O Último Aviso
1 Único
Eu participo de uma ONG que resgata animais negligenciados ou maltratados por seus donos. Como tinha acabado de entrar, recebi um cargo pequeno para começar e não podia acompanhar os resgates em si, eu era responsável por levar advertências aos casos menores que eram reportados. Por causa disso fiquei conhecido como Henri, o garoto dos avisos. Eu odiava esse apelido estúpido.
As tardes de sábado que eu passava ajudando na limpeza eram sempre tranquilas já que eu não podia sair sem permissão. Foi numa tarde de primavera que fui chamado para entregar uma advertência em uma casa mais afastada.
— Ei! Garoto dos avisos! - chamou um dos membros da ONG, um superior para ser exato, é só por esse motivo que eu não mandei ele para aquele lugar.. apelido maldito - Você tem que entregar esse aviso naquele bairro de idosos assim que terminar de varrer aí.
— Ok..- suspirei desmotivado.
— Ai cara, não fica assim — ele colocou a mão em meu ombro, sorrindo gentilmente — Esse será o último.
Meus olhos brilharam naquele momento, um sorriso infantil e idiota de orelha a orelha apareceu no meu rosto, claro. Eu adorava animais, faria de tudo para ajudar e apenas entregando avisos não era o suficiente para mim.
Terminei o mais rápido possível e fui correndo até o escritório para pegar aquele abençoado aviso, estava tão feliz que seria o último que mal consegui tirar o sorriso do meu rosto.
Eu não era um cara muito expressivo, minha vida nunca deu abertura para tal. Criado numa família de 5 filhos, sendo o mais velho, as responsabilidades de cuidar dos mais novos sempre caiu em mim já que os meus pais queriam “curtir a vida”. Eu nunca pude ter meus próprios bichinhos de estimação, minha família já era grande o suficiente com bocas demais para alimentar e mais uma não era opção de jeito algum.. Podemos dizer que tenho um coração de manteiga quando tem algum bicho envolvido, o simples fato de ver algum focinho no portão me faz querer passar a mão e brincar um pouquinho. Foi assim que perdi o dedo mindinho da mão esquerda. Peguei o envelope.
— Esse é um típico aviso de negligência para um velhinho, vive com a filha que é a responsável — ele me explicou — Alguns vizinhos escutaram latidos de um cão, mas o quintal é pequeno demais e nenhum pote de ração ou água foi avistado.
— Entendido! — exclamei e saí alegremente de lá, o fazendo rir.
— Boa sorte, Henri.
Sorri, meus dias como o garoto dos avisos tinham acabado de vez.
O clima estava quente, porém, quanto mais perto eu chegava daquele bairro afastado de idosos, mais os ventos ficavam inquietos e ruidosos como sussurros perdidos. Isso me deu calafrios.
Na caminho parei para afagar alguns animais que encontrava pela rua, mas conforme o meu destino se aproximava, menos e menos casas eu encontrava. Estranho.
Depois de 20 minutos de caminhada eu já estava um pouco cansado, meu porte físico não é dos melhores. Sou bem magro, não tão alto e ainda precisava trabalhar nos músculos.
Quando finalmente cheguei, os calafrios aumentaram. Antiga, mas não tão velha, era a mais afastada da vizinhança e tinha apenas uma casa perto, a uns 20 ou 30 passos largos de onde eu estava no momento. Perto das 6pm, o sol já estava indo descansar e a escuridão começou a brigar por espaço no céu. O clima perfeito para deixar meu último aviso.
Fui até a porta da frente, na varanda, e toquei a campainha mas não foi emitido nenhum som e então bati algumas vezes, sem resposta. Resolvi então dar a volta pelos portões dos fundos, eu não podia simplesmente deixar o envelope lá para um pobre velho lidar sozinho, explicações devem ser dadas para que a compreensão seja clara.
