O Último Caçador
19 Epílogo II
Algumas semanas haviam se passado desde que Daniel, Lucas e Eric deixaram para trás as muralhas abruptas do arapóka — aquele enorme caldeirão natural onde o tempo parecia ter se recusado a avançar.
À medida que os dias se acumulavam fora dali, a lembrança do vale parecia, por vezes, um sonho distante, quase impossível de acreditar. E, no entanto, bastava um cheiro de terra molhada, o estalo de um galho no quintal ou o rugido distante de um motor velho para que, em seus corpos, os instintos despertassem de novo. O coração acelerava, a pele arrepiava, e os três voltavam a sentir a vertigem de estar em um lugar onde cada sombra escondia dentes e garras.
A vida no “mundo real”, curiosamente, parecia quase monótona em comparação. Estranhamente silenciosa. Não havia o cheiro forte da terra úmida da selva, o calor pegajoso que grudava na pele, ou o medo instintivo que vinha a cada farfalhar nos arbustos. Tampouco havia o assombro — aquele frio na espinha misturado ao fascínio absoluto — de ouvir ao longe o rugido cavernoso de predadores que, por lógica, deveriam estar extintos há mais de 66 milhões de anos.
E, ainda assim, para Daniel, aquela rotina mundana era um alívio bem-vindo.
Naquela tarde de sábado, o sol se escondia preguiçoso por trás das montanhas de Minas quando ele e Lucas estacionaram a caminhonete em frente à chácara onde Eric morava. O lugar ficava num distrito afastado de Belo Horizonte, cercado por morros cobertos de mata secundária e pequenas plantações de milho e café. O portão de madeira, simples e já gasto pelo tempo, estava escancarado. Uma fileira de buganvílias se derramava sobre o muro de pedra, pintando o ambiente com manchas cor-de-rosa vivas. Ao fundo, a casa branca com varandão amplo parecia acolhedora, rodeada por vasos de samambaias e orquídeas penduradas.
Eric apareceu logo na porta, sorridente, vestindo bermuda e uma camisa de algodão já desbotada. Estava mais leve, quase rejuvenescido, com um olhar brilhante que parecia carregar tanto alívio quanto propósito.
— Meus amigos! — Exclamou, abrindo os braços — Entrem, venham! Tem cerveja gelada e a carne já está quase no ponto.
Daniel e Lucas sorriram, descendo da caminhonete. O abraço que trocaram no alpendre foi longo, quase cerimonioso. Ali, por um instante, não eram paleontólogo, arqueólogo e assistente. Não eram sobreviventes de uma aventura impossível. Eram apenas três homens vivos, agradecendo em silêncio pelo acaso — ou pelo destino — que os havia trazido de volta.
— Pois é, Eric... — Disse Daniel, batendo no peito do amigo — Foi bom você não ter virado jantar. Senão eu não teria companhia pra beber hoje.
— Hm… curioso. Porque lá no começo eu jurava que você preferia me ver como sobremesa dos bichos... — Replicou Eric, propositalmente provocativo.
Lucas balançou a cabeça.
— No fundo, vocês dois só não se mataram porque os dinossauros chegaram primeiro.
Daniel balançou a cabeça, rindo apesar da cutucada.
— É, talvez… mas no fim das contas, acho que sobreviver junto dá mais liga do que brigar.
— Eu concordo. — Disse Eric, puxando-os para dentro — Venham, vamos abrir umas antes que a carne queime.
A casa de Eric tinha cheiro de café torrado impregnado na madeira, como se cada tábua tivesse absorvido anos de histórias e conversas. Era simples, mas viva — cheia de livros empilhados, quadros com mapas antigos, fósseis cuidadosamente dispostos em prateleiras e recortes de jornais sobre descobertas científicas. No canto da sala, um globo terrestre antigo repousava em suporte de ferro. Daniel não resistiu: girou-o com a ponta do dedo, vendo o mundo girar sob sua mão.
— Olha só, Lucas... — Brincou — Depois de tudo, o planeta parece até pequeno.
