O tempo nao para

1 As lições de Alice


Notas iniciais
Triste e sozinha, Mariana refletia sobre a sessão de terapia. O encontro com Mário foi inesperado, mas oportuno. A coragem veio daquele drink. Não pela bebida, mas pela mensagem que seu livro homônimo trazia.

Nana estava confusa com a confissão que fez à terapeuta na manhã daquele dia. Passou o dia todo sem conseguir trabalhar direito, tentando resolver apenas questões financeiras para o lançamento do livro da Natasha. Pouco conseguia se concentrar e ficava brava por ter que começar várias vezes a mesma planilha porque não conseguia se concentrar. Admitir que gostava de Mário não estava nos seus planos e tudo que fugia do seu controle a deixava nervosa. Já era tarde quando finalmente terminou a planilha de custos do evento de lançamento. Estava muito confusa pra voltar pra casa e resolveu parar pra jantar na companhia apenas dos seus pensamentos.

Jeremias a atendeu com a simpatia que lhe era peculiar.

— Boa noite dona Mariana. O que vai querer hoje?

— Boa noite Jeremias. Primeiro que você não me chame de dona Mariana. Pode me chamar só de Mariana, ou de Nana que é como todo mundo me chama. Segundo, eu vou querer um “Alice” e o cardápio, por favor.

— Ótima escolha! É melhor um drink sem álcool mesmo para quem está grávida.

— Você sabe que eu estou grávida?

— Ah, me desculpa dona... quer dizer, Mariana. É que o pessoal da editora vem aqui todo dia e a gente acaba ficando sabendo. Aqui está o cardápio. – Jeremias se retirou muito sem graça.

Poucos minutos depois ele voltou com o drink servindo-o para Nana.

— Aqui está o seu Alice! Aproveite!

Pegou o drink e olhando pra ele disse em voz não muito alta:

— “Quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era, mas acho que já mudei muitas vezes desde então”!

Mário que viu a cena não entendendo nada. E a interrompeu retirando o drink das mãos dela:

— Falando sozinha Nana? Depois eu que sou maluco! Me da isso aqui! Você não pode beber, vai fazer mal para o meu filho!

Mariana, com raiva toma o drink de volta.

— É um “Alice”!

— Ah, me desculpa, eu achei que era um drink com álcool. Podia fazer mal para o meu filho. Por isso que você estava recitando Alice no País das Maravilhas?

— Não é da sua conta! Mário não me irrita, esse filho não é seu!

— Você não tem certeza disso!

— Meu filho não é de um maluco.

— Já que você gosta de Alice, lembre-se do próprio Chapeleiro Maluco: “Vou te contar um segredo: as melhores pessoas são loucas”!

— Ah Mário, me poupe!

Mário fica triste.

— Me desculpa, eu não queria te magoar.

— Ah, tá tudo bem! Eu já estou acostumado. E também já estou de saída. Não vou mais te incomodar.

— Você tá sozinho?

— Tô sim. A Silvana foi numa pré-estreia.

— Então senta aqui do meu lado, me faz companhia.

Ele se sentou ao lado dela. Os dois ficaram um pouco sem graça depois de mais um atrito. Tinham sido muitos nas últimas semanas. Ele tentou puxar assunto.

— Eu pensei que você quisesse ficar sozinha.

— Eu queria, até você chegar.

— Oi?

— É, eu tava pensando em você.

— Pensando em mim? Eu não acredito! Pensando em quê? Vai me demitir?

— Não seu bobo. Na verdade eu tava pensando na minha sessão de terapia de hoje cedo.

— Hum, e o quê eu tenho a ver com a sua sessão de terapia?

— Eu falei de você pra minha terapeuta.

— Falou de mim? E o que você disse?

— Eu disse que doeu ver você recitando pra Silvana um poema que você fez pra mim.

— Eu posso tirar esse vídeo do ar se você quiser, mas se bem que se eu tiver que tirar todos os poemas que eu fiz pra você, não sobra quase nada.

— Não é só isso...

— Não?

— Eu disse também que eu tive que fingir que não gostava de você pra tentar salvar o meu casamento.

— Mas agora você está separada.

— É por isso que eu não preciso mais fingir...

Num rompante Mariana se aproximou. Os olhos se fecharam, já sabia o caminho e a direção da boca dele, mas ela não conseguiu chegar. Ele se afastou. Ela abriu os olhos, totalmente sem jeito e desconfortável com a situação.

— Nana, calma aí! O que você tá fazendo?

— Me desculpa, eu pensei que você quisesse...

— Mas eu quero! Eu sempre quis! Eu não quero é ser refém do seu estado de espírito e do seu humor, um dia você me quer, no outro você me esculacha, o meu coração não é de ferro Mariana.

— Então, é por causa da Silvana?

— É por ela também, mas principalmente por mim! Nana, eu corri atrás de você a minha vida inteira, bastava você estalar os dedos e eu estava lá ao seu dispor. Só que você me mandou tantas vezes embora que um dia eu fui. Desculpa...

