O tutto o niente
2 Eu não saio por aí procurando encrenca
Os segundos se arrastaram dolorosamente enquanto Hermione olhava incrédula para um Dean nervoso e levemente esperançoso. Logo, a vontade de jogar o que sobrara de seu café no rosto perfeitamente limpo de Thomas a dominou. Juntou as mãos sobre o colo, as apertando fortemente a fim de evitar azara-lo ou fazer algo mais violento. O olhar em seu rosto deve ter transparecido seus desejos, visto que o homem à sua frente arrastou a cadeira para longe da mesa e engoliu em seco enquanto respirava fundo. Hermione se forçou a dizer algo, uma sentença coerente e calma para evitar gritos desnecessários.
- Que porra você tem na cabeça, Thomas?!
O que não surtiu efeito visto que seu tom alto chamou a atenção das mesas próximas. Dean olhou em voltar alarmado, se inclinando sobre a mesa para ficar mais perto dela e, em consequência, de sua fúria.
- Escapou, tá legal? Eu não planejei nada disso. — defendeu-se rapidamente, parecendo completamente arrependido.
Riu descrente, o vendo se encolher como se ela estivesse prestes a acertá-lo. Cruzou as pernas, balançando o pé esquerdo tentando dissipar o acúmulo de energia. Olhou para longe dele, a testa franzida em irritação e os lábios cerrados a fim de evitar falar o que tanto queria. Como alguém poderia ser tão inconsequente? Eles não eram mais adolescentes, ela era chefe, pelo amor de Merlin! E ele era responsável por algo importante que ela não lembrava no momento, mas sabia ser o emprego de um adulto competente que não tinha tempo para se envolver em enrascadas como aquela. Que merda ele estava pensando? E agora ela estava xingando por culpa dele!
- Eu só preciso de um fim de semana, Hermione.
Estreitou os olhos em sua direção, sua voz saindo entredentes:
- Para conseguir a porcaria da herança da sua tia?
- Pra conseguir evitar que meus primos destruam a única lembrança que eu tenho dela. — declarou, respirando fundo antes de continuar. — Você sabe como é perder alguém e restar tão pouco para se agarrar.
- Isso... isso não é justo. — vociferou, o som dos pés da cadeira arrastando no piso ecoando em sua mente enquanto se afastava a passos largos para longe dele.
Dean não tinha esse direito, de chegar e bagunçar sua vida só porque a dele estava uma merda. Não era justo trazer à tona as suas dores para justificar as más escolhas dele. Ele que procure uma noiva de aluguel em qualquer merda de outro lugar. Porra! Agora ela estava xingando novamente. A porcaria de Dean Thomas e seu plano estúpido! Chutou uma lata de lixo assim que entrou em um beco vazio, sua frustração emanando em ondas mágicas por seu corpo e fazendo os papéis descartados no chão girarem em um redemoinho violento que se desfez contra a parede do beco sem saída em uma velocidade que a aplacou um pouco.
- Hermione!
Ignorou o chamado, se concentrando em aparatar para longe, bem longe daquele idiota. O sentiu se aproximar por trás e virou parte do corpo para olhá-lo.
- Hermione. Me desculpe, eu fui um babaca, não deveria ter dito isso. — o arrependimento era claro em seu rosto, mas ela não queria escutá-lo. — Olha, eu realmente sinto muito, eu não queria te machucar.
- Então por que você fez isso?
- Eu não sei, eu nunca faço nada sem pensar, mas ultimamente as palavras só saem da minha boca sem que eu tenha um controle.
- Procure ajuda, então. — ordenou, o dando às costas e caminhando alguns passos para longe.
Escutou Dean suspirar alto e frustrado, praticamente correndo para ficar na sua frente a impedindo de continuar. Fechou a cara ainda mais, cruzando fortemente seus braços em frente ao corpo, uma clara defesa contra o homem alto que a encarava desolado.
- Por favor, por favor, só me escute.