— Pequeno, mas cheio de bocas grandes — Respondeu o assistente, arrancando risos dos três.
Na cozinha, Eric abriu a geladeira e puxou três long necks geladas. Estalou as tampinhas com o abridor que pendia de um prego na parede. Entregou uma para cada um e ergueu a própria.
— A nós.
Eles brindaram, o estalo dos vidros ecoando como um pacto silencioso.
— Então… — Começou Daniel, puxando uma cadeira na mesa rústica — Finalmente livre dos relatórios intermináveis?
Eric bufou, rolando os olhos.
— Finalmente. Eu já não aguentava mais repetir a mesma história. Exército, PF, IBAMA, até gente do Ministério Público apareceu. Sempre os mesmos questionamentos: “o que vocês viram?”, “como sobreviveram?”, “o que causou as mortes?”. Eu estava quase decorando como um papagaio. Mas... acho que finalmente aceitaram.
Lucas ergueu a garrafa num brinde improvisado.
— À versão oficial! Aos nossos enormes jacarés-açu isolados!
Eles riram alto. O riso era libertador, mas também carregava uma ponta de incredulidade.
— Engraçado, né? — Comentou Daniel, girando a cerveja na mão — Depois de tudo que vimos e vivemos lá dentro, tudo se resume a jacarés. Se alguém me dissesse isso antes, eu teria dado na cara.
— Foi o jeito. — Eric respondeu, encostando o cotovelo na mesa — Era isso ou abrir um precedente perigoso. Se cai na boca de políticos ou empresários, o arapóka seria invadido em questão de meses.
Lucas assentiu.
— O cofre mais seguro pra um segredo é o silêncio.
Ficaram calados por um instante, cada um olhando para sua cerveja como se visse ali reflexos de memórias que preferiam esquecer. A mata úmida, as noites geladas, os olhos amarelos no escuro.
Mas foi Eric quem quebrou o peso da lembrança, com um brilho renovado nos olhos.
— Mas sabe... tem algo que eu não contei pra vocês ainda.
Daniel ergueu a sobrancelha.
— O quê?
— Consegui me aproximar de alguns técnicos do IBAMA. Gente séria, que realmente se importa. Eles começaram um processo para tentar decretar toda a área do arapóka como Unidade de Conservação. Pode virar Reserva Biológica ou até Parque Nacional. E eu fiz questão de envolver a FUNAI. Há indícios de povos isolados vivendo nas bordas da região. Isso garante que dificilmente alguém vai conseguir autorização pra entrar lá.
Lucas soltou um assobio baixo, impressionado.
— Então, no fim das contas, você não ficou tão em silêncio assim, hein?
Daniel deu um tapa no ombro do amigo.
— Você é foda, Eric. Transformar aquilo num santuário vai garantir que ninguém mais vá meter o bedelho.
Eric respirou fundo, quase aliviado.
— Pois é... Pelo menos isso. Ninguém vai entrar lá pra fazer safári, nem caçar, nem minerar. Aquelas criaturas, sejam anhangaúnas ou aquelas aves cinzentas, vão poder viver em paz.
Lucas olhou pela janela da cozinha, para o quintal verde banhado pela luz dourada do entardecer.
— Às vezes eu penso se não foi tudo um delírio coletivo. Mas aí lembro do cheiro... aquele cheiro de sangue, de floresta viva. Isso não dá pra inventar.
Daniel concordou.
— Nem os olhos. Aqueles olhos amarelos…
A lembrança fez o ar pesar de novo. Até que Eric, percebendo, bateu as mãos na mesa.
— Chega. Hoje é dia de viver. De brindar. De comer carne e rir até a barriga doer.
Lucas riu.
— Apoiado. Mas me promete que, antes da sobremesa, você mostra de novo aquele fóssil de peixe gigante que você guarda no escritório. Só pra eu ter certeza de que não fiquei maluco e que sempre foi sua mania colecionar coisa velha.
Eric gargalhou.
— Prometido.
Lucas sorriu, inclinando a garrafa e deixando que o líquido gelado escorresse pela garganta com um prazer que ia além do simples sabor. Era como se beber cerveja com aqueles dois amigos fosse, em si, um rito de libertação.
