O sucessor
20 Considerações acerca de situações conflituosas
Notas iniciais
Hinata arqueou as sobrancelhas e entreabriu os lábios. Logo depois, franziu o sobrecenho.
As palavras de Naruto ainda chegavam até ela.
— Condições? — indagou-o.
— Hai! — respondeu ele, em um resmungo afirmativo.
Hinata mordeu o lábio inferior, quando concordou com a cabeça.
— Acho que é mais do que justo — ela desviou o olhar, ponderando.
Naruto sorriu fracamente.
— Não é nada com o que você deva se preocupar. Não é como se eu fosse começar a exigir coisas assim do nada. Eu... há apenas duas coisas que quero pedir agora — disse. Ele vincou o sobrecenho por um instante e depois atenuou a expressão. Ponderou por um instante e, com o olhar firme, falou — Quero que o otou-san e o Konohamaru vão junto comigo. Acho que o otou-san tem que estar lá também... ele precisa estar lá quando eu for ouvir Kushina-san... e o Konohamaru... ele é meu irmão, eu não quero deixar ele aqui sozinho. E... a outra condição é que não quero ir como o filho da imperatriz ou algo do tipo. Quero ir como o “Naruto”, apenas... “Naruto”. Ainda é difícil aceitar isso, então... não quero ir como o herdeiro da imperatriz... Quero ver como são as coisas, ouvir o que ela tem a dizer e só aí decidir o que vou fazer.
O tom de Naruto soou meio distante ao final, vago.
No entanto, Hinata o compreendeu. Naruto ainda não estava inteiramente certo sobre o que faria. Ele possuía curiosidade e interesse em conhecer e saber sobre a mãe, mas as circunstâncias tornavam difíceis as suas decisões. A jovem Hyūga podia imaginar que, para ele, qualquer atitude agora pareceria pesar infinitamente mais do que antes.
Ela espremeu os lábios antes de dizer:
— Você não deseja ser anunciado. Quer ir sem firmar o compromisso de ficar lá.
— Hai — reafirmou.
Fizeram silêncio por um momento.
— Eu vou tentar conversar com o otou-sama primeiro, então — murmurou Hinata. E, vendo-o confuso, ela explicou — Vou pedir que ele instrua como devemos fazer para ir até lá assim. E vou dizer a Kushina-sama que iremos até Tóquio.
— Hm! — Naruto resmungou. Ele se remexeu fracamente, trocando o peso de uma perna para a outra de maneira moderada e bagunçou os cabelos com as mãos. Não entendia nada sobre aquilo, assim resolveu apenas concordar com ela.
Hinata se remexeu um pouco ao enlaçar um braço no outro, com um tanto de constrangimento repentino.
— Hmm, acho que eu vou indo então. Você vai continuar aqui no dojô por agora?
Naruto franziu o cenho e cruzou os braços.
Suspirou.
Os olhos dele foram para o nada, sem focar em um ponto determinado.
Ele entrou num estado pensante.
A hesitação, estar perdido em seus próprios pensamentos. A insegurança sobre o próximo passo, sobre o que fazer a seguir.
Vendo-o daquela forma, Hinata lembrou-se de si mesma e do conselho de Shino momentos antes.
Respirou fundo, antes de desviar os olhos e falar.
— Acho que você devia sair e conversar com ele... O Minato-san...
O tom dela soou baixinho, mas incentivador.
Naruto suspirou outra vez. Fechou os olhos por um momento, procurando uma melhor forma de responder.
— Não é tão fácil — a voz saiu sem vontade. — O otou-san sabia sobre minha mãe e sobre você e... ele não me contou nada... Eu sempre confiei nele como em mais ninguém. É complicado saber que ele me omitia coisas importantes assim sobre mim.
Naruto embicou os lábios levemente, de uma forma que o fez ainda mais bonito aos olhos da jovem mulher.
Hinata acenou com a cabeça, ao compreendê-lo. Porém, sorriu fracamente.