Não foi difícil como eu pensei que seria, a cerca era mediana e o portão de acesso estava aberto, possibilitando minha entrada. Fui até a porta e bati novamente, percebi que a porta estava entreaberta, como se alguém tivesse esquecido de fechar da última vez que saiu, não parecia forçado. Me senti mais obrigado ainda a chamar pelo senhor que ali morava. Nesse momento, escutei uma pessoa gritando de dor e me virei rapidamente, assustado, percebi então que não tinha sido um grito e sim um gemido de dor. No canto da cerca, algumas caixas de papelão estavam se mexendo, ao verificar o que era, me deparei com uma cena que quebrou o meu coração: um cão da raça Chow Chow totalmente desnutrido e ofegante, com falhas na pelagem vermelha mal cuidada e despenteada, uma das patas dianteiras estava torta, como se tivesse sido quebrada. Um de seus olhos estava tão infectado que dava para ver larvas de mosca na superfície do mesmo. Ele rosnou e mostrou os dentes com a pouca força restante.
— Calma garoto.. Será que tem nome esse menino bonito? — eu estendi minha mão, enquanto tentava segurar as lágrimas, procurando por uma coleira.
Ele então pareceu entender que eu estava oferecendo ajuda e abanou sua cauda de leve ao sentir meu toque nos pelos desgrenhados. Encontrei uma coleira de couro marrom que carregava um pingente gravado “Dalila” na parte frontal. Conferi, com todo cuidado, o sexo do cão.
— Ah, desculpe senhorita — eu disse, tentando engolir o choro — Você deve estar com sede não é menina? Quer água?
MERDA! Saí tão animado que esqueci minha bolsa com kits básicos..
Mas.. A casa..!
Eu olhei com um grande pesar no coração para Dalila, ela parecia tão frágil que eu tinha medo até de acaricia-la ainda mais de pega-la. Não era uma adulta, era menor que isso, eu podia dizer. Percebi que para a fazer me entender eu só precisava conversar pelo olhar, porque no instante que eu pensei na casa, ela se levantou com grande dificuldade, e de alguma forma, ela conseguiu ficar firme. Senti uma conexão naquele momento.
— Vamos até a casa para pegar água, ok? Então sairemos desse inferno. — tentei me recompor ao máximo e fui em direção a porta meio aberta enquanto Dalila me seguia em seu próprio tempo, mancando um pouco.
A porta dava para a cozinha, espiei e não consegui achar ninguém no primeiro andar. Uma casa antiga feita de madeira é comum, porém, a madeira daquele lugar era podre e corroída. Existiam vários sinais de infiltração no teto principalmente e no chão em que eu pisava pude notar diversas rachaduras perigosas até mesmo para mim, imagine para um senhor de idade. Comecei a procurar por canecas, potes ou panelas para encher de água, procurei primeiro nos armários: Nada. Apenas caixas vazias, sacolas rasgadas e embalagens amassadas, o que era muito estranho, onde diabos estavam os suprimentos desse cara?
Enquanto eu procurava, Dalila parecia inquieta, ela dividia seu tempo entre encarar sem piscar a escada para o segundo andar e me olhar como se mandasse me apressar. No último armário achei uma caneca branca com uma pequena marca na superfície. Parece que tudo aqui nessa casa é podre..
Andei até a pia.. Nojenta. Pilhas e mais pilhas de louça suja acumulada. É como se tivesse sido abandonada.
Tenha água.. Tenha água...
Para minha não surpresa: não tinha. Essa casa maldita!! Encarei Dalila por algum tempo enquanto a postura de alerta dela não desaparecia por nada, suspirei decepcionado.
Foi então que escutei um barulho — segurei a respiração — vindo do andar de cima, como se alguém tivesse tropeçado e esbarrado na parede.
Eu sei que ser curioso não é bom. Ao mesmo tempo que um sentimento estranho me consumia, a curiosidade também fazia sua parte em minha mente.
O silêncio veio a tomar conta da casa, mas dentro da minha cabeça o barulho era incalável: O que foi isso? Será o velho? Ele está bem? MERDA! Eu deveria ajudar.. Mas e Dalila? Não achei água.. E se ele tiver caido?!
Contra meu senso de perigo, andei cuidadosamente até a escada, e Dalila me seguiu com a mesma aura.
