O vendedor de livros
3 3 capítulo – A boneca de madeira
Notas iniciais
A pousada onde Sherlock e John se hospedaram estava relativamente vazia, o inverno e suas temperaturas desanimadoras, reduziu drasticamente a quantidade de turistas que visitavam a região para ver o Castelo de Alnwick e o jardim venenoso da Condessa de Northumberland. Mesmo com o tempo frio rondando a localidade, o estabelecimento era acolhedor e inspirava-se na arquitetura medieval que despontava em vários cantos da cidade de pouco mais de oito mil habitantes.
O médico e o detetive jantaram em silêncio e depois se sentaram perto da lareira na sala comum da pousada. Sherlock parecia inquieto como um gato dentro de uma caixa, e fitava incessantemente as chamas bruxuleantes a pouca distância deles.
— Sherlock, acho melhor irmos para o quarto, pegamos seis horas de viagem até aqui, fizemos uma caminhada razoável de ida e volta do Poison e ainda não descansamos. Meu corpo está quebrado e você também não parece bem. – John pontuou levantando-se e fazendo um gesto para que o homem viesse com ele.
— Não quero dormir agora, John. – Sherlock respondeu sem deixar de encarar a lareira.
— E quem disse que eu quero que durma agora? – John perguntou deixando uma clara sugestão de suas intenções nada inocentes se destacar em sua voz.
Sherlock desviou brevemente sua atenção das chamas e cravou seus olhos de supernova em John, lendo as intenções claras do loiro e por fim afirmou de forma seca:
— Não estou com ânimo para esse tipo de coisa, Watson. Tome um banho frio e vá dormir.
John não precisou de um banho frio, aquela resposta foi mais do que suficiente para congelar seu corpo. O médico ainda perdeu alguns segundos encarando o moreno sem acreditar que estava sendo dispensado de forma tão ríspida. Quando a mente do loiro assimilou a dura rejeição, suas pernas moveram-no para longe do namorado como um recurso urgente para manter a própria dignidade.
O médico abriu a porta do quarto com notória impaciência e a fechou com mais força do que seria necessário, caminhou rápido para a janela e abriu a vidraça, recebendo no peito uma afiada lufada de brisa gelada. O homem respirou fundo sentindo o ar gelado penetrar suas vias aéreas como se fossem estiletes fazendo seus pulmões pesarem. Olhou a propriedade em volta e observou tímidos flocos de neve flutuar na brisa que invadia o quarto abraçando-o e adormecendo sua epiderme protegida apenas por uma camisa de lã.
John fechou a janela e esfregou os braços, não queria candidatar-se a uma pneumonia. Olhou para a cama e sentiu uma ponta de decepção arder em seu peito, ele havia feito questão de pedir um quarto com cama de casal para poder ter um bom momento com Sherlock durante aquela rápida viagem motivada pelo trabalho do namorado. Mas, para seu grande desgosto, seus planos foram soprados para bem longe e desfizeram-se feito fumaça na ventania.
Disposto a não se deixar amargurar pela completa insensibilidade de Sherlock, John trocou de roupa, colocou um pijama quente e confortável e se enfiou nas grossas cobertas da ampla cama de casal que deixou de ser palco da concretização dos planos tórridos de sexo escaldante que o médico tinha para com seu namorado que certamente estava perambulando por algum dos muitos corredores do seu palácio mental nesse momento.
John precisava entender que resolver casos era como respirar para o detetive, o loiro não poderia privá-lo do ar que respirava, quando Sherlock se envolve na investigação de um caso, todo o resto se torna secundário. E John não queria admitir, mas, algo arranhava lá no fundo da sua mente, rosnando que ele, John Watson, era algo secundário para Sherlock agora e isso deixava o médico profundamente infeliz.
Demorou um pouco, mas John conseguiu dormir. Quando despertou na manhã seguinte, olhou para o lado na cama e percebeu que havia dormido sozinho e isso o deixou decepcionado, tinha esperanças de que Sherlock fosse dar uma trégua ao próprio cérebro e ir se deitar ao seu lado doando ao menos o calor do seu corpo para o companheiro, mas nem isso.