- O que mais você tem para falar? Você disse para a sua família que estamos noivos, Dean, noivos! — praticamente gritou, agitando os braços ao lado do corpo e inclinando-se contra ele que sabiamente deu um passo para trás. — Sabe o que vai acontecer com nossas vidas se isso chegar aos ouvidos dos jornalistas? Eu lutei tanto para não me deixar ser arrastada por cada manchete sensacionalista e terminar meu namoro com Ron há poucos meses e começar um noivado com você não vai me ajudar em nada!
- Eles nunca vão saber. — prometeu fracamente, e sabia que isso não era uma certeza possível, ela podia ver pela tentativa de confiança que ele estava tentando passar.
- Eles sempre sabem. — resmungou cansada, o dia mal havia terminado e ela só queria ir para casa e dormir até esquecer que estava viva.
- O lado positivo é que no nosso mundo em que essa história corre é em um círculo trouxa que vive na parte mais afastada da Escócia, em uma cidadezinha chamada Thurso. Minha família é pequena e reservada, minha tia ainda mais. — garantiu, se aproximando novamente quando a sentiu baixar a guarda. — Ninguém sabe da doença dela e poucos sabem sobre você. Eu só preciso convencê-la de que sou responsável o suficiente para cuidar do solar.
- É apenas uma construção. — praticamente desdenhou, sua energia para ser educada estava abaixo de zero.
- É mais do que isso. — ele olhou ao redor, uma ansiedade palpável o deixando tenso. — Lá é mágico, Hermione, magia antiga. Eles não sentem, mas desde pequeno eu sei que aquele lugar é especial e não há local melhor para construir o meu centro de apoio do que lá.
- Para quem você quer construir um espaço de apoio? — a curiosidade venceu sua recusa, possuía tantas perguntas que sabia que só iria conseguir sossegar depois de ter respostas e Dean logo percebeu isso também.
- Bem, a situação não é a das melhores para os nascidos trouxas. — declarou, estendendo um braço dobrado em sua direção. — Podemos conversar em outro lugar?
Hermione ponderou, se ficasse um pouco mais teria que limpar sua tarde apenas para Dean Thomas, pois sentia que aquela conversa iria demorar. Mas a porcaria da sua curiosidade fora aguçada, então logo enrolou seu braço ao dele e sentiu o puxão característico da aparatação os levar para longe. Pousaram em um corredor estreito, Dean se adiantando para abrir uma porta do lado esquerdo para ela. O encarou brevemente antes de entrar no apartamento, um lugar muito mais espaçoso e iluminado do que esperava. Era organizado, à primeira vista observou a sala que era separada da cozinha por uma parede, a qual era aberta por uma grande janela que continha um balcão de mármore. Mais a frente havia um pequeno corredor que dava para quatro cômodos fechados, era realmente um espaço amplo para um cara solteiro. Voltou o olhar para ele, o encarando desconfiada. Dean obviamente possuía dinheiro, então por que lutar tanto por uma propriedade sendo que poderia pagar por outra?
Ele acenou para duas cadeiras em frente a uma pequena varanda, sentou-se animada por poder observar a vista do lado de fora. Se surpreendeu ao ver que dava para um pátio interno, um pequeno parque fazia parte do prédio, algumas crianças brincavam de bola, outras pulavam amarelinha, cada uma se divertindo à sua maneira trouxa. Mas conseguia ver algumas usando magia, pais levitando seus filhos pequenos quando eles corriam para longe, um xadrez bruxo sendo jogado por dois senhores embaixo de uma árvore e alguns brinquedos ganhando vida própria para o divertimento de um bebê que rolava em um tecido sobre a grama. Hermione piscou surpresa pela cena que se desenrolava, era uma mistura de mundos que ainda não havia presenciado.
- Ei.
