O Último Caçador
12 Capítulo 11
O ar dentro da estrutura metálica era sufocante, pesado de umidade, graxa e sangue velho. Um cheiro acre, que parecia se infiltrar nas narinas e grudar na garganta, fazia o estômago revirar. A sensação era de que cada molécula de oxigênio estava impregnada com a decadência daquele lugar. Os homens do grupo de Daniel se entreolharam, instintivamente mais tensos, como se a simples entrada naquele espaço significasse atravessar uma fronteira invisível — da selva hostil para um reduto ainda mais opressivo, criado por mãos humanas, mas igualmente tomado pelo desespero.
A lamparina a querosene, pendurada de qualquer jeito num fio retorcido, lançava um clarão vacilante, que oscilava com o vento que entrava por frestas do metal. As sombras saltavam e se alongavam pelas paredes de zinco amassado e enferrujado, deformando engradados empilhados, barris abertos que exalavam o ranço do óleo e ferramentas abandonadas, algumas ainda manchadas de ferrugem misturada a sangue. O barulho dos passos ecoava alto demais naquele vazio — metálico, áspero, como se o chão quisesse denunciar cada intruso.
Dois homens estavam lá dentro. O primeiro chamava atenção imediatamente: branco, magro, barba rala e malfeita, um jaleco que talvez já tivesse sido branco um dia, mas agora era uma colcha de remendos de graxa, suor e sangue seco. Tentava, ainda assim, preservar uma postura de médico: óculos manchados escorregando no nariz, uma pequena prancheta na mão, onde rabiscava algo com letra apressada. O segundo era seu oposto: corpulento, pele avermelhada, olhos negros e fundos, com traços fortes moldados pelo excesso de carne. Vestia calças cáqui suadas e uma camisa marrom aberta até o peito cabeludo, de onde pendiam correntes de ouro que reluziam na luz fraca. Um bigode aparado completava a figura, junto a uma tatuagem que serpenteava do ombro até o pescoço, como se marcasse seu corpo com uma sombra permanente. Segurava um facão de maneira tão firme que parecia uma extensão de seu próprio braço.
— Esse aqui é o doutor Barbosa, médico que trouxemos pra cuidar dos garimpeiros. — Disse Levi, quebrando o silêncio com sua voz rouca. O homem do jaleco ergueu levemente a cabeça em saudação, os olhos cansados e atentos. Levi então apontou o dedo grosso para o segundo — E esse é Lorenzo, o dono dessa porra toda.
Lorenzo não sorriu. Não precisou. Apenas inclinou o corpo levemente, sustentando o olhar do grupo recém-chegado. Havia algo de predatório naquela expressão calculista, fria.
— E vocês são os otários que vieram espionar minha operação e acabaram derrubados pelas minhas balas, é isso? — Indagou ele, com um sotaque hermano carregado, cada sílaba cuspida como um desafio.
Bernardo não conteve o ímpeto. O sangue lhe subiu à cabeça. Deu um passo à frente, o fuzil balançando em suas mãos com a violência de um gesto que beirava ameaça.
— Isso mesmo, seu filho da puta! — Gritou, cuspindo as palavras — Seu mascotinho aqui derrubou meu avião!
O eco de sua voz reverberou pelo interior da estrutura, fazendo a lamparina balançar mais forte. Por um instante, parecia que todos os homens ali iam sacar as armas ao mesmo tempo.
Mas Lorenzo sequer piscou. O rosto impenetrável permaneceu o mesmo.
— Derrubamos, claro. — Respondeu, com uma calma glacial — Não ia deixar o exército ou a PF dar o bote.
Bernardo avançou mais um passo, prestes a explodir. Batista o puxou pelo ombro com força, tentando contê-lo, enquanto Daniel erguia a mão num gesto de paz.
— Bernardo, não. — Disse Daniel com firmeza, olhando-o nos olhos — Agora não.
Bernardo respirava como um touro enfurecido, o maxilar contraído, as mãos crispadas no fuzil. Por um momento pareceu que não iria ceder. Mas finalmente, com um resmungo gutural, deixou-se ser puxado para trás.
Lorenzo ergueu as sobrancelhas, satisfeito com a reação.
— Mas não sou cego. — Completou — Vocês parecem tão fodidos quanto a gente agora. Então, por enquanto, paz.
O silêncio se estendeu, pesado. Até que Daniel, buscando retomar algum controle da situação, falou:
— A verdade é que o que viemos investigar aqui é muito maior do que mineração ilegal. Seus homens já devem ter contado.
