O inverno estava cada vez mais intenso. A neve agora era parte constante da paisagem que cercava Seul, o frio cortante congelava suas orelhas a cada vez que ousava sair de casa. Não que estivera saindo muito, apenas quando era obrigado, ou seja, quando iria entregar os frutos de seu trabalho. Era cronista, e escrevia para um grande jornal.

Trabalho que ameaçava perder, afinal, não possuía inspiração para falar de coisas cotidianas e inúteis das quais as pessoas gostam de ler. Se antes sentia prazer em deixar-se levar pelas palavras, agora estava desanimado.


Não queria fazer mais isso.


Não queria fazer mais nada. Não sentia mais prazer na vida.


Todos os dias suas noites eram preenchidas com lamúrias e lágrimas. Já não conseguia mais suportar. Mesmo que se esforçasse, pouco a pouco, para superar, continuava sentindo que seu coração poderia terminar de se despedaçar a qualquer momento.


Só não queria mais ficar sozinho.


Queria a companhia de uma única pessoa; e só havia um modo de se aproximar do que almejava.



~X~

As flores deixadas no dia do enterro estavam exatamente no mesmo local. Não mais deslumbrantes como antes, mas ainda restavam algumas cores ali. Quanto tempo que o dia fatídico havia acontecido? Nem sequer sabia... Sua noção de tempo estava destruída. Para si, parecia que mais do que uma eternidade havia passado; mais do que anos o separavam do último dia que vira sua noiva sorrir.

Suspirou pesado; seus olhos já estavam cheios de água, que mesmo que caíssem incessantemente pareciam não aliviar o peso em seu peito. Estava tão cansado de sofrer...



– Oh, vejo que está de volta! – A voz pacata soou de uma forma aterrorizante à Jonghyun, que sobressaltou-se imediatamente, virando-se por reflexo à origem da fala. Deparou-se com aquele mesmo rapaz misterioso que encontrara da última vez que estivera naquele lugar.



Se não se enganava, o nome dele era Key.



– VOCÊ!! Não me assuste mais assim!! – Bufou, franzindo o cenho em irritação. Estavam no meio de um cemitério, como ele podia fazer algo desse modo? E ainda ficar tão calmo mesmo assim! Como era irritante!



Suspirou em seguida, aliviado e levou a mão ao peito, como se quisesse segurar o coração que pulava assustado dentro de sua caixa torácica.

O rapaz de cabelos negros deu os ombros. Não se importava com a ira do visitante de sua ‘casa’. Apenas o cumprimentara, não tinha culpa alguma se Jonghyun era histérico.

Passos leves foram executados pelo gótico, suas vestes balançando conforme o movimento. Seus cabelos estavam levemente bagunçados naquela noite, mas seus olhos estavam ainda mais marcados. Estava com olheiras profundas. A cena fez com que um arrepio intenso passasse pelo corpo trabalhado de Jonghyun. Aquele rapaz era tão estranho...



– Não consegue esquecê-la... Mas devia. Ela não iria querer que se lembrasse dela desse modo doloroso. – Jonghyun franziu o cenho, incrédulo. Um estranho dando-lhe lições de moral, não merecia algo assim; devia ter feito algo muito ruim em sua vida...



– E porque eu levaria em consideração o que um estranho está me dizendo, no meio de um cemitério?! — O mais baixo virou-se de costas ao novo acompanhante, fitando novamente a lápide fria de sua noiva. Não queria ouvir de alguém que mal conhecia algo que intimamente ele já sabia. Sabia que estava sendo fraco, mas não podia evitar que o buraco em seu coração se tornasse maior quando a realidade era jogada em sua cara como estava sendo feita.



– Porque pelo que parece eu sou a única pessoa que não finge que nada mudou na sua vida, mesmo depois de uma perda. – Um sorriso, que oscilava entre o debochado e o irônico brotou naqueles lábios pálidos, provocando um novo arrepio na pele do loiro. – As pessoas são egoístas... Só porque a de uma pessoa morte não as afeta, acham que podem passar batido.



Suspiro.



“Mas não pensam em como nos sentimos.” O loiro completou, mordendo o lábios inferior. Era verdade. Ele apenas queria alguém para ficar junto, para se sentir querido. E ninguém parecia querer fazer algo assim. Estavam todos vivendo a própria vida, e nem sequer davam-se conta – ou melhor, não queriam dar-se conta – de que havia alguém que precisava de um abraço à sua volta.



