O vira-lata e o poste
1 O vira-lata e o poste
Era uma vez, um cão que não tinha lar.
Nele, jaz qualquer tipo de esperança. Sobrevivendo de restos, o futuro lhe parecia incerto.
Às vezes, era presenteado com restos de arroz frio, no melhor de seus dias, restos de carne com carcaças de sardinha.
Poderia dizer, se pudesse se expressar, que estava grato, mas jamais que estava conformado com a vida que levava.
Pelo contrário, sonhava com o dia que alguma boa alma iria o cortejar com, quem sabe talvez, comida? água? lar? Mas não passageiro, como costumava ser. Ele sonhava até que poderia viver apenas uns dias tendo uma vida boa assim, como os cães de raça alegres que ele via regulamente. Que ele já estaria feliz.
Sonhava em viver pouco como um cão amado, mas não em viver muito como um vira lata.
Para sua surpresa, em mais uma noite congelante sem abrigo, ele ouviu uma voz; distante, mas profundamente audível.
— É uma situação lastimável, de cortar o coração.
O vira-lata levantou, olhou para os lados, em busca do dono da voz, porém nada achou.
— Ah, aqui estou, chega mais perto, ai poderemos conversar.
— Quem diz isso?
— Eu, bem aqui.
Para seu espanto, a voz vinha diretamente de um poste, sim, o de luz. O único funcionando na vasta rua deplorável em que passava seus dias.
— Como pode, um poste inanimado falar?
— Posso perguntar o mesmo para um animal irracional.
— Ora, se soubesse de sua consciência, jamais teria feito minhas necessidades em você. — O cão se aproximou da fraca luz em volta dele, se deitou lá na esperança de encontrar algum calor.
— Há, como suspeitava, você é realmente um cão de muita boa alma. Se descobrissem do nosso pensar, provavelmente iriam se espantar, porém ainda sim iriam nos negligenciar. — Respondeu o poste, bem humorado, apesar de um leve descontentamento.
— Ah, de fato... — Disse o cão, sonhadoramente, mas ainda deprimido. — Como eu gostaria de não depender de ninguém, viver sozinho e não lamentar com isso, não sentir da fadiga de viver em um mundo onde ninguém se importa com você.
— Ora, quanto pessimismo! — Exclamou o poste, porém sem nenhuma irritação real, mais como um sermão. — Você é um bom cãozinho, ainda tem chances de alguém lhe resgatar. Eu estarei aqui, eternamente, até minha luz apagar.
— Bem, acho que passou meu tempo. Ninguém adotaria um cão tão perto de seu óbito, que não corre atrás de galho algum, que não dá cambalhotas, que não traz benefícios. Que apenas quer sobreviver.
O poste, em um silêncio sereno, apenas fez um som de compreensão.
— Então corra. — Disse o poste simplesmente.
— Como? — Perguntou o cão, com cansaço. Ele estava exausto.
— Use da sua liberdade, enquanto ainda pode e corra. — Falou o poste, como um sábio aconselhador. — Quem sabe não encontra ossos e carnes deliciosas quando for longe o suficiente. Ora, não seja tão apegado a essa rua escura. Corra.
O cão pensou, pensou e pensou. — Como nunca havia racionalizado isso antes? Agradeço, poste. Irei correr por você, quem sabe a vida não será gentil para mim. Adeus.
— Adeus, bom amigo. E não olhe para trás.
Sem que o cão percebesse, a luz do velho poste se apagou.
E ele correu, agora sem se lembrar mais do frio, da fadiga e do fato que não tinha lar. Ele correu em direção da sua felicidade.
E ele encontrou ossos e carnes deliciosos, embora não tenha realmente os degustados. Ele aceitou o que a vi
da havia planejado para si e o conselho do poste.
Fim.
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