— Entendo o que quer dizer, mas talvez ele só tenha tido receio. Minato-san não me parece ser uma pessoa que se propõe a magoar alguém... — disse ela e admitiu num tom confidente — Quando eu cheguei aqui, ele me reconheceu de cara. A princípio, eu pensei que ele acabaria me afastando de você, mas ele foi completamente diferente do que eu esperava e me deu liberdade para me aproximar. Disse que confiava no filho e nas suas escolhas, que não importaria o que eu fizesse ou dissesse, você teria o direito de decidir. Minato-san... Minato-san pensou em você, mais do que nele mesmo. Ainda agora, sei que ele se culpa por isso. Acho que apenas queria evitar te machucar, embora agora as coisas tenham chegado nessa situação.
Naruto murmurou em entendimento às palavras dela. Ele apreciava a boa vontade de Hinata. Um sorriso fraco surgiu em seus lábios também.
— Não precisa me dizer isso, Hinata. Eu o conheço bem o bastante para isso. Não é como se eu estivesse o odiando agora. Eu só estou chateado. Não quero acreditar que alguém que eu confio tanto escondeu algo de mim, mas... sei que não foi por mal. O tou-san só fez o que achou melhor. Talvez ele apenas não soubesse o que dizer... mas isso não significa que eu concordo ou que isso torne tudo mais fácil de aceitar.
— Hm, eu só...
— Hinata, não se preocupe com isso. Você... a culpa não é realmente sua. É que não consigo aceitar isso tudo ainda — ele explicou e coçou a cabeça com constrangimento. — Talvez eu esteja sendo infantil, mas eu não posso evitar agir assim. Por mais que eu esteja tentando, é estranho tentar imaginar o que levou tudo a chegar a essa situação atual. Não consigo entender o que teria feito isso tudo acontecer. Não entendo o que fez as coisas chegarem a esse ponto e isso me deixa chateado.
Hinata negou com um balançar leve de cabeça, ela sorriu pequeno.
— Não está sendo infantil, Naruto-kun. Acho que qualquer um na sua situação agiria dessa forma ou pior. Acho que está sendo bastante compreensivo até — disse, e depois acrescentou num murmúrio — Eu... eu... fico feliz que tenha acreditado em mim e que não tenha me afastado de verdade. Você se tornou uma pessoa importante para mim, mais até do que eu imaginava... Quando pensei que você poderia me odiar, eu me senti... eu senti, senti que estava muito triste por isso. Eu achei que todos poderiam me achar uma pessoa ruim por isso, mas quando pensei que você poderia olhar para mim com decepção ou ódio, eu realmente achei que poderia até mesmo chorar de tristeza por algo que ainda nem estava acontecendo... Então, eu posso dizer que estou realmente feliz por ter acreditado em mim e, talvez, por isso, eu queira que você converse com o Minato-san.
“Não quero que algo que eu fiz faça vocês se desentenderem, porque sei o quanto vocês se importam um com o outro. Vocês são uma família, possuem fortes vínculos. Posso ver o quanto Naruto-kun, Minato-san e Konohamaru-kun são felizes juntos. Pensar que algo que eu fiz pode estragar isso, faz eu me sentir horrível.”
— Hinata... — balbuciou Naruto, sem saber ao certo o que dizer.
Estupefato, não conseguiria responder às palavras dela. Hinata lhe fez revirar internamente num sentimento bom, mas levemente amargo também.
Ele refletiu por um instante, considerando a situação. Era-lhe tão estranho ter que tomar tantas decisões assim, tão importantes e tão rápido. Precisava priorizar determinadas coisas, embora quisesse outras.
O jovem Namikaze Naruto estava acostumado com sua vida tranquila e comum, tendo apenas que pensar em coisas comuns — algo que muitas vezes já lhe deixava ansioso e incerto. Definindo somente o seu dia a dia, traçando planos simples, aspirando um bom futuro, mas comum. Normal.
Naruto respirou fundo. Adiando ou não ele teria que fazer alguma coisa. Protelar aquilo apenas faria a situação incômoda se estender por mais tempo.
Passou uma das mãos pelos cabelos loiros, bagunçando-os. Estava meio perdido.
