O vendedor de livros
5 Capítulo 5 Um aviso
Notas iniciais
O ruim de uma chuva iniciar-se no final da madrugada e se arrastar até as primeiras horas do dia era que dificilmente se podia distinguir as horas caso você não tivesse programado o despertador para arrancá-lo da cama mesmo que as cortinas na janela denunciassem a sugestão de um céu completamente escuro enganando os sentidos de quem se obrigasse a abrir os olhos. No entanto, o bom de se estar de férias do trabalho e ter um corpo morno ao seu lado na cama tocando-o por debaixo dos lençóis, era poder apreciar a baixa luz do inverno e a chuva insistente, para prolongar a permanência no colchão sem se importar com o avançar das horas do dia.
John, mesmo ligeiramente desperto, permaneceu de olhos fechados enquanto sentia a mão de Sherlock afagar seu peito por cima da sua camisa de algodão branco, contraindo a pontinha dos dedos como uma carícia felina solicitando atenção. O longo corpo ao seu lado moveu-se debaixo dos lençóis aproximando-se dele enquanto deslizava os dígitos para sua coxa, apertando-a de modo que foi impossível continuar de olhos fechados.
— Bom dia, John. – Sherlock murmurou beijando sua testa.
— Bom dia, Sherlock. – John respondeu num quase grunhido ao sentir a mão do detetive deslizar para sua virilha. – Amanheceu disposto?
— Amanheci, você não quer? – perguntou parando de acariciar a virilha do médico.
John o encarou com um sorriso sonolento nos lábios, apreciando a visão de um Sherlock despenteado e amassado com graciosos traços de uma perfeita noite de sono.
— É claro que eu quero. – John respondeu puxando-o para cima do seu corpo.
Sherlock se acomodou nos braços do parceiro e se deixou afagar brevemente antes de procurar os lábios do homem sob ele. John apreciou a lentidão do beijo morno e macio, ele ainda estava meio sonolento, mas Sherlock parecia haver despertado a pelo menos meia hora antes dele, pois seus movimentos eram mais precisos e firmes.
Aos poucos o cérebro do loiro foi ficando alerta e suas mãos começaram a traçar carícias mais vigorosas ao longo dos braços e costas de Sherlock que a essa altura já mexia seu corpo lascivamente por cima dele, friccionando peitos, quadris e pernas. As ditas pernas começaram a buscar posições mais prazerosas e John moveu a sua por entre as do companheiro buscando tocar-lhe o membro com sua coxa, sendo muito bem sucedido no ato. Sherlock ronronou apreciativamente movendo o quadril para intensificar a sensação do toque enquanto deslizava uma das mãos para o ponto volumoso na calça de dormir que o médico usava.
Os dois moviam-se em perfeita sincronia, enroscando e afagando-se um no outro provocando mútua elevação de excitação e gemidos necessitados.
John e Sherlock estavam realizando uma doce caminhada rumo a um ápice glorioso quando o celular do detetive começou a chamar irritantemente ao lado da cama. John grunhiu com frustração antecipada no meio dos beijos que trocava com o detetive, mas para sua surpresa, o moreno continuou a massagear seu membro e a esfregar a própria ereção sobre sua coxa. Admirado, John seguiu beijando o namorado até ser perturbado com o seu próprio celular chamando de forma tão irritante quanto o celular de Sherlock havia chamado.
— Sherlock... – John tentou dizer que poderia ser algo importante.
— Ignore! – Sherlock rosnou acelerando o movimento de sua mão sobre o membro do médico para desviar sua atenção do aparelho.
John gemeu engasgado com o impacto prazeroso que sofreu mediante a aceleração da masturbação realizada por Sherlock em seu pênis por sobre o tecido de sua calça, de modo que o chamado alternado e insistente dos celulares em torno deles ficou tão distante que parecia estar em outro apartamento.
O detetive massageava o membro do companheiro com ferocidade e atacava os lábios do médico com uma fome tão desnorteante que fez John gozar rapidamente, molhando o pijama, instantes depois Sherlock convulsionou ejaculando sobre sua coxa, arqueando as costas e mostrando uma expressão enlevada e corada de satisfação, depois deixou-se deslizar para o lado buscando equilibrar a respiração enquanto os aparelhos telefônicos continuavam a chamar insistente e alternadamente.
John ainda estava meio tonto pela força do orgasmo matinal, mas obrigou-se a mover a mão pelo criado mudo ao seu lado para atender o celular. Algo em sua mente dizia se tratar da mesma pessoa que tentava contato com Sherlock e que buscava importuná-los alternando ligações para o celular de um e de outro até que um deles atendesse.
— Alô? – John falou com voz meio grogue.