Se assustou com o chamado baixo, olhando para Dean que a oferecia uma xícara de chá. Aceitou em automático, levando o líquido à boca e o afastando rapidamente quando sentiu o calor escaldante em sua língua. Olhou feio para Thomas, que olhava para longe dela e tentava impedir um sorriso de aparecer em seu rosto. Estalou a língua em um som de desagrado quando a sentiu parar de arder, assoprando o líquido antes de levá-lo novamente aos labios, primeiro testanto a temperatura antes de tomar um gole generoso; era doce e de camomila, um dos seus preferidos e o que precisava no momento.
- Você poderia me emprestar Pippa para que eu possa avisar o escritório? — escreveria uma rápida desculpa para cancelar sua tarde, não possuía cabeça para lidar com qualquer outra situação durante aquele turno.
Dean assentiu e girou a cabeça à procura da corujinha, assobiando uma melodia suave quando a encontrou.
- Ela vai adorar fazer algo por você. — garantiu quando chamou a corujinha que os olhava curiosa desde que entraram no apartamento, ela prontamente voou em direção à Hermione, arulhando feliz ao pousar sobre seu ombro. — Estou começando a achar que você pretende roubar a minha coruja, Hermione.
- Me sentiria ameaçada se fosse você, Dean.
Ele riu baixinho, levando a xícara à boca enquanto voltava o olhar para fora. Hermione escreveu rapidamente uma nota e amarrou na perna de Pippa, a corujinha piou em reconhecimento após ela lembrá-la do endereço e voou para fora. Ela mergulhou após passar pela janela, deu duas voltas ao redor de um grupo de crianças que gargalharam animadas e saiu para longe. O sorriso que adornava seu rosto logo caiu quando lembrou do motivo de estar ali, voltou-se séria para Dean e praticamente ordenou:
- Comece.
- Mandona como sempre. — brincou, recebendo um olhar ainda mais duro que o fez se mexer desconfortável. — Certo. Só porque tivemos uma vida tranquila em relação a aceitação dos nossos pais, não significa que todos estejam passando por isso. Alguns nascidos trouxas não conseguem mais viver no lado trouxa da família após passar o primeiro ano em Hogwarts, é como se estivessem deslocados e esse é um sentimento que sabemos bem. Eles estão divididos, nós estaremos sempre divididos, só que enquanto tivemos uma família para voltar, uma que tentava entender nossa outra parte, alguns deles são empurrados para longe e se veem cada vez mais distantes. O mundo bruxo não fala o suficiente sobre doenças mentais e na idade dos baixinhos de Hogwarts, é...
- Aterrador. — completou quando Dean não soube o que falar. Baixou o olhar para o líquido morno em suas mãos, observando as minúsculas ondas provocadas por seu movimento, movimentos de vai e vem presos entre um corpo limitado. — Sempre será aterrador.
Escutou o respirarar pesado de Dean, sem precisar vê-lo sabia que o homem estava tentando continuar sem falar algo que a magoasse de alguma forma. Ele era atencioso, sempre fora, e agradecia por ele ser assim ou teria se levantado e ido embora daquele apartamento há minutos atrás.
- Eles, bem, eles não sabem como lidar porque não podem falar sobre isso com alguém que não é do mundo bruxo e aqueles do mundo bruxo não vão entender a situação com a comunidade trouxa.
- Eu sei do que você está falando, precisei dividir meu tempo entre um medibruxo e uma terapeuta, mas sempre tenho que dosar o que posso ou não falar.
Era uma limitação constante, por mais que a ajudasse. Sempre precisava anotar os principais pontos para tratar com cada terapeuta. Falava sobre o medo que sentia por estar afastada dos seus pais com um e a pressão de subir em cargos no Ministério com outro. Algumas informações ainda escapavam, referências à programas e músicas trouxas em um consultório bruxo ou animais e leis bruxas em uma clínica trouxa. Era exaustivo, para dizer o mínimo.
- Por isso proponho um local em que tanto os nascidos trouxas quanto os abortos e, só pra constar, eu detesto esse nome. — acrescentou Dean, tendo sua atenção novamente e sua concordância, era realmente um nome horrível. — Eu só quero que eles sintam que podem falar livremente.
