O vlog de Carolina
22 Terceirizando problemas para a área alimentícia
O óculos de Daniel era um modelo barato chinês, fabricado na zona industrial de Zâmbia, país africano a norte de Moçambique, e vendido sem embalagem no camelódromo da rua Sergipe, com 1 mês de garantia, sem direito à devolução. Sua armação era feita de acetato preto, e suas lentes, duas telas de LCD com 7 cm de largura cada, eram redondas e escuras, alongando-se verticalmente do nariz até a sobrancelha do usuário.Carolina, indisposta a fazer companhia a César no elevador, resolveu esperá-lo subir primeiro ao estúdio. Embora estivesse com pressa, decidiu dar atenção a Daniel por mais alguns minutos.Tinha consciência de que, talvez, isso piorasse sua situação com a gerência. Porém, preferiu lidar com o mau humor de Carlos do que com o silêncio antipático do estagiário.
Após vestir os óculos, tal qual Daniel havia lhe pedido, ela se deparou com a imagem de uma cozinha industrial. Era feita com parede de azulejo branco, piso de cerâmica azul e estantes brilhantes de aço inox, nas quais eram guardados pratos, talheres e temperos.No meio da cozinha, estendendo-se por 1 metro, foi instalada uma chapa elétrica, usada no preparo de lanches. Ao lado desta, também feita de inox, ficava uma mesa retangular lisa, sobre a qual os lancheiros organizavam seus ingredientes.De frente com as estantes, havia dois homens. Um deles tinha cabelo repartido ao meio, barba por fazer e cavanhaque espesso. Vestia sapato social de bico quadrado, calça jeans azul e camisa amarela. No momento, segurava uma caixa de papelão nova, que tinha o tamanho de uma TV de 29 polegadas.O outro, de cabelo rastafári, usava paletó e calça social marrom, com alargadores de orelhas pretos e rosto limpo. Estava ao lado do homem barbado, jogando todos os utensílios da estante para dentro da caixa.Enquanto Carolina acompanhava a cena, perguntou a Daniel:— Quem tá gravando isso?— O filho do Seu Osvaldo. Tá gravando escondido com o celular.— Ah, o Leonardo. E o que tá acontecendo lá? É uma visita da vigilância sanitária?— Que nada! Eles são do sindicato. Estão recolhendo todas as panelas, liquidificadores, garfos e pratos da lanchonete.— Pra quê?— Pra impedir o pessoal de trabalhar. Querem todos os funcionários presentes na reunião, não sei porquê.— Mas assim, na marra?— Bem, foi o que o Leonardo me falou.Carolina olhou para o símbolo desenhado na caixa de papelão.— Café com Leite. Tsc, essa é boa. Quando o assunto é perturbar o trabalho dos outros, eles sempre estão lá, mostrando a maior competência!— O quê? Eles são da Café com Leite?— Só podem ser. Olha o desenho ali, na caixa de papelão.— Juro que eu não perceb... Oh!!— Huh?— MAS QUE DROGA!!Quando Carolina retirou os óculos, espantada com a reação do colega, viu Daniel arregaçar a manga e erguer o pulso até a altura do queixo. Então, enquanto ele acionava o celular, disse:— Não preciso contar os minutos pra saber que este será um longo dia!!* * * *Novo capítulo dia 21/06, as 22:00, horário de Brasília.
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