— Naruto-kun? — Hinata ergueu as sobrancelhas, um tanto intrigada e preocupada, levemente curiosa.
Ele deslizou o shōji do dojô e foi acompanhado pela Hyūga. Assim que ela passou, ele fechou a porta. Diferentemente daquela manhã, o calor já se apossava do ar em volta da propriedade. O piso da pequena engawa já não estava mais frio.
— Vou falar com ele — respondeu em um murmurejar. Pôs as duas mãos na lombar e esticou as costas, expondo certa exaustão com esse gesto. — Acho que envelheci um bocado nos últimos três dias — ele tentou gracejar.
Hinata encolheu os ombros.
— Gomen ne.
Ele riu com o pedido constrangido dela e negou com a cabeça.
— Não se desculpe. Depois de tudo — referiu-se a toda a situação —, eu teria que fazer isso alguma hora. Acho que é melhor agora do que ficar adiando.
Ele disse isso, mas se manteve ali ainda um pouco de tempo.
Uma fraca brisa soprou, farfalhando as folhas próximas e assoprando-lhes os fios de cabelos, claros e escuros. O olhos de Naruto capturaram a atenção de Hinata.
O som de uma cigarra finalmente se fez percebido ao longe.
Houve um silêncio estranho naquele momento entre os dois.
Hinata franziu o cenho, Naruto constrangeu-se.
— Estou tentando reunir coragem — ele resmungou em um meio riso, envergonhado, suspirando em seguida — Ahh!
Hinata riu, pondo a mão sobre os lábios. A expressão dela atenuou e ela se aproximou. A Hyūga colocou a mão em um dos ombros dele e o encorajou com um gesto afirmativo.
Naruto a agradeceu com um sorriso, colocando a mão sobre a dela em seu ombro. O olhar de Naruto se prendeu no de Hinata por um instante.
O contato era simples, mas íntimo e afetuoso.
A atmosfera tornou-se tranquila outra vez.
— Arigatô.
Ela o acompanhou até o final da engawa e viu o pequeno canteiro de flores que Naruto a havia apresentado antes. O pergolado estava agora sem as telas de pano e os crisântemos recolhidos devido ao calor.
Hinata lembrou-se do quanto se surpreendeu por ele cultivar justamente aquelas dentre tantas flores. Ela havia questionado isso a Naruto, que apenas disse ter herdado do pai o fascínio pela planta.
— Acho que agora eu entendo — comentou ele, como se ouvisse os pensamentos da jovem.
— Hai...
— Você...?
— Hm! Eu vou esperar aqui. Se você quiser, é claro!
Ele anuiu.
Hinata parou, deixando-o seguir em frente e acompanhou com o olhar enquanto Naruto se distanciava. Ele seguiu pelo caminho de trás da propriedade, o que dava na entrada da cozinha de casa.
Ela voltou alguns passos e se assentou ali atrás, de frente para o jardim dos fundos. Fechou os olhos e suspirou, torcendo para que a conversa entre pai e filho corresse bem.
Do portão, Konohamaru, que acabava de chegar, viu quando Hinata voltava rodeando o dojô e Naruto seguia em direção à casa.
Por avistá-los, o rapaz estancou e baixou o olhar com o cenho franzido, desconfiado e passando a raciocinar.
Estranhando a presença de Hinata, ele caminhou em silêncio em direção à casa, tomando cuidado para não chamar a atenção dela. Evitando-a, esgueirou-se em passos leves até a construção principal.
Com a mão no shōji, e prestes a abri-lo, parou antes que pudesse entrar, ao ouvir as vozes do irmão e do pai vindo do outro lado.
— Acho que você já sabe, mas... Hinata e eu conversamos agora — aquela era voz de Naruto. Konohamaru sabia que o diálogo ainda estava se iniciando. E notou que o tom não era afável, mas... estranho, distante. — Eu decidi que vou para Tóquio com ela.
O garoto arregalou os olhos e recuou as mãos, retrocedendo um passo e engolindo uma exclamação de surpresa ao aspirar o ar com força.
— Entendo... — a voz de Minato soou clara, apesar de mais baixa que a de Naruto.
