O tutto o niente

1 Bom, o que seria da vida sem alguns dragões, não é?


Hermione suspirou alto quando outro lote de cartas pousou nada suavemente sobre sua mesa. A noite iria ser longa, mais um jantar desmarcado com seus amigos e poucos horas de sono antes de retornar na manhã seguinte para uma repetição do mesmo dia. Resignada com seu destino, puxou as cartas em sua direção, colocando os óculos a fim de evitar cansar ainda mais sua visão. Sabia que não fazia sentido escolher usar óculos sendo uma bruxa, os feitiços de cura eram constantemente atualizados, porém, era bom sentir uma parte do seu outro mundo, um que ela deixou quase completamente há mais de três anos. Fechou os olhos com força quando os sentiu arder em prelúdio as lágrimas, se encontrava tão cansada que a simples memória de tempos antigos a fazia querer desmoronar. Entretanto, não possuía tempo para sentimentalismo, teria que separar os escritos a sua frente por ordem de importância e tentar terminar o que fosse urgente o mais rápido possível.


Sua trajetória no mundo mágico decolou após a guerra, logo se viu sendo procurada por inúmeros departamentos, todos queriam ter um membro do trio de ouro em sua equipe. Harry e Ron seguiram o mesmo destino, O menino que sobreviveu duas vezes sendo quase leiloado em meio ao átrio do ministério. Seu melhor amigo escolheu seguir a carreira de autor, mas estava se cansando muito rápido da correria interminável atrás dos grandes bandidos. A maioria dos comensais estava em Askaban, como Londres mágica era quase uma velha caixinha de chá, os crimes hediondos eram facilmente localizados e sobrava apenas as papelada para o chefe dos aurores cuidar, no caso, Harry Potter. Ron passou apenas um ano nessa vida, desistindo para ajudar George na loja, o que o fez mudar completamente a sua rotina e o que o deixava infeliz. Longe dos crimes, dos roubos e assassinatos, Ronald estava tranquilo e essa leveza foi um dos motivos de seu término.


Não que Hermione se ressentisse, mas a vida deles seguiu rumos diferentes em uma velocidade assustadora. Sua relação com a família Weasley ainda se mantinha, uma família que a adotou e que nunca a deixou se sentir como menos do que um membro oficial. Era bom e reconfortante tem um lar para onde ir quando tudo se tornava vazio. Eles não sabiam muito sobre a real situação de seus pais, Hermione não os queria sobrecarregar com algo a mais para pensarem e se preocuparem com ela. Sua parca vida social, as constantes noites no Ministério, seu pequeno apartamento em um bairro trouxa próximo ao Beco diagonal e até o único relacionamento que teve um mês após terminar com Ronald ainda eram temas constantes de perguntas preocupadas e comentários animadores. Eles a queriam bem, gostariam de vê-la casada, morando em uma casa de dois andares com uma cerca branca na frente, trabalhando poucas horas por dia enquanto ocupava o resto do seu tempo tricotando em sua varanda. Eles a queriam como Harry e Ginny, com um bom casamento, uma casa em Godric's Hollow e um cachorro recém adotado.


Até mesmo a queriam como Ron, com um emprego divertido, sempre próximo da família, com um apartamento no Beco Diagonal, não perdendo os almoços de domingo e comparecendo aos jantares durante a semana. E a queriam como George, que após um intenso tratamento estava conseguindo se construir aos poucos, tendo o apoio de alguém que não o deixava, seguindo em frente apesar da dor, reconstruindo um legado que sempre carregaria seu gêmeo no DNA. Eles desejavam que ela seguisse em frente, mas os últimos meses se mostraram mais estressantes e assustadores do que Hermione pensou ser possível. Então ela fez o que sempre soube fazer de melhor, estudou e se jogou no trabalho, leu e releu inúmeras propostas, participou de conselhos e reuniões, ela cresceu ainda mais, se fazendo presente em vários departamentos. Seu nome sempre vinha acompanhado de um adjetivo, implacável, impecável, honesta, direta, incisiva, fria, distante, calculista. Eram tantos que passou a enxergá-los como manchas em sua pele, palavras tatuadas em partes de seu corpo que poucos teriam o acesso para saber a extensão dos danos.