Suspirando pesadamente, o médico deslizou dos lençóis, escovou os dentes, tomou um banho morno, trocou de roupa e foi tomar café. Olhou atentamente os poucos ocupantes das mesas dispostas no restaurante e não encontrou Sherlock. Ainda era muito cedo para Lestrade já ter chegado com a equipe da Yard, o moreno devia estar pela redondeza, certamente tentando obter alguma informação válida de algum morador local a cerca da visita do vendedor de livros à cidade.
Depois de fazer o desjejum, John resolveu andar um pouco em volta da pousada, no dia anterior eles havia chegado ao final da tarde e ele não pôde dar uma olhada nos arredores, quem sabe até podia conseguir extrair alguma coisa interessante conversando com os locais. Duas pessoas fazendo perguntas poderia dar melhor resultado.
O médico fez uma boa caminhada pelas proximidades da pousada, apreciando o aspecto pitoresco e o clima que havia amanhecido menos frio apesar do céu ainda manter-se nublado. Puxou conversa com algumas pessoas que lhe davam atenção achando tratar-se de um turista perdido querendo achar um amigo. John dava as características do falecido vendedor de livros e perguntava se as pessoas o haviam visto por ali há dois dias.
A grande maioria balançava negativamente a cabeça e lamentava não poder ajudar, mas uma garota loira, sorridente de olhos verdes afirmou que sim, havia visto alguém com aquelas características entrar numa lojinha de bonecas há três quadras dali e depois ir para o Poison Garden, como a maioria dos turistas costumam fazer. Mas ela acreditava que o homem dera viagem perdida, pois o lugar fica fechado à visitação no inverno.
John considerou aquela informação bastante relevante. O que um espião queria numa loja de bonecas antes de ir a um suposto encontro com os assassinos?
— Nossa, sua informação vai me ajudar bastante, muito obrigado! – John agradeceu sorridente.
— Foi um grande prazer ajudar. – a moça respondeu com um grande e bonito sorriso. – Você vai ficar por quanto tempo na cidade?
— Acho que só mais algumas horas. Acredito que vou conseguir o paradeiro do meu amigo bem rápido, voltarei hoje para Londres.
— Que pena. – a moça disse sem desfazer o sorriso simpático. – eu poderia mostrar a cidade para você, tem lugares maravilhosos em Alnwick.
John não teve tempo de dizer qualquer coisa a respeito do comentário da jovem loira, pois uma voz grave e carregada de sarcasmo despontou às costas do médico.
— Eu tenho certeza disso, senhorita, mas como meu companheiro falou, não ficaremos tempo suficiente para fazer turismo. – Sherlock encarava a moça como um lobo defendendo território.
A jovem que havia ficado séria de espanto com a intrusão, deu um riso amarelo e acenou para John, tratando de se afastar o mais rápido possível.
— Você não precisava ter tratado a menina desse jeito, Sherlock. – John reclamou pondo-se a caminhar de forma meio militar, deixando Sherlock para trás.
— Ela estava dando em cima de você. – Sherlock rebateu tentando acompanhar a marcha do médico.
— Ela só estava sendo gentil, sabe o que é isso? – John indagou sentindo a amargura da rejeição da noite anterior roer suas entranhas.
— Você está chateado comigo. – Sherlock constatou logo atrás dele, pois John estava andando muito rápido e os dois já estavam nas imediações de uma velha ruína do que antes fora uma capela gótica.
— Bela dedução, Sherlock! – o médico exclamou sem parar de andar e sem se voltar para trás, permitindo-se apenas ouvir os passos do detetive se aproximando rapidamente dele.
Sherlock o agarrou pelo braço, empurrou e o prensou na parede mais próxima dos dois. John não teve tempo de formular qualquer pergunta, sua boca foi atacada pelos volumosos lábios do detetive que segurava seu rosto com ambas as mãos impedindo que buscasse romper o contato. O médico sentiu sua boca ser forçada a dar passagem à língua do moreno que tomou posse do interior, lambendo e sugando cada mínimo canto, deixando-o tonto e sem ar enquanto sentia o longo corpo do detetive esfregar-se no seu corpo como uma serpente, acendendo brasas em cada um dos seus músculos, fazendo-o buscar equilíbrio cravando as unhas entre os velhos tijolos da parede em ruína , tamanho o impacto de sensações que aquele beijo lhe causava.