— Nós devemos ir ainda nessa semana — Naruto completou. O tom dele fez parecer que as palavras estavam escorregando de sua boca, despencando sem que ele conseguisse conter.
Houve um silêncio muito breve, até que Konohamaru voltasse a ouvir a voz do pai outra vez.
— Há algo mais que queira me dizer agora?
A resposta levou alguns instantes para chegar. Seu nii-san parecia estar escolhendo uma melhor forma de dizer algo. A conversa parecia complicada e sufocante. E, mesmo que não os estivesse vendo, sentia a dificuldade da conversa lhe tocar pesar sobre si.
Com isso, o menino recuou mais um passo e mais outro. Seus olhos, que estavam até então arregalados, agora se estreitaram.
O que estava acontecendo afinal?
Desde a festa de despedida de Shikamaru, quando Hinata havia chamado Naruto para conversarem, o irmão mais velho vinha agindo estranho. Primeiramente, retornou para casa sozinho e então vinha evitando falar com ele e Minato. Naruto passou o domingo inteiro sem olhar para ele ou o pai, e Konohamaru só conseguia associar aquilo à Hinata. E por isso foi incapaz de sequer se aproximar dela quando a viu mais cedo na Nara Gakuen.
Konohamaru sabia que Hinata tinha algo a ver com aquele comportamento distante de Naruto, pois foi após ambos conversarem que a evasão do irmão começou. Mas, julgando pelo modo o qual ela se despediu naquela noite, ele imaginou que seu nii-san e ela haviam entrado em conflito, não que estavam acordando algo.
O mais novo dos dois irmãos já havia notado o quanto os dois jovens adultos haviam se afeiçoado um ao outro; sobremaneira, no último mês. Naruto e Hinata estavam cada dia mais próximos e Konohamaru não achava aquilo realmente ruim. Ele gostava de Hinata e amava o irmão. Vê-los próximos o deixava um tanto enciumado, mas contente. Ela parecia ser uma pessoa boa para o seu irmão e, embora não dissesse em voz alta, ele internamente admitia que ficava feliz por isso.
Pelo menos até agora.
Por ter ouvido a conversa de adulto entre o pai e o irmão, sua cabeça começara a tecer várias linhas de raciocínio, a maioria delas não muito agradáveis, conquanto sua mente tentasse mantê-las coerentes.
Lembrou-se de Lee-san dizendo que Hinata poderia ter se declarado a Naruto e de como achou aquilo impossível naquela hora, mas talvez agora...
Hinata-san é de Tóquio... ela tem uma família lá... talvez esteja voltando para casa... mas por que o nii-san iria junto assim? Ele parecia tão chateado... Hinata-san também estava agindo estranho... e, mesmo assim, isso seria tão rápido e precipitado...
Ele tentava chegar a alguma conclusão em seus pensamentos, mas nada lhe parecia realmente convincente.
O menino tornou a olhar em direção ao dojô, as suas costas.
Hinata estava a poucos metros de distância. Ele só precisaria seguir até ali e virar à direita e então se encontraria com ela. Ele só precisaria perguntar.
Engoliu em seco.
Quando deu o primeiro passo, notou suas pernas mais pesadas que o costumeiro. Respirou fundo e largou a bolsa escolar ali no chão, quando seguiu até os fundos. Seus pés se arrastavam, todavia ele estava próximo dela.
Assim que o rapaz chegou, Hinata vislumbrou o seu perfil. Ela inclinou a face em direção a ele e arregalou os olhos.
— Hinata-san — ele resmungou.
— Konohamaru-kun? — as sobrancelhas dela se arquearam. Vendo a expressão dele, de olhos arregalados, o rosto meio pálido e a postura rígida de como quem estava assustado, ela franziu o cenho. — O que foi? Aconteceu algo?
— “Aconteceu algo?” — ele repetiu; balbuciou um sussurro e respirou pela boca. Konohamaru sabia que algo estava acontecendo, mas não entendia exatamente o que estava acontecendo. O irmão distante, o pai que não insistiu em dissipar o mau clima. Hinata ali... a fala de Naruto sobre ir para Tóquio com ela... — Isso... é isso que eu quero saber! — o tom dele aumentou. — O que aconteceu? Por que o Naruto-nii-chan está dizendo que vai para Tóquio com a Hinata-san?
