O taxista

1 Capítulo 1: Branca de Neve


Oi. Meu nome é Travis Durden. Mas os meus amigos me chamavam de “Driver”. Digo chamavam porquê eles já estão mortos. Ou pelo menos a maior parte deles. Eu já não ligo. Eu estou morto também. Morri no meu aniversário de 27 anos. Havia acabado de ser dispensado do corpo de fuzileiros. Estava me sentindo um lixo, não tinha nada nem ninguém que pudesse me ajudar a arrumar um bico. Fiz alguns testes pra ser ator mas o máximo que consegui foi ser figurante em uma peça local. Me pagaram uns trocados, o suficiente pra encher a cara de cerveja, porém pouco demais pra pagar o aluguel atrasado. A vida estava uma droga. Foi quando apareceu o tio Ozzy. Ele era um açougueiro tão perdido quanto eu. Morei com ele quatro anos após o assassinato dos meus pais. Meu irmão Michael foi acusado. A ultima vez que vi o Michael foi em um show de uma banda de metal que estava passando pela cidade. Estávamos nos divertindo tanto que parece impossível imagina-lo como um psicopata.

A relação com o Velho John, nosso pai, nunca foi das melhores. Também pudera, o velho parecia não deixar de lado o fedor de álcool. Minha mãe era quem na maioria das vezes cuidava de tudo na casa. Não que justifique, mas seria compreensível se o único cadáver na casa fosse o do velho John. Mas o da mãe... Aquilo foi uma covardia. Lembro que sempre fui um pouco frio pra essas coisas. Mas diversas vezes durante os sete anos de vida que tive após a morte dos velhos, me peguei chorando sem motivo diversas vezes. Pra ser sincero, nem o Velho John merecia aquele fim. Foi horrendo. Parecia um filme de horror dos mais sádicos. Acho que se tivesse visto aquilo teria ficado tão louco quanto a Molly. Molly minha irmã mais nova. Se existia alguém naquela família que não merecia ver aquilo era a Molly. Molly sempre foi a princesa daquele reino morto. Ela gostava tanto da história da branca de neve que passei a chama-la assim. Era a única que tinha boa relação com todos, até com o Velho John. Tinha só 15 anos quando os velhos morreram.

A última vez que ouvi falar dela havia sido internada no Hospital Psiquiátrico da cidade. Meu tio Ozzy tem acompanhado sua recuperação durante os anos. Michael sumiu após ter sido acusado. Mas me deixou um bilhete estranho. Dizendo “obrigado Remo. 41N-12E”. Nunca entendi. A não ser pelo “Remo”, o tio Ozzy nos chamava de Rômulo e Remo e dizia que a mãe era uma loba, no sentido de proteger os filhos quando o Velho John nos importunava. Nunca creditei que o Michael teria feito aquilo. Mas também nunca o ajudaria fugir sem ter o mínimo de respostas. E aí você me pergunta: onde eu estava enquanto tudo isso acontecia? Eu estava no cinema. Assistindo filme pornô. Naquela época existia um cinema na cidade, num das ruas mais sujas. Lá eram exibidos este tipo de filme. Eu curtia. Me ajudava a passar o tempo na madruga. Sempre tive insônia. Mas não era como se estivesse sempre acordado. Diversas vezes me pegava dormindo sem quê nem pra quê. Mas nunca controlei bem. Aquele dia fui abordado por Estephan, o espanhol que cuidava do cine. Pra variar eu estava dormindo. Ele era amigo do tio Ozzy. Tio Ozzy era uma espécie de irmão mais velho, como o Michael, só que mais ingênuo que a Molly. Ele era o irmão mais velho de minha mãe.

Saí de lá em direção a casa do tio Ozzy e encontrei a Molly suja de sangue. Ozzy me disse que ela havia gritado tanto que podia se escutar seus gritos do outro lado da cidade. Mas desde que havia entrado no quarto de visitas do tio Ozzy, não havia dito mais nada. Parecia que havia perdido a alma. Perguntei a ele se ela disse alguma coisa. Ele falou que ela repetia a mesma coisa “Não Michael. Pegue a arma.”. E assim parece ter ficado. Tentei conversar com ela várias vezes. Sem sucesso. A alma que Molly parecia ter perdido me fez perder o sentido de algumas coisas também.

Tentei seguir a vida como fuzileiro naval. Não deu muito certo pra mim. Quando fui dispensado estava sem rumo e sem destino. Pensei em visitar o tio Ozzy, mas não queria ressuscitar velhos fantasmas. Daí encontrei com o Charlie. Ele era um malandro das ruas e tinha sempre alguma coisa rolando por debaixo de seu chapéu vermelho. Eu estava precisando de grana. Devendo quase 3 meses de aluguel. Charlie me disse que seria algo seguro, algo certo. Teríamos de invadir uma mansão e roubar uma artefato. Algum colecionador maluco queria um quadro, de qualquer jeito. Charlie conhecia um dos empregados da casa. Um mexicano. Com o dinheiro pago pelo serviço, o xicano pretendia voltar pro México e comprar uma mansão tão boa quanto aos de seus antigos patrões. Tínhamos a van, tínhamos armas, tínhamos máscaras. Tínhamos necessidades, acima de tudo. Eu não estava feliz com o que ia fazer. Mas era uma função simples. Só vigiar a rua e buzinar caso alguém chegasse.