Levi, encostado num dos pilares de ferro retorcido, soltou um riso sem humor e apontou o queixo para fora, na direção da noite sufocante que rodeava o acampamento.
— Não sobrou homem meu pra contar nada. — Disse com voz baixa — Só a gente mesmo. E não porque quero.
Os olhos do doutor Barbosa brilharam por trás das lentes sujas. Ele se aproximou, segurando a prancheta contra o peito.
— Então vocês também encontraram as... criaturas. — Disse, quase num sussurro, como se a simples palavra fosse proibida.
Eric soltou uma risada curta, quase doente, que não tinha nada de humor.
— Encontrar seria brando demais. Elas nos encontraram. Levaram dois dos nossos. — Murmurou, devolvendo o questionamento — E vocês? O que estão fazendo aqui?
Um silêncio denso caiu sobre todos. Até que Lorenzo começou a andar pelo espaço, devagar, a mão roçando constantemente o cabo do facão largo que trazia na cintura.
— O plano era simples. — Pontuou, como quem inicia um relato já repetido muitas vezes — Abrir o acampamento aqui pra mineração. Os cursos d’água dessa cratera estão cheios de ouro, turmalina, esmeralda e outras merdas valiosas. Era só cavar e ficar rico.
Ele fez uma pausa, respirando pesado, depois continuou:
— Abrimos a estrada na unha pela montanha, descendo equipamento pesado com guinchos e cordas. Caminhões, tratores, britadores. Levou semanas. Construímos uma pista de pouso improvisada do outro lado da cratera, perto da cachoeira. O solo lá era firme, plano. Pousávamos nosso avião trazendo mantimentos, combustível, mais homens. Aqui, montamos o acampamento principal perto das jazidas mais ricas. Era ouro puro nas pedras, meus amigos. Podia-se sentir a fortuna escorrendo na água. — Os olhos dele brilharam ao lembrar, mas logo escureceram de novo — Tava indo tudo bem... até começarem os ataques.
Lucas engoliu em seco.
— Ataques?
Levi abriu os braços, apontando para si mesmo, para Lorenzo e para Barbosa.
— Você tá olhando pros que sobraram. — Disse com um tom sombrio — Éramos quarenta homens. Hoje, somos três.
O doutor Barbosa pigarreou, a voz arrastada, como quem revive pesadelos.
— Eles vêm à noite. Sempre à noite. Não fazem barulho até já estarem em cima. Um segundo o homem tá sentado fumando... no outro, é arrastado pra dentro da mata. — Fez uma pausa, os olhos perdidos — O que sobra... é só sangue e gritos. E silêncio depois. O silêncio é pior.
Lucas empalideceu, os punhos cerrados. Batista desviou o olhar, como se pudesse afastar as imagens da mente.
— Os que tentaram fugir pela floresta nunca voltaram. — Acrescentou Barbosa — Acho que foi até melhor assim.
Daniel passou as mãos pelo rosto, tentando processar.
— E vocês não tentaram usar rádio pra pedir socorro?
Lorenzo bufou.
— Tentamos. Mas o único rádio que presta é o do nosso avião, que tá parado lá do outro lado da cratera. Nosso piloto... — Ele apontou com o polegar para a janela de chapa, onde se via, do lado de fora, uma pequena cruz de madeira fincada no chão — morreu na primeira semana. Degolado por um desses bichos. Desde então, não temos como sair, nem chamar ninguém.
Bernardo riu, mas não havia nada de humor em seu som rouco. Era pura raiva.
— Pois bem, agora tem piloto. — Disse, avançando mais uma vez, o dedo em riste contra Lorenzo — Eu vou tirar a gente daqui, seu merda, mas você me deve um avião.
Lorenzo sorriu pela primeira vez — um sorriso curto, torto, cheio de desdém.
— Devo nada.
O silêncio voltou a dominar o galpão, interrompido apenas pelo chiado da lamparina e pelo som distante da selva noturna. O peso da tensão era tanto que parecia que as paredes de metal se curvavam sob ele.
Batista foi quem quebrou o impasse, a voz prática e direta.
— O que importa é que agora temos um novo objetivo. — Disse, encarando Lorenzo e Daniel em seguida — Vamos precisar atravessar a cratera até o outro lado. Mas antes precisamos nos recuperar. Comer, dormir, tratar dos ferimentos.
O doutor Barbosa assentiu lentamente.
— Posso ajudar com isso. Pelo menos pra deixar vocês em condições de andar até lá.
