Foi numa festinha da classe 1-A alguns dias depois de eles se mudarem pros dormitórios. Tava tudo indo bem — ou tão bem quanto uma festinha de merda dessa pode ir, pelo menos — quando alguém, ele não lembra quem, mas provavelmente foi a Menina Rosa, sugeriu o tal Jogo da Garrafa, e foi assim que ele terminou sentado no chão, nessa roda, revirando os olhos com tanta vontade que talvez eles acabem não voltando mais pro lugar cada vez que a garrafa para, todo mundo dá risadinhas e faz "Uhhhhs" enquanto dois idiotas sem jeito se arrastam pro armário de limpeza pra fazer sabe lá o quê por sete minutos enquanto os outros ficam tentando convencer a menina com os plugues de ir lá ouvir o que tá acontecendo. Patético.

Sem muito interesse, Katsuki acompanha o giro da garrafa com o olhar. Todo mundo na roda olha atentamente, se ele tivesse o mínimo de interesse nas pessoas ao redor dele, seria muito fácil dizer o que cada um deles, ou melhor, pra quem cada um deles quer que essa maldita garrafa aponte. Alguns são mais óbvios que outros, tipo o Pikachu, que toda hora dá uma checada na direção da menina dos plugues, como se pra ter certeza que ela ainda tá sentada no mesmo lugar, que moleque imbecil! Ou o cabeça de uva, que olha pra qualquer menina nessa roda e começa a babar, ugh... e claro, tem a Carinha de Lua, olhando pra baixo como se tivesse rezando, e até mesmo ele consegue perceber: se uma ponta parar na direção dela, ela com certeza vai querer que a outra ponta pare no merdinha do Deku. Bando de gente previsível, como caralhos o Kirishima convenceu ele a participar desse jogo besta?

— Ah, qual é, cara. É só pra enturmar! Ou vai dizer que você tá com medinho?

Ah é, foi assim... por um momento, Katsuki se pergunta quem é o mais idiota: o Kirishima por jogar tão baixo com ele ou ele mesmo por cair no tal truque. Tsk... se essa porra dessa garrafa apontar pra eles, o Kirishima vai ter sorte se sair dessa vivo.

A garrafa para lentamente, Katsuki levanta o olhar só um pouquinho quando ele percebe que, sim, a base tá apontando pra ele. E no meio de uns maliciosos "Hummmm..." vindos do Pikachu, ele vê a Menina Rosa sacudindo de leve a Cara Redonda pelos ombros.

— Não te falei que você ia ser a próxima, Ochako? — a Rosinha ri, já a Cara de Lua parece meio perdida. "Então bora lá, você e o... Bakugou? — ela tenta disfarçar a decepção, mas não consegue.

— Hehehe, Uraraka, hein? — Kirishima dá uns tapinhas no ombro dele como se isso fosse um grande feito.

— Cala boca! Aí, roda esse troço de novo! ele esbraveja,

— Por que? — A mina dos plugues intervém — A regra é clara, as pessoas pra quem a garrafa apontar têm que ir pro armário por 7 minutos.

— Uma regra besta pra um jogo besta, eu não quero saber, pode rodar de novo!

— É, eu também acho melhor começar de novo. — Uraraka finalmente se manifesta, olhando rapidamente pra ele e depois... pro Deku? Ahhh, então é assim.

— Por que, Cara de Lua? Algum problema comigo? — Katsuki se ajoelha, fazendo todo mundo na roda, inclusive ela, olhar diretamente pra ele.

— Não seria surpresa se eu tivesse, seria? — e pra surpresa dele, não só ela responde com outra pergunta como ainda usa um tom desafiador, quem essa garota pensa que é? — Eu só acho que ninguém aqui é obrigado a nada, se você não quer ir comigo e eu não quero ir com você, a gente não precisa ir, ué.

— Ah não, mas todo mundo foi de boa sem reclamar até agora. — Kirishima responde. Caralho, de que lado ele tá? — Eu e o Midoriya ficamos enfiados naquele armário escuro por sete minutos, é ou não é, cara?