— Falando nas aves cinzentas... — Ele puxou um novo comentário, limpando a boca com o dorso da mão — Não sei vocês, mas eu às vezes acordo de madrugada pensando naquela floresta. Com medo de ouvir um rugido do lado da cama.
Daniel coçou a barba, olhando para o rótulo da garrafa como se estivesse decifrando um código. Havia uma sombra em seus olhos, mas também um brilho quase nostálgico.
— Eu também. — Admitiu. — Mas no fundo... sinto falta. Foi a maior aventura da minha vida, cara. A maior aventura da história da humanidade, se quer saber.
Eric soltou uma risadinha curta, o tipo de riso que vinha misturado com melancolia. Daniel, sempre teatral, ergueu a garrafa como se fosse uma taça de vinho num palco de tragédia. Com voz grave e impostada, recitou:
— “Os homens morrerão sem saber que monstros caminharam entre nós...”
Lucas gargalhou alto, quase engasgando com a cerveja, enquanto Eric balançava a cabeça com um sorriso cansado.
— Seu idiota — Cutucou, rindo — Mas é isso mesmo.
Os três brindaram de novo, o som das garrafas se chocando ressoando como um pacto silencioso.
— Mas quer saber? — Lucas retomou, depois de um gole demorado — É mesmo melhor assim. O mundo já destruiu o bastante. Aquele lugar precisa ficar esquecido.
Eric assentiu, seu sorriso mesclando-se a uma sombra de saudade.
— É... às vezes, os melhores segredos são os que nunca saem do mato.
Daniel ergueu a garrafa em direção aos amigos, desta vez sem pompa, mas com sinceridade crua.
— Muito bem. A isso, então. Ao nosso segredo. E à vida.
— À vida — Repetiram os outros dois, e o brinde ecoou pela terceira vez.
Na cozinha, a luz amarelada da lâmpada parecia mais quente do que realmente era, e o ar tinha o cheiro de lenha, café e carne assando devagar. Lá fora, o céu já se tingia de laranja e vermelho, e o vento suave balançava as buganvílias no muro.
Eric foi o primeiro a se levantar. Colocou a garrafa quase vazia sobre a mesa e fez sinal para que os outros o seguissem.
— Quero mostrar uma coisa pra vocês.
Daniel arqueou a sobrancelha, curioso, enquanto Lucas deu um sorriso malicioso.
— Se for mais uma das suas “coletas científicas”, Eric, juro que eu volto pra caminhonete.
— Cala a boca e vem — Respondeu o anfitrião, divertido.
Eles atravessaram o corredor, e a casa se abriu para os fundos. O quintal era amplo, cercado por árvores frutíferas e pela sombra macia dos morros ao redor. Havia uma horta organizada, fileiras de couve, pés de tomate já pesados de frutos e algumas ervas aromáticas que espalhavam perfume no ar. Ao fundo, erguia-se uma estrutura de tela de arame, um viveiro grande, sólido e bem montado, que se destacava contra o entardecer.
Quando se aproximaram, Daniel e Lucas pararam de súbito.
— Não... — Murmurou Daniel, quase sem fôlego. — Não é possível.
Lucas demorou um pouco mais a reagir, mas quando seus olhos se ajustaram à cena, abriu um sorriso lento, incrédulo. Ele assobiou baixo, maravilhado.
— Caralho... — Soltou, num sussurro reverente. — São... são as aves do arapóka?
Eric sorriu, um sorriso cheio de orgulho e um pouco de vergonha, como se estivesse confessando um segredo íntimo.
— São. Consegui com uns contatos do IBAMA. — Confidenciou — Batizaram de Seriemavis caudicyana. Eram filhotes na época. Consegui uma autorização especial para criá-las, sob o pretexto de estudo controlado de fauna. Argumentei que poderia ser uma subespécie isolada. Eles adoraram a ideia.