Hinata entreabriu os lábios e depois fechou-os, espremeu-os numa linha fina.
Ela tentou imaginar o que teria acontecido entre o breve momento que Naruto foi até Minato e o instante que Konohamaru viera até ela. Havia sido rápido demais para que Naruto houvesse explicado a situação ao irmão mais novo. E a forma como ele parecia tentar se defender e acusá-la ao exigir satisfações implicavam em um desentendimento.
— Naruto-kun te disse isso? — mesmo que já soubesse a resposta, ela resolveu perguntar.
Ele negou com um balançar de cabeça.
— Isso realmente importa? — quis saber e pontuou, ao indagar a ela — O nii-chan está dizendo que vai embora para Tóquio com você ainda essa semana. Mas por quê? Ele... ele vai embora com você? Ele... vai embora?
Ela sentiu-se mal por ele. Seu olhar decaiu e entristeceu-se ao vê-lo murchar e desconsolar-se em seus questionamentos. Todavia, ela respirou fundo e chegou um pouco para o lado, indicando que o menino se assentasse ao lado dela.
A Hyūga sabia o quanto os dois irmãos eram próximos e unidos, embora não compartilhassem o mesmo sangue, e como poderia soar mal para o rapaz ouvir que o irmão mais velho iria ir embora com ela de uma hora para a outra.
Todavia, mesmo que o entendesse, não poderia deixar que os sentimentos do menino a afetassem agora também.
Já Konohamaru relutou um pouco, ao tentar se manter inflexível. No entanto, sua curiosidade era grande e ele estava repentinamente agitado com a ideia de seu nii-san deixar Nara para ir embora para Tóquio com Hinata-san.
Por que tudo estava tão esquisito?
De um momento para o outro, ele sentiu que estava no meio de uma situação estranha em que ele não sabia o que fazer, como se estivesse perdido e sem saber para que lado ir.
Hesitou, querendo ainda resistir, ao novamente levantar a postura exigente e impaciente, mas logo rendeu-se e se sentou ao lado dela, expirando o ar pela boca e já sentindo certo constrangimento por ter se exaltado sem saber o que estava acontecendo. Ainda assim, encontrava-se um tanto emburrado, com um pequeno bico adornando seus lábios.
Em outra situação, Hinata talvez riria daquela cena. Porém, não agora.
O menino cruzou os braços, enquanto ela enlaçou as mãos sobre o colo.
Olharam à frente, evitando o contato visual.
— Naruto-kun e eu iremos para Tóquio em alguns dias... — ela começou confirmando. Suas palavras saíam devagar, esperava que ele fosse as absorvendo aos poucos — mas ele planeja levar você também... E o Minato-san... — Tentou confortá-lo.
Konohamaru arregalou os olhos e virou-se para ela.
— Demo, se isso é verdade, então por que ele não comentou nada antes? Só disse ao otou-san agora...
Então havia sido realmente isso. Ele escutou parte da conversa de Naruto com o pai.
Hinata suspirou e voltou seus olhos para ele também.
— De certa forma, isso é minha culpa. Acabei colocando um fardo muito pesado sobre o Naruto-kun... Ele teve que decidir algo muito importante agora. Por isso eu ainda estou aqui esperando ele e o Naruto-kun não comentou nada antes... — explicou e afirmou — Mas seu irmão não deixou de pensar em você em momento algum... Eu... peço desculpas. A culpa não é dele. Se quiser culpar alguém, sou eu quem devo ser culpada.
Konohamaru não sabia o que pensar sobre aquilo, mas ainda não estava satisfeito com a resposta de Hinata-san. Somente dizer aquilo não esclarecia quase nada para ele.
— O que você disse para o nii-san? Por que ele resolveu ir com você assim de repente? E por que o Naruto-nii-chan tem evitado o otou-san e eu desde o sábado?