Mas ela estava cansada, exausta de continuar, precisava de um tempo longe de todos, mas não sabia como exigir algo que era o seu direito. Sempre seguiu de acordo com as regras, com o que era esperado para ela, então a guerra veio e se viu fazendo coisas que nunca pensou que faria. Roubou, falsificou, sequestrou, quase matou em nome do que era certo; não se arrependia, era uma guerra e ela era uma criança, demorou anos de terapia para aceitar. Porém, não se orgulhava, fez o que fora necessário e faria de tudo para não ser preciso realizar tudo novamente. Choramingou indignada, inclinando seu corpo para frente e apoiando a testa na matéria fria da mesa. Fechou os olhos por um momento, respirando fundo os cheiros que conseguia distinguir em seus escritório, tinta de pergaminho, pinho e o aroma salgado dos salgadinhos que carrega para as corujas que apareciam. Passou alguns segundos tentando limpar a mente, lutando contra a enxurrada de planos e preparações que necessitava fazer. Mas logo retornou ao trabalho, batendo palmas para fingir uma energia que não sentia, mas como dizia o ditado trouxa: Finja até acreditar.


O tempo passou e enquanto lia um projeto muito mal elaborado de licenças para a caça de Cinzal, por Merlim, os erros de gramática eram grotescos, um pio baixo seguido por batidinhas no vidro da sua janela a tirou a concentração. Girou na cadeira, observando uma pequena coruja marrom encará-la com curiosidade. Franziu a testa para o pequeno desconhecido, sabia não ser de qualquer um dos seus amigos mais próximos e nem de algum contato do ministério. As batidinhas se tornaram mais insistentes, a frustração da coruja era óbvia e hermione se viu segurando um pequeno sorriso antes de se levantar e a livrar do tormento. Assim que abriu a janela, a corujunha voou ao seu redor antes de pousar calmamente em seu ombro. Dessa vez, não conseguiu parar o sorriso, principalmente após o animal bicar sua bochecha levemente antes de estender a perna com o pergaminho.


Retirou o pedaço de papel antes de apontar a varinha para um prato vazio em cima da mesa e enchê-lo de água. A coruja logo voou em direção à bebida, distraída demais para voltar a atenção para a bruxa. Hermione então tornou a se sentar, lançando um rápido feitiço de aquecimento em si e na corujinha, que bateu as asas agradecida antes de começar a beslicar uns petiscos, e rolou o pequeno pergaminho entre seus dedos antes de decidir abri-lo. A letra redonda e firme a trouxe uma sensação de familiaridade, a qual foi confirmada pelo nome que assinava o convite. Olhou um pouco divertida para a coruja que esticou a perna em sua direção, à espera de uma resposta para poder voltar para casa.


- Certo, Pippa. — repetiu o nome que estava na carta, o pequeno piado que ela soltou a fez rir, o animal claramente gostava quando a chamavam pelo nome. — Vou escrever um resposta e então você poderá voltar para sua casa.


Alcançou um pedaço de papel e pegou rapidamente uma caneta, escrevendo uma confirmação de sua presença antes de enrolar e amarrar sua resposta na perna da corujinha. Após se despedir de Pippa, se recostou contra o apoio de sua cadeira acolchoada, observando o pássaro sumir contra as nuvens cinzentas do fim da tarde. O bilhete foi uma surpresa, não poderia dizer desagradável, mas completamente distante do que poderia esperar. Ele a convidara para um café trouxa no centro de Londres, um local que Hermione passara em frente poucas vezes em suas caminhadas de relaxamento. Era uma área cara, mas tranquila, com lojas de marca e cafés da moda. A sensação de normalidade e anonimidade a acalmava nos dias em que a comunidade bruxa sugava muito de sua paz. Não que ela não amasse aquele mundo, era sua vida, seu canto de familiaridade, porém, o mundo trouxa ainda era parte de quem ela era, suas motivações na guerra não se concentravam apenas no mundo bruxo, pois as consequências da vitória de Voldemort iriam afetar a todos ao redor do globo.