Naquela noite o tio Ozzy chega em casa e pra minha surpresa diz que a Molly queria falar comigo. Molly não falava a anos. Tinha de ver isso pois ver a Molly recuperar a alma era como me fazer recuperar a esperança também. Cheguei lá ansioso e a vi sentada em uma cadeira enferrujada, sala toda branca, tão branca como suas vestes e sua pele. Ela me olhou e por alguns segundos senti que ela me reconhecia. Mas tão breve quanto foi aquele olhar foi também quebrado o silêncio. Ela gritou. Ela gritou muito. Ela gritou com muita potência e pulou sobre mim tentando me morder. Por pouco não conseguiu. Os enfermeiros chegaram perguntando o que eu havia feito. Ela me olhou de forma diferente e disse: “Eles voltaram. Eles voltaram pra pegar você. Você vai morrer. Hoje.” Tio Ozzy estava embasbacado. E eu estava tenso. Muito tenso. Voltei pra casa perturbado e fiz o tio Ozzy me prometer que nunca mais me procuraria. Naquela noite segui com o plano. Usei uma máscara de coelho. Uma jaqueta verde, calças jeans e uma 38 velha que haviam me dado. Entrei na van. Não conhecia os outros caras. Durante aquele percurso poucas frases foram ditas. Charlie não participava, ele só fornecia as coisas, van, armas, mascaras. Mas queria a parte dele depois.

Durante o caminho um dos caras falaram que confeccionava identidade falsa e que se alguém estivesse interessado era só procurar o seu primo Juan. Gravei aquele nome. Ele disse também que quando tudo acabasse teria um táxi lhe esperando lá fora. Que ele era taxista, mas que estava disposto a vender o táxi e com o dinheiro da venda e a grana pelo roubo do quadro ele iria deixar o negócio de identidade falsa com seu primo e se mudaria para França com a família. Um outro homem encapuzado perguntou se ele também tinha filhos e ele lhe mostrou a foto de sua família. A foto passou pela mão de todos os presentes. Burrice. Eu pensei. Mas também olhei a foto. Uma foto em família. Conhecia aquela casa. Morava perto de mim.

Chegamos na mansão e o Xicano que deveria nos abrir o portão não apareceu. Esperamos alguns minutos e um dos caras resolveu checar o portão. Estava aberto. Minha função não envolvia entrar. Lá fiquei. Lembra que sem quê nem pra quê eu durmo. Pois é. Eram 1:00 da madruga quando chequei o horário no relógio e fiquei observando os caras entrarem. Quando acordei eram 2:01. Desesperei-me. Chequei a rua. Tudo em silêncio. Tentei chamar os caras pelas mascaras que usavam. Havia uma mascara de lobo e então chamei “Lobo..”. Mas nada. Resolvi entrar. E me deparei com uma cena muito parecida com as fotos dos meus velhos mortos. Gelei. Todos os caras estavam estraçalhados. A visibilidade era pouca, mas uma lâmpada quebrada me dava o mínimo de visibilidade. Ela piscava. E isso foi o bastante pra me fazer ir embora. Quando dei meia volta ele se lançou aos meus braços. Era o taxista frustrado. Estava sangrando muito na altura do peito. Ele me disse, “Fuja. Ela vai te matar...” Tentei carrega-lo mas o vi disparar na direção contrária. Virei-me e surpreendi-me ao notar uma garota no alto de seus 12 anos. Branca, olhos claros, Chapéu vermelho, short curtíssimo também vermelho e blusa justa e branca. Seus lábios eram rubros, tal como o sangue que escorria por eles. Ela havia sido atingida. Larguei o taxista e o desarmei. Lembro-me de ter gritado “ Ela é só uma criança!” Me fazia lembrar a Molly.

Quando me virei de volta para socorrê-la ela pulou sobre mim tirou a bala que estava em seu corpo e com um peteleco na bala acertou o taxista. A bala cravou em sua cabeça. Ele caiu estatelado. Ela olhou pra mim e disse. “Esse quadro é meu e de mais ninguém. Mas você me protegeu então serei boa com você como nunca forma comigo.” Vai me deixar viver? – perguntei. Não. Eu vou te matar. Mas você continuará existindo. E assim aconteceu. Fui abraçado aquela noite. E durante algum tempo ela me ensinou algumas coisas. Ainda continuava sem alma, porém agora também não tinha vida. Lembro-me do taxista que tentou em ajudar e indiretamente acabei matando. Peguei a identidade dele. Não uma falsa como o seu primo Juan fazia. Mas o que ele era. Me tornei taxista. A garota não me deu o quadro, quadro que nunca cheguei a ver mais do que o olhar da foto que nele estava pintado. Ela o cobriu tão rápido quanto me entregou um punhado de diamantes. Disse que não a faria falta. Comprei o táxi de Denzel (nome do taxista) e entreguei mais uma boa quantia em dinheiro na mão de sua filha. Fiquei com o resto caso precisasse. Molly havia acertado. Eu morreria aquela noite, mas de certa forma a Molly me ajudou também. Pois se não tivesse me lembrado dela teria deixado Denzel matar a guria. Que não morreria e me mataria. A propósito não lhes disse o nome dela. Isso é porque ela nunca me disse. A conheço apenas pelo apelido como é conhecida. Que é: Branca de Neve.

Notas finais
A história de Travis continua na próxima semana. Até lá!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.