E, rasgava-lhe o peito pensar que ele próprio era assim. Quantas vezes ignorara um pedido honesto de ajuda?



– É, bem isso, Jonghyun. Você deve estar sentindo da pele agora o que muitos sentem todos os dias. – Um sorriso, um simples curvar de lábios. O loiro podia jurar que vira novamente um certo sarcasmo naquele ato, mas decidiu ficar quieto, afinal, não iria arranjar briga com alguém que mal conhecia.



– Eu não quis me sentir assim.



– Você não controla seu destino. Apenas o aceite e aproveite o que a vida lhe deu. – Um suspiro pela parte do gótico se fez presente, porém, aquele breve expirar de ar tornou-se, de repente, uma crise de tosse intensa.



O loiro mais baixo franziu o cenho ao encarar aquela cena estranha.



Key curvou-se, abraçando seu abdômen em um ato falho para manter sua musculatura intacta devido às fortes contrações que sua tosse resultava. A mão em sua boca exercia uma força descomunal contra seus lábios, e as unhas de todos os dígitos cravaram-se em sua pele alva, marcando-a com um vermelho suave.

Como se acordasse de um sonho, Jonghyun, finalmente, decidira prestar ajuda ao outro.



– Key?! Key? Tudo bem!? – O escritor aproximara-se do rapaz de preto e acariciou suas costas, em um ato falho de acalmá-lo. – Respira, calma, tá tudo certo!!



A crise de tosse do rapaz esguio fazia-o tremer violentamente, e o som produzido era ainda mais desesperador a Jonghyun. Porém, suas preces estavam sendo atendidas, pois a freqüência da contração do diafragma daquele homem diminuiu aos poucos, até que apenas a respiração pesada de ambos os cercasse.



– T-Tudo bem..? – Amaldiçoou-se por ter sua voz trêmula. Mas de fato estava assustado com aquilo. Achara por um momento que o outro não iria conseguir recobrar a respiração. E a única coisa que não queria era outra morte em sua vida.



Estranhou o silencio como resposta.



Desviou o olhar dos cabelos negros até o rosto dele, tendo que modificar o ângulo de seu rosto para isso.



Arregalou os olhos com a cena que viu.



Key encarava a própria mão, com uma expressão de mais puro desgosto. E em sua mão, uma boa quantidade de sangue a manchava. De seus lábios levemente apartados, um rastro do líquido vermelho descia pelo seu queixo alvo.



– Sangue?! Isso é sangue?... Puta que pariu! – Sobressaltou-se, e não demorou para passar uma das mãos pela cintura dele, em um movimento comum para apoiar alguém doente. – Você está bem? Vamos a um médico!



Key resmungou baixo, e desvencilhou-se do aperto do outro, apressando-se em limpar a pele em seu sobretudo negro.



– Não se preocupe. Você não viu nada, ok?



O contato visual fez-se novamente. E Jonghyun tremeu internamente. As órbitas escuras eram frias, indiferentes e até censurantes. Assustador.


Assustador demais.


O rastro do sangue se mantinha em seus lábios. Aquela visão lhe lembrava daqueles filmes antigos de terror, cheio de Dráculas ou o que fosse. O pensamento insano se que estava em frente a um vampiro fez seus músculos tremerem em um medo sem sentido.



– Mas você está cuspindo sangue... Isso não é... – O loiro fez menção de aproximar-se novamente, sendo cortado rapidamente.



– Isso é normal. – Seu olhar baixou-se. E um novo sentimento presente ali, despertou algo novo no loiro. Havia tristeza naquele olhar sempre tão indiferente.



– Não, é nor-... – A voz do escritor soou tão preocupada quanto temerosa. E naquele instante, tivera a ousadia de tocar o ombro magro do outro.



Triste decisão, pois, na iminência do toque, Key desviou-se dos dígitos do outro com um tapa. Estava decidido naquele ato; sua aparência frágil de segundos atrás havia desaparecido por completo. Parecia jamais ter existido.

Voltara a ser o homem frio que encontrara aleatoriamente no enterro de sua noiva.


Mas, Jonghyun agora sabia que por detrás daquela máscara tão impenetrável havia aquele rapaz sensível que tivera um pequeno deslumbre.