Quando pensou que ia ter um leve apagão de consciência por conta do engolfo de estímulos que estava recebendo, John sentiu o detetive romper o beijo voraz para olhar fundo em seus olhos embaçados pela onda de magma que bagunçou por alguns instantes a sua lucidez.
— Me desculpe por ontem. – o detetive falou em voz grave.
Sherlock estava levemente corado e os lábios estavam inchados pela força de sucção que empregaram na boca do companheiro.
— Tudo bem... – John falou buscando equilibrar melhor o corpo para poder deixar o apoio da parede. – O caso é mais importante para você agora, eu entendo. – o médico destacou encarando-o.
— Não, John. Você é mais importante.
O médico ficou estático observando o detetive que o encarava sério enfatizando a sinceridade da sua declaração. Por alguns segundos, John achou que havia escutado errado, mas não, Sherlock havia dito de forma clara e inequívoca, não poderia pairar qualquer dúvida quanto ao que foi dito. O certo foi que, ouvir da boca do companheiro que ele, John Watson, não fazia parte das coisas a se deixar em segundo plano, fez uma manhã primaveril estourar em seu peito. John teria pulado em Sherlock e começado uma nova sessão de beijos e o puxado para um canto reservado das ruínas para fazer tudo o que não pôde na noite anterior no quarto da pousada, se alguém não tivesse espetado a colorida bolha de contentamento que os rodeava.
— Ah! Aí estão vocês dois! – Lestrade se aproximava a passos rápidos. – Então, estavam me esperando para entrar na propriedade? – Lestrade parecia se divertir muito com essa constatação. – Não puderam entrar sem um mandado, não é? Sim, eu fiquei sabendo pelo porteiro do Poison. Regras, Sherlock, elas são feitas para organizar as coisas e devem ser obedecidas. – o inspetor disse sacudindo um papel na frente do detetive.
— Discordo. A maioria das regras foram feitas para atrasar as coisas e devem ser quebradas quando atrapalham. – o detetive respondeu com azedume na voz.
— Você é terrível. – Lestrade retrucou meneando a cabeça. – Vamos, os portões do jardim já foram abertos.
O detetive e o médico seguiram o inspetor rumo ao Poison Garden. Quando chegaram ao local, Sherlock verificou com certo desgosto que a equipe de peritos da Scotland Yard já estava no local, mas o detetive não perdeu tempo, avançou impávido por entre os canteiros letais e verdejantes como se passeasse por entre inofensivas margaridas do campo. John o seguia encarando cada planta como se a qualquer momento um arbusto fosse arrancar sua perna fora.
Muitas das plantas cultivadas naquele ambiente possuíam placas alertando não ser recomendado se aproximar, tocar ou respirar muito fundo perto delas, o resultado poderia ser muito doloroso e funesto. Algumas até ganhavam um adorno bem peculiar que acentuava o aspecto perigoso dos arbustos: gaiolas de ferro. Certas variedades de plantas estavam literalmente aprisionadas em jaulas onde se lia instruções para que ninguém tentasse tocá-las.
Sherlock afundava entre as plantas procurando algo em particular, rodava e olhava em todas as direções e John podia garantir que o moreno também tentava farejar o cheiro de algo e esse pensamento alarmou o médico.
— Sherlock, não é bom você respirar muito profundamente perto dessas plantas.
— Eu preciso captar o cheiro, John. – o detetive retrucou.
— Cheiro de quê?
— Trombetas de anjo!
— Ah, a flor. E como é o cheiro, com que se parece?
— O perfume é amargo e travoso, lembra amônia e iodo, o morto esteve parado por tempo razoável perto de um arbusto de trombetas de anjo, tempo suficiente para ter suas roupas impregnadas pelo pólen. Devemos encontrar a região do jardim onde elas são cultivadas. – Sherlock finalizou sem parar de avançar entre os canteiros.
