bella se desmanchara na descrença e ela andara na direção de Leah. Caleb olhara pra cima com os olhos azuis faiscando alegria e divertimento; ele estava sentado no fundo do balde e cercado de água. ― Ele estava pingando suor, Bella.
― Não acredito que o colocou num balde. ― gemera Bella.
― Ele não vai se resfriar, amor. ― garantira.
― Leah ― Bella a olhara com seriedade. ― Você o colocou num balde. Balde. Entendeu? A ferramenta que eu encho de água quando vou lavar a calçada!
Então, Leah gargalhara alto: o balde estava perfeitamente limpo e Caleb, por sua vez, feliz na pequena piscina. Ela esticara o pescoço e roubara um beijo dos lábios de Bella; estavam macios e úmidos. Continuavam os mesmos de trinta anos atrás; sabia como beijar com perfeição e como enlouquecer Leah. Ela afastara o rosto do de Bella, vendo o olhar castanho de bravo tornar-se divertido, sólido e, em parte, apaixonadamente maldoso. Aquele era o típico olhar que Leah interpretava como “sexo na banheira”.
Mães não tinham tempo para falar sobre sexo e planejar aventuras alucinantes; Leah aprendera com muita facilidade como decifrar os desejos da sua esposa. Se Bella mordiscasse o lábio inferior, era porque estaria indomável à noite (e que algum desejo sadomasoquista afloraria nela). Caso fosse o meio sorriso, seria o digno momento de “fazer amor”; lento e muito afetuoso. Se suspirasse muitas vezes durante o dia, era porque estava com os nervos rijos e necessitava de uma massagem (talvez não devesse contar em tal “categoria”, mas Leah sempre tinha um jeito de escorregar a mão para outros lugares que não fosse a coluna).
― Sim… ― Bella repetira, abandonando a abstração em que se encontrara. Sra. Mead erguera as sobrancelhas ruivas. ― Ele está muito bem.
― Isso é… Bom. ― anunciara. ― Onde ele está?
― Aqui… ― Leah entrara em casa: num braço tinha Caleb e no outro um saco plástico com as compras. Sianoah, que estava à visita, passou por Leah e olhou com os olhos desconfiados para a assistente social. Ela estava com as duas mãos com sacolas de compras.
Costumeiramente, Leah e Bella viajavam no verão, indo de carro pelo litoral com Suzana. Muitos quilômetros rodados e o costume de parar num restaurante de beira de estrada, pedir ostras salgadas. O destino final sempre era a casa da tia Sianoah, que sempre estava ocupado cuidando de seus filhos. Mas, no verão em que Caleb chegara, tiveram que parar tudo e permanecer na cidade. Então, de tal forma, naquele ano a visita viera até eles.
― Quem é você? ― indagara Sia: a boca retorcida em nojo. Leah controlara uma risada e atravessara na direção da cozinha: tinha feito um estoque de comida para receber todos os sobrinhos que, pessoalmente, comiam mais que Seth.
― Essa é Annabel Mead, ela é a assistente social. ― respondera Bella, divertida.
― Ah… ― a chata; pensara Sianoah. Desde que casara com Seth (e descobrira que as lobas não eram estéreis como o prometido), Sianoah tornara-se a digna mulher crítica, a mão coruja com seus seis filhos; defendia a molecada com unhas e dentes e descobria em segundos quem era confiável ou não. ― Você cuida das crianças, então?
― Sim… ― Sra. Mead correra os olhos entre Sianoah e Isabella, como se ambas fossem piradas. A garganta dela secara ao imaginar que o casamento tinha uma terceira esposa. ― Entretanto… Quem é você?
― Sianoah. ― falara.
― Esposa do irmão de Leah. ― resumira Bella.
― Ah… ― antes que Mead conseguisse falar outra coisa, duas meninas de cabelos negros e olhos azuis passaram rindo entre as pernas de Sia e correra até a cozinha. Gritaram algo ininteligível, mas Leah concordara com elas; prometendo que lhes contrabandearia doces após o jantar. ― De quem são essas meninas?
― Kami e Lorena? ― Sianoah questionou. Mead anuíra. ― Minhas filhas… Por quê? ― Sianoah parecia feroz demais para um final de sexta-feira. Talvez fosse o estresse de fazer uma viagem imensa com seis seres briguentos e enérgicos; Joseph (17) e Agnes (15) emburrados nos bancos; braços cruzados e cara mal-humorada. Raphael (11) e Ethan (9) animados e ensaiando seus novos golpes de luta; Kami e Lorena (4) batendo palmas, cantarolando cantigas infantis e pedindo doce; papai Seth fazendo de tudo para agradar aos seus descendentes e mamãe Sianoah furiosa, mas sem conseguir detestar as crianças por mais de cinco minutos.
― Nada. ― respondera Mead, temerosa com os olhos faiscantes de Sia.
Annabel Mead não passava de uma velha infeliz com o próprio casamento; estavam aliviadas das visitas terem se tornados menores e, enfim, inexistentes. Com os lábios secos, Leah dirigiu-se até a cozinha, a fim de tomar um bom copo d’água gelada. Enquanto bebericava da água, escorada na pia da cozinha, viu Jared mexendo-se nervosamente no sofá, calorento e desconfortável com a peça consideravelmente pequena para seu tamanho assustador. Mordeu o interior da boca, sentindo amargar: não conseguia se acostumar com o fato de Jared, que se transformava até hoje, ter tido o imprinting pela sua filha. Não admitia, não gostava e fazia questão de parecer egoísta e mimada.
Sempre era um escândalo na casa quando Jared beijava, abraçava ou até mesmo piscava para Suzana; Leah tinha raiva, pois não queria que sua garotinha perdesse a inocência; que deixasse de ser a sua criança. O comum medo materno que se apoderava dela. Jared remexeu-se desconfortável e Leah derramou o resto da água no ralo da pia; andou até o quarto com calma. Aqueles momentos de reflexão andavam tornando-se normais conforme o tempo; sempre era prazeroso relembrar o quão feliz e humanos todos eram. Com suas famílias montadas, com contas, empregos, quilinhos a mais… Que todo o estresse envolvendo vampiros não passasse de uma memória distante; que Quil e Claire tivessem casado e já estivessem esperando o segundo filho deles; que Sam e Emily já tinham sua própria família; que tudo estava em perfeitas condições… Menos Jacob e Tanya, que eram exceção; pelo que as fofocas Quileutes diziam, eles viviam no luxo da família Denali; costumavam viajar para lugares cada vez mais frios, onde Tanya sempre tinha uma desculpa para estar nos braços de Jacob.
Preguiçosamente, Leah voltou a aconchegar-se nas cobertas finas e de cores leves. Bella ainda estava tão exaurida do dia anterior que nem notara a ausência de Leah; ela escorregou para onde a esposa estava e encolheu-se contra ela. Ainda cheirava a morangos. Ela respirou o máximo que conseguia, absorvendo aquela maravilhoso e familiar perfume; fechou os olhos e voltou a concentrar-se em dormir.
Notas finais
Estarei esperando pelos seus comentários.
Obrigada e beijinhos!
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