O Último Caçador
14 Capítulo 13
A luz da madrugada chegou hesitante, como se o próprio sol tivesse receio de atravessar a espessa muralha de bruma que ainda cobria a cratera. Os primeiros raios não surgiram com força, mas sim como um fiapo tímido, filtrado pelas copas altas e retorcidas que escondiam quase todo o céu. A umidade que impregnava o ar transformava a floresta em uma massa indistinta de troncos e folhas molhadas, respirando um silêncio estranho.
Não havia canto de pássaros. Nenhum farfalhar típico da fauna que deveria acordar junto com o dia. Apenas aquele vazio sonoro, espesso, como se cada árvore e cada criatura tivesse feito um pacto mudo de sobrevivência. De vez em quando, rompendo essa quietude, um rugido distante ecoava pelas encostas — gutural, grave, prolongado — vibrando através do solo, arrepiando cada centímetro da pele dos homens. O som era tão primitivo que parecia vir de um tempo antes da própria linguagem humana.
Dentro do abrigo improvisado, os sobreviventes se amontoavam como espectros de si mesmos. O espaço era pequeno demais para tantos corpos tensos, e o calor do medo impregnava o ar quase tanto quanto a umidade. Os homens estavam exaustos. Não era apenas o cansaço físico: era uma exaustão que vinha da alma, que corroía a vontade de existir. Pareciam fragmentos de gente, unidos apenas por fiapos frágeis de necessidade e instinto.
Seus rostos estavam marcados, pálidos como cera sob a penumbra azulada da aurora. As roupas — sujas, rasgadas, endurecidas por poeira, fuligem e sangue seco — grudavam no corpo como uma segunda pele incômoda. Alguns tinham feridas mal tratadas, amarradas às pressas com pedaços de tecido sujo. Os olhos fundos, circundados por olheiras negras, contavam histórias de noites insone e terrores compartilhados, como páginas que ninguém ousava virar.
Ninguém havia dormido. Nem sequer um cochilo profundo. A vigília forçada da noite fora marcada pelo medo contínuo, um medo que não permitia ao corpo relaxar. Eles haviam passado horas com as armas pousadas nos joelhos, dedos tensos no gatilho, ou abraçando os fuzis ao peito como se fossem talismãs frágeis contra forças incompreensíveis. A cada estalo de galho do lado de fora, a cada sombra projetada pelas chamas moribundas da fogueira, os corações paravam por instantes.
Os anhangaúnas haviam rondado o abrigo durante toda a escuridão. Circulavam, se aproximavam, testavam. De dentro, podiam ouvir seus rosnados graves, quase como conversas abafadas em uma língua antiga e monstruosa. Às vezes, o som era tão baixo que vibrava dentro dos ossos, como se a terra tivesse aprendido a falar. Outras vezes, era um chamado tão distante que se confundia com o vento. Mas o pior era quando chegavam perto. Perto o bastante para que os homens pudessem ouvir o som úmido das narinas aspirando o ar, farejando pelas frestas do abrigo, como predadores que já sabiam que a presa não tinha para onde fugir.
Com o romper do dia, contudo, a frequência dos rugidos foi diminuindo, ficando cada vez mais espaçada. Até que cessaram de todo. O grupo permaneceu imóvel por longos minutos, como se não acreditasse na trégua. Cada segundo parecia um teste. O silêncio poderia ser apenas uma armadilha, uma espera paciente das criaturas. Foi somente quando a luz cinzenta preencheu por completo o interior do abrigo que alguns ousaram se mover. Poucos sussurros, olhares trocados, respirações presas. A conclusão, ainda que frágil, era inevitável: os predadores haviam se afastado, talvez para buscar sombra contra o calor nascente.
Ao saírem para o exterior, a visão que os recebeu foi um golpe cruel. O acampamento, que já era um abrigo precário, agora parecia um cemitério profanado. As chapas metálicas estavam riscadas por marcas profundas de garras, cicatrizes que tilintavam ao sol pálido. A terra batida, antes apenas endurecida pelo uso, agora estava coberta de sangue escuro, poças que secavam em crostas pegajosas. Misturados a isso, pedaços de tecido rasgado, fragmentos de couro, ossos partidos que ainda brilhavam de frescor.