- Então o centro de apoio? — indagou interessada.
Ele sorriu, um pequeno sinal de alívio por sua pergunta, e as covinhas fofas em seu rosto se fizeram presentes novamente. Hermione as ignorou e sentia que essa seria sua realidade por um tempo. Se forçou a escutá-lo e não desviar o olhar para qualquer outro ponto de seu rosto.
- Exatamente, com terapeutas e psicólogos nascidos trouxas e abortos.
- Um lugar para nos ajudarmos. — sorriu um pouco animada. — Essa é uma ideia linda, Dean, por que você não levou para o ministério?
- Eu levei e ela foi rejeitada. Mais de uma vez. — respondeu com uma nota de amargura na voz. — Eles possuem demandas mais urgentes do que financiar um novo abrigo para abortos.
- Você poderia ter nos pedido ajuda. — Dean começou a negar antes mesmo dela terminar sua fala, mas prosseguiu sem entender sua reação. — Harry estaria do seu lado e com o apoio dele você sabe que teria conseguido.
Ele apoiou a xícara em uma mesinha ao lado de sua poltrona, inclinando o corpo em sua direção e os antebraços em suas coxas. Ele se aproximou tão rápido que seu coração acelerou ao sentir o perfume amadeirado a envolver, Hermione quis se encolher para longe dele, o pequeno turbilhão que estava sentido não fazia o menor sentido! Talvez a falta de sono estivesse realmente a acertando ou a inexistência de um contato humano há meses estava cobrando seu preço. Dean continuou sua defesa, alheio ao seu eminente surto.
- Hermione, eu quero fazer algo por mim, sem ser a boa ação do mundo bruxo em favor do menino-que-sobreviveu.
Balançou a perna para extravasar seu nervosismo, conseguia compreender o ponto dele, afinal, não era ela que tentava a todo dia fazer o mesmo? Escapar da caixinha em que a colocaram quando era uma criança e provar que era mais do que uma salvadora do mundo bruxo, melhor amigo do menino-que-sobreviveu-duas-vezes e uma garotinha inteligente?
- Eu entendo. — garantiu, seu corpo se movendo antes de sua mente e se inclinando em direção à ele. — Mas por que mentir?
Dean deu de ombros, a encarando sem jeito enquanto voltava o olhar para suas mãos entrelaçadas em frente ao corpo.
- Aquele lugar é especial. — ele sentiu seu olhar descrente e logo soltou um suspiro pesado antes de confessar. — Na verdade, nem pensei muito que ele poderia ser O local até que meus primos falarem em demolir a casa para construir um resort.
Obviamente a ideia veio como um brilhante raio de clareza que o atravessou no momento mais conveniente possível. Quase revirou os olhos para a coincidência, se recostando no espaldar da poltrona, apoiando o cotovelo no braço esquerdo e a lateral do rosto na mão aberta.
- E como eu entrei nessa história?
- Eu ia te falar antes de você me cortar. — provocou, não recuando diante do olhar afiado dela. — Minha tia é muito apegada às tradições, ela foi a única irmã da minha mãe que continuou do nosso lado após ela se separar do pai do Tony, meu irmão mais novo. Ela nunca me tratou diferente, sempre com a mesma régua para todos os sobrinhos, porém, não acredita realmente que eu esteja pronto para sossegar e começar uma família. — falou, brincando com um anel em seu dedo anelar da mão direita, suas palavras saíam como se ele estivesse longe dali. — Todos pensam que eu ganhei uma bolsa de estudos para um internato chique na Escócia, meus primos me destestaram por anos por isso, mas tia Nora sentia orgulho por eu estar construindo algo, mas a guerra veio e eu passei um tempo viajando.