John tinha feito a sua pesquisa durante a viagem, sabia qual era o aspecto da flor que o moreno procurava, então pôs-se a ajudá-lo, mas não muito confiante em usar o olfato na busca. Não demorou muito para o detetive disparar para mais fundo no jardim sendo seguido pelo médico que pôde divisar a poucos metros uma robusta moita pontilhada de flores brancas no formato de trombetas.
— Aqui estão elas! – Sherlock exclamou satisfeito pondo-se a vasculhar o chão próximo à planta.
— Está procurando vestígio de sangue? – John quis saber.
— Não, o solo escuro já deve ter bebido tudo.
— Então o que está procurando, não pode ser pegadas, não é?
— Claro que não, John, sua criatividade não está muito boa hoje. – o moreno disse se agachando e revirando com cuidado o solo com as mãos protegidas pelas luvas pretas de inverno.
— Então o que é? Me deixe ajudar! – pediu John meio impaciente.
— Achei! – Sherlock exclamou levantando-se animado e erguendo um pequeno objeto diante dos olhos.
— Um botão? – o médico parecia não entender a importância daquele minúsculo objeto e nem por que Sherlock o estava procurando.
— Sim, John, mas não é qualquer botão, olhe bem! Esse é o botão desprendido da camisa do falso Sr. Hall no momento em que levou o golpe no peito, observe. – o detetive aproximou o objeto às vistas do médico. – Mesmo tamanho, mesma cor e mesmo modelo e possui um arranhão feito à lâmina, certamente a mesma lâmina que feriu o vendedor de livros, fazendo o botão se desprender.
Sim, John lembrou-se agora da noite em que foram ver o corpo, Sherlock havia se referido à falta de um botão na camisa do falecido, mas encontrar aquela minúscula evidência agora o deixou bastante impressionado.
— Esse botão é a confirmação de que esse foi o local exato do encontro de Oscar Hall com outras duas pessoas. – concluiu o detetive.
— Ok, mas está se esquecendo que esse lugar fecha no inverno, ninguém entra a não ser que seja funcionário ou administrador da propriedade. – John ponderou.
— Você deixou de citar a terceira categoria de pessoas que poderiam entrar sem precisar de burocracia legal, John.
— Que categoria?
— Conhecidos.
— O quê?
— Pessoas conhecidas. Hall conhecia alguém que podia acessar livremente esse lugar, alguém que trabalha aqui, esse alguém permitiu sua entrada e eu diria mais... – o detetive inalou como se buscasse oxigenar bem o cérebro antes de seguir seu raciocínio. – A pessoa que o deixou entrar estava esperando por ele.
— Está supondo que Hall foi morto por um funcionário do Poison? – o médico parecia impressionado com essa ideia.
— Um, não. Dois! – o detetive respondeu entusiasmado. – Vamos, John! Temos pessoas a entrevistar. – chamou disparando por entre os canteiros de plantas venenosas fazendo John ter que trotar atrás dele.
Mais ao centro da propriedade, havia um pequeno complexo de salas onde funcionava o centro administrativo do lugar e onde funcionários e pesquisadores se reuniam durante a rotina de cuidados e conservação do Poison. Lestrade já estava inquirindo a quinta pessoa quando Sherlock se interpôs entre ele e um jardineiro baixo, grisalho e de meia idade.
— Quais funcionários estiveram no canteiro das trombetas de anjo há dois dias no final da tarde? – o detetive perguntou num fôlego só ao funcionário.
O homem de meia idade encarou assustado aquele homem alto e agitado que havia cortado sua conversa com o policial, depois de verificar que o inspetor não iria intervir na intromissão, respondeu:
— A ala das trombetas de anjo era responsabilidade de Finley Jones e de Samuel Green.
— “Era”? Tempo passado? Como assim “era”? – o detetive insistiu.
— “Era”, pois os dois foram embora sem se despedir de ninguém há dois dias. Simplesmente arrumaram as coisas e partiram. Trabalhavam aqui há três anos, ótimos jardineiros, chegaram juntos e pegaram o serviço, trabalhavam a terra como poucos, eram espertos, aprendiam tudo muito rápido e até dominavam cinco idiomas, o que ajudava muito na comunicação com os turistas na temporada de visitação, eles tinham um sotaque engraçado, acho que por causa do domínio de outras línguas, nunca tinha conhecido uma dupla de jardineiros tão cultos. Eles eram caras legais. Vou sentir falta dos dois. – o homem pontuou.