Mais adiante, numa clareira aberta pela violência da noite, jazia o corpo de Batista. Ou melhor, o que restava dele. Estava espalhado, despedaçado, como se algum gigante cruel tivesse decidido brincar com o corpo antes de abandoná-lo. Braços e pernas estavam afastados uns dos outros, o torso aberto em carne viva. Havia sangue impregnado nas folhas, nas pedras, até mesmo nas árvores mais próximas, como se o massacre tivesse respingado a floresta inteira. O cheiro era insuportável. A mistura de folhagem úmida, decomposição e ferro impregnava o ar, colava na língua, entrava nas narinas sem pedir licença. Alguns engasgavam apenas de respirar.
Foi nesse cenário que Daniel e Lucas se afastaram do grupo. Precisavam de um instante longe dos olhares dos outros homens, mesmo que a distância fosse apenas de alguns metros. Lucas parecia pior do que todos. Estava pálido, com uma tonalidade quase doentia, como se o sangue tivesse abandonado o rosto. A barba por fazer acentuava ainda mais a magreza, transformando-o em um homem consumido por sombras. Seus olhos fundos saltavam de tanto esforço para permanecerem abertos, mas havia algo mais neles: uma desesperança crescente.
Lucas passava a mão pelo queixo compulsivamente, um gesto repetido tantas vezes que já não parecia consciente. O movimento era rápido, nervoso, como se cada toque fosse uma tentativa de ancorar-se no presente, de afastar os pensamentos que o ameaçavam por dentro.
— Você acha mesmo que vamos sair dessa? — Perguntou ele em voz baixa, quase um sussurro. Olhou em volta antes de falar, como se temesse que os outros ou, pior, as próprias criaturas pudessem ouvir. — Sinceramente, Daniel... eu não sei se tenho forças pra acreditar.
Daniel o fitou em silêncio por alguns segundos. O amigo não estava apenas cansado — estava à beira de se quebrar. E Daniel sabia que, se Lucas cedesse ao desespero, seria difícil segurá-lo. Então forçou um sorriso, ainda que fosse um reflexo cansado, carregado de dor. O corpo dele também protestava. Cada músculo doía como se tivesse sido torcido, cada osso parecia pesado demais. O esforço de se manter de pé era uma batalha. Mas havia algo dentro de Daniel que não se deixava apagar. Uma chama pequena, teimosa, quase insolente diante do horror.
— Lembra da caverna na Bahia? — Perguntou ele, com uma calma forçada, mas firme. — Quando ficamos presos lá dentro? Quando tudo o que tínhamos eram duas lanternas e a esperança de ver a luz do sol de novo?
Lucas piscou algumas vezes, perdido por um instante na memória. O ar de dúvida cedeu espaço a um lampejo breve de lembrança. Ele assentiu, devagar, sem acrescentar palavras.
— Pois é. — Continuou Daniel, inclinando-se um pouco, como se quisesse garantir que o amigo realmente o ouvia. — A gente saiu de lá. Argentopolis quase nos matou, mas não matou. Sobrevivemos. Se a gente sobreviveu àquele buraco infernal, Lucas, a gente sobrevive a qualquer coisa.
As palavras não eram um escudo perfeito contra o medo, mas plantavam sementes. Lucas respirou fundo, como se tentasse puxar coragem do próprio ar. Levou as mãos ao rosto, esfregou-o com força, e por um instante pareceu que iria chorar. Os olhos brilharam, mas ele conteve as lágrimas. E então, como alguém que cede apenas um fragmento de fé, forçou um meio sorriso. Não era de alegria, nem de confiança absoluta. Era resignado, cansado, mas ainda humano.
— Tomara, Daniel... Tomara.
O silêncio se instalou de novo entre eles, mas dessa vez não era o mesmo silêncio opressivo da floresta. Era um silêncio de dois homens que se reconheciam ainda vivos, ainda juntos, ainda teimosos o suficiente para resistir. Ao redor, o acampamento cheirava a morte. Mas entre eles, mesmo que frágil, havia um sopro de vida.
Quando Daniel e Lucas retornaram para junto dos outros, perceberam que a cena diante deles era de pura derrota. Era como se cada um estivesse trancado em uma cela invisível, apodrecendo por dentro. Levi, sentado sobre uma pilha de engradados amassados, fumava compulsivamente. A ponta do cigarro se acendia e apagava como um coração aflito, cuspindo filetes de fumaça que se espalhavam pelo ar pesado do abrigo. As mãos dele tremiam, e por isso tragava com ainda mais força, como se cada baforada fosse a única coisa que ainda o mantinha no controle.