Hinata mordeu os lábios, diante de tantas perguntas.
Incomodou-se.
— Eu... entendo que você queira saber, mas acho que não tenho o direito de me intrometer mais e contar tudo sob a minha versão... Eu não convivi aqui antes e provavelmente não vou ser capaz de responder suas perguntas da forma que você espera — ela falou, e antes que ele pudesse contrapor, acrescentou — mas posso lhe contar a parte em que eu entro na história. Acredito que seja o justo.
O rosto de Hinata estava formigando em nervosismo.
Ele assentiu, sem nada dizer. Queria ouvir.
A jovem respirou fundo, olhando para as próprias mãos.
— Meu nome é Hyūga Hinata, daquela família Hyūga; a segunda casa na linha de sucessão ao trono do Império do Japão, após a casa reinante atual.
Konohamaru arregalou os olhos e entreabriu os lábios, assustado. No entanto, não a questionou. Ele somente anuiu, querendo que ela continuasse.
Hinata retorceu os lábios em uma careta com a aparente facilidade dele em acreditar naquela afirmação.
Ela suspirou. Ele era irmão do Naruto, afinal.
— A Imperatriz Kushina-sama e eu somos próximas... Realmente próximas como família, sem envolver a questão das casas na linha sucessória... — disse. — Ela me pediu um favor algum tempo atrás. Algo inesperado para mim e que eu não pude recusar... Esse favor incluía vir até Nara e encontrar o seu irmão.
Ela pausou e atentou-se a expressão dele, ao buscar indícios de confusão em seu rosto. E os encontrou.
Esperou que Konohamaru absorvesse o que ela disse e a questionasse.
O sobrecenho dele estava franzido e ele enrugava o nariz durante seus devaneios. Ficou apenas pensando durante um tempo. Tentou somar “1+1” e entender onde Naruto se encaixava naquela história de Hyūga, imperatriz Kushina e família imperial.
— Por que o nii-chan? ...Não podia ser outra pessoa? — ele já imaginava a resposta quando, repentinamente, voltou a indagar.
— Não... Tinha que ser o Naruto-kun.
— Por quê? — ele perguntou baixinho, desviando os olhos para o chão e os fixando lá.
— Acho que você já tem uma boa possibilidade do porquê em mente. Consegue imaginar o que levaria o Naruto-kun a aceitar ir até ela?
— Ele... Ela... — incrédulo, o menino não conseguiu completar.
— É... Kushina-sama é a mãe do Naruto-kun.
Ele riu fracamente, suspirando.
— Entendi. Ele vai pra Tóquio por isso. A mãe dele... — Konohamaru murmurou. Era difícil acreditar. Mas, considerando o que Hinata falou, era o que parecia fazer mais sentido naquele momento.
— Eu não esperava por essa reação. Pensei que ficaria, hm... chateado. — Hinata testou, buscando o olhar dele.
— Por que o otou-san nunca disse nada? — Konohamaru rebateu, ignorando o comentário.
A Hyūga voltou o olhar para o horizonte ao longe, fitando o céu azul com as finas nuvens sendo arrastadas pelo vento.
— Eu não sei. E essa é a parte difícil — disse em um lamento. — Difícil para você, difícil para mim e principalmente para o Naruto-kun, porque ele está depositando a confiança dele no escuro. Simplesmente decidiu confiar em mim. Mesmo sabendo que eu sei tanto quanto ele, ele resolveu apostar na confiança que eu tenho na Kushina-sama e arriscar tentar levar tudo adiante... Ele está sendo muito corajoso e maduro.
— Hum!
Hinata encolheu os ombros.
— E você? O que pensa sobre tudo isso? É algo estranho, não é? Inacreditável até. Naruto-kun pode vir a se tornar o próximo imperador...
— Eu não acredito! — resmungou ele, cortando-a. — Isso... Não há como eu acreditar nisso.
— Konohamaru-kun! — Murmurou Hinata, ao vê-lo se levantar com o rosto contorcido.
O rapaz negou com a cabeça.