— Não precisa me pedir desculpa, eu que tenho que me desculpar. Você sempre esteve ao meu lado e eu me acostumei a ter você por perto. Agora q você não está eu estou me sentindo sozinha e triste vendo que o seu amor por mim acabou.

— Ele não acabou, ele adormeceu. Cansou de tanto levar paulada e fugiu. Tá la num cantinho do meu coração, escondido, amuado... eu tive que fazer isso pra sobreviver Nana. É insuportável a dor de amar e não ser correspondido.

— Eu imagino... quer dizer... eu estou sentindo exatamente isso agora, mas, você tem toda razão. Eu sempre te fiz sofrer, não é justo com você. Pra mim o importante foi entender que eu gosto mesmo de você.

Eles se olharam.

— Pena que eu percebi isso tarde demais, né?

— É...

Ela se despediu com um beijo no rosto de Mário. Uma lágrima teimosa saltou dos olhos dele.

— Tchau!

— Tchau, até amanhã.

Ela também chorou, mas não na frente dele.

Ele pegou um guardanapo e rascunhou mais uma criação, mais uma vez inspirado nela:

“Triste é ver o amor escapar

Nos abraços que não chegaram

Nos braços que não mais se entrelaçaram

Nos lábios que ficaram por beijar.

Triste é ver o amor se perder

Nas mãos abandonadas

Nas palavras jogadas

Da verdade que se fala, mesmo sem querer.

E nos caminhos antes cruzados, agora separados por um estúpido momento de sensatez

É que mora a minha esperança, de um dia, quem sabe, ser seu outra vez!”

Ele olhou para o guardanapo e se lembrou dos momentos que teve com Nana. Eram tantos, mas o que mais gostava era da época em que ela era a Mariana Mole dele. Depois se tornou uma executiva bem sucedida, muito diferente daquela garota que ele conheceu, mas ele, como sempre a admirou.

Ficou triste com as lembranças, sentia-se derrotado. Perdeu o seu amor para a vida, ou para o tempo. Ela chegou quando ele já não estava mais ali pronto para recebe-la, como sempre esteve.

Pagou a conta e foi para a porta do bar pegar um táxi, não se dava muito bem com esses aplicativos de telefone. Uma vez tentou pedir um carro desses de aplicativo e ficou meia hora esperando, até que descobriu com a ajuda do estagiário que o motorista já tinha cancelado a corrida há muito tempo e que teria que fazer o processo todo de novo! Depois daí desistiu! Preferia o modo tradicional de esticar o braço mesmo.

Entrou no seu apartamento com o guardanapo na mão, certificado da sua derrota, e, ficou ali, largado no sofá. Até ouvir a campainha. Era Silvana, radiante como sempre!

— Sil, não era para você estar na pré-estreia de Carceireiros? O que você está fazendo aqui?

— Corri pra cá antes que eu caísse em tentação.

— Oi?

— Ah, você sabe, festa, muita gente disponível, Kaysar Dadour estava lá disponível...

— É o que Silvana?

— Brincadeira Paixão! Eu só queria ver se você tinha um pouquinho de ciúmes de mim!

— Ah, tá! Eu... eu confio em você!

— É, mas não devia! – balbuciou ela.

— Quê?

— Nada Paixão... eu só fiquei triste porque eu queria que você estivesse lá comigo...

— Ah Sil, eu não estava muito bem.

— Então eu tô aqui para te contar uma novidade MA RA VI LHO SA!

— Uma novidade? Então conta!

— Eu acabei de receber um convite para estrelar o próximo filme do José Eduardo Belmonte!

— O diretor te convidou para fazer o próximo filme dele?

— Exatamente! Eu serei a protagonista, é claro, porque se não for pra ser a principal eu nem estreio no cinema!

Um pouco desanimado pelos últimos acontecimentos, Mário se esforçou:

— Que legal Sil! Parabéns! Você merece!

— Nossa Paixão! Achei que você fosse ficar mais feliz por mim, mas você está com uma cara de enterro. Olha não fica assim, se quando eu voltar você ainda não tiver casado com a Nana a gente fica junto de novo e faz um “remember”!

— Como assim quando você voltar? Você tá indo embora pra onde?

— Então Paixão, o novo filme é se passa num Safári na África é lá que a minha personagem fica perdida por anos e tem que aprender a sobreviver na mata. Uma coisa meio Jane e Tarzan, sabe?

— Sei, e quem vai ser o Tarzan?

— O Kaysar!

— Ah, entendi! Então quer dizer que você está me deixando pra ficar com o Tarzan?

— Paixão, assim você me ofende! Eu estou indo atrás do meu grande amor! O cinema! Eu sempre quis fazer cinema, eu me tornei atriz pra fazer cinema, caí na televisão por um acaso, e como há grande preconceito com ator de televisão eu fui ficando e fazendo o que aparecia e fui deixando o meu sonho de lado.

— Mas e eu? Eu achei que você gostasse de mim.

— Eu gosto de você Paixão, você foi a melhor coisa que me aconteceu. Foi como um sonho também. Você me ensinou a ter um amigo de verdade e eu nunca vou esquecer disso. Mas uma hora a gente tem que acordar e enfrentar a realidade. E, não podemos esquecer que nós sempre tivemos outros amores, lembra? Você ama a Nana, e eu me amo, amo os meus sonhos, as minhas conquistas, e essa é mais uma que vai chegar! Eu não posso perder essa oportunidade!

— Claro que não Sil, é claro que você tem que ir! É o seu sonho! Desculpa a minha insensibilidade, eu não estou muito legal hoje.

— Isso eu já percebi desde que eu cheguei. O que aconteceu? O que a Nana fez pra você?

— Não foi ela...

Silvana olha incrédula pra ele.

— É... foi ela. É que... ela falou que gosta de mim!

— Ahhhh, até que enfim né! Finalmente essa Mariana acordou pra vida!

— É, mas eu a dispensei!

— Você o quê? Dispensou a Nana? Por quê? Ficou maluco?

— Ah, Sil, primeiro porque a gente tá junto. Segundo porque eu cansei de ser o cachorrinho dela. Ela tá só confusa, porque tá grávida, porque tá se separando, eu sou só o brinquedinho que ela lembra de vez em quando que tem. Eu cansei!

— Ai Paixão, não fala assim que eu vou começar a chorar aqui. Mulher às vezes tem dessas coisas, ainda mais uma mulher como a Nana que tem que fingir o tempo todo que é a Mulher Maravilha! Mas, pode ter certeza que se ela teve coragem de confessar que gosta de você é porque é sincero!

— É só que agora já era. Só ficaram as lembranças e os poemas que eu fiz pra ela.

— Aliás, o que é isso na sua mão?

— O último que eu fiz, na mesa do bar quando ela foi embora.

— Você quer que eu faça uma campanha na internet? A gente sobe a #VoltaMariana ! Vai ser um arraso, igual a #MárioGratidão.

— Não Silvana! Sem essa de campanha na internet! Me deixa aqui sofrendo no meu cantinho, não precisa expor para o Brasil. Além disso, a Nana me mata se você expuser a nossa história na internet.

Silvana não parecia prestar mais tanta atenção para o que Mário estava falando sozinha com o seu celular.

— Mário e Mariana, ou Mariana e Mário! Ahhhh, os nomes de vocês parecem de dupla sertaneja! Não combinam...

— Do quê você tá falando Silvana?

— Do nome do “ship” de você! A internet só ajuda quando shipa, entendeu?

— Não, não entendi nada! Só sei que a Nana nunca mais vai querer nada comigo.

— Já sei! “Nanário”!!!

— Nanário??? Que nome estranho!

— É. Significa Nana mais Mário! Ahhh, ficou fofo! Eu adorei! E o importante é a internet comprar a ideia!

— Sil, eu já pedi pra você não colocar nada dessa história na internet.

— Ah, quem foi que me ensinou que “A única forma de chegar ao impossível é acreditar que é possível”?

— É, foi o Lewis Carroll, autor de “Alice no país das maravilhas”.

— Resposta errada! Foi você Paixão! Acredita no poder da internet! Vai dar certo!

— É pode ser, mas nesse caso, conhecendo a Nana como eu conheço, eu prefiro que você não faça nada. Deixa as coisas se acalmarem, se ela realmente gostar de mim como ela disse, quem sabe a gente se reencontra.

— Tá bom Paixão, tudo bem. Você que sabe. Mas então, vamos pelo menos gravar esse novo poema? Quem sabe a Nana vê e entende que é pra ela?

— Ela me disse que anda vendo o seu canal mesmo.

— Todo mundo vê o meu canal querido! Silvana Nolasco é sucesso em todas as mídias! Então vai, vamos lá dar uma forcinha para o destino.

— Eu não sei, o poema é triste. É de quando se perde um grande amor.

— Paixão, se tem uma coisa que a Nana não é, é burra. Ela vai saber que é pra ela. Vai, deixa eu dar uma forcinha pra ver se finalmente vocês ficam juntos!

Convencido por Silvana, Mário grava o poema olhando para o celular de Silvana imaginando Nana em sua frente.

Sem que Mário soubesse, na legenda do vídeo ela escreve:

“Amados seguidores, preciso de ajuda. Meu amigo Mário (aquele da #MárioGratidão) está sofrendo pelo amor da Nana. Vamos levantar a #VoltaNanario. Me ajudem a ajudar um amigo! Uma causa de amor é sempre uma boa causa! Conto com vocês!”

Notas finais
Escrevo fanfic inspirada no desfecho que eu gostaria de ver na história original. Espero que tenham gostado. Se você passou por aqui, deixa um recadinho pra eu saber a sua opinião. Obrigada, e até a próxima! :-)