Lorenzo permanecia um pouco afastado, sentado em um banco improvisado feito de tábuas pregadas às pressas. Seu corpo largo ocupava o espaço com uma imponência silenciosa, mas o olhar estava perdido, fixo em algum ponto invisível do chão. Era como se visse algo que ninguém mais conseguia enxergar — talvez os fantasmas dos homens que perdera, talvez o ouro que jamais teria em suas mãos. A máscara de brutalidade que sempre carregava parecia, pela primeira vez, corroída pelas horas intermináveis de cerco e medo.
Bernardo, por sua vez, mantinha-se sentado com a pistola na mão. Os dedos calejados esfregavam o cano com um pedaço de pano imundo, repetidamente, como um ritual sem fim. Passava o tecido sobre o metal, voltava, insistia nas mesmas manchas invisíveis, hipnotizado pelo movimento mecânico. Seu olhar estava distante, mas havia algo de sombrio nele, como se cada fricção fosse também uma tentativa de polir a própria raiva.
Daniel pigarreou. O som ecoou estranho no abrigo abafado, mas serviu para quebrar o torpor coletivo. Todos os olhos se voltaram para ele, ainda que sem entusiasmo, sem fé. E foi nesse instante que ele entendeu que não havia escolha: ou assumia a liderança de vez, ou todos ali se perderiam.
— Pessoal... — A voz dele saiu firme, ainda que cansada — Não dá mais pra ficar parado. Se ficarmos aqui, só vamos morrer devagar. Precisamos ir até o avião.
O silêncio se prolongou alguns segundos. Lorenzo foi o primeiro a reagir, inclinando-se um pouco para frente, o rosto carregado de desdém.
— E como planeja que a gente faça isso, doutorzinho? — Cuspiu as palavras, como se fossem veneno. — São mais de trinta quilômetros de selva fechada. Trinta quilômetros com um monte de dinossauros entre a gente e o avião. Sem falar que ninguém garante que o bicho não vai estar esperando a gente lá também.
A voz dele ecoou como um soco na esperança. Levi bufou, trancando os lábios em torno de um cigarro. Bernardo parou de polir a arma e ergueu o olhar, como se esperasse a reação de Daniel para decidir se iria explodir ou não.
Daniel endireitou a postura. A exaustão pesava nos ombros, mas ele não podia demonstrar fraqueza.
— Exatamente por isso precisamos de um plano. — Rebateu, firme. — Se não tentarmos, já estamos mortos.
Eric, que até então estava sentado num canto, com o diário fechado sobre os joelhos, ergueu o rosto. As olheiras dele eram cavernas fundas, os olhos ardiam como brasas consumidas. Mas havia ainda um lampejo de lucidez, de cálculo, no modo como ele olhou para Daniel.
— Temos que caminhar durante o dia. — Sua voz era quase um sussurro, mas todos ouviram — De noite é suicídio. No escuro, eles enxergam melhor que a gente. São caçadores natos. Precisamos também levar material para acender fogo rápido, caso escureça e estejamos longe de qualquer abrigo. Tochas, gravetos secos, óleo... qualquer coisa que mantenha uma barreira de luz.
Levi soltou a fumaça pelo nariz, pensativo. Lorenzo revirou os olhos, mas não retrucou. Bernardo, por outro lado, pareceu se endireitar, como se de repente tivesse encontrado uma fagulha de propósito.
— Qual o modelo do avião? — Perguntou ele, a voz baixa, mas carregada de intenção. Virou o olhar para Levi, que hesitou antes de responder.
— É um Brasília. — Tirou o cigarro da boca — Foi o único que conseguimos trazer inteiro.
Por um segundo, o abrigo pareceu respirar junto. Bernardo abriu um sorriso largo, o primeiro em dias, um sorriso que parecia arrancado à força de um rosto devastado.
— Então estamos feitos. — A voz dele agora tinha um tom quase triunfante — Conheço esse avião como a palma da minha mão. Voei muito nele quando estava na FAB. Se ele estiver inteiro e com combustível, eu consigo tirar a gente daqui.
Lucas, que estava encostado à parede de metal, deixou escapar um suspiro de alívio, como se um peso tivesse saído de seus ombros. Mas logo franziu o cenho, voltando a mergulhar no medo.