— O Naruto-nii-chan e eu não temos mãe. O otou-san cuidou da gente todo esse tempo. — Resmungou e, quando viu que Hinata iria retrucar, elevou a voz — Que tipo de mãe só iria procurar o filho depois de tanto tempo? Se ela se importava, por que não procurou ele antes? Você veio pra Nara porque ela mandou, então ela também sabia que a gente estava aqui. Por que esse interesse depois de tanto tempo? E por que ela mesma não veio?
Hinata viu os olhos dele marejarem de raiva e dor. Ela sentiu-se pesarosa por ele, sentiu-se mal por ele. Entendia os questionamentos dele e os sentimentos que o estavam a atormentar. Queria responder a todas as perguntas dele, limpar a consciência dele e confortá-lo. Mas não podia. Realmente não podia. Não por não querer, mas porque simplesmente não sabia a resposta para as perguntas dele. Todos aqueles porquês que agora o agoniavam, já vinham a incomodando há cinco meses.
Por que Kushina não havia feito nada antes?
E, vendo-o repentinamente cair num choro cheio de constrangimento e dor, Hinata fez a única coisa que poderia fazer por ele.
Ela o abraçou.
—NH—
Minato fitava o filho mais velho.
Filho que agora estava assentado à mesa com as mãos cruzadas sob o queixo, os olhos distantes e o sobrecenho franzido.
Naruto havia entrado pela porta da cozinha quando o chamou para conversar. Ele disse que pretendia ir até Tóquio com a jovem Hyūga em breve e, resumidamente, contou o que havia discutido com ela. Falou que queria que Konohamaru fosse junto e havia intimado ele (Namikaze-san) a ir também. Minato não relutou ou rebateu a exigência. Além de considerar ser um direito de Naruto, aquele era um assunto seu também. Afinal, ele tinha tanto interesse quanto o filho em saber os motivos que levaram Kushina a agir como agiu há quase 20 anos. Não era como se ele simplesmente não pudesse criar resistência àquilo. Namikaze-san apenas queria estar lá e entender o que aconteceu, da mesma forma que o filho. Talvez mais ainda.
Minato suspirou.
— No que está pensando agora? — indagou o pai ao filho.
Naruto deixou de lado seus pensamentos, relaxando os músculos faciais, mas não desfazendo a sua posição.
— Ainda estou tentando entender tudo isso. Estou procurando lógica nessa situação — ele bufou e finalmente jogou-se contra o encosto da cadeira, passando as mãos sobre a face e apoiando o pescoço ali. — Mas acho que isso é impossível. Não tem lógica alguma nessa história.
O pai concordou com um simples aceno.
— Por que nunca me contou sobre a “Kushina-sama”? — Naruto arguiu de repente, referindo-se àquela mulher da mesma forma que Hinata fizera antes.
Namikaze-san arqueou as sobrancelhas. Por um momento, pensou que Naruto evitaria o assunto, visto que somente jogou o fato “ir para Tóquio” e logo se calou e se fechou em divagações, evitando uma conversa longa e cansativa com ele — algo que aquela pergunta suscitava. O assunto “Kushina” era cansativo e talvez demorasse algum tempo para deixar de o ser.
Mas Minato apenas fechou os olhos, como se estivesse a pensar ou lembrar-se de algo.
— Eu... acho não teria muito o que falar — enfim, disse num tom baixo. — Eu contaria quem ela era e depois?
— O que quer dizer? — Naruto resmungou, não muito satisfeito.
— Você se contentaria em ouvir eu apenas dizer que “a sua mãe é a imperatriz”? — Embora a pergunta pudesse parecer irônica, a voz de Minato demonstrava que não havia nada de sarcástico ali. Ele simplesmente estava respondendo à pergunta do filho. — E o que eu diria depois? Quando você me perguntasse “por que ela não está aqui com a gente”?
Naruto apertou os olhos com aquela pergunta. O pai aproximou sua cadeira à mesa e cruzou os braços, o olhar vagou por um momento.