— É sim, mas... — Deku coça a cabeça, sem jeito, e obviamente dispara a falar. Tsk... a última coisa que ele precisa é ter o nerd de merda concordando com ele, ou, pior ainda, defendendo ele. — Iida? Yaoyorozu? Uma ajudinha aqui?

— Ah, atividades fora do âmbito escolar não precisam do nosso respaldo, Midoriya, nós não estamos atuando como representantes de classe nesse momento. — o Quatro-olhos tira o dele da reta, claro. — Pessoalmente, eu acho que todo jogo deve ser jogado de maneira justa, com todas as regras sendo devidamente respeitadas. — ele ajusta os óculos, claramente evitando olhar na direção do Katsuki, ele também parece não querer olhar pra Uraraka. Esperto, já que parece que, se ela pudesse, ela o faria flutuar até a lua com o poder do olhar. O Quatro-olhos lança um olhar de cachorro arrependido pra ela, e ela torce a boca em desagrado, mas não diz nada.

— Eu também acho, todo mundo aqui sabe como o Jogo da Garrafa funciona, não? Quem entrou na roda já sabia o que podia acontecer e com quem podia acabar. — a Rabo de Cavalo explica pacientemente. Tsk... ela só fala isso porque a maldita garrafa parou nela e no Meio a Meio mais cedo.

— Mas... mas... mesmo assim, se eles estão desconfortáveis, eles não-

— Aí, Deku! Cuida da sua própria vida e deixa que eu falo por mim mesmo!

— Não é isso, Kacchan, eu só-

— "Só" nada, não se mete que isso é entre mim e a Uraraka!

— Ah, então agora você lembra meu nome? — ela o desafia de novo, e ele não consegue acreditar que essa menina que fala com ele com tanto atrevimento é a mesma que olha pra esse nerdzinho de merda e fica com a cara toda vermelha. Essa garota fuzilando-o com o olhar é a mesma que tava rezando pra ir pro quartinho escuro com aquele bosta há um minuto atrás. Menina petulante, agindo como se fosse um grande incômodo ficar sozinha com ele por sete minutinhos, ela já se viu no espelho, por acaso?

— Foda-se, também poderia te chamar de "medrosa", "arregona", dá praticamente na mesma. — ele cruza os braços, olhando diretamente pra ela e sorrindo ironicamente.

— Como é que é?

— Você que tá com medinho de ficar no escuro comigo.

— Você que exigiu que girassem a merda da garrafa de novo! — ela devolve, com bem mais raiva e muito menos deboche do que antes. Ah, assim é bem melhor. — Se alguém aqui tá com medo, é você, Bakugou!

— Eu não tenho medo de nada, vai te catar, Cara de Lua!

— Vai você, moleque!

— Hã, gente... ainda não foi minha vez, se o Bakugo não quer mesmo ir, eu me volun- — Mineta levanta a mão.

— CALA A BOCA! — Katsuki e Uraraka berram ao mesmo tempo. Por um segundo, ele se pergunta porque ninguém interveio ainda, e a resposta é simples: metade da roda parece apavorada, já a outra só falta pegar pipoca de tão entretida. Até parece que ele vai ficar aqui continuando esse showzinho, é que nem ele falou pro Deku: isso é entre ele e ela.

Ambos se levantam, os olhares cruzando como se fossem balas disparadas. Ele enfia as mãos no bolso e vai atrás dela quando ela se vira e praticamente marcha até o armário de limpeza.

— Acho bom vocês marcarem a porra desse tempo direito! — ele grita antes de entrar no armário e bater a porta com tanta força que os produtos de limpeza balançam nas prateleiras.

E então, é só silêncio. Katsuki pisca até sua visão se acostumar com a falta repentina de luz. Hum, o Kirishima exagerou, do jeito que ele falou, deu a entender que mal cabem duas pessoas aqui sem que seja desconfortavelmente necessário ficarem coladas, respirando literalmente o mesmo ar. Tem espaço suficiente pra ele, pra ela e pra uma certa distância entre os dois, mas não o suficiente que ele não consiga ouvir a respiração acelerada dela. De nervosismo? Pfff, óbvio que não. Uraraka tá claramente bufando de raiva, tanto quanto ele.

— E agora?

— Agora a gente espera os sete minutos, isso é... se você aguentar, né?