— Vocês estão esquecendo um detalhe importante. — Ele se endireitou, cruzando os braços — E aquela estrada que vocês abriram no paredão da cratera, hein? — O olhar dele se fixou em Lorenzo, duro, acusador — Vocês disseram que abriram um acesso no paredão pra descer os equipamentos, certo?
Lorenzo hesitou, os olhos fugindo para o lado, como quem procura uma saída.
— Sim... foi a única forma de trazer as máquinas maiores. — A voz saiu arrastada, sem a mesma força de antes.
— Pois então. — Lucas avançou um passo, a voz carregada de indignação — É por lá que esses malditos anhangaúnas estão saindo pra atacar os indígenas e ribeirinhos na região. Se a gente sair daqui e não fizer nada, vamos continuar deixando dezenas de pessoas, talvez centenas, podendo virar comida. Toda essa nossa expedição e todas essas mortes não terão valido de nada.
O silêncio que se seguiu foi denso. Até a fumaça do cigarro de Levi pareceu parar no ar.
— Isso não é problema nosso! — Lorenzo explodiu de repente, tentando cobrir o medo com agressividade — Nós só queremos sair vivos daqui! O resto que se vire!
Bernardo apertou a arma com força, os olhos faiscando de raiva. Mas antes que ele pudesse dizer algo, Daniel se adiantou. A voz dele cortou o ar como aço.
— É sim, Lorenzo. É problema nosso. Foi pra isso que viemos parar aqui, em primeiro lugar. — Ele se aproximou, encarando o grileiro de frente — E vocês dois dependem de nós pra sair daqui. Dependem do nosso piloto, dependem do conhecimento do Eric pra guiar o caminho e do nosso fogo pra afastar esses bichos. Então vocês vão fazer o que decidirmos. Ou podem ficar aqui, esperando esses monstros voltarem e terminarem o serviço.
A tensão no abrigo se tornou insuportável. Levi engoliu em seco, evitando olhar para qualquer um. A ponta do cigarro queimava rápido demais entre seus dedos. Lorenzo cerrou o maxilar. Respirou fundo, tentando manter a postura de sempre, a aura de chefe, de dono de tudo. Mas os olhos o traíram. No fundo deles não havia ódio, nem coragem, apenas medo.
E o silêncio que se seguiu foi sua confissão.
—X—X—X—
Eric, já mais desperto, arrastou-se para o centro do abrigo e começou a rabiscar no chão de terra batida usando um galho carbonizado retirado das brasas da fogueira. Seus movimentos eram rápidos, quase febris, como se temesse que a ideia pudesse escapar antes de ser registrada. O grupo se aproximou em silêncio, formando um círculo instintivo ao redor do esboço.
— A estrada que eles abriram é por aqui. — Traçou uma linha curva e irregular, riscando fundo a terra — A encosta é de granito parcialmente fraturado, segundo o que o Lorenzo contou. Se colocarmos explosivos nas laterais, bem neste ponto… — Ele marcou um X com força — …podemos provocar uma implosão controlada. O peso do paredão vai desabar e entupir completamente o acesso.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Bernardo coçou o queixo, olhando o desenho com olhos semicerrados. Depois balançou a cabeça.
— Você tem certeza disso, doutor? — Questionou, a voz carregada de desconfiança — Porque se errarmos, não vai sobrar pedra sobre pedra. E nós vamos estar bem embaixo.
Eric respirou fundo, ajeitando os óculos na ponta do nariz sujo de fuligem.
— Nada é certeza aqui, Bernardo. Mas é a nossa melhor chance. Se explodirmos apenas o ponto da estrada, o paredão vai se fechar sobre si mesmo. Se tentarmos dinamitar o topo, corremos o risco de criar novas rachaduras… passagens que eles podem usar depois. — Olhou em volta, sério — Temos que pensar como engenheiros e caçadores ao mesmo tempo.
Lucas se inclinou para frente, franzindo o cenho.
— Tem dinamite lá na estrada? Ou é só teoria sua?
Antes que Eric respondesse, Levi soltou a fumaça do cigarro e interveio:
— Tem sim. Guardamos num depósito improvisado, a uns quinhentos metros da base. Estávamos usando pra quebrar blocos maiores. Se ainda estiver lá… vai dar pra fazer um estrago.
Daniel endireitou a postura, os olhos firmes no desenho no chão.