Olhei em volta, enquanto a cozinha parecia ter sido usada além da conta, a sala de jantar parecia intocada. Passei por uma cômoda com algumas fotos espalhadas por cima, algumas de uma família grande e feliz, então de um casal de senhores que pareciam apaixonados por décadas. Então uma me chamou atenção.. Era uma foto do casal de senhores segurando um filhote de Chow Chow. Era a Dalila? Aproximei a foto do meu rosto, notei que o filhote em questão tinha uma mancha mais clara que o resto da pelagem na pata esquerda.
Ajoelhei no chão.
— Ei garota — bati minhas mãos levemente no meu colo — Vem aqui um pouquinho, ok?
Ela veio em minha direção abanando levemente a cauda, de orelhas abaixadas, ao chegar perto o suficiente eu me inclinei. Era ela sim.
Passei para a foto seguinte, era a mesma senhora feliz, dessa vez na cama, enquanto Dalila estava deitada aos seus pés brincando com uma bolinha. Então outra, só dela, brincando com a mesma bolinha enquanto outros brinquedos estavam espalhados pelo chão a sua volta. Na seguinte, a senhora estava abatida com um aparelho em seu nariz, o senhor aparecia sentado em uma poltrona ao lado da mesma, e Dalila por sua vez, deitada aos pés dele. Já na última, restava apenas o senhor, com a cadela em seus pés.
— Por que você acabou assim? — a encarei desacreditado.. como? A senhora mostra tanta afeição nas fotos — Você até tinha brinquedos..
Me controlei e fiquei novamente de pé, fui em direção a escada, quando Dalila protestou.
— Eu sei, eu sei.. Mas não vou demorar, eu prometo menina.
Avancei. A cada passo que eu dava, um calafrio novo subia minha coluna, meu sensor de perigo estava louco e o suor frio escorria em minha pele. Olhei por cima do ombro, e mesmo contrariada, ela me seguia cautelosa.
Ao chegar no segundo andar, o cheiro era insuportável, um mar de lixo quase me impedia de ver a cor imunda do chão, o forte cheiro de urina queimava meu nariz. Todas as janelas estavam bloqueadas, Impedindo a entrada de luz e ar. Escutei novamente o mesmo barulho, que me fez saltar do lugar. Coloquei a mão em minha boca, prevenindo de emitir algum som desnecessário, eu mesmo não entendi o porque dessa reação, só tive um sentimento de urgência.
Escutei então vozes, sussurros perdidos pelos corredores escuros. Por um momento meu cérebro congelou, mas voltei quando ouvi o uivo de medo de Dalila ecoar por toda casa. Nesse momento eu vi o que despertou medo nela.
Uma figura surgiu bem ao fim do corredor. Era alta, esguia, corcunda e acima de tudo, assustadora. Era o velho.
Aquela coisa olhou diretamente para mim, como se estivesse observando minha alma. Minha frágil alma. Em menos de dois segundos mil e uma coisas aconteciam em meu corpo, o suor descia frio, minhas mãos tremiam, meus olhos arregalaram e meu coração parecia querer ir para outro corpo. Eu entrei em colapso total. Meu cérebro não conversava mais com o meu corpo naquele momento.
O velho então fez um barulho indescritível, um grito que era a mistura entre pavor e raiva, que fez todos os pelos do meu corpo saltarem. Olhei para Dalila que já tinha corrido de volta para a porta e estava a arranhando tentando abrir caminho.
No momento em que eu voltei a olhar em sua direção, ele já tinha me alcançado, era tarde demais. Fui agarrado pelo colarinho e levantado do chão com uma facilidade anormal, as mãos dele eram podres, as pontas de seus dedos estavam pretas e muitos deles não possuíam unhas. Ele estava coberto de cicatrizes, muitas ainda abertas e recentes, cheias de pus e larvas que rastejavam fazendo um grande banquete na carne dele.
— IDIOTA, O QUE VOCÊ ESTÁ PENSANDO?! — ele gritou com todo o ar que estava em seus pulmões, pude sentir seu hálito nojento, mas antes que eu pudesse notar algum outro aspecto repugnante ele me soltou.