— Eu? Eu tô tranquila, você que quis girar a garrafa de novo.

— Mas você concordou, não concordou?

— Só porque você começou a dar chilique. Se é tão horrível ficar sete minutinhos sozinho comigo, você não precisava nem ter vindo. — É impressão ou ela soou... magoada?

— Digo o mesmo. Não é culpa minha se você não saiu com o Deku. É impressão ou ele soou magoado?

— D-do que você tá falando agora? Nada... nada a ver! — mesmo no escuro, ele consegue imaginá-la descruzando os braços e arregalando os olhos, a cara redonda dela parecendo um tomate de tão vermelha. Ele daria de um tudo pra ver isso. — Não sei nem porque você tava jogando, pra começo de conversa.

— Isso não é da sua conta. — ele responde não pra contrariá-la, mas é porque não tem outra resposta mesmo. Nem ele sabe porque topou jogar, o Kirishima lhe desafiou e ele quis provar que não tinha medo, simples assim, mas ela não precisa saber disso.

— Enfim... — ela suspira, parece que tá se acalmando.

— Enfim? — ele pergunta. Uma pena ela ter se acalmado, se eles continuassem brigando, talvez o tempo passaria mais rápido. Eles não têm assunto, nada em comum, nada que impeça esses sete minutos de passarem devagar até demais.

— Nada. Só podia ser pior.

— Podia ser o Cabeça de Uva.

— É. — ela concorda. — Enfim... já que a gente tá aqui, vamos conversar pra matar o tempo, como é que... vai sua vida?

— A gente não precisa conversar se-

— A minha tá bem legal, treinando muito, mas é bem divertido. — ela o interrompe, deixando bem claro que se eles vão mesmo até o fim com isso, vai ser nos termos dela. Garota teimosa da porra. — E você? Como vai sua técnica secreta?

— Bem pra caralho, não é óbvio? — ele consegue imaginá-la revirando os olhos, percebendo o tom sarcástico dele. Ué, ela também viu quando uma pedra criada pela explosão dele quase acertou o All Might. — Você já tem alguma?

— Mais ou menos, eu ainda tô tentando ficar o máximo de tempo possível no ar sem passar mal, aí eu vou pensar em alguma coisa quando eu tiver chegado lá, né?

— Não parece muito um plano, mas você que sabe. — ele dá de ombros — Pelo menos você sabe improvisar... — murmurando, ele torce pra que ela não tenha ouvido. Ou, se ela ouviu, pra que ela não entenda que ele tá falando da luta deles no festival. Foi um plano bem executado, mesmo que ele duvide que ela tenha passado muito tempo pensando em como fazer. Foi difícil de acreditar que tenha sido ideia totalmente dela no começo, uma coisa tão arriscada parece mais coisa do Deku, qual não foi o choque quando o próprio Deku contou pra ele que ela sozinha pensou em derrubar praticamente uma chuva de meteoros nele. — Só vê se não faz nada idiota. Você precisa chegar viva pro próximo Festival pra eu te vencer de novo.

— Ah tá. Eu cheguei bem perto, ano que vem eu venço, você vai ver! — o tom dela é zero ameaçador, mas ele sabe que pode levá-la a sério. — E relaxa, eu já tô muito melhor, eu consigo me segurar no ar por um bom tempo, quer ver só?

Um pequeno raio de luz rosa ilumina o quartinho por um segundo e quando ele ouve a voz dela de novo, Katsuki percebe que está vindo de cima.

— Pfff, grande coisa!

— Ah é? E que tal levitar não só eu, como outra pessoa também?— antes que ele consiga protestar, Katsuki sente uma mão tocando sua cabeça, e de repente seus pés se desconectam do chão. — A Tsuyu viu, eu consigo manter por quase meia hora!

— Tá, tá, já entendi. Desculpa por duvidar de você bla bla bla, agora me põe no chão. — ele cruza os braços, irritado.

— Eu só não te desculpo porque sei que você não duvida de mim. — ela responde, e claro que ela tá falando da luta deles. às vezes, um flash passa na memória dele, ela agradecendo por ser levada a sério por ele, ela desmaiando, ela sorrindo com os olhos inchados algumas horas depois... faz sentido ela ser tão atrevida na frente dele, ela não tem medo dele, nem um pouquinho. Menina estranha, mas talvez não tão diferente dele, já que aparentemente ela também se sentiu desafiada a entrar no armário com ele. E diante de um desafio, só existe uma opção: encarar. — Enfim...