Daniel ficou parado, hipnotizado. Seus olhos não desgrudavam das aves, como se o simples ato de vê-las respirar fosse uma prova de que nada havia sido um delírio. Tinham aquele jeito quase cômico de bicar o chão e olhar ao redor com a cabeça esticada. O mais incrível era que ao redor do casal havia pelo menos seis pintinhos, correndo de um lado para o outro em pequenos saltos atrapalhados.
Lucas se agachou diante da tela, os olhos brilhando com lágrimas não derramadas.
— Meu Deus... elas estão se reproduzindo. É um pedacinho do arapóka aqui fora.
Eric também se agachou, a voz embargada.
— Eu penso nisso todos os dias. Mesmo tendo que fazer esse sacrifício enorme de manter segredo, pelo menos aqui eu tenho a certeza de que aquilo tudo foi real. Que a gente não sonhou.
O vento soprou forte, balançando a tela do viveiro e levantando o pó da terra. A cena tinha algo de sagrado. Os piados dos filhotes eram frágeis e alegres, misturados ao silêncio sereno do entardecer.
Daniel cruzou os braços e respirou fundo, absorvendo o momento.
— A gente sempre fala do ciclo da vida, de como ela sempre dá um jeito de persistir. Acho que tá aí a prova.
Eric virou o rosto para ele, e seus olhos estavam marejados.
— A vida encontra um meio — Disse, quase num sussurro, mas com firmeza — Mesmo que precise atravessar 66 milhões de anos, ou escalar paredes de pedra, ou escapar dos dentes do último grande predador do seu mundo. A vida é teimosa demais pra desistir.
Lucas não conseguiu se conter. Levantou-se e passou o braço pelos ombros de Eric, puxando-o num abraço apertado.
— Seu desgraçado romântico. — Disse, rindo, mas a voz também tremia.
Daniel se juntou aos dois, e por alguns segundos ficaram enredados num amontoado desajeitado de braços, cabeças e costas batidas. Era um abraço de sobreviventes, de irmãos de guerra, de homens que haviam visto o impossível e voltado vivos. Quando se soltaram, Daniel ainda olhou uma última vez para o viveiro. As aves caminhavam tranquilas, alheias ao peso daquele momento humano.
— Sabe... eu não sinto mais raiva de não poder contar nada pra ninguém. Acho que nós ganhamos algo maior. Um segredo que só nós três conhecemos. Algo que ninguém vai roubar de nós.
Eric assentiu, o sorriso oscilando entre tristeza e gratidão.
— Exatamente. E quem sabe, daqui a uns anos, a gente não se reúne de novo aqui, faz um churrasco e observa essas avezinhas criarem outra geração.
Lucas riu.
— E fica bêbado falando dos dinossauros que ninguém acredita.
Daniel ergueu a garrafa, que ainda trazia um resto de espuma no fundo.
— Isso nunca vai envelhecer. Nem o assunto, nem a cerveja.
Os três riram de novo, mas havia um nervosismo no riso, como se ainda libertassem os últimos grilhões do medo. A noite descia sobre o quintal, o céu se tornando um manto azul profundo salpicado de estrelas. Uma lua fina surgia no horizonte, delicada, como se vigiasse silenciosa aquele trio de guardiões involuntários do último segredo do tempo.
Ali, naquele quintal simples, a vida parecia completa. O passado e o presente se encontravam: o terror das noites na cratera, os rugidos ecoando nas muralhas, os ataques e a perda — tudo se dissolvia no som suave das aves, no cheiro de lenha queimando e na companhia dos amigos.
O arapóka continuava lá fora, escondido no coração da floresta, intocado, secreto. Mas, de certa forma, também estava ali, respirando entre as telas do viveiro, pulsando nos olhos dos três homens que haviam saído dele.
O mundo podia seguir adiante, ignorante. Eles, não. Eles carregariam para sempre aquele peso e aquele presente. E, naquela noite, brindando sob as estrelas, Daniel, Lucas e Eric entenderam que não havia mal nisso.
Porque alguns segredos pertencem não ao mundo, mas àqueles que viveram para guardá-los.
E para eles, isso era o bastante.
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