Os olhos de Sherlock brilharam com a gama de novas informações que havia obtido. Agora ele tinha nomes, dois nomes para procurar e algumas características bem suspeitas para analisar.
— O que está fazendo aí parado, Lestrade? – Sherlock perguntou com voz imperativa. – Não ouviu o que esse homem acabou de contar? Procure dados sobre Finley Jones e Samuel Green, esses dois estiveram batendo um bom papo com o vendedor de livros há dois dias.
— Antes de achar que pode mandar em mim, me explique por que eu tenho que perseguir dois jardineiros? – Lestrade parecia enfezado.
John ia tentar apaziguar os efeitos nefastos do péssimo temperamento do namorado, quando o moreno se adiantou respondendo a pergunta do inspetor:
— Descartando o fato de que ambos foram embora às pressas no mesmo dia do crime que você investiga nesse momento, temos o fato do pólen na roupa do morto ser precisamente de trombeta de anjo. Oh! Que coincidência! Finley e Samuel são os responsáveis pelo canteiro dessa planta! – o detetive dramatizou de forma jocosa. – E ainda tem isso. – disse mostrando o botão encontrado entre os canteiros. – Esse é o botão faltante na camisa do morto, e onde ele estava? Próximo ao canteiro de trombetas de anjo. Então, inspetor, se essas evidências não são suficientes para fazê-lo sair correndo agora mesmo atrás de informações sobre esses dois, eu não sei mais o que pode movê-lo. – finalizou num fôlego só.
— Tá... – Lestrade murmurou encarando-o meio abismado para segundos depois mover-se do seu lugar.
O moreno observou brevemente o inspetor se afastar, então virou-se para John e convidou:
— Vamos, precisamos voltar para Londres, tenho pesquisas a fazer.
— Espera, Sherlock, acho que devemos ir a um outro lugar aqui antes de voltarmos.
O detetive o olhou curioso incentivando para que se explicasse.
— Hoje, mais cedo, eu estive caminhando pelas redondezas. Conversei com algumas pessoas perguntando se haviam visto alguém com as características do falso Sr. Hall na cidade há dois dias. – John informou.
— E?
— E uma das pessoas com as quais conversei, reconheceu as características e afirmou ter visto o homem visitar uma lojinha de bonecas antes de ir ao Poison Garden. Acho que devemos dar uma olhada nessa loja e saber por que ele sentiu necessidade de visitá-la antes. – o médico concluiu achando melhor evitar dizer que conseguiu a informação com a moça loira, sorridente de olhos verde.
— Excelente, John! Estou orgulhoso de você. – o detetive exclamou dando um rápido beijo na testa do médico. – Você sabe onde fica a loja?
— Sim, eu sei. – John respondeu corado.
Depois de caminharem por dezoito minutos e vencerem algumas quadras, o médico e o detetive chegaram a um estabelecimento médio, de aspecto rústico e ampla vitrine pontilhada de bonecas dos mais variados modelos, materiais e nacionalidades.
Ao entrar, um mensageiro dos ventos constituído de lascas de cristais suspensas por fios de náilon, tilintou com abertura da porta dando sinal da entrada dos visitantes. John alongou a vista às prateleiras próximas e pôde perceber que além da variedade de modelos, materiais e nacionalidade, havia bonecas de diversas épocas, não foi difícil deduzir tratar-se de uma loja de bonecas para coleção. Quanto mais antiga e conservada a boneca, mais valiosa e desejada ela é.
Em segundos os dois foram atendidos por uma simpática senhora de cabelos castanhos escuros e olhos negros protegidos por lentes grossas mantidas por larga armação preta.
— Os senhores buscam por uma boneca em específico? – a mulher perguntou solícita.
Antes que Sherlock assustasse a mulher com uma pergunta direta e total falta de tato com pessoas, John respondeu:
— Ah... não exatamente, eu gostaria de saber sobre um homem que esteve aqui há dois dias...