O silêncio que se seguiu foi denso e Hermione fechou os olhos quando a lembrança de um Dean Thomas maltratado e ensanguentado surgiu em sua mente. A fuga da casa dos Malfoy ainda a provocava pesadelos em dias difíceis, porém, mais administraveis do que nos primeiros anos após a Guerra. Talvez Dean também tivesse os seus próprios demônios para lutar, não havia como ter sobrevivido àquela época sem sair com cicatrizes profundas.
- Os meninos me falaram sobre o seu mochilão. — comentou suavemente, o trazendo de volta para a conversa e para longe do local em que ele parecia estar afundando.
Dean piscou como se lembrasse da onde estava, ainda não a encarando quando comentou com uma voz cansada:
- Sim, foi incrível, mas eu me afastei de todos por isso. Escrevia, claro, mas não com muitos detalhes. — confessou, passando a mão sobre o cabelo curto antes de se recostar na poltrona. — Tudo de mágico que eu via compartilhava com meus amigos, meu irmão e minha mãe, mas a outra parte da família só sabia que eu estava jogando várias oportunidades fora.
- Você foi chamado para ser comentarista dos jogos nacionais.
- Sim, e não aceitei. — disse, respirando fundo antes de continuar. — Só queria sair um pouco do mundo bruxo e o que era para ser uma viajem de um ano acabou se transformando em dois. Quando retornei, a saúde da tia Nora já estava debilitada e meus primos a rondavam como abutres em busca de um pedaço da sua herança.
- E o solar?
- Ela me disse que seria meu e da minha esposa, mas que não sabia se estaria viva para ver isso acontecer.
Massageou um ponto em sua testa, sentia uma imensa dor de cabeça chegando. A explicação de Dean era razoável, sua intenção por trás sendo nobre apesar da execução completamente desastrosa, mas um ponto em questão ainda não fazia o mínimo sentido.
- Mas por que o meu nome?
- Eu tinha lido uma reportagem sobre o seu impedimento da ampliação de leis contra o casamento entre Lobisomens e qualquer outra criatura mágica. E apenas... — deixou as mãos caírem sobre seu colo em sinal do quão perdido estava, ele não possuía uma justificativa específica e isso foi o que começou a irritar Hermione novamente. — Eu juro, Hermione, foi sem querer.
- Um reflexo de Merlin. — interrompeu em desagrado, não o distraindo da sua fala.
- Então ela me perguntou quando eu contaria para ela, se seria em seu leito de morte ou no pós-vida.
O encarou desconfiada quando notou algo estranho em sua explicação.
- Ela queria uma esposa para você e não uma noiva.
Dean se aproximou novamente, claramente agitado por sua recusa em aceitar suas desculpas. Ele desviou o olhar momentaneamente, balançando a perna em nervosismo e abriu a boca para falar, mas logo a fechou novamente. Hermione aguardou o mais tranquilamente que conseguia naquele momento, mas ele visivelmente ainda escondia algo dela. Por fim, Thomas confessou com um olhar ligeiramente assustado, provavelmente temendo sua reação à qualquer outra porcaria que ele tenha inventado.
- Eu posso ter, sem querer, mas... hum, eu acabei falando que o nosso casamento aconteceu durante uma cerimônia andina quando eu estava no Peru.
- Dean!
- Ela não aceitou, tudo bem? Disse que isso não era um casamento de verdade, o que, devo dizer, é bem intolerante da parte dela. — sua tentativa de aliviar o clima foi recebida com um olhar mortal. — Porque, sabe, apesar de não ser na Inglaterra, você é minha esposa a partir do momento que os deuses da natureza nos abençoaram.
- Mas não tem porcaria de benção nenhuma, Thomas! — o tapa ecoou alto quando sua mão encontrou o braço dele. Dean pulou para longe, a boca aberta em choque diante da ação dela. — Nós não nos casamos e nem vamos nos casar.
- Eu sei, caramba! Só estamos noivos.
- Só. Apenas isso. — desdenhou, soltando uma risada beirando a histeria. — Um noivado falso para encobrir um casamento imaginário.
- Ninguém vai atrás. — garantiu, desviando de outro tapa. — Mulher! Pra que tanta agressão? É um país do outro lado do oceano.