Torceu a boca em uma careta de desagrado ao lembrar que teria uma reunião com Corbusier Smith antes do encontro com seu antigo colega de casa. Estaria estressada e irritadiça, apenas esperava conseguir se controlar e ter um bom tempo para ajudá-lo. Se ele estava entrando em contato após tanto tempo, pedindo sua ajuda em relação a um assunto trouxa, ainda por cima, significava que todas as suas opções estavam esgotadas. Hermione apreciaria uma mudança de assunto, falar sobre legislações e erros técnicos, além das discriminações óbvias que ainda atormentavam o mundo bruxo, minguava qualquer energia que estivesse tendo. Sacudindo os ombros, recolocou seus óculos antes de retornar à leitura de suas cartas. Ainda possuía um longo caminho pela frente e teria que cancelar novamente o jantar com Harry e Ginny. Eles não gostariam disso, mas não poderia deixar o trabalho acumular, ela é a única responsável o suficiente para impedir que bruxos estúpidos acabassem com a paz das criaturas mágicas.


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O ar quente foi a primeira sensação que a invadiu quando adentrou o espaço, respirou fundo o aroma de café forte e especiarias, observando curiosa as luzinhas coloridas que adornavam a porta de entrada. Aquele local estava antecipando alguns dias o início do clima de Natal e aquela informação fazia seu coração esquentar. Amava o feriado, apesar das lembranças e da dor que ainda a acompanhava durante aquele período. Suspirou, desenrolando o cachecol de tricô vinho quando sentiu o calor invadir seu corpo, deslizou o olhar sobre o local, procurando por seu acompanhante. Esperava que ele estivesse logo ali, assim poderiam conversar rapidamente e chegar a um plano antes de Hermione retornar para a sua próxima reunião do dia. O encontro com Smith não fora um dos piores que ela já havia tido, porém, o tom condescendente sempre iria acompanhar o velho decrépito. Ele a tratava como um agarotinha tentando fazer o trabalho dos pais, não como uma mulher de vinte e dois anos que era sua superior e poderia colocá-lo no olho da rua em uma questão de segundos.


A frustração ressurgiu como lava sob sua pele, o que a fez fechar os olhos e respirar fundo antes de se acalmar novamente. A voz suave de uma cantora americana em uma canção que ressoava pelos alto falantes do local a ajudou, algo em relação a letra que falava sobre mudanças e momentos especiais a puxou para os acordes da guitarra e para longe de sua mente. Mal percebeu que ainda estava parada em frente a porta, quando foi empurrada para frente por um corpo pesado que esbarrou em suas costas.


- Moça, saia da frente, por favor.


Bufou irritada pelo tom nervoso, sua voz saindo áspera antes de se recuperar completamente.


- Um com licença não é prejudicial à saúde, seu mal educado.


- Eu? Mal educado? Quem está parada na por...


A voz do homem morreu assim que a viu, olhos castanhos e brilhantes a saudaram, um sorriso começando a surgir no rosto oval provocando pequenas covinhas que a deixaram tonta por um milésimo, apenas um tempo extremamente curto para que Hermione pudesse se apegar. Piscou rapidamente, sorrindo nervosa quando lembrou do que deveria estar fazendo.


- Dean?


- Hermione? — recuperado com um sorriso fácil, cruzou os braços em frente ao corpo antes de declarar — Então é você a moça mal educada.


O sorriso que apareceu foi natural, a energia de Dean não mudara, a fazendo se sentir mais confortável enquanto se afastavam da porta para dar passagem a uma mãe que segurava a mão de uma criança pequena.


- Ah, por favor, você quase deslocou o meu braço. — esticou o braço esquerdo em uma rápida flexão, exagerando uma careta de dor.


- Dramática. — ele cantarolou sorrindo, o que a fez se sentir mais leve. — Bom, já que chegamos ao mesmo tempo, me daria a honra?