— Bom dia, Dr. Watson. – uma voz masculina cumprimentou do outro lado da linha.
— Mycroft? – John franziu o cenho meio pasmo.
— Sim, sou eu, poderia passar o aparelho para o meu irmão ao seu lado na cama, por gentileza? Preciso falar com ele. – o homem solicitou.
John virou-se para Sherlock que já havia levantado da cama e iniciado uma troca rápida de roupa.
— Diga para o meu irmão que é feio pedir para a senhoria de alguém deixá-lo entrar na sala com a chave reserva sem ser convidado pelo dono da casa. – o moreno disse de forma irritada colocando um roupão por cima do pijama cuja calça fora trocada rapidamente por uma peça limpa catada de qualquer jeito de dentro do guarda roupas.
O médico voltou a por o aparelho no ouvido e ia passar o recado quando foi interrompido pelo Holmes mais velho:
— Eu ouvi, Dr. Watson, não precisa repetir. Diga a ele que estou esperando.
John ouviu a ligação ser encerrada e limitou-se a ficar sentado na cama tentando inutilmente entender como os Holmes conseguiam deduzir com tanta facilidade e precisão onde e o que cada um fez ou estava fazendo. O médico foi arrancado dos seus pensamentos pelo som da porta do quarto batendo, Sherlock tinha ido se encontrar com o irmão na sala.
— Olá, caro irmão, como vai? – Mycroft, sentado na poltrona de John, cumprimentou o detetive ao vê-lo surgir na sala de estar.
— Muito bem até você chegar, Mycroft. Não tinha coisa melhor para fazer tão cedo? – Sherlock reclamou.
— Na verdade, tinha sim, e para seu governo, já são nove e quarenta da manhã. Hora de sair dos lençóis, irmão – Mycroft disse meio zombador.
— Diga logo o que quer, não veio aqui reclamar do tempo que levo para sair da cama, tenho certeza disso. – Sherlock pediu com ar de enfado enquanto se acomodava em sua poltrona de frente ao irmão.
— Claro que não. – Mycroft respondeu com um sorriso torto. – Estou aqui para avisá-lo de que deve abandonar o caso de Oscar Hall.
— Por quê? Ele trabalhava para o governo britânico? Fazia parte da inteligência externa ou interna? Era um espião amigo ou inimigo? – Sherlock perguntou quase de um fôlego só lhe lançando um intenso olhar curioso.
— Fique fora. – Holmes mais velho falou enfaticamente rebatendo as perguntas.
— Por que eu faria isso?
— Veja bem, Sherlock, a competência para investigar o assunto já saiu das mãos da Scotland Yard, você não precisa continuar. Eles estão fora do caso. A questão agora está com a Agência de Segurança Nacional. – Mycroft informou elevando o queixo.
— Tarde demais, eu já estou envolvido e eu não abandono um caso sem antes resolvê-lo. – Sherlock levantou da poltrona indo até a janela esquerda atrás do seu assento para dar uma olhada na rua destacando o gesto como um claro sinal de que a conversa estava encerrada.
— Faça uma exceção. – Insistiu Mycroft.
— Não quero. – rebateu Sherlock ainda de costas para o irmão.
— Você está pisando em um terreno muito perigoso, Sherlock, recue para o seu próprio bem. – Mycroft advertiu.
— E se eu não quiser recuar? – o detetive perguntou voltando a encarar o irmão.
— Você não durará dois meses, segundo meus cálculos e eu não costumo errar, você sabe disso. – Holmes mais velho respondeu imprimindo severidade em sua voz.
— Agradeço o alerta, mas dispenso.
Mycroft respirou fundo e pesadamente demonstrando-se incomodado com a teimosia do irmão, mas moveu-se do seu lugar e abriu a porta para sair, no entanto, antes de retirar-se, encarou o irmão e disse:
— Pense no quanto a mamãe ficará triste com os efeitos da sua insistência infantil.
— Não tem exercícios extras para fazer hoje, Mycroft? – Sherlock perguntou olhando-o de cima a baixo. – Aliás, você aumentou um quilo.
— Seiscentas gramas, apenas. – corrigiu o outro com uma ponta de irritação.
— Um quilo inteiro, Mycroft. – insistiu o detetive dando um passo na direção do irmão, pronto para irritá-lo ainda mais.
— Cálculo errado!
— Discordo. – Sherlock rebateu.
— Não importa. – Mycroft bufou. – Você foi avisado, irmão, pense bem. – concluiu passando pela porta e fechando-a atrás de si.