Os olhos dele, cansados e pesados, não carregavam arrogância, apenas resignação. Pela primeira vez, Daniel sentiu que havia alguma honestidade naquele ambiente de máscaras e facões.
Mas Bernardo, ainda imóvel, encarava Lorenzo com fúria pura nos olhos. Apertava o fuzil com tanta força que seus nós dos dedos estavam brancos. A promessa pairava no ar como pólvora: ele pilotaria aquele avião, mas não esqueceria a dívida.
—X—X—X—
O final da tarde caiu pesado sobre o acampamento, tingindo a cratera de tons alaranjados que logo se dissolviam em cinza. O calor sufocante do dia deu lugar a um frio úmido que penetrava pela pele como uma agulha lenta. O doutor Barbosa, com sua expressão exausta e movimentos metódicos, fez o que pôde com os recursos miseráveis que restavam. Improvisou curativos novos em Bernardo, Eric e Batista, cortando tiras de pano de um lençol puído para enfaixar os ferimentos, e aplicou algumas injeções de antibiótico resgatadas de um estojo de metal amassado. O cheiro da medicação misturava-se ao ranço de mofo e graxa que impregnava o galpão, tornando o ar quase irrespirável.
O alívio da assepsia, no entanto, vinha acompanhado de dor. Cada picada da agulha era recebida com caretas e murmúrios baixos. Bernardo resmungou palavrões entre os dentes, Batista cerrou os olhos para não demonstrar fraqueza e Eric, o mais calejado, limitou-se a soltar um suspiro rouco.
Depois dos curativos, veio a refeição. Barbosa lhes ofereceu um pouco de comida retirada de panelas encardidas: pedaços de carne salgada que precisaram ser reidratados, arroz quase passado, com cheiro azedo, e uma panela de feijão espesso, de cor indefinida, que parecia ter sido requentado mais de uma vez. A aparência era desanimadora, mas a fome era maior. Nenhum deles ousou recusar. Mastigaram em silêncio, sentindo o grão duro do arroz ranger entre os dentes, o sal exagerado da carne secar a boca e o feijão grudar no céu da boca como cola. Mesmo assim, para estômagos vazios, foi um banquete.
À medida que a noite descia de vez, o galpão se enchia de sombras. As lamparinas de querosene tremeluziam presas a ganchos improvisados, projetando vultos que dançavam nas paredes metálicas como espectros zombeteiros. Cada sombra parecia mais viva que os homens que ali estavam. O som metálico dos passos ecoava de maneira incômoda, lembrando a todos que aquele lugar, embora amplo, era uma prisão.
O grupo se espalhou pelo espaço, cada um ocupado em algo que não passava de tentativa de afastar os pensamentos. Lorenzo afiava seu facão com movimentos lentos e ritmados, a pedra raspando no aço num som áspero que se repetia como um relógio sombrio. Levi desmontava e limpava o fuzil peça por peça, os olhos fixos, quase hipnóticos, como se naquela rotina houvesse alguma segurança. Bernardo, por sua vez, simplesmente encarava o vazio, o rosto endurecido pela raiva e pelo rancor que o consumiam desde a queda do avião.
Foi Batista quem quebrou o silêncio com a objetividade costumeira.
— Amanhã cedo partimos pra pista. — A voz dele soou firme, mesmo baixa — Dormimos algumas horas, com vigias em turnos. Quero todos prontos pra se mover ao primeiro sinal.
Não houve protestos. Não havia forças para discussões. Todos sabiam que aquele plano, por mais arriscado que fosse, era a única direção possível.
Com a ordem estabelecida, cada um foi buscar um canto do galpão para se deitar. Alguns improvisaram camas de engradados cobertos por panos, outros se acomodaram direto no chão de terra batida, duro e frio. A exaustão era tanta que até o desconforto parecia suportável. O silêncio era cortado apenas pelo ranger metálico da estrutura a cada rajada de vento e pelos ruídos da floresta ao redor: coaxar de sapos, gritos longínquos de aves noturnas, estalos de galhos quebrando — ruídos comuns, mas que ali pareciam prenúncios de algo mais.
Daniel, sentado em um canto, observava seus companheiros à distância. Foi então que seus olhos pousaram em Eric. O paleontólogo estava afastado do grupo, como se carregasse um peso que o impedia de compartilhar espaço com os demais. Sentava-se curvado, o diário aberto no colo, as páginas cobertas por desenhos precisos das garras do anhangaúna. Os traços eram tão detalhados que pareciam feitos com a precisão de um bisturi, mas a mão que segurava o lápis tremia levemente. O olhar de Eric, fixo nos rabiscos, estava perdido em outra dimensão, e por um instante Daniel percebeu o quão frágil e humano ele parecia.