Hermione quis gritar, porém, apenas se contentou em bater o pé e virar o rosto para longe.
- Você acabou com o meu dia.
- Desculpe. — a voz cansada a desarmou um pouco, apenas um milésimo de segundo que ele logo aproveitou, notando sua tensão quando se ajoelhou ao seu lado. — Eu sinto muito ter te envolvido nisso, mas só peço um fim de semana. Já falei para eles que você passa a maior parte do tempo longe, viajando por conta do trabalho e por isso nunca havia te apresentado à família. Eu só necessito que ela acredite e me ceda o solar, e então eu posso ajudar quem precisa.
Hermione respirou fundo, levantando-se da cadeira e caminhando para mais perto da grade da sacada e longe do homem irritante. Fechou os olhos, sentindo os raios quentes do sol contra a sua pele e o aroma das flores que adornavam as laterais do pátio. Parou para realmente pensar no plano de Dean, no apoio que pessoas como eles poderiam ter ao longo dos anos de estudos. Lembrou das situações tensas em sua casa quando sua magia começou a aparecer, nas férias após voltar de Hogwarts em que as interações com seus pais pareciam se tornar a cada dia mais forçadas em uma normalidade que não era mais possível. Eram apenas os três, seus pais eram filhos únicos de filhos únicos, sua árvore genealógica era mais parecida com um espinho do que um carvalho. Mas teve sorte em nascer de pessoas que fizeram de tudo para que ela se sentisse bem e aceita, que não a trataram de forma diferente por ela ser diferente. Nunca havia parado para pensar na situação de outros nascidos trouxas, no choque cultural e na falta de compreensão que eles poderiam estar tendo em casa, se ressentia consigo mesma por não ter aberto os olhos para isso, mas a sua situação ao longo dos anos não a permitiu.
Hermione sabia que não havia tido uma infância e adolescência normais, mas passou por tudo para que outras crianças pudessem aproveitar, enfrentou cada perigo para que ela pudesse sobreviver também. E então se jogou em seus problemas após o término da guerra, travou suas próprias batalhas físicas e mentais durante anos e não olhou para além do que poderia. Precisava mudar um pouco do mundo a cada vez e era isso o que fazia em seu emprego, buscava as melhores formas de amparar legalmente quem necessitava e proteger quem estava sendo ameaçado, mas pelo visto não era possível ajudar mais do que estava fazendo. Entretanto, Dean lhe deu um novo caminho, algo para fazer além, uma forma de se redimir por ter fechado os olhos para outras formas de opressão. Ele estava certo, essas pessoas precisavam de ajuda e se o solar fosse tão mágico quanto ele afirmava, então as proteções poderiam funcionar com mais eficácia e os tratamentos oferecidos teriam mais resultados.
Abriu novamente os olhos, piscando para se acostumar com a claridade após mantê-los tão fortemente fechados. O som do canto dos pássaros a relaxou, a ajudando a afrouxar o aperto sobre a grade de ferro que deixara suas mãos doloridas. Esticou os dedos, os contraindo para aliviar a dor e respirou fundo antes de girar o corpo em direção à Dean, o qual a esperava paciente ainda sentado na cadeira. Ele a observou com cautela, como se estivesse tentando prever seu próximo movimento, Hermione inclinou levemente a cabeça, seus cachos movendo-se sobre seus olhos antes dela empurrá-los para trás da orelha. Dean seguiu o movimento de sua mão, o que a fez parar um pouco antes de descer lentamente os dedos no contorno de sua mandíbula. O homem franziu os lábios, os olhos castanhos se tornando mais escuros e afiados, o que a fez engolir em seco em um nervosismo inesperado antes de arrumar sua postura e quebrar o momento como se tivessem lançando um Eletricus sobre os dois.
- Você ao menos me deu um bom emprego?
- O melhor de todos. — o sorriso brilhante e a animação no olhar não amenizaram sua inquietação.
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