— Eu realmente não teria respostas, Naruto... Sempre acreditei que conhecia a sua mãe. Eu nunca poderia imaginar que ela nos deixaria da forma que deixou... Kushina sempre foi uma pessoa impulsiva, mas acreditei que se fez algo inusitado como aquilo era porque tinha um motivo... Eu pensei que ela iria aparecer outra vez aqui e dizer o que tinha acontecido. Imaginava que entenderia os motivos dela e estaríamos bem outra vez. Como a família que éramos... — O pai pareceu reviver algo em sua mente, pois franziu as sobrancelhas e ficou um instante em um silêncio distante e nostálgico. Respirou fundo. — Mas o tempo passou e, então, eu percebi que ela não ia voltar e me dizer coisa alguma. Pouco tempo depois, sua mãe já estava ascendendo ao trono. Kushina não era mais a minha esposa, era uma pessoa inacessível e desconhecida.
“Eu tinha um filho pequeno e não saberia o que dizer sobre a mãe dele quando ele perguntasse. Se eu dissesse algo que fizesse parecer que ela era uma má pessoa, seria como uma mentira, porque todas as minhas memórias com Kushina me remetiam ao contrário. Então preferi evitar o assunto... Depois de um tempo, você pareceu não se importar mais em saber e eu admito que me acomodei... Quando o Konohamaru veio morar com a gente, você pareceu esquecer completamente sobre isso. Achei que entender que laços não são apenas formados por sangue, fez você não se importar mais em perguntar. Talvez você já não achasse que a ausência de uma mãe faria de você alguém inferior aos outros, ou que nossa família não fosse completa por ela não estar aqui. Isso de certa forma me aliviou.”
Minato calou-se por ali. Consigo, recordava-se do quanto, no passado, pensou em se dedicar para ser um pai bom o suficiente para suprir toda a falta que o filho pudesse sentir da presença materna; de como tentou ensinar tudo sobre como ser um bom homem para Naruto e de como se sentiu ao ter o pequeno Konohamaru sendo parte da família. Lembrou-se do quanto achou que não era o suficiente, de como achava que a presença de Kushina fazia tanta falta a ele e ao filho, de como se sentiu incapaz de cumprir aquele papel importante na vida do filho. Mas também pensou em como sentia orgulho de Naruto, do quanto se sentia feliz por tê-lo ensinado sobre tudo o que sabia, de como se alegrava em vê-lo crescer e enchia-se de satisfação ao ver os filhos realizarem todas as pequenas conquistas do dia a dia.
Mas, ainda que se sentisse assim, não significava que Naruto estaria se sentindo da mesma forma. Sabia disso.
— Eu ainda queria saber. Sempre confiei e te respeitei mais do que todos. Acho que toda dor que o “eu mais novo” poderia ter sentido seria melhor do que a decepção que estou sentindo agora. Porque eu estou tremendo por dentro.
— Naruto... — Minato tentou, mas o filho o interrompeu.
— Nada disso importa mais — falou. — Só acho que devia ter me contado antes. Teria sido melhor do que ouvir de outra pessoa — seu tom foi duro, baixo e decepcionado. E, após dizer isso, Naruto se levantou e andou em direção ao quarto, deixando um Minato frustrado para trás.
—//—
Konohamaru estava distraído em suas reflexões.
A presença de Hinata-san em Nara, a princípio, fora agradável. Ela era gentil, extremamente educada, inteligente e bonita. Estar perto dela era bom e lhe trazia uma sensação de ter o coração aquecido.
Lembrou-se de se sentir enciumado quando ela e Naruto se conheceram e de como os dois foram se aproximando. Recordou também que depois de algum tempo ele inconscientemente passou a considerar aquela aproximação como o certo.
Entretanto, agora tudo estava desconjuntado e fora do lugar. Bagunçado.
Seus meses de estudo ansioso pareciam quase irrelevantes agora.
Konohamaru suspirou ao ver, pelo vidro da janela, a paisagem se modificar.
Ele voltou os olhos para a sua frente, avistando o pai, o irmão e Hinata-san.
Se era permanentemente ou passageiro, ele não sabia, mas aquele era um fato.
Estavam agora dando adeus a Nara e bem-vindo a Tóquio.
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