Havia em Eric uma inquietação que não era apenas medo das criaturas. Era algo mais profundo, mais devastador. Daniel sentiu um aperto no peito. Conhecia aquele olhar — o olhar de alguém que havia encontrado algo grandioso demais para si, uma revelação que podia tanto iluminar quanto destruir.
Movido por empatia, Daniel se levantou e caminhou até ele, tentando não chamar atenção dos outros. Sentou-se ao lado, sem dizer nada de início. Ficaram assim por alguns segundos, partilhando o silêncio carregado de tensão, até que Daniel quebrou a barreira com uma voz suave.
— Ei... quer falar sobre o que tá passando nessa sua cabeça genial?
Eric respirou fundo, o peito subindo e descendo como se lutasse contra algo dentro de si. Ficou em silêncio mais alguns instantes, os dedos passando pelas bordas do diário, até finalmente falar, em tom baixo, quase um sussurro.
— É tudo tão grande, Daniel. Grande demais pra nós.
Daniel não respondeu de imediato. Apenas manteve os olhos nele, deixando o amigo encontrar seu próprio ritmo.
— Você tem ideia do que isso significa? — Eric continuou, a voz embargada pela mistura de fascínio e pavor — Um ecossistema isolado, dinossauros vivos... criaturas que o mundo inteiro acreditava extintas. Se a gente conseguir sair daqui, se voltar pra BH... e contar pra qualquer um... esse lugar vai deixar de existir.
O diário tremeu em suas mãos. Eric fechou os olhos por um momento, como se o simples ato de imaginar o futuro fosse doloroso demais.
— Vão vir caçadores. — Ele abriu os olhos e encarou Daniel com intensidade — Vão vir turistas, aventureiros, pesquisadores sem escrúpulos. Vão transformar essa cratera numa atração, vão lotar o céu de helicópteros e o chão de trilhas. Vão capturar os animais, vendê-los, explorá-los, matar por diversão. Em pouco tempo, essa espécie... todas elas... vão sumir do mapa.
O silêncio que seguiu era quase palpável. Daniel sentiu a garganta seca. A ideia era devastadora, mas também inevitável. Desde o início daquela jornada, sonhara com reconhecimento, prêmios, o prestígio de descobrir algo inimaginável. Agora, tudo isso se dissolvia diante do que Eric dizia. Era como se a glória fosse um luxo mesquinho diante da imensidão da responsabilidade que tinham nas mãos.
Ele tentou balbuciar algo.
— Você quer dizer... não contar pra ninguém? Nem publicar?
Eric fechou o diário num estalo seco, o som reverberando pelo galpão como uma sentença.
— Nem publicar. — A voz dele era firme, quase raivosa — Isso destruiria tudo. Não seria ciência, seria massacre. Seria o mesmo que vender o último panda pra um circo.
Daniel respirou fundo, sentindo o peso das palavras como pedras sobre o peito. De repente, toda a euforia da descoberta parecia tola. O que era fama diante da destruição de algo tão único? O que era reconhecimento acadêmico diante da responsabilidade de preservar um segredo que poderia mudar — ou arruinar — o mundo?
Por um instante, o arqueólogo sentiu-se esmagado pela realidade. Mas ao olhar para Eric, tão consumido pela angústia, encontrou clareza. Colocou a mão no ombro do loiro e falou com calma, quase num sussurro:
— Então faremos o que for preciso pra garantir isso. — A frase saiu carregada de uma promessa silenciosa — Mas primeiro, a gente precisa sair vivo daqui.
Eric soltou um suspiro trêmulo, como se uma parte de sua alma tivesse sido libertada. Baixou a cabeça e balançou lentamente.
— Primeiro a gente sai vivo. — Repetiu, sem convicção total, mas com resignação.
O diário permaneceu fechado em seu colo, e Daniel sabia que aquele gesto dizia mais do que qualquer palavra: Eric havia decidido carregar sozinho um peso que, no fundo, era de todos.
E naquela noite, enquanto as lamparinas tremulavam e o vento fazia o galpão ranger como uma carcaça velha, Daniel entendeu que o verdadeiro inimigo não era apenas o predador invisível da floresta, mas também a ganância inevitável do próprio homem.
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