O vlog de Carolina
19 Sua tragédia é minha alegria de viver
Carolina não precisou olhar para saber quem era. Reconheceu a voz de César Garcia, o estagiário de publicidade. E como se via em seu rosto, não gostou nada de sua abordagem.César cursava o 2° ano de Comunicação e Marketing. Tinha 20 anos e vestia paletó e gravata, como se fosse o próprio executivo do local. Seu cabelo, curto e escuro, cheirava a álcool etílico doce, com mechas onduladas e úmidas. Consequência do uso excessivo do creme de pentear.Notou que Carolina estava acompanhada de Daniel. César o conhecia de vista, embora nunca tivessem conversado. Sabia que ele trabalhava para uma lanchonete do bairro, e que mantinha contato semanal com a vlogueira, só a negócios. Já os tinha visto juntos em outra ocasião, enquanto conversavam sobre propagandas e patrocínios.
Ciente de que ambos o encaravam, dando-lhe total, embora involuntária, atenção, soltou um risinho egocêntrico, agora limpando a garganta. Estava louco para impressioná-los, feito uma colegial se preparando para ficar nua na webcam.Mas antes de falar alguma coisa, Carolina tomou a dianteira perguntando:— Por que estou enrascada? — Bem, então: Carlos chegou nervoso no estúdio, perguntando por você. E como você não estava lá, ficou resmungando durante um tempão, na frente de todos nós. — Resmungou o que, por exemplo? — Coisas como "Carolina só sabe criar problemas para o estúdio, só sabe chegar atrasada, e nem dá satisfação do que está fazendo."Embora não dependesse da opinião dos outros para manter a pose, Carolina sentiu um pouco de mágoa. Falando mais para si do que para César, desabafou baixinho:— Por que os gerentes de Londrina precisam ser assim, tão grosseiros? Eles não sabem se comunicar. Só sabem rebaixar os outros. — E quer saber mais? Ele disse "isso acaba hoje". Foi um espetáculo de braveza!— ... — O que foi?Enquanto Daniel se afastava, erguendo o pulso até a altura do queixo, querendo terminar a mensagem de texto ditada, Carolina fechou a cara para César, dizendo:— Você parece muito feliz em me dar essa notícia. — Eu? Por quê? — Sua voz, seu riso, sua prontidão em descrever o escândalo do Carlos... sabe, você parece muito satisfeito em me contar tudo isso.— Não! Eu tô normal. — Então por que esse entusiasmo todo em me dizer que estou ferrada?— Eu... só estou agitado com o trabalho de hoje. Tenho muita coisa pra fazer. Só isso. — Bem, fique à vontade. Não se prenda por mim. — Eu, hein...César balançou a cabeça, reprovando o que ouviu. Então, sem pedir licença, dirigiu-se para o balcão da portaria. Lá saudou Marcelo em voz alta, com um tapinha no ombro e um abraço exagerado. Fazia questão de cumprimentá-lo assim, na frente de Carolina, só para mostrar a ela o quanto era querido pelos outros.Daniel, voltando para junto da colega, cobriu o pulso com a manga da camisa e perguntou:— O que ele queria?— Tirar sarro da minha cara. É um toupeira do caralho! — Como assim? Ele te ofendeu? — Não, nem precisou! — Vish, você tá brava mesmo! O que ele te falou? — Nada de mais. Acontece que esse César é um idiota! Um insuportável! Conheço o tipinho dele faz tempo. Gosta de dar más notícias para os outros, só pra depois ficar pensando "que bom que não aconteceu comigo."— Más notícias? Sobre você? — Sim. Bem, nem tanto. Sei lá. Só disse que o gerente tá bravo comigo. — Oh, isso. Talvez seja por causa do último vlog. — Não duvido nada. Ele foi ao ar na segunda-feira, e já estamos na sexta. Porém, mesmo depois de quatro dias, ainda tem gente ligando aqui, pedindo uma retratação da imobiliária. — Falando nisso: a imobiliária vai se retratar? — Até agora, ninguém disse nada. Pelo menos, não durante as reuniões do estúdio. Mas talvez decidam algo diferente hoje.— Por quê? — De acordo com o merdinha do César, o gerente não só reclamou de mim, como também disse "isso acaba hoje". Mas não sei se ele estava falando de toda a situação provocada pelo vlog, ou... — ... seu emprego. — É. — ...Embora esperasse o pior quando chegasse no 2° andar, Carolina tentou dar atenção ao caso da lanchonete. Apontando para o pulso de Daniel, perguntou:— E você? Conseguiu falar com alguém sobre a reunião do sindicato? — Acabei de mandar mensagem pra um colega. Agora tô esperando a resposta. — Olha, seja o que for, não vá se atrasar. E por favor: não compre briga com o representante do sindicato.— Eu não pretendia, mas... por que está me pedindo isso?— Se você causar problemas, poderá aborrecer o Seu Osvaldo. E aborrecê-lo justamente hoje... bem, é uma péssima ideia.— Do que está falando?Carolina piscou um olho, sorrindo com humor.— Se eu perder meu emprego nesta manhã, vou deixar um currículo na lanchonete. E estou contando com seu Q.I pra conseguir uma vaga.Antes que Daniel devolvesse a piada, Carolina escutou Marcelo lhe chamando do balcão, ao lado de César.— Carol, vem aqui. Você vai querer ver isto.
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