— Então está decidido. Primeiro vamos até o depósito, pegamos o máximo de explosivos que conseguirmos carregar, montamos a carga no paredão e detonamos. Depois seguimos direto pra pista. — Fez uma pausa, encarando cada um dos presentes — É arriscado, mas é o único jeito de garantir que essas coisas fiquem presas aqui dentro.
Ninguém contestou. O medo ainda era palpável, grudado em cada gesto, mas havia também algo novo surgindo. Nas expressões cansadas, entre olheiras fundas e mãos trêmulas, brilhou um lampejo de propósito. Pela primeira vez desde que caíram naquela cratera maldita, sentiram que não eram apenas presas correndo no escuro.
—X—X—X—
Por horas, eles vasculharam o que restava do acampamento, os olhos atentos e os corpos exaustos se movendo entre destroços chamuscados e tendas semi-destruídas. Cada gesto era acompanhado por um silêncio quase ritualístico, quebrado apenas pelo estalar de gravetos sob as botas ou pelo som seco de alguma caixa sendo forçada a abrir.
Encontraram cordas emaranhadas entre lonas sujas de fuligem, cantis amassados ainda com vestígios de água, algumas latas de comida em conserva — feijão, carne salgada, milho. Havia também dois lampiões a querosene e latas de óleo, que Daniel inspecionou com cuidado. Com a lâmina de sua faca, ele cortou tiras de uma lona rasgada e, com destreza, começou a enrolá-las nos cabos de ferramentas, improvisando tochas.
— Isso deve durar pelo menos meia hora de fogo cada uma — Murmurou, mais para si mesmo do que para os outros.
Levi, com sua calma contida, apontou o que restava de um depósito improvisado, indicando algumas caixas metálicas escondidas sob uma lona encharcada de orvalho.
— Cartuchos extras. Calibre certo. Não muitos, mas o suficiente se a gente não desperdiçar tiro.
O grupo se reuniu em torno de um pedaço de chão mais seco, e ali permaneceram por longos minutos. Não havia mais pressa, apenas a necessidade de precisão. O planejamento era quase meticuloso. Sentados em silêncio, os olhos atentos, cada um traçava mentalmente o caminho. Discutiram pontos de descanso, lugares onde talvez pudessem acender pequenas fogueiras, calculando o risco de serem descobertos pela luz ou pelo cheiro de fumaça.
Lucas, com um graveto em mãos, começou a desenhar no chão. Seus movimentos eram lentos, concentrados, como se cada linha fosse uma sentença.
— Aqui vamos ter um trecho de mata mais fechada. Se o sol estiver baixo, precisamos passar correndo. Não dá pra acender fogo com tanta folha úmida. Depois tem um trecho mais seco... — Ele fez uma pausa, marcando um X no chão — ...aqui. Podemos acampar se for necessário.
Lorenzo observava o desenho com os olhos semicerrados, o maxilar rígido. Trincava os dentes, como se estivesse mastigando a própria ansiedade.
— E se eles nos atacarem no meio da tarde? — Perguntou de repente, a voz áspera, carregada de tensão.
Daniel ergueu os olhos, sem desviar as mãos que ainda preparavam as tochas.
— Então queimamos o que tiver pela frente — Disse, sem rodeios — e rezamos pra que eles recuem.
A resposta pairou no ar por alguns segundos. Não era coragem, era pragmatismo.
Quando tudo enfim foi decidido, o grupo se ergueu em silêncio e foi se alinhar na borda do acampamento. O céu começava a se abrir num azul pálido, enquanto o sol subia com lentidão preguiçosa. As sombras ainda se estendiam longas sobre o chão encharcado. O ar carregava o cheiro denso da terra molhada, misturado ao capim queimado da noite anterior — e ao medo. Um cheiro que parecia vir de dentro.
Era hora de caminhar — e talvez nunca mais parar.
Partiram logo depois do meio-dia, quando o sol tocou o zênite. Julgaram que, com sorte, teriam algumas boas horas de luz. A floresta os engoliu com seus braços verdes e abafados. O calor úmido fazia o ar pesar sobre os ombros como uma mortalha. Mosquitos zuniam em volta dos rostos suados, pousando nos braços e pescoços expostos, mas ninguém se importava. Estavam mais atentos aos sons abafados da mata do que a picadas.