— Um homem? – a vendedora indagou observando-o de cima a baixo. – Sei... E como ele era?
Sentindo leve desconforto pela maneira com a qual foi analisado, John respondeu:
— Alto, branco, cabelos liso escuro, estava vestindo calça social preta e uma camisa azul por baixo de um casaco marrom cor de terra, ele esteve aqui, não esteve?
— Bem... essas características não me são estranhas... – murmurou a mulher coçando a ponta do queixo. – Sim! Eu me lembro!
— Conte-nos o que lembra. – Sherlock pediu pregando-lhe o seu ávido olhar curioso.
— Um homem com essas características esteve aqui antes de ontem no final da tarde e comprou uma boneca.
— Que tipo de boneca ele comprou? – o médico insistiu para que a mulher continuasse o relato.
— Uma simpática matrioska camponesa.
— Uma o quê? – John perguntou tentando associar o nome a algo que ele conhecesse.
— Matrioska, John, uma boneca russa de madeira, constituída de uma série de bonecas idênticas encaixadas uma dentro da outra, da maior até a menor, a última peça é a única em material maciço, as demais são ocas para comportar umas as outras. – Sherlock respondeu e depois virou-se para a mulher. – Relate a visita dele com o máximo de detalhes que conseguir, isso é muito importante, senhora.
— Bem, o lote do qual ele se agradou é bem novo, tinha chegado na manhã daquele mesmo dia. O homem foi direto para a prateleira das matrioskas recém-chegadas, avaliou cuidadosamente e selecionou uma delas. – a mulher disse apontando a prateleira onde ainda havia várias bonecas idênticas. – depois ele dedicou uns minutos desmontando e avaliando cada uma das réplicas internas do produto, isso é compreensível, às vezes os compradores querem atestar que a matrioska está completa, é uma tristeza descobrir a ausência de uma das peças, é como um ovo de páscoa sem recheio. – a vendedora comentou com ar consternado.
— Oh, imagino... muito triste. – John concordou fazendo um gesto com as mãos para que a mulher continuasse o relato.
— Depois que ele constatou que o produto estava ok, trouxe para o balcão, pediu que embalasse para presente, pagou a boneca e deu um extra para que o presente fosse postado para um endereço em Londres.
— Qual endereço? – Sherlock perguntou sôfrego.
— Eu não lembro com precisão, mas esperem um minuto, eu ainda tenho anotado aqui em algum lugar... – a mulher falou indo em direção ao balcão ao fundo da loja para revirar uma gaveta – Aqui está! – exclamou se aproximando dos dois. – eu não postei no mesmo dia, pois o correio já havia fechado, mas o fiz na manhã do dia seguinte.
Sherlock pegou o papel e leu não conseguindo disfarçar totalmente um lampejo de surpresa que cortou seus olhos cristalinos, John percebeu e ficou curioso, mas antes que pudesse perguntar o que estava no papel, o detetive perguntou para a mulher:
— Em que categoria de postagem colocou a encomenda?
— Prioritária, o homem disse que precisava que ela chegasse o mais rápido possível no endereço, acho que devia ser para presente de aniversário. – ela respondeu com uma ponta de confidência na voz. – Creio que deva chegar ao local amanhã mais ou menos nesse horário, espero que a pessoa goste, é uma linda peça.
— Tenho certeza que sim. – Sherlock respondeu fazendo uma breve referência de despedida na direção da senhora e fez um gesto para John segui-lo para fora da loja.
John cumprimentou a vendedora e acompanhou o detetive que caminhava de modo acelerado como se pretendesse chegar à Londres a pé.
— Ei, Sherlock! Por que essa pressa toda? – John perguntou trotando atrás do detetive.
— Por causa disso, John. – o homem parou e virou de frente para o médico esticando-lhe o pedaço de papel.
Depois de alguns segundos identificando os dados na pequena folha de papel, John arregalou os olhos e olhou para Sherlock como se procurasse algum sentido naquilo que estava lendo. O detetive riu da cara de confusão que o companheiro ostentava, depois girou nos calcanhares e continuou a andar apressado com movimentos notoriamente animados. O caso parecia estar bem perto de ser resolvido.
Continua...
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