Depois que a porta bateu, Sherlock voltou a sentar em sua poltrona refletindo sobre o interesse do irmão em mantê-lo longe do caso “do vendedor de livros”, por hora ele podia concluir que as implicações da morte daquele homem abrangiam muito mais do que mera espionagem industrial ou política entre nações. Se o irmão não o quer no rastro dos assassinos do falso Hall, algo muito maior estava por trás e ele não deixaria o jogo quando as jogadas estavam ficando mais altas e excitantes.
— Sherlock, eu acho que você deve ouvir o seu irmão. – John ponderou aparecendo na sala e se acomodando em sua poltrona.
— Você ouviu nossa conversa? – o detetive perguntou franzindo o cenho.
— O suficiente para achar que seu irmão merece ser ouvido. – John respondeu desejoso de que Sherlock reconsiderasse sua posição.
— E deixar o caso? De jeito nenhum, eu não regulo as minhas ações pelo que meu irmão diz. – o detetive rebateu.
— Mas a inteligência britânica já está com o caso, até a Yard está fora dessa história. – John insistiu.
— Desde quando o pessoal do Mycroft mostra capacidade para resolver um caso de forma mais eficiente e mais rápida do que eu? – Sherlock perguntou encarando-o de forma ofendida.
— Ah, entendi! Essa é uma disputa pessoal entre você e seu irmão agora, não é? Vence quem resolver primeiro, certo?
— É mais ou menos isso. – Sherlock respondeu rindo torto.
— Isso é infantil.
— Não, isso é divertido! – o detetive rebateu estalando uma pequena palma no ar.
Antes que John voltasse a insistir para que Sherlock reconsiderasse sua decisão, ambos ouviram batidas na porta.
— Entre. – Sherlock convidou.
— Olá, rapazes! – Lestrade cumprimentou sacudindo as mãos passando-as no cabelo tentando se livrar do acúmulo de umidade que pegou na calçada por conta da chuva fina que ainda caia.
— Já fiquei sabendo que vocês não estão mais no caso. – Sherlock se adiantou.
— Oh, as notícias voam. – Lestrade comentou enquanto arrastava uma cadeira para perto dos dois homens sentados perto da lareira apagada. – nunca imaginei que a inteligência britânica iria querer o caso de um morto com identidade falsa, mas parece que tem muito mais nessa história do que pudemos supor.
— Isso é óbvio. O que descobriu sobre os dois jardineiros, Lestrade? – o detetive perguntou deduzindo o motivo da visita.
— O mesmo que eu descobri sobre Oscar Hall. – o inspetor respondeu frustrado.
— O quê? Identidades falsas? – John quis saber.
— Exatamente. Finley Jones morreu em 2011, vítima de pneumonia severa, aos 28 anos e Samuel Green faleceu aos 36, por suicídio em 2012. Ambos solteiros, sem filhos e sem família próxima.
— Temos um padrão! – Sherlock exclamou com o olhar agitado. – não percebem?
Lestrade e John o olharam mantendo o silêncio revelador de suas respostas negativas à pergunta, fazendo Sherlock prosseguir:
— As pessoas que tiveram suas identidades assumidas pelo vendedor de livros e pelos dois jardineiros, morreram um ano após a outra. Oscar Hall morreu em 2010, Finley Jones em 2011 e Samuel Green em 2012. Tiveram o cuidado de escolher pessoas sem vínculos familiares, identidades perfeitas para serem roubadas e utilizadas sem despertar suspeitas. Isso parece indicar uma ação planejada em torno de algo.
— Como assim? O morto era um vendedor de livros e os outros dois caras eram jardineiros! – o inspetor pontuou.
— Errado, Lestrade. Eles precisavam parecer pessoas comuns, mas estavam na Inglaterra para outro propósito. – o detetive comentou.
— Você está querendo dizer que eles nem eram ingleses? – Lestrade parecia muito admirado com essa ideia.
— Lembra o que aquele homem nos contou no Poison Garden? – o detetive suscitou. –Os jardineiros dominavam cinco idiomas e possuíam um curioso sotaque ao se comunicarem em inglês, uma das cinco línguas que os dois dominavam era a língua materna, mas obviamente seria impossível para os colegas perceberem, pois não a compreendiam.
— Isso está ficando cada vez mais louco! – Lestrade disse remexendo-se na cadeira.
— Mas e quanto ao padrão que você viu nos anos de morte do verdadeiro Hall, Finley e Samuel? O que pode significar? – John inquiriu.
— Data de entrada no Reino Unido, acho que podemos rastrear os movimentos deles através do ano de morte de cada uma dessas pessoas. Não iam pegar identidades com óbitos muito antigos, queriam algo fresco, pouco enraizado no banco de dados – Sherlock respondeu.
— Acha mesmo que eles andaram fazendo uso frequente dos documentos dessas pessoas ao longo da permanência na Inglaterra? – Lestrade perguntou.