— Enfim? ele pergunta de novo. Claramente, é a única coisa que ela consegue falar quando falta assunto.

— Sete minutos comigo não é tão ruim, é, Bakugou?

— Dá pro gasto. Eu também não sou ruim, sou? Ou você ainda queria que fosse o Deku aqui?

Tudo acontece em segundos, ele escuta ela gemer baixinho e falar "Liberar" às pressas e os dois desabam no chão. Quer dizer, ele desaba, ela ainda tem uma queda amortecida. Por ele.

— Que porra é essa, Uraraka?!

— Eu... que te pergunto, eu já... disse que não tem nada a ver... — ela respira fundo, Katsuki consegue sentir ela pondo a mão na barriga. Hum... então quer dizer que ela tem um ponto bem fraco, um gatilho que a faz ficar enjoada muito mais rápido do que o normal... patético! E pensar que ele a vê como alguém respeitável na maioria das vezes... obviamente não agora, não tem nada de respeitável nela se segurando pra não gorfar e... sentada em cima dele. Peraí, ela tá mesmo sentada em cima dele?

No escuro, com ela tão perto, algumas coisas são mais difíceis de ignorar que outras, como o fato de ela estar se apoiando nos ombros dele enquanto o estômago dela se acalma, ou o fato de que o cheiro do shampoo dela não é nem de longe ruim, ou mesmo o fato de que pra alguém que banca a durona perto dele, ela é em geral, extremamente macia. Quando ela se afasta, ele se apoia nos cotovelos e senta.

— Já tá melhor?

— Já, só um segundo, eu já... vou sair de cima de você. — não foi por isso que ele perguntou, e é estranho se dar conta disso. — Desculpe, Bakugou. Eu te machuquei?

— Ha! Até parece! Você vai precisar de muito mais que um tombinho desses pra me derrubar, Carinha de Lua.

— Anotado. — Ela ri com gosto enquanto ele se permite um leve sorriso, não é como se ela conseguisse ver mesmo. E mais algumas coisas ficam muito difíceis de ignorar quando ela se apoia nele pra levantar, como por exemplo a respiração dela bem perto da bochecha dele, o cabelo dela fazendo cócegas em sua testa.

— Peraí. — ele murmura.

— Que foi?

Ela tem um cheiro muito bom, ela é muito macia, Katsuki segura o braço dela levemente pra impedí-la de levantar. Cara... isso tudo é bem bizarro, porque se algum dia ele se incomodasse em fazer uma lista de pessoas com quem seria uma merda dividir um quarto escuro, ela não estaria na lista. Então, no fim, ele teve uma puta de uma sorte.

— Bakugou...? — ela sussurra, e só aí ele se dá conta do quanto ela tá perto. Tão perto quanto ele achou que eles teriam que ficar, o armário não é tão pequeno, e ainda assim ele tá respirando basicamente o ar que sai da boca dela.

— TEMPO ESGOTADO, MOÇADA! — os dois pulam de surpresa quando um clarão invade o armário e a cabeleira espetada do Kirishima desponta por entre a porta. O sorriso exagerado dele rapidamente é substituído por olhos arregalados quando ele parece entender a cena diante dele. — Hum... e a gente aqui preocupado depois de ter ouvido aquele barulhão, achando que vocês tavam se matando! Só se for de paixão, né?

— Vai se foder!

— Vocês querem mais um minutinhos? Eu posso dar uma enrolada- — Uraraka se levanta e sai correndo, e ele consegue ver o rosto dela por um segundo, tão vermelho quanto o cabelo desse idiota. — Tudo certo aí, cara?

— Por que não estaria? — ele esbraveja enquanto se levanta, enfiando as mãos nos bolsos da calça. — Você cronometrou essa merda direito?

— Opa! Sete minutinhos contados!- ele responde com um sorriso, mostrando o cronômetro do celular. Sete minutos, exatamente como ele falou.

Que merda, sete minutos passam rápido até demais.