Não conseguiu conter o franzir do nariz divertido pela pequena reverência dele antes de seguir em frente, com um singelo aceno de cabeça quando o viu seguila. Escolheu uma mesa mais distante da entrada, em frente a uma das janelas laterais do café, sentando-se em uma cadeira macia e confortável. Observou Dean Thomas sentar a sua frente, fazia anos que não se viam. A loucura da mudança veio para todos após a batalha, cada qual retirando seu tempo à sua maneira para lidar com seus próprios tormentos. Hermione viajou para a Austrália a fim de encontrar seus pais, um tempo que acabou por destruir o que restava da sua resistência. Dois anos de acompanhamento psicológico com uma terapeuta trouxa e um medibruxo a ajudaram a conseguir equilibrar suas emoções e os pensamentos destrutivos que a acompanhavam. Porém, foi no trabalho que encontrou um escape, o que era esperado, então se enterrara em pilhas e pilhas de responsabilidade, mal tendo tempo para encontrar seus amigos.


Não sabia como havia conseguido uma folga para Dean, uma simples hora em um café atrasaria todo o seu cronograma e provocaria outro cancelamento com seus amigos. Mas teria que ser sincera, estava precisando de uma folga naquela manhã. As poucas horas de sono que conseguiu ter, seguida pelas reuniões matinais a tinham esgotado antes mesmo do dia terminar. Piscou lentamente quando notou a atenção de Dean sobre ela, talvez estivesse divagando novamente, pois o homem estava com as sobrancelhas franzidas enquanto a encarava preocupado. Arranhou a garganta, quebrando o contato visual quando seu olhar se tornou mais intenso.


- Então, o que posso fazer por você?


Ele se remexeu sem jeito na cadeira, desviando o olhar para o cardápio em suas mãos, o qual estava sendo salvo pelo fato de ser laminado ou já teria sido destruído pelas mãos nervosas de Thomas. Ele pigarreou, não a encarando nos olhos enquanto observava o movimento do café e falava em um tom falsamente casual:


- Hum, bem, talvez seja algo engraçado...


Hermione estava acostumada aos desvios de assuntos, seus amigos eram reis nessa área, e claro que ela sempre sabia quando algo estava acontecendo. Ron e Harry eram péssimos mentirosos, ao menos para ela, e Dean estava se mostrando um mentiroso tal hábil quanto eles.


- O que você fez, Thomas?


- Nada incrivelmente errado, Bela. — o apelido veio simples, mas provocativo. A fazendo revirar os olhos para a clara tentativa dele de mudar o assunto. — Mas talvez algo não muito legal?


- Dean. — insistiu, tinha hora para voltar ao trabalho e pilhas de documentos para analisar antes da próxima reunião.


Ele parou a enrolação ao perceber sua impaciência, cruzando as mãos acima da mesa e inclinando o corpo em sua direção.


- Olha, Hermione, eu preciso de um favor enorme, um que eu nunca a pediria se tivesse escolha. — afirmou, a seriedade de sua postura o deixando visivelmente tenso. — Mas você precisa prometer que vai me escutar antes de dizer pra eu me foder.


- Eu nunca mandaria você ir... você sabe. — rebateu desconfortável, seus pais a criaram melhor do que isso. E, além do mais, xingar era proibido na casa dos Granger, a maior quantidade de xingamentos que escutou foi durante os meses em que fugiu com seus melhores amigos.


- Sei que não, bom, não com essas palavras, mas eu entenderia a essência da frase.


A defesa dele a fez querer revirar os olhos, a lembrando dos tempos de Hogwarts em que o escutava junto com seus amigos disputarem algumas partidas acaloradas de qualquer jogo que pudessem apostar; os xingamentos e azarações se tornaram constantes, principalmente após a criação da Armada de Dumbledore.


- Dean, eu preciso voltar ao trabalho. Diga logo o que você precisa que eu faça.


A hesitação dele a fez querer agarrá-lo pelos ombros e chacoalha-lo até proferir uma palavra. O tempo estava passando e a pilha em cima de sua mesa aumentando considerávelmente, ela quase podia sentir fisicamente o baque de cada carta e pergaminho ecoar em sua sala. Pergaminhos com propostas. Cartas de retorno marcadas pela raiva dos remetentes. Propostas rejeitadas. Licitações sem assinatura. Eram tantas responsabilidades e por mais que amasse ser responsável pelo departamento, às vezes queria uma pequena mudança que a desse uma folga. Porém, as próximas palavras de Dean definitivamente não era a mudança que procurava:


- Preciso que você seja a minha noiva.