A floresta parecia respirar junto deles, exalando baforadas de cheiro acre — folhas em decomposição, o perfume ácido dos fungos que se agarravam aos troncos como cicatrizes vivas. O silêncio ali não era ausência, mas presença. Um tipo de escuta ativa da própria natureza. Em certas clareiras, o solo era pontilhado por pequenas flores brancas e laranjas, frágeis demais para aquele mundo hostil. Mesmo nesses trechos, pairava uma quietude densa, como se a mata soubesse que estava sendo observada — ou que observava.
Eric caminhava logo atrás de Daniel, o olhar afiado como uma lâmina. De tempos em tempos, parava, agachava-se, tocava uma marca na terra com os dedos sujos.
— Provavelmente são só aquelas aves cinzentas… — Murmurava, quase tentando se convencer.
Mas seu coração acelerava sempre que via uma marca mais funda, um arranhão recente, uma trilha cortando o mato com demasiada precisão. Ele temia não encontrar apenas pegadas — mas sinais frescos das garras que já haviam ceifado alguns deles.
—X—X—X—
Foi somente depois de algumas horas de caminhada, quando o grupo fez uma pausa junto a um pequeno córrego de margens enlameadas, que Eric finalmente encontrou um momento a sós com Daniel. O grupo se dispersou em volta, cada um imerso em seus próprios rituais de sobrevivência — alguns enchendo cantis, outros molhando os rostos com água fria ou examinando suas mochilas com expressões tensas. O som tranquilo da água correndo entre as pedras parecia, por um breve instante, apagar o ruído da tensão constante. Dava até a falsa impressão de que estavam em paz.
Daniel estava sentado num tronco caído, o rifle apoiado contra o joelho, os olhos erguidos para as copas das árvores que dançavam suavemente sob a brisa. Parecia buscar alguma resposta lá no alto, ou talvez apenas um momento de silêncio dentro de si. Os galhos se entrelaçavam como dedos de uma mão gigante, filtrando a luz em feixes dourados que riscavam o ar com uma beleza quase cruel.
Eric se aproximou em silêncio, seus passos afundando levemente na lama. Ele hesitou por um momento, olhando para as costas de Daniel, tentando reunir coragem. As palavras que carregava estavam velhas, gastas por dentro, mas nunca tinham sido ditas.
— Daniel — Chamou, com uma voz rouca, mais fraca do que gostaria.
Daniel virou o rosto devagar. O rosto dele estava encovado, mais magro do que antes, com a pele marcada pelo sol e pelo vento. O nariz e as bochechas começavam a descascar, e havia um brilho de suor na testa. Mas os olhos... os olhos ainda tinham aquela chama inquieta, quase insolente, que sempre irritara e fascinara Eric ao mesmo tempo.
— Que foi, parceiro? — Perguntou Daniel com um meio sorriso cansado, tentando parecer mais leve do que se sentia.
Eric respirou fundo. O peso no peito era velho e denso. Havia tantas coisas que engolira ao longo dos anos que ele quase se esquecera de como era colocá-las pra fora.
— Eu não sei se vou ter outra chance de dizer isso — Começou, olhando de relance para o grupo ao longe — Então... eu quero que você saiba.
Passou a mão pelos cabelos suados e desgrenhados, um gesto nervoso, quase infantil, buscando coragem onde já não havia certezas.
— Eu perdoo você, Daniel. Pelo que aconteceu lá atrás, na faculdade.
Daniel arregalou levemente os olhos. O impacto daquelas palavras fez seu corpo se inclinar para frente, como se tivesse levado um soco no peito. A surpresa foi logo substituída por um peso antigo que retornava, mas de outro jeito.
— Eric…
Mas Eric ergueu a mão, pedindo um instante. Precisava dizer tudo de uma vez, antes que a dor voltasse a se calar.
— Me deixa terminar. Eu sei que na época eu fiquei com raiva. Fiquei amargo, talvez até cruel. Foi uma facada nas costas, cara. Você sabia o quanto aquele financiamento significava pra mim. O quanto eu ralei, o quanto eu me matei pra montar aquele projeto. — A voz dele tremia. — E você... foi lá e fez o que fez. Se adiantou. Jogou sujo. Dormiu com a professora. Foi ambicioso. Foi... humano. Jovem.
Daniel baixou o olhar. As mãos estavam entre os joelhos, fechadas em punhos. Ele não se defendeu. Não pediu desculpas de novo. Apenas escutou. E talvez isso fosse o que mais doía: saber que o outro tinha razão.