– Você nunca viu nada. – O olhar felino que Key lançava ao mais baixo era até mesmo assustador. O loiro sentiu seus pequenos pelos se eriçarem com aquela ameaça.



Abriu os lábios para dizer algo. Na verdade, iria pedir desculpas por ter sido tão invasivo na privacidade alheia – afinal, era só um estranho do cemitério; devia ter pensado nisso. Mas antes que pudesse acabar de fato construindo uma frase, o rapaz virou-se de costas, caminhando apressado entre as lápides.


Jonghyun ficou estático por alguns segundos. O que havia feito para ser abandonado ali?



– E-Ei?! Hey! – Exclamou, antes de finalmente parar de encarar as costas negras do sobretudo do rapaz e passar a seguí-lo. – Key, o que aconteceu?! Oe! – Exclamou, ainda um pouco deslocado naquela situação.



Porém, o mais alto já havia tomado uma distância considerável de si, e assim que o ouviu gritar, os passos se apressaram. Jonghyun fez o mesmo, mas a luz que provinha dos poucos postes colocados entre as lápides começaram a se tornarem escassas, e, depois, a escuridão. O mais baixo não desistiu de seguir o outro, pelo contrário, aumentou ainda mais o ritmo; passou a correr. Key virou à esquerda, por trás de uma das poucas capelas que existiam ali. Virou em seguida, e estacou.



Suspirou frustrado.



Tinha certeza que o vira virar ali. E agora, onde ele estava?



Xingou baixo, palavras inteligíveis e balançou a cabeça em negativa. Completamente frustrante. Iria ter que voltar pra casa, e ficaria preocupado o resto da noite com aquele rapaz.


Desde quando cuspir sangue era uma coisa normal?


Deu as costas, passando a caminhar pelo mesmo caminho que havia vindo.



Piscou, confuso, observando o local onde estava.



... Droga. Estava perdido.



Perdido em um cemitério. Arrepiou-se de forma terrível ao pensar nisso. Droga, droga, droga!

Qualquer coisa que pudesse sair de dentro de uma lápide e correr atrás de si era apenas fruto de uma imaginação forçada por filmes de terror. Nada disso existia, nada. Mesmo assim, ainda tinha o risco de encontrar alguém perigoso dentro do cemitério. Nada de bom acontecia em um lugar como esse...

Se bem que, encontrar Key havia sido algo bom, de alguma forma, ele o aliviava. Era uma exceção. E essa exceção estava cuspindo sangue e se recusava em ser ajudado.



Droga!



Se sentia ainda mais frustrado ao relembrar disso.

Bufou e sentou-se em uma lápide, um pouco irritado. Não iria conseguir achar a droga da saída nunca. Aquele lugar era um labirinto!



– Ei, você ai!! – Uma voz esganiçada fez-se presente atrás de si, e Jonghyun sobressaltou-se, assustado. Girou o corpo para encarar o dono daquela voz. Era a segunda vez que o assustavam dentro de um cemitério naquele dia. Ia ter um enfarto em breve.



– O que está fazendo ai?



A luz da lanterna feriu os olhos do rapaz assustado à frente do outro, ofegante.



– E-Eu... estou perdido. – Admitiu. Seu coração ainda palpitava, mas parecia se acalmar aos poucos. Era só um funcionário, havia identificado depois de alguns segundos estático. Era alguém que poderia o ajudar.



– Tsc, entendo. Já estamos fechados. – A voz grunhida do funcionário feriu o sentimento do cronista. Logo depois franziu o cenho. Não havia motivos para se sentir mal com a indelicadeza de um desconhecido. Estava sendo inutilmente sensível.



Era apenas um desconhecido.



Como Key.



Era isso, não devia se preocupar mais. Nem com um, nem com outro.



– Eu te levo pra saída. – Aquela voz o tirou de seus devaneios. Estava pensando em Key novamente. Agradeceu mudamente por ter sido tirado dos pensamentos com aquele gótico estranho. – Existem coisas estranhas nesse cemitério, vamos nos apressar. Não quero encontrar aquele fantasma de novo.



Jonghyun arregalou os olhos com aquelas últimas palavras e não pronunciou-se novamente.



Tinha coisas demais na cabeça.



Dúvidas demais.


Notas finais
É muito louco o plot. Eu sei. q
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.