Rolei escada abaixo mas antes de sentir qualquer dor eu me levantei e corri em direção a porta, peguei Dalila nos braços e corri como se minha vida dependesse disso.. E bem, dependia. Depois de correr com toda força por 10 minutos sem olhar para trás, eu não conseguia mais respirar de tanto desespero. Parei e olhei para trás, sem nenhum sinal dele. Foi aí então que meu cérebro decidiu voltar a se comunicar com meu corpo..
Mas que diabos aconteceu aqui?!
Eu voltei para a ONG ainda sem fôlego e com Dalila em meus braços, sem saber o que pensar de tudo isso. No caminho eu percebi o quanto minha queda na escada foi feia, minha testa sangrava assim como meu ouvido direito, minhas costas estavam ardendo e eu tinha torcido feio o meu tornozelo direito, além de que eu não conseguia respirar direito.
Quando cheguei, todos se alarmaram e ficaram desesperados, querendo chamar uma ambulância. Eu insisti que eles cuidassem primeiro dela. Acompanhei e o quadro foi de clara negligência e abuso, a pata tinha sido quebrada e acabou se curando com o tempo na posição errada, ela estava desnutrida e seu pelo estava mal cuidado. Infelizmente não tivemos como salvar o olho que estava infectado.
Enquanto eu acompanhava todos me perguntavam e tentavam me fazer ir ao hospital o quanto antes, mas eu apenas aceitei ir quando passaram meu nome como o responsável legal de Dalila, para mim isso era o mais importante.
— Eu vou voltar para levar você para casa menina, não se preocupa e me espera, ok? — acariciei seus pelos desgrenhados me despedindo antes de ir para o hospital. Ela me correspondeu com um fraco latido, mostrando uma certa animação.
Cheguei no PS e recebi atendimento imediato, uma de minhas costelas foi fraturada, meu tornozelo sofreu uma contusão feia e meu ombro uma subluxação.
Nas horas em que eu fiquei lá, dois policiais vieram conversar comigo e eu expliquei a eles tudo o que aconteceu, contei tudo três vezes, com todos os detalhes que eu podia me lembrar. Eles agradeceram o meu tempo e disseram que iriam cuidar de tudo. No outro dia, uma multidão, tanto de curiosos como de repórteres, estavam tentando conversar comigo, mas todos eram barrados por um segurança particular que foi colocado na porta do meu quarto pela polícia. É claro eles não queriam que um escândalo desses tomasse uma repercussão “maior do que o necessário”, foi o que eles disseram.
Alguns dias depois a enfermeira veio me trazer um jornal. “Senhor de idade é encontrado deteriorando sozinho dentro de própria casa” era o título que se destacava na primeira página. Continuei a ler: “O senhor M.B de 67 anos foi encontrado definhando em sua própria casa, a filha que seria a cuidadora do idoso não foi encontrada. Ele foi encontrado por um jovem não identificado que deveria entregar uma notificação sobre um possível caso de maus tratos denunciados pelos vizinhos, para a surpresa do rapaz o que ele encontrou foi uma cena chocante: M.B estava literalmente apodrecendo juntamente a sua casa. Segundo as fontes, o senhor agiu com violência para com o menino, o empurrando de uma escada. Ele já foi retirado de sua casa e levado para um hospital especial em outra localização não revelada.”
— Tomara que tenha sido levado para um hospício, isso sim! — suspirei e voltei minha atenção para o meu celular.
Meus colegas mandavam diversas fotos de Dalila por dia, me atualizando de sua recuperação. Era a única coisa que me mantinha esperançoso, eu fiz uma promessa para ela e eu pretendo cumprir. Vou levar ela para minha casa e a tratar como ela realmente merece. Assim o fiz.
Depois de algumas semanas de observação eu finalmente pude ir para casa.
Todos os dias desde que eu voltei eu ia na ONG e meu superior brigava comigo dizendo que eu precisava descansar. Eu contei minha história para os meus colegas diversas vezes, e eles adoravam ouvi-la. Minha felicidade só se completou quando em um desses dias eu pude levar Dalila para casa comigo.
Ela se adaptou perfeitamente e logo estava totalmente confortável vivendo comigo. Depois de alguns meses eu aprendi que era eu quem vivia com ela. Dalila é toda caprichosa e cheia de manias, o que a tornava uma esquisita muito fofa. Eu adorava isso nela pois a tornava única.
Depois de algumas semanas, eu recebi uma carta. Não era uma conta, estranho.. Assim que a peguei em mãos, meu corpo tremeu. Não era algo bom, eu senti. Fui até o sofá e me sentei, Dalila se deitou aos meus pés. Quando olhei de quem era, não pude acreditar: M.B.. Era o nome do velho dito pelo jornal.
Novamente a curiosidade me tomou e eu abri a carta. Fiquei confuso quando a li.
“ Sei que você deve sentir medo e um enorme desconforto ao receber uma carta minha. Mas eu sou um amigo, acredite.”
O que esse cara está pensando, meu amigo, depois de ter me atirado escada a baixo?!
“ Eu sei que você se assustou ao me ver. Não te culpo, minhas condições estavam horrendas e minha consciência abalada. Minha vida era perfeita, eu tinha uma família enorme e carinhosa, além de que a minha filha estava esperando meu primeiro netinho. Minha esposa estava tão feliz quanto eu, é claro. Ela era uma mulher viva com uma alma jovem, e eu a amava mais do que a mim mesmo e fazia tudo que ela me pedia. Foi em uma tarde quente e agradável que ela me pediu um cão, um novo bebê na nossa casa, para alegrar nossos dias. Na mesma noite em que ela disse isso, Dalila apareceu em nossa porta, uma surpresa, boa, a princípio. Ela se apaixonou por este cãozinho que parecia uma bola de pelos, e comprou brinquedos, comida e guloseimas, caminha e tudo mais. Foi aí que o nosso pesadelo começou. Ela repentinamente começou a adoecer, o amor da minha vida que sempre fora vivaz e jovial tinha que usar um aparelho para respirar e não podia mais sair da cama. Eu desconfiei, afinal, foi tudo perfeitamente cronometrado, uma coincidência grande demais. No começo eu me achei louco, mas então eu comecei a confronta-la, e tudo se comprovou. É essa maldita cadela. É tudo culpa dela, minha amada faleceu e a culpa é inteiramente dela! Ela sabe o que você pensa e de alguma forma ela vai te controlar, não confie. Só te peço uma coisa: faça tudo que ela lhe pedir, não desobedeça, não pense nisso nem por um segundo, JAMAIS, porque ela vai saber. Se mantenha a salvo e faça isso pelos outros, se afaste de seus familiares ou ela vai fazer isso da pior maneira possível. Eu espero que você não seja um tolo e que me leve a sério. Desejo de você o melhor destino possível. Boa sorte. M.B”
— Cara.. Esse velho é mesmo pirado. — disse rindo e amassando essa carta ridícula.
Passei meus pés pelo corpo de Dalila, a acariciando enquanto ela brincava com o mordedor. Ela então parou e subiu no sofá, se deitando ao meu lado. Acariciei sua cabeça e estiquei o braço para pegar o controle, quando a ouvi ronronar.
Meu corpo parou e lentamente virei meu rosto para ela, que me encarava de volta. Por alguns minutos nós nos encaramos em um silêncio mortal que tomou a sala.
Era como se ela tivesse esquecido quem ela era por um segundo.
O desespero me tomou. Olhei em volta tentando visualizar algo mas eu não conseguia pensar em nada útil, apenas na carta que eu amassei. Ela mostrou os dentes como se estivesse sorrindo e tudo o que eu pude fazer foi engolir a seco, tremendo de pavor.
uma voz indefinida, rouca e que ecoava veio de Dalila, mesmo que sua boca não se movesse, tomando a minha casa inteira.
— Você não deveria ignorar o conselho de um amigo, Henri. Principalmente "não desobedeça"..
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