— Eu me arrependo tanto, Eric. — Disse, enfim, a voz rouca e baixa — Mais do que posso dizer.
— Eu sei. Eu vejo isso em você. — Respondeu Eric, mais calmo agora — Mas quer saber?
Olhou em volta. A floresta era tão vasta e viva que parecia não se importar com seus dramas humanos. A água corria entre as pedras como se estivesse ali desde antes deles e continuaria depois, indiferente.
— Mesmo com tudo isso… O medo, a fome, a morte esperando na curva... Eu estou vivendo a coisa mais extraordinária da minha vida. — Sua voz falhou, mas ele não parou — Eu vi um dinossauro, Daniel. Um dinossauro vivo. Respirando. Me olhando nos olhos.
Uma lágrima escapou. Ele não tentou esconder.
— Eu passei a vida inteira estudando fósseis. Toquei ossos com milhões de anos. Dei aula sobre coisas que ninguém mais acreditava que importavam. Sempre achei que estava tentando entender o passado. Mas aqui... aqui eu estou dentro dele. E foi você que me trouxe até aqui.
Daniel ergueu os olhos. A respiração estava pesada, trêmula.
— Aquele dia no laboratório, lembra? — Continuou Eric — Você apareceu com aquele dente... e tudo que eu queria naquele momento era te dar um cacete e te expulsar dali. Achei que era uma piada. Mas você insistiu. Me apresentou ao comandante Álvaro, e ele me fez olhar o dente. E depois... depois as coisas só foram ficando cada vez mais insanas. Mas mesmo com tudo que deu errado, mesmo com tudo o que a gente perdeu... eu não me arrependo.
Fez uma pausa. O ar parecia mais leve agora.
— Então, por mais que tenha doído o que você fez naqueles anos, foi esse caminho torto que me trouxe até aqui. E eu... eu te agradeço por isso.
Daniel levantou-se devagar. Havia lágrimas em seus olhos também. Ficou diante de Eric por um momento, respirando fundo, e então o abraçou — de verdade, sem pressa, sem vergonha. Um gesto de quem solta um peso depois de carregá-lo por anos.
— Eu sinto muito, Eric. E obrigado por me dizer isso. Você não sabe o que isso significa pra mim. O quanto eu precisei ouvir isso.
— Eu sei. — Respondeu Eric, devolvendo o abraço com força — Eu também precisava disso.
Ficaram ali por alguns segundos, abraçados no meio da floresta viva, os sons da natureza ao redor como trilha para o silêncio que finalmente havia se instalado entre eles — um silêncio bom, de compreensão.
Quando se afastaram, sorriram um para o outro. Era um sorriso torto, cansado, mas verdadeiro. Os olhos vermelhos, mas não mais pelos mesmos motivos.
Logo o barulho do grupo voltando da beira do córrego quebrou o momento. Passos, vozes baixas, o tilintar de cantis e o clique metálico de armas sendo verificadas. Daniel e Eric se juntaram aos outros, como se nada tivesse acontecido. Mas algo havia mudado entre eles. Um nó antigo se desfez, e com ele, parte do peso que ambos carregavam.
Naquela floresta onde o passado andava de novo, eles também tinham encontrado um pedaço de reconciliação.
E isso tornava tudo... um pouco menos amargo.
—X—X—X—
As horas seguintes foram duras. O sol parecia queimar com uma força ainda mais implacável, e o calor apertava contra a pele como se quisesse penetrar os ossos. O ar, denso e saturado de partículas finas, irritava o nariz e a garganta, fazendo com que cada respiração fosse um pequeno desafio. Eles avançavam em passos lentos, carregando o peso da fadiga e do medo, conscientes de que a floresta ao redor não perdoaria a menor distração.
Passaram por trechos onde a vegetação se fechava emaranhada, formando verdadeiras muralhas verdes e espinhosas. Era preciso usar as facas para abrir caminho, cortando galhos grossos e cipós que pareciam querer agarrá-los e puxá-los para dentro da mata. O esforço deixava marcas nas mãos calejadas, e o suor escorria pelos rostos cansados, misturando-se à lama e à sujeira acumulada.
Em certas clareiras, encontraram carcaças antigas, esqueletos retorcidos de animais que não tiveram a mesma sorte que eles. Restos de corpos que pareciam contar histórias mudas de violência e abandono. Cada ossada, seca e exposta ao sol, era um lembrete cruel do que poderia acontecer. A morte estava ali, invisível, mas presente como um espectro silencioso.
Eric parava frequentemente, o olhar fixo nos troncos das árvores próximas. Ele apontava para profundos arranhões, marcas irregulares que cortavam a casca e penetravam na madeira, testemunhas da passagem das criaturas que os caçavam.
— Eles usam essas trilhas nas árvores pra patrulhar o território — Explicou, a voz baixa e carregada de uma reverência quase sagrada — Caçam de cima. Ficam espreitando, vigiando. Só descem pra dar o bote.
Bernardo apertava a pistola com força crescente a cada nova descoberta, as mãos trêmulas denunciando uma mistura de medo e determinação. Lorenzo, suado e exausto, resmungava baixo impropérios, sua frustração crescendo junto com a tensão que parecia quase tangível no ar. Levi caminhava adiante, o semblante fechado e cabisbaixo, como um homem que sabia que não tinha muito mais por que lutar além da sobrevivência imediata. Seus passos eram pesados, como se cada passo fosse um pequeno sacrifício para manter o corpo em movimento.
O dia avançava lentamente, e o sol começou a declinar no céu, tingindo as folhas de tons dourados e avermelhados. Ao final da tarde, chegaram a uma elevação rochosa. De lá, puderam finalmente ver ao longe o corte artificial que marcava a estrada feita pelos mineradores no paredão da cratera — uma cicatriz violenta na paisagem, um símbolo da presença humana no meio daquela natureza selvagem.
Eric apontou, o dedo sujo de terra fixo no horizonte.
— É lá — Disse, a voz carregada de uma mistura de alívio e apreensão — O depósito de dinamite deve estar bem na base.
Daniel franziu o cenho, analisando o terreno e as opções que tinham pela frente.
— Vamos descer devagar. — Orientou, a voz firme, mas cuidadosa — Se escurecer antes de chegarmos, montamos fogo ali mesmo e seguimos ao amanhecer.
O grupo começou a contornar a elevação, os passos silenciosos sobre as pedras e o mato seco. Daniel olhou para o lado e percebeu Eric parado, observando o horizonte com um brilho diferente nos olhos — um brilho sonhador, quase infantil, que contrastava com o peso da situação.
— O que foi? — Perguntou ele, quase sorrindo pela primeira vez em horas.
Eric virou o rosto, encontrando o olhar do amigo.
— Você já parou pra pensar na sorte que tivemos? — Perguntou, a voz rouca, como se cada palavra custasse um esforço — A gente poderia ter morrido na queda do avião. Poderia ter morrido na primeira noite. Mas estamos aqui. A gente viu esses bichos de perto. A gente vai carregar isso pro resto da vida, Daniel. E mesmo que ninguém jamais saiba... a gente vai saber.
Daniel apertou o ombro de Eric com força, sentindo naquele gesto um pacto silencioso entre eles.
— E isso faz valer a pena?
Eric suspirou, os olhos caindo para os próprios pés antes de erguer novamente o olhar para o amigo.
— Faz. Por mais que pareça loucura, faz.
O sol começou a sumir, tingindo o céu de um laranja esquisito que parecia sangrar pelas bordas, como se a própria natureza estivesse em agonia. O calor dava lugar a um frescor súbito e inquietante, anunciando a chegada da noite — um inimigo tão perigoso quanto qualquer fera que os espreitasse na mata.
O grupo acelerou o passo, temendo o cair definitivo da escuridão. O som dos galhos quebrando sob seus pés e o farfalhar das folhas ecoavam com mais intensidade agora, acompanhados pelas vozes baixas, quase sussurros.
Mas Daniel e Eric seguiam lado a lado, e entre eles havia algo novo. Não era apenas o peso compartilhado do terror ou a urgência da sobrevivência — havia um laço reatado. Um laço forjado no fogo do perdão, da admiração e da aceitação mútua. Eles tinham colocado para trás as feridas antigas, entendendo que, apesar de tudo, estavam vivendo aquilo que sempre sonharam, mesmo que o sonho tivesse se transformado em luta e dor.
O mundo podia ser cruel. A floresta podia ser assassina. As sombras podiam esconder o pior.
Mas naquele momento, caminhando sob o céu que escurecia, Daniel e Eric não estavam mais tão quebrados por dentro.
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