— “Uso frequente”, não, mas o suficiente para parecerem cidadãos comuns e não acionarem o alerta do registro de óbito no banco nacional de dados, sim. – Sherlock destacou pondo as mãos unidas diante dos lábios.
— Então? O que devemos fazer? – o inspetor perguntou.
— Você não está fora do caso, Greg? A Yard perdeu a competência do caso. – John falou antes que Sherlock abrisse a boca.
— Ora, John, não seja estraga prazer. – o moreno disse olhando dele para Lestrade. – Se o inspetor quiser colaborar, nós não rejeitaremos a colaboração.
— Eu quero colaborar extra-oficialmente, não gosto quando me afastam de casos em progresso. – Lestrade disse numa meia reclamação.
— Pensei que ia agradecer, é menos uma dor de cabeça, não é não? – John argumentou.
— Sim, eu até agradeceria se fosse um caso sem futuro, mas este tinha futuro, estávamos progredindo. – Lestrade justificou.
— Eu estava progredindo, você quis dizer. – Sherlock pontuou.
— Ok, você estava progredindo, mas precisou da Yard e ainda vai precisar, ou estou enganado? – o inspetor inquiriu.
— Não deixa de ser um pouco verdade. – o moreno respondeu meio a contra gosto.
— Então? O que quer que eu faça com esses dados? – Lestrade insistiu.
Antes do moreno responder, os homens ouviram um o som de uma mensagem cair na caixa de um celular ao longe. John reconheceu o sinal sonoro, era no celular de Sherlock.
— Volto já. – o detetive disse levantando da poltrona, indo em direção ao quarto onde havia deixado o aparelho.
Com a saída do moreno a sala ficou silenciosa por alguns segundos enquanto o inspetor e o médico permaneciam imersos em suas conjecturas. Até que Lestrade resolveu quebrar o silêncio:
— Então? É verdade o que os jornais estão dizendo sobre você e o Sherlock? Vocês estão juntos? Tipo, casal?
— É, isso é verdade. – John respondeu um tanto sem jeito com a inusitada pergunta.
— Certo... – o detetive inspetor falou de forma meio vaga como quem analisava a viabilidade da próxima pergunta, até que finalmente decidiu fazê-la com base na amizade que conseguiu estabelecer com o médico ao longo do tempo. – Também é verdade que o Sherlock tem uma tatuagem na virilha?
— Como é que é? – John quase pulou do assento espantado com a pergunta. – De onde tirou esse absurdo?
— Não me interprete mal, isso estava numa matéria de jornal, fiquei tão espantando com a informação que quis te perguntar, afinal... bem... você é o único, além dele, que pode ver, não é?
— Quanto apostou? – John perguntou encarando-o seriamente.
— O quê? – Lestrade sentiu-se flagrado.
— Não toparia me fazer essa pergunta maluca se não tivesse apostado com alguém. Apostou com o Anderson?
— Droga... – Lestrade resmungou. – Não... foi a Donovan, ela leu isso num tabloide e apostou comigo que aquela especulação era verdadeira, eu apostei cinquenta libras que era falsa.
— Pois bem, já pode ir cobrar dela agora, Sherlock não tem tatuagem alguma no corpo, nem mesmo uma leve cicatriz, a pele é totalmente limpa. Impecável. – falou com vigor na voz.
— O que as comadres estão fofocando na minha ausência? – Sherlock perguntou entrando na sala fazendo o médico e o inspetor se remexerem em seus lugares.
— Nada demais, diga ao Greg o que ele deve fazer com os dados das falsas identidades. – John pediu.
— Claro. – Sherlock disse voltando a sentar-se. – Lestrade mande realizar uma varredura com os números de documentos e nomes da nossa dupla de jardineiros, amplie a busca para um lapso temporal de três anos. Oscar, Finley e Samuel usaram esses nomes para montar uma rotina de britânicos normais, podemos traçar a movimentação deles no país, entender como se comportaram em solo britânico e deduzir onde e como pegá-los.
— Ok, farei isso. Assim que tiver novidades, eu volto. – Lestrade disse levantando-se e indo em direção a porta de saída. – Até mais, rapazes!
Sozinho na sala com o detetive, John observou Sherlock digitar freneticamente no teclado do seu celular. O médico suspirou profundamente e levantou-se indo em direção a cozinha, iria preparar o café da manhã enquanto o namorado disparava mensagem atrás de mensagem para alguém que só depois se dignaria a contar a ele.
Apesar da aparente tranquilidade matinal que os rodeava, a visita de Mycroft e seu pedido ao detetive, latejavam na mente do médico como um alerta para manter o máximo de cuidado por ele e